Oaçúcar que o Brasil produz vai para todo o mundo. Em 2024, o país exportou mais de 38 milhões de toneladas — um recorde histórico. Somos os maiores fornecedores do planeta do produto que boa parte do mundo continua comprando em quantidades crescentes. Há nesse dado uma ironia que merece atenção: ao mesmo tempo em que colhemos e refinamos açúcar para exportar, consumimos internamente muito mais do que seria saudável. Segundo o Ministério da Saúde, o brasileiro ingere em média 80 gramas de açúcar por dia — quase 60% acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. E o preço dessa equação se paga em silêncio, órgão por órgão.

O açúcar em si não é o vilão da história. As formas naturais presentes em frutas, legumes e grãos integrais abastecem nosso organismo com energia essencial há milênios. O problema é outro: a quantidade e a forma. Quando o açúcar é extraído, concentrado e adicionado industrialmente a alimentos — dos refrigerantes aos molhos de tomate, dos pães de forma aos iogurtes “naturais” — o corpo recebe uma dose que seus sistemas não foram calibrados para absorver. O que se segue é uma cascata biológica que percorre, literalmente, o organismo do começo ao fim.

"Não é o amendoim de festa que nos ameaça. É o açúcar escondido nos 73% de produtos ultraprocessados que compõem, pouco a pouco, o cardápio cotidiano do brasileiro."

A boca: onde tudo começa — e onde já se paga o primeiro preço

O dano começa antes mesmo de qualquer digestão. Quando o açúcar entra em contato com determinadas bactérias presentes na boca, elas o metabolizam e produzem ácidos que atacam o esmalte dentário. A saliva neutraliza parte desse ataque, mas não consegue compensar quando o consumo é contínuo — aquele hábito de tomar refrigerante ao longo do dia, beliscar biscoitos entre as refeições ou adoçar o terceiro cafezinho.

Com o tempo, a dieta rica em açúcar altera o próprio ecossistema bucal: aumenta a proporção de bactérias acidogênicas e reduz a presença das cepas protetoras. O resultado é um microbioma oral cronicamente desequilibrado, com maior predisposição a cáries e inflamações gengivais. Para muitas famílias de baixa renda no Brasil — que têm acesso limitado a serviços odontológicos, mas acesso fácil a refrigerantes e biscoitos industriais —, essa é uma desigualdade que se inscreve, literalmente, nos dentes.

Percurso pelo corpo

O intestino: quando a frutose não cabe

Na chegada ao intestino delgado, os açúcares são decompostos em formas simples — principalmente glicose e frutose. A glicose é absorvida com eficiência; já a frutose, presente em grandes quantidades nos sucos industriais, xaropes e adoçantes como o xarope de milho de alta frutose, conta com uma via de absorção mais lenta e saturável.

Quando o organismo não consegue absorver toda a frutose ingerida, o excedente segue para o intestino grosso, onde bactérias a fermentam. Esse processo produz gases, provoca distensão abdominal e pode desencadear os sintomas típicos da síndrome do intestino irritável — uma condição que afeta estimadamente 10 a 15% da população brasileira adulta, segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia. A associação entre dieta ultraprocessada e queixas gastrointestinais crônicas está cada vez mais consolidada na literatura científica, e o brasileiro que toma um copo de suco de caixinha no café e uma lata de refrigerante no almoço pode, sem saber, estar alimentando essa inflamação silenciosa.

O pâncreas: a crise silenciosa que produz 20 milhões de diagnósticos

Cada vez que o nível de glicose no sangue sobe, o pâncreas libera insulina — o hormônio responsável por “abrir a porta” das células para que a glicose entre e seja utilizada como energia. É um mecanismo de precisão extraordinária. O problema começa quando essa resposta precisa ser acionada repetidamente, com intensidade crescente.

Anos de picos glicêmicos frequentes — provocados por refeições e bebidas com alto teor de açúcar — deixam as células progressivamente menos sensíveis à insulina. O pâncreas, então, força a produção de quantidades cada vez maiores do hormônio para obter o mesmo efeito. Em algum ponto, o órgão não consegue mais acompanhar a demanda. É assim que o diabetes tipo 2 se instala.

