Na semana passada, Wall Street parou por um instante para discutir não o conteúdo de um artigo, mas a maneira como ele foi escrito. Stanley Druckenmiller, um dos investidores mais respeitados dos Estados Unidos, publicou um texto de opinião no Wall Street Journal criticando a decisão do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, de intensificar a recompra de títulos públicos para pressionar os juros para baixo. O conteúdo era duro. Mas o que viralizou foi outra coisa: usuários nas redes sociais rodaram o texto em detectores de IA e concluíram que ele tinha sido, ao menos em parte, redigido com ajuda de inteligência artificial. Druckenmiller confirmou. E foi além: disse estar orgulhoso disso.
A frase que resume o episódio é dele mesmo: "Eu era aluno B em inglês, mas A+ em economia", disse ao WSJ, justificando o uso da ferramenta para dar forma a ideias que, segundo ele, já defende publicamente há mais de 15 anos. O jornal manteve a publicação, argumentando que a autoria intelectual do texto pertence a Druckenmiller e que sua credibilidade sobre o tema não está em disputa.
O debate que já não é mais hipotético
Esse episódio não é isolado. Poucas semanas antes, o Financial Times teve que anexar uma nota editorial a um artigo do economista Ricardo Hausmann, professor da Kennedy School de Harvard, informando aos leitores que o texto havia sido condensado com IA antes de chegar à redação, em violação direta ao código de conduta editorial do jornal. A repercussão foi dura: leitores classificaram o texto como "AI slop" e a controvérsia levantou uma pergunta desconfortável para veículos de todo o mundo, inclusive para nós aqui no Tecido: quando o uso de IA deixa de ser ferramenta de apoio e passa a comprometer a autoria de um texto?
É essa distinção que considero central, e é a partir dela que formo minha opinião como editor de um jornal que publica todos os dias textos de pessoas comuns, nem sempre escritoras profissionais, sobre temas que exigem precisão. A inteligência artificial, do jeito que a vejo, é uma ferramenta a mais na caixa de qualquer pessoa que escreve. Assim como o corretor ortográfico automático deixou de apenas assinalar erros e passou a sugerir reformulações inteiras de frases, a IA generativa dá um passo adiante: agiliza o processo de escrita e, principalmente, abre a porta para que quem não tem fluência técnica em redação consiga expressar ideias complexas com clareza. Isso vale para o investidor que domina economia, mas não domina prosa. E vale, na nossa realidade editorial, para o médico, o professor ou o pequeno empreendedor que tem uma boa análise para compartilhar, mas trava na hora de organizar o texto.
Onde a ferramenta ajuda e onde ela engana
O problema não é o uso da IA em si. É a falta de transparência sobre esse uso, e principalmente a ausência de curadoria humana sobre o resultado. No caso de Hausmann, o próprio Financial Times já havia publicado princípios próprios sobre o tema, afirmando que a IA poderia auxiliar jornalistas, mas jamais substituir a autoria e a responsabilidade editorial. A regra foi descumprida, e o texto chegou ao leitor com uma voz que não soava como a de um professor de Harvard, e sim como a de um modelo de linguagem tentando parecer acadêmico.
Nem todo mundo concorre com a visão de que basta revisar o resultado. Editores como Paul Gigot, do WSJ, defendem que a relação de confiança entre veículo e colunista de longa data resolve a questão de autenticidade, mesmo sem detalhar o processo. Já críticos, incluindo acadêmicos como Michael Socolow, da Universidade do Maine, argumentam que a facilidade de detecção de "voz de IA" em textos publicados por figuras de prestígio mina a confiança do público em toda a categoria de opinião assinada, independentemente de quem usou a ferramenta com responsabilidade e quem não usou.
Plataformas também estão reagindo. O LinkedIn passou a permitir que usuários marquem publicações com o rótulo "parece AI slop", numa tentativa de conter o volume de textos genéricos e sem voz própria que passaram a dominar o feed da rede, hoje estimado por levantamentos internos em torno de metade das publicações longas. É um movimento que reconhece, na prática, que o problema nunca foi a existência da ferramenta, mas o uso irresponsável dela: gerar conteúdo em massa sem edição, sem verificação e sem uma pessoa disposta a assinar embaixo de cada frase.
O futuro é curadoria
É por isso que, ao pensar no papel da IA na produção de texto, chego sempre à mesma conclusão: o valor não está mais em quem consegue escrever mais rápido, e sim em quem consegue garantir que cada palavra publicada representa o que essa pessoa realmente pensa, com fontes confiáveis por trás. A IA acelera o processo de pesquisa e de redação. Ela não substitui o julgamento sobre o que é relevante, o que é verdadeiro e o que merece ser publicado com o próprio nome embaixo.
No Tecido, lidamos com esse dilema todos os dias, porque publicamos textos de pessoas que não são jornalistas de formação, mas que têm algo relevante a dizer sobre economia, saúde, tecnologia ou direito. A IA, usada com responsabilidade, é o que permite que essas vozes cheguem ao leitor com clareza, sem que isso signifique terceirizar o pensamento. A curadoria, no fim, é o trabalho de garantir que 100% do que está escrito corresponde ao que o autor diria, defenderia e assinaria, mesmo sem qualquer ferramenta por perto.