Política · Cidades · Análise

Este texto é uma análise original do O Tecido a partir da coluna de German Lopez, do conselho editorial do The New York Times, publicada em 13 de outubro de 2026. Não se trata de tradução nem de reprodução. Dados adicionais vêm de fontes independentes, numeradas ao longo do texto.

Em julho de 2023, o prefeito de Denver, Mike Johnston, decretou emergência para a situação de rua e assumiu um compromisso que poucos administradores municipais americanos se arriscam a fazer: acabar, dentro de um único mandato, com a experiência de dormir ao relento na capital do Colorado4. Três anos depois, a cidade exibe a queda mais acentuada de pessoas vivendo nas ruas entre as grandes metrópoles dos Estados Unidos. O caso é o eixo de uma coluna de German Lopez no New York Times, cuja tese é direta: a solução é conhecida, e o que falta às demais cidades é decisão política1.

A pergunta que interessa ao leitor brasileiro é diferente. O que, no modelo de Denver, é de fato transferível para um país com mais de 365 mil pessoas registradas em situação de rua, um arcabouço jurídico que proíbe remoções compulsórias e um orçamento habitacional que mal aparece nos planos federais para essa população?

O que os números de Denver mostram

A medida usada nos Estados Unidos é a contagem pontual (point-in-time count), realizada numa única noite de janeiro com metodologia estável de um ano para outro. Em Denver, o número de pessoas sem abrigo passou de 1.423 em 2023 para 785 em 2025, segundo a avaliação independente do Urban Institute2. A contagem de 2026 registrou 518 pessoas nas ruas, uma queda de 34% em relação ao ano anterior, e o total de pessoas em situação de rua na cidade, incluindo as abrigadas, caiu 12,5%, para 6.411, a primeira redução anual em nove anos, conforme reportagem do Denver Gazette publicada pela Colorado Politics3.

Somadas, as três contagens indicam uma redução de cerca de 64% desde 2023, cifra que coincide com a apresentada por Lopez. Pela análise do colunista, a queda de Denver em 2025, ano mais recente das estatísticas federais, foi aproximadamente 13 vezes superior à média nacional1. O Urban Institute também mediu, a partir de chamados ao serviço municipal 311, uma redução superior a 90% nos acampamentos de grande porte2.

Pessoas dormindo na rua em Denver, 2023 a 2026 Gráfico de barras: 1.423 pessoas em 2023, 785 em 2025 e 518 em 2026, segundo as contagens pontuais de janeiro. 0 750 1.500 1.423 785 518 jan/2023 jan/2025 jan/2026 -64% desde 2023
Pessoas sem abrigo em Denver na contagem pontual de janeiro. Fontes: Urban Institute (2023 e 2025) e Denver Gazette/Colorado Politics (2026). A contagem de 2024 não foi incluída por diferenças de método no período.

Como funciona o modelo: abordagem, vaga e porta de saída

O programa que sucedeu o plano emergencial, batizado de All In Mile High, se apoia em quatro pilares descritos pelo Urban Institute: desmobilização de acampamentos por território, transferência para abrigos não coletivos com serviços no local, conexão com moradia permanente e oferta de aluguel subsidiado de curto prazo ou moradia com apoio continuado2. A prefeitura informa ter levado mais de 2.500 pessoas para dentro em 2024 e fechado mais de 350 quarteirões para acampamento4.

O traço que Lopez considera decisivo é a combinação de dois elementos que o debate americano costuma tratar como opostos. De um lado, a polícia desfaz acampamentos e aplica uma escala de advertências que pode terminar em multa ou prisão. De outro, assistentes sociais acompanham as abordagens e, sobretudo, existem vagas para onde encaminhar as pessoas. O colunista relata ter acompanhado uma ronda matinal em que um casal vindo do Texas, sem recursos para voltar, saiu da abordagem com uma passagem de ônibus obtida pelo próprio policial1.

A qualidade da vaga é a outra metade do argumento. Denver substituiu dormitórios coletivos por unidades individuais: uma vila de casas compactas no centro e um hotel comprado pela prefeitura e convertido em moradia temporária. Segundo o relato do Times, os prestadores contratados não impõem prazo rígido de permanência, mas são avaliados pelo número de pessoas que conseguem encaminhar para emprego e moradia permanente, e o prefeito afirma que nenhuma oferta de vaga nesses novos equipamentos foi recusada1. Johnston resumiu ao colunista sua visão com uma frase que dá o tom da gestão: "todos os nossos problemas têm solução, e somos nós que vamos resolvê-los"1.

