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Em julho de 2023, o prefeito de Denver, Mike Johnston, decretou emergência para a situação de rua e assumiu um compromisso que poucos administradores municipais americanos se arriscam a fazer: acabar, dentro de um único mandato, com a experiência de dormir ao relento na capital do Colorado4. Três anos depois, a cidade exibe a queda mais acentuada de pessoas vivendo nas ruas entre as grandes metrópoles dos Estados Unidos. O caso é o eixo de uma coluna de German Lopez no New York Times, cuja tese é direta: a solução é conhecida, e o que falta às demais cidades é decisão política1.
A pergunta que interessa ao leitor brasileiro é diferente. O que, no modelo de Denver, é de fato transferível para um país com mais de 365 mil pessoas registradas em situação de rua, um arcabouço jurídico que proíbe remoções compulsórias e um orçamento habitacional que mal aparece nos planos federais para essa população?
O que os números de Denver mostram
A medida usada nos Estados Unidos é a contagem pontual (point-in-time count), realizada numa única noite de janeiro com metodologia estável de um ano para outro. Em Denver, o número de pessoas sem abrigo passou de 1.423 em 2023 para 785 em 2025, segundo a avaliação independente do Urban Institute2. A contagem de 2026 registrou 518 pessoas nas ruas, uma queda de 34% em relação ao ano anterior, e o total de pessoas em situação de rua na cidade, incluindo as abrigadas, caiu 12,5%, para 6.411, a primeira redução anual em nove anos, conforme reportagem do Denver Gazette publicada pela Colorado Politics3.
Somadas, as três contagens indicam uma redução de cerca de 64% desde 2023, cifra que coincide com a apresentada por Lopez. Pela análise do colunista, a queda de Denver em 2025, ano mais recente das estatísticas federais, foi aproximadamente 13 vezes superior à média nacional1. O Urban Institute também mediu, a partir de chamados ao serviço municipal 311, uma redução superior a 90% nos acampamentos de grande porte2.
Como funciona o modelo: abordagem, vaga e porta de saída
O programa que sucedeu o plano emergencial, batizado de All In Mile High, se apoia em quatro pilares descritos pelo Urban Institute: desmobilização de acampamentos por território, transferência para abrigos não coletivos com serviços no local, conexão com moradia permanente e oferta de aluguel subsidiado de curto prazo ou moradia com apoio continuado2. A prefeitura informa ter levado mais de 2.500 pessoas para dentro em 2024 e fechado mais de 350 quarteirões para acampamento4.
O traço que Lopez considera decisivo é a combinação de dois elementos que o debate americano costuma tratar como opostos. De um lado, a polícia desfaz acampamentos e aplica uma escala de advertências que pode terminar em multa ou prisão. De outro, assistentes sociais acompanham as abordagens e, sobretudo, existem vagas para onde encaminhar as pessoas. O colunista relata ter acompanhado uma ronda matinal em que um casal vindo do Texas, sem recursos para voltar, saiu da abordagem com uma passagem de ônibus obtida pelo próprio policial1.
A qualidade da vaga é a outra metade do argumento. Denver substituiu dormitórios coletivos por unidades individuais: uma vila de casas compactas no centro e um hotel comprado pela prefeitura e convertido em moradia temporária. Segundo o relato do Times, os prestadores contratados não impõem prazo rígido de permanência, mas são avaliados pelo número de pessoas que conseguem encaminhar para emprego e moradia permanente, e o prefeito afirma que nenhuma oferta de vaga nesses novos equipamentos foi recusada1. Johnston resumiu ao colunista sua visão com uma frase que dá o tom da gestão: "todos os nossos problemas têm solução, e somos nós que vamos resolvê-los"1.
Um terceiro elemento recebe menos atenção, mas é apontado pelo Urban Institute como central: o monitoramento de dados em tempo real, com coordenação entre as áreas de habitação, saúde, segurança e polícia, o que permite voltar a um local assim que surgem relatos de reocupação2.