O Brasil e o diabetes: uma epidemia documentada

Entre 2006 e 2024, a prevalência de diabetes entre adultos brasileiros saltou de 5,5% para 12,9%, segundo o VIGITEL (Ministério da Saúde) — um crescimento de 135% em menos de duas décadas. Hoje, aproximadamente 19,9 milhões de adultos convivem com a doença no país. O Brasil ocupa a 6ª posição no ranking mundial de casos absolutos, segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF). Entre maiores de 65 anos, a prevalência nas capitais atinge 30,4%.

O que torna esse dado especialmente grave é o perfil silencioso da doença em seus estágios iniciais. A resistência à insulina pode se desenvolver por anos sem sintomas perceptíveis — enquanto o organismo tenta, de forma cada vez mais árdua, compensar o desequilíbrio. Quando o diagnóstico chega, frequentemente já há comprometimento em outros sistemas.

O cérebro: dopamina, queda glicêmica e o ciclo que se retroalimenta

O açúcar não age apenas no metabolismo — age diretamente na arquitetura da recompensa cerebral. O sabor doce na língua, a absorção intestinal da glicose e até o aroma de um bolo assando provocam a liberação de dopamina no cérebro — o neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Do ponto de vista evolutivo, faz sentido: o doce sinalizava alimento calórico seguro. O problema é que esse sinal, originalmente adaptativo, é agora ativado em escalas industriais.

Estudos em neurociência do comportamento alimentar sugerem que exposições frequentes e intensas ao açúcar podem alterar a sensibilidade do sistema dopaminérgico, aumentando o limiar de satisfação e, consequentemente, a necessidade de doses maiores para obter o mesmo efeito de recompensa. Não por acaso, reduzir o açúcar é difícil: o organismo literalmente se recalibra em torno dele.

Há ainda o efeito do pico e da queda glicêmica. Quando se ingere grande quantidade de açúcar de absorção rápida — uma lata de refrigerante, uma sobremesa processada —, o nível de glicose sobe abruptamente e o pâncreas responde com uma liberação intensa de insulina. Essa resposta pode ser desproporcional, derrubando a glicemia abaixo do ponto de equilíbrio. O resultado, uma ou duas horas depois: cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e — quase inevitavelmente — vontade de comer algo doce novamente. É o ciclo que se retroalimenta.

"A vontade de açúcar não é fraqueza de vontade. É, em parte, uma resposta fisiológica a um sistema de recompensa que foi recalibrado pela exposição contínua."

O fígado: a gordura que ninguém vê

De todos os órgãos afetados pelo excesso de açúcar, talvez o fígado seja o mais silencioso — e por isso, o mais perigoso. Enquanto a glicose pode ser utilizada por praticamente todas as células do corpo, a frutose é metabolizada quase exclusivamente no fígado. Quando esse açúcar chega em excesso — como acontece com quem consome regularmente refrigerantes, sucos de caixinha e alimentos ultraprocessados —, o fígado converte o excedente em gordura.

Essa gordura se acumula nas células hepáticas, configurando o que a medicina hoje chama de MASLD (doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica), anteriormente conhecida como esteatose hepática não alcoólica. A condição é assintomática em seus estágios iniciais — a maioria das pessoas não sabe que a tem. Com o tempo, pode progredir para inflamação crônica, fibrose e cirrose.

MASLD no Brasil: 1 em cada 3 adultos

Dados de grandes coortes nacionais, como o ELSA-Brasil, apontam prevalências de 30 a 35% de esteatose hepática em adultos brasileiros — o equivalente a cerca de 50 milhões de pessoas. Entre indivíduos com obesidade, a prevalência pode chegar a 70%; entre diabéticos tipo 2, ultrapassa 60%. Em crianças e adolescentes, já varia entre 7% e 14%. Na América Latina como um todo, a taxa atinge 44,4% da população, segundo dados de 2023.