Um terceiro elemento recebe menos atenção, mas é apontado pelo Urban Institute como central: o monitoramento de dados em tempo real, com coordenação entre as áreas de habitação, saúde, segurança e polícia, o que permite voltar a um local assim que surgem relatos de reocupação2.

A diferença de Denver não está na licença para remover barracas, que qualquer cidade americana tem desde 2024. Está em ter uma porta melhor para oferecer no momento da abordagem.Análise O Tecido

A lição que o Times extrai, e o que fica de fora

Lopez conclui que as cidades não precisam escolher entre fiscalização e serviços, e que o fator menos replicável é a liderança, a determinação de quem governa. Ele também lê o tema pela chave partidária: a dificuldade dos democratas em lidar com a desordem urbana seria um dos motivos de sua impopularidade1.

Há um contexto jurídico que ajuda a calibrar essa leitura. Em junho de 2024, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por seis votos a três, no caso Grants Pass, que cidades podem aplicar proibições de acampamento em espaço público sem violar a Constituição, mesmo quando não há vagas de abrigo disponíveis, como registrou a emissora pública OPB7. Ou seja, o instrumento de pressão está ao alcance de qualquer prefeitura americana. O que distingue Denver é a decisão de condicionar a remoção a uma oferta concreta.

Os próprios dados também têm limites. A redução é forte na rua, mas o problema não desapareceu: a contagem de 2025 mostrou aumento da situação de rua entre famílias e jovens3. O Urban Institute alerta que abrigos não coletivos têm custos elevados de instalação e manutenção, que precisam entrar no planejamento2. Boa parte do investimento inicial veio de recursos federais temporários que já expiraram, e o governo Trump tem reduzido subsídios habitacionais, como observa o próprio Lopez1. Por fim, a etapa seguinte é reconhecidamente mais difícil, porque quem permanece na rua tende a enfrentar transtornos mentais e dependência química em proporção maior.

Contraponto

Menos gente visível não é o mesmo que menos gente na rua

Organizações de defesa da população de rua em Denver contestam a leitura otimista. Ana Miller, da Housekeys Action Network Denver, argumentou à Rocky Mountain PBS que a intensificação policial dispersa as pessoas e dificulta a própria contagem, o que produziria um número artificialmente baixo6. Ao Times, ela também criticou as regras de inspeção de quartos no hotel municipal e relatou resistência de vizinhos às vilas de casas compactas1.

A crítica também vem do outro lado do espectro. Uma auditoria municipal citada em editorial do Denver Gazette encontrou gastos de cerca de US$ 178,1 milhões entre julho de 2023 e junho de 2025, acima dos US$ 158 milhões informados pela prefeitura à Câmara, e apontou que o painel oficial conta moradia temporária como permanente5. A pergunta sobre custo por pessoa atendida, e sobre quanto tempo os resultados se sustentam sem dinheiro extraordinário, segue em aberto.

O espelho brasileiro: escala, lei e orçamento

O primeiro obstáculo à comparação é de medida. O Brasil não tem contagem noturna nacional; a principal série vem dos registros no Cadastro Único. Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da UFMG, o país chegou a 365.822 pessoas cadastradas em 2025, alta de 11,55% em relação ao ano anterior, com cerca de 150,9 mil no estado de São Paulo, conforme dados divulgados pela Agência Brasil e reproduzidos pela Alma Preta8. Só a capital paulista somava 93.355 registros em janeiro de 2025, segundo o Metrópoles9.

Cadastro e contagem medem coisas diferentes, e o número brasileiro inclui pessoas acolhidas. Mesmo assim, a ordem de grandeza deixa claro que São Paulo lida com uma população dezenas de vezes maior que a de Denver. E a ausência de uma medição anual padronizada, auditada por instituição independente, é por si só uma diferença relevante: Denver sabe se está avançando porque mede do mesmo jeito todo ano.

O segundo obstáculo é jurídico. Em julho de 2023, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, concedeu liminar na ADPF 976, ação movida por Rede, PSOL e MTST, e o plenário a referendou por unanimidade em agosto. A decisão obriga estados e municípios a seguir a Política Nacional para a População em Situação de Rua e proíbe o recolhimento forçado de bens, a remoção e o transporte compulsórios de pessoas e o uso de arquitetura hostil, conforme registrou o Ministério Público de Minas Gerais10. O Ministério Público Federal segue acionando prefeituras que descumprem a decisão, como fez em Maceió em maio deste ano14. Na prática, a escala de advertências que termina em prisão, peça central em Denver, não tem equivalente legal por aqui. A política brasileira precisa convencer pela qualidade da oferta.