A diferença de Denver não está na licença para remover barracas, que qualquer cidade americana tem desde 2024. Está em ter uma porta melhor para oferecer no momento da abordagem.Análise O Tecido
A lição que o Times extrai, e o que fica de fora
Lopez conclui que as cidades não precisam escolher entre fiscalização e serviços, e que o fator menos replicável é a liderança, a determinação de quem governa. Ele também lê o tema pela chave partidária: a dificuldade dos democratas em lidar com a desordem urbana seria um dos motivos de sua impopularidade1.
Há um contexto jurídico que ajuda a calibrar essa leitura. Em junho de 2024, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por seis votos a três, no caso Grants Pass, que cidades podem aplicar proibições de acampamento em espaço público sem violar a Constituição, mesmo quando não há vagas de abrigo disponíveis, como registrou a emissora pública OPB7. Ou seja, o instrumento de pressão está ao alcance de qualquer prefeitura americana. O que distingue Denver é a decisão de condicionar a remoção a uma oferta concreta.
Os próprios dados também têm limites. A redução é forte na rua, mas o problema não desapareceu: a contagem de 2025 mostrou aumento da situação de rua entre famílias e jovens3. O Urban Institute alerta que abrigos não coletivos têm custos elevados de instalação e manutenção, que precisam entrar no planejamento2. Boa parte do investimento inicial veio de recursos federais temporários que já expiraram, e o governo Trump tem reduzido subsídios habitacionais, como observa o próprio Lopez1. Por fim, a etapa seguinte é reconhecidamente mais difícil, porque quem permanece na rua tende a enfrentar transtornos mentais e dependência química em proporção maior.
Contraponto
Menos gente visível não é o mesmo que menos gente na rua
Organizações de defesa da população de rua em Denver contestam a leitura otimista. Ana Miller, da Housekeys Action Network Denver, argumentou à Rocky Mountain PBS que a intensificação policial dispersa as pessoas e dificulta a própria contagem, o que produziria um número artificialmente baixo6. Ao Times, ela também criticou as regras de inspeção de quartos no hotel municipal e relatou resistência de vizinhos às vilas de casas compactas1.
A crítica também vem do outro lado do espectro. Uma auditoria municipal citada em editorial do Denver Gazette encontrou gastos de cerca de US$ 178,1 milhões entre julho de 2023 e junho de 2025, acima dos US$ 158 milhões informados pela prefeitura à Câmara, e apontou que o painel oficial conta moradia temporária como permanente5. A pergunta sobre custo por pessoa atendida, e sobre quanto tempo os resultados se sustentam sem dinheiro extraordinário, segue em aberto.
O espelho brasileiro: escala, lei e orçamento
O primeiro obstáculo à comparação é de medida. O Brasil não tem contagem noturna nacional; a principal série vem dos registros no Cadastro Único. Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da UFMG, o país chegou a 365.822 pessoas cadastradas em 2025, alta de 11,55% em relação ao ano anterior, com cerca de 150,9 mil no estado de São Paulo, conforme dados divulgados pela Agência Brasil e reproduzidos pela Alma Preta8. Só a capital paulista somava 93.355 registros em janeiro de 2025, segundo o Metrópoles9.
Cadastro e contagem medem coisas diferentes, e o número brasileiro inclui pessoas acolhidas. Mesmo assim, a ordem de grandeza deixa claro que São Paulo lida com uma população dezenas de vezes maior que a de Denver. E a ausência de uma medição anual padronizada, auditada por instituição independente, é por si só uma diferença relevante: Denver sabe se está avançando porque mede do mesmo jeito todo ano.
O segundo obstáculo é jurídico. Em julho de 2023, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, concedeu liminar na ADPF 976, ação movida por Rede, PSOL e MTST, e o plenário a referendou por unanimidade em agosto. A decisão obriga estados e municípios a seguir a Política Nacional para a População em Situação de Rua e proíbe o recolhimento forçado de bens, a remoção e o transporte compulsórios de pessoas e o uso de arquitetura hostil, conforme registrou o Ministério Público de Minas Gerais10. O Ministério Público Federal segue acionando prefeituras que descumprem a decisão, como fez em Maceió em maio deste ano14. Na prática, a escala de advertências que termina em prisão, peça central em Denver, não tem equivalente legal por aqui. A política brasileira precisa convencer pela qualidade da oferta.