O coração: a gordura que circula

A gordura produzida pelo fígado a partir do excesso de frutose não fica apenas no órgão. Parte dela é liberada na corrente sanguínea sob a forma de triglicerídeos, elevando seus níveis plasmáticos. Em paralelo, o excesso de açúcar tende a aumentar o LDL — o chamado colesterol “ruim” —, particularmente em sua forma mais aterogênica, de partículas pequenas e densas, que penetram com mais facilidade nas paredes arteriais. A hipertensão arterial também tem associação documentada com o consumo excessivo de açúcares.

O resultado dessa combinação — triglicerídeos elevados, LDL aumentado, pressão arterial em alta e excesso de peso — é um terreno fértil para doenças cardiovasculares. No Brasil, as doenças do aparelho circulatório respondem por mais de 27% das mortes registradas, segundo o DATASUS, e os fatores metabólicos associados ao consumo excessivo de ultraprocessados estão entre os principais determinantes modificáveis desse risco.

As articulações: quando o açúcar inflama

Um efeito menos conhecido, mas clinicamente relevante, é a relação entre o consumo de frutose e a gota — uma forma de artrite que causa inflamação aguda e intensa nas articulações, especialmente nos dedos dos pés, tornozelos e joelhos. Quando o fígado metaboliza a frutose, produz ácido úrico como subproduto. Em excesso, o ácido úrico pode cristalizar-se nas articulações, provocando crises de dor aguda.

A gota, historicamente associada ao consumo de carne vermelha e álcool, tem aumentado significativamente em populações com dietas ricas em bebidas açucaradas. Um estudo publicado no British Medical Journal mostrou que o consumo diário de duas ou mais porções de bebidas adoçadas com açúcar aumenta em mais de 85% o risco de gota em mulheres. No Brasil, a hiperuricemia — nível elevado de ácido úrico — é uma comorbidade cada vez mais frequente associada à síndrome metabólica, um conjunto de fatores de risco que inclui obesidade abdominal, hipertrigliceridemia e hipertensão.

Quanto é demais?

Quanto açúcar é açúcar demais — e o que os números dizem sobre o Brasil

A OMS recomenda que os açúcares livres — açúcares adicionados e os presentes naturalmente em mel, xaropes e sucos de frutas — correspondam a menos de 10% da ingestão calórica diária, o que equivale a cerca de 50 gramas para uma dieta de 2.000 calorias. Para benefícios adicionais à saúde, a organização sugere reduzir esse limite a 5% — ou cerca de 25 gramas por dia.

O brasileiro médio consome 80 gramas diárias, segundo o Ministério da Saúde — mais de três vezes o limite mais restritivo da OMS. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017–2018) do IBGE revelou que 85,4% da população adiciona açúcar a café, sucos e outras preparações. Entre adolescentes, os alimentos ultraprocessados respondem por 26,7% das calorias diárias totais.

É importante, no entanto, não confundir causa e efeito de forma simplista. O problema não está em uma taça de sorvete no domingo ou em um pedaço de bolo de aniversário. Está na acumulação cotidiana e invisível — no açúcar que vem escondido no ketchup, no pão de forma, no iogurte de morango, no achocolatado da merenda. A ANVISA passou a exigir, a partir de outubro de 2022, a rotulagem nutricional frontal de alimentos com alto tempo de açúcar adicionado, gordura saturada e sódio — uma medida que representa avanço real na capacidade do consumidor de fazer escolhas informadas.

Um país que adoça o mundo — e que precisa se cuidar

O Brasil exporta açúcar com maestria industrial. Mas os dados de saúde pública mostram que parte desse açúcar retorna — concentrado, industrializado e embutido em produtos que chegam à mesa do brasileiro por todos os lados. A epidemia de diabetes, o avanço da esteatose hepática e o crescimento das doenças cardiovasculares não são fatalidades genéticas. São, em grande medida, consequências de um ambiente alimentar que precisa mudar — e de políticas públicas que precisam avançar além dos rótulos.

A leitura do que o açúcar faz com o corpo não é um convite ao pânico nem à proibição. É um convite à consciência. O mesmo que qualquer cidadão deveria ter acesso para tomar decisões informadas sobre o que coloca no prato — e o que o país coloca no mercado.