O terceiro obstáculo é orçamentário, e talvez o mais revelador. O Plano Ruas Visíveis, lançado pelo governo federal em dezembro de 2023 em resposta à determinação do STF, previu investimento inicial de R$ 982 milhões, 11 ministérios e 99 ações. Do total, R$ 575,7 milhões foram para assistência social e segurança alimentar e R$ 304,1 milhões para saúde; o eixo de habitação recebeu R$ 3,7 milhões, segundo a CartaCapital11. Em Denver, o centro do gasto é justamente a unidade habitacional.

A experiência brasileira mais próxima do modelo de Denver está na capital paulista. O Programa Reencontro, criado em dezembro de 2022 e inspirado no conceito de Moradia Primeiro, instalou vilas de casas modulares de 18 m² com permanência de 12 a 24 meses, priorizando famílias. Na inauguração da sétima vila, a rede chegou a 1.960 vagas13, e em outubro de 2025 a prefeitura contabilizava 823 saídas qualificadas12. O desenho conversa com o de Denver; a escala, diante de mais de 93 mil registros na cidade, ainda não.

O que de fato pode ser transferido

Lida com atenção, a experiência de Denver oferece menos um pacote pronto e mais um conjunto de princípios de gestão que independem do aparato policial:

  1. Oferta antes da cobrança. A abordagem só funciona quando há uma vaga melhor que a calçada. Quartos individuais, com privacidade e segurança, reduzem a recusa.
  2. Medição estável e avaliação externa. Contagem anual com o mesmo método e acompanhamento por instituição independente permitem saber o que funciona.
  3. Contratos orientados a saídas. Prestadores remunerados e avaliados pela quantidade de pessoas encaminhadas a trabalho e moradia, e não por pernoites.
  4. Coordenação em tempo real. Assistência, saúde, zeladoria e segurança operando sobre a mesma base de dados e o mesmo mapa.
  5. Financiamento recorrente. Resultados obtidos com dinheiro emergencial precisam de orçamento contínuo para não se desfazerem.

Lopez atribui o êxito à força de vontade do prefeito. É uma explicação plausível, mas incompleta para o caso brasileiro. Num ano de eleições gerais, o risco de uma política desenhada em torno de uma liderança é justamente não sobreviver à troca de mandato. Se há algo que Denver demonstra, é que a questão deixa de ser insolúvel quando a oferta habitacional, a medição e o financiamento passam a ser tratados como infraestrutura pública, e não como resposta episódica a uma crise visível.

Perguntas frequentes

O que Denver fez para reduzir a população em situação de rua?

A cidade combinou desmobilização de acampamentos com oferta imediata de vagas individuais em abrigos não coletivos, como vilas de casas compactas e um hotel convertido, além de encaminhamento para moradia permanente, contratos avaliados por resultados e coordenação de dados entre secretarias. O programa se chama All In Mile High.

Quanto caiu o número de pessoas dormindo na rua em Denver?

As contagens pontuais de janeiro registraram 1.423 pessoas em 2023, 785 em 2025 e 518 em 2026, uma redução de cerca de 64% no período. O total de pessoas em situação de rua na cidade, incluindo as abrigadas, caiu 12,5% em 2026.

Quantas pessoas vivem em situação de rua no Brasil?

Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, eram 365.822 pessoas registradas no Cadastro Único em 2025, alta de 11,55% em um ano. O estado de São Paulo concentra cerca de 150,9 mil.

A remoção compulsória de pessoas em situação de rua é permitida no Brasil?

Não. Desde 2023, a decisão do STF na ADPF 976 proíbe estados e municípios de remover ou transportar compulsoriamente pessoas em situação de rua, de recolher à força seus pertences e de usar arquitetura hostil.

O modelo de Denver pode ser aplicado no Brasil?

Parcialmente. A escala de sanções usada em Denver não tem base legal no Brasil, mas princípios como vagas individuais de qualidade, medição anual padronizada, contratos orientados a saídas e financiamento contínuo podem ser adotados. O Programa Reencontro, em São Paulo, já segue lógica semelhante, em escala ainda reduzida.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Política