O terceiro obstáculo é orçamentário, e talvez o mais revelador. O Plano Ruas Visíveis, lançado pelo governo federal em dezembro de 2023 em resposta à determinação do STF, previu investimento inicial de R$ 982 milhões, 11 ministérios e 99 ações. Do total, R$ 575,7 milhões foram para assistência social e segurança alimentar e R$ 304,1 milhões para saúde; o eixo de habitação recebeu R$ 3,7 milhões, segundo a CartaCapital11. Em Denver, o centro do gasto é justamente a unidade habitacional.
A experiência brasileira mais próxima do modelo de Denver está na capital paulista. O Programa Reencontro, criado em dezembro de 2022 e inspirado no conceito de Moradia Primeiro, instalou vilas de casas modulares de 18 m² com permanência de 12 a 24 meses, priorizando famílias. Na inauguração da sétima vila, a rede chegou a 1.960 vagas13, e em outubro de 2025 a prefeitura contabilizava 823 saídas qualificadas12. O desenho conversa com o de Denver; a escala, diante de mais de 93 mil registros na cidade, ainda não.
O que de fato pode ser transferido
Lida com atenção, a experiência de Denver oferece menos um pacote pronto e mais um conjunto de princípios de gestão que independem do aparato policial:
- Oferta antes da cobrança. A abordagem só funciona quando há uma vaga melhor que a calçada. Quartos individuais, com privacidade e segurança, reduzem a recusa.
- Medição estável e avaliação externa. Contagem anual com o mesmo método e acompanhamento por instituição independente permitem saber o que funciona.
- Contratos orientados a saídas. Prestadores remunerados e avaliados pela quantidade de pessoas encaminhadas a trabalho e moradia, e não por pernoites.
- Coordenação em tempo real. Assistência, saúde, zeladoria e segurança operando sobre a mesma base de dados e o mesmo mapa.
- Financiamento recorrente. Resultados obtidos com dinheiro emergencial precisam de orçamento contínuo para não se desfazerem.
Lopez atribui o êxito à força de vontade do prefeito. É uma explicação plausível, mas incompleta para o caso brasileiro. Num ano de eleições gerais, o risco de uma política desenhada em torno de uma liderança é justamente não sobreviver à troca de mandato. Se há algo que Denver demonstra, é que a questão deixa de ser insolúvel quando a oferta habitacional, a medição e o financiamento passam a ser tratados como infraestrutura pública, e não como resposta episódica a uma crise visível.
Perguntas frequentes
O que Denver fez para reduzir a população em situação de rua?
A cidade combinou desmobilização de acampamentos com oferta imediata de vagas individuais em abrigos não coletivos, como vilas de casas compactas e um hotel convertido, além de encaminhamento para moradia permanente, contratos avaliados por resultados e coordenação de dados entre secretarias. O programa se chama All In Mile High.
Quanto caiu o número de pessoas dormindo na rua em Denver?
As contagens pontuais de janeiro registraram 1.423 pessoas em 2023, 785 em 2025 e 518 em 2026, uma redução de cerca de 64% no período. O total de pessoas em situação de rua na cidade, incluindo as abrigadas, caiu 12,5% em 2026.
Quantas pessoas vivem em situação de rua no Brasil?
Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, eram 365.822 pessoas registradas no Cadastro Único em 2025, alta de 11,55% em um ano. O estado de São Paulo concentra cerca de 150,9 mil.
A remoção compulsória de pessoas em situação de rua é permitida no Brasil?
Não. Desde 2023, a decisão do STF na ADPF 976 proíbe estados e municípios de remover ou transportar compulsoriamente pessoas em situação de rua, de recolher à força seus pertences e de usar arquitetura hostil.
O modelo de Denver pode ser aplicado no Brasil?
Parcialmente. A escala de sanções usada em Denver não tem base legal no Brasil, mas princípios como vagas individuais de qualidade, medição anual padronizada, contratos orientados a saídas e financiamento contínuo podem ser adotados. O Programa Reencontro, em São Paulo, já segue lógica semelhante, em escala ainda reduzida.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Política