Cães que se acalmam com um som parecido ao de um spa, gatos que ignoram Mozart e baleias que perdem o apetite em meio ao tráfego marítimo têm algo em comum: todos processam som de um jeito que não é o nosso. Uma reportagem publicada nesta semana pelo jornal canadense La Presse1 reacendeu o debate sobre como ruído e música afetam animais domésticos e silvestres, com achados que também dialogam com pesquisas conduzidas no Brasil, de baías litorâneas a legislação ambiental sobre pesquisa sísmica.
A psicóloga Seana Dowling-Guyer, da escola veterinária da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, publicou em 2025 um estudo na revista Applied Animal Behaviour Science observando que cães reagem mal a heavy metal e se acalmam com ritmos lentos e volume baixo, um padrão semelhante ao de trilhas usadas em spas para humanos.1 Segundo ela, isso provavelmente se relaciona ao ritmo das ondas cerebrais caninas, mais lentas que as nossas.
A observação nasceu de uma situação bem prática: em um abrigo de cães que Dowling-Guyer ajuda a administrar, funcionários notaram que colocar heavy metal enquanto preparavam o local deixava os animais visivelmente mais agitados do que quando tocavam algo mais suave.1
Nem todos os estudos, porém, apontam exatamente na mesma direção. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Glasgow em parceria com a Scottish SPCA, que testou cinco gêneros musicais em 38 cães de abrigo, encontrou o maior efeito calmante em reggae e soft rock, não na música clássica isoladamente, embora heavy metal tenha se confirmado como o pior estímulo em praticamente todos os estudos do tipo.2 Pesquisas mais recentes chegaram a sugerir que áudiobooks, com a voz humana calma e previsível, superam qualquer gênero musical testado em cães de abrigo.3
Gatos preferem música feita para eles
Com os felinos, o quadro é ainda mais específico. Um estudo de 2015 da Universidade de Wisconsin-Madison, publicado também na Applied Animal Behaviour Science, mostrou que gatos praticamente ignoram música composta para humanos, incluindo peças clássicas, mas respondem com aproximação, relaxamento e até ronronado espontâneo a composições feitas especificamente para a espécie, com frequências e ritmos que lembram o som da amamentação e do próprio ronronar.4 A trilha usada no estudo, "Scooter Bere's Aria", do compositor David Teie, foi posteriormente testada em consultórios veterinários pela Universidade Estadual da Luisiana: gatos expostos a ela apresentaram sinais físicos de menos estresse durante exames do que os que ouviram música clássica ou nada.5
A explicação proposta pelos pesquisadores é que os centros emocionais do cérebro felino se desenvolvem logo após o nascimento, período em que os sons associados à amamentação ficam gravados como sinais de segurança, algo que uma sinfonia de Mozart, pensada para ouvidos e emoções humanas, simplesmente não replica.
🇧🇷 O que isso significa no Brasil
O país tem hoje cerca de 166,8 milhões de animais de estimação, incluindo 62,5 milhões de cães e 33,3 milhões de gatos, segundo levantamento de 2026 da Abempet (fusão da Abinpet com o Instituto Pet Brasil).6 Com um mercado pet que já ultrapassa R$ 80 bilhões e uma parcela crescente investida em bem-estar e produtos de conforto sonoro, entender a diferença entre o que acalma um humano e o que acalma um cão ou gato deixou de ser curiosidade e passou a ser informação prática para milhões de tutores.
No mar, o problema não é o gênero musical, é o volume
Para espécies marinhas, a questão sonora ganha outra dimensão, mais ligada a sobrevivência do que a preferência estética. Dowling-Guyer cita o caso de peixes que sofrem barotraumatismo, um dano interno causado pela variação de pressão de certos ruídos submarinos, efeito semelhante ao mal das câmaras hiperbáricas em mergulhadores humanos.1 Baleias, por dependerem do som para se comunicar, localizar alimento e encontrar parceiros, estão entre as mais afetadas: os níveis de ruído oceânico subiram mais de 20 decibéis desde 1950, o equivalente a cem vezes mais intensidade sonora.7
No litoral brasileiro, esse impacto já orientou decisões regulatórias concretas. O Ibama proibiu o uso de pesquisa sísmica, técnica que usa ondas sonoras para mapear o fundo do mar em busca de petróleo e gás, em pelo menos dois trechos da costa: um na Bahia, para proteger áreas de reprodução de baleias-jubarte, e outro no Rio Grande do Sul.8 Na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, um estudo da oceanógrafa Lis Bittencourt, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostrou que os golfinhos residentes precisaram alterar seus padrões de vocalização para conseguir se comunicar em meio ao ruído constante de embarcações.9
⚖️ Contraponto
Nem todo pesquisador concorda que os estudos atuais capturam o fenômeno com precisão. A musicóloga Emily Doolittle, do Conservatório Real da Escócia, criadora do campo da zoomusicologia, aponta que grande parte dessas pesquisas é conduzida por biólogos que às vezes negligenciam o nível sonoro absoluto ou tratam obras de um único compositor, como Mozart, como representativas de toda a música clássica.1 Ela defende que fatores culturais, o repertório vocal próprio de cada espécie e até o contexto do país onde o animal vive deveriam entrar na análise, algo que a maior parte dos estudos de laboratório ainda não faz.
Silêncio também é cuidado
Um ponto em que as fontes convergem é que música em loop constante não é a solução ideal. Segundo Dowling-Guyer, animais se habituam a sons repetidos, e o silêncio ocupa um papel tão importante quanto o estímulo sonoro no bem-estar de cães e gatos.1 Na prática, isso sugere que playlists de "música para pets" funcionam melhor como ferramenta pontual, em momentos de estresse específico como tempestades, fogos de artifício ou visitas ao veterinário, do que como trilha sonora permanente do lar.
Perguntas frequentes
Cães realmente preferem música de spa a heavy metal?
Sim. Estudos indicam que cães ficam mais agitados com heavy metal e mais calmos com músicas de ritmo lento e volume baixo, semelhantes às usadas em ambientes de spa, embora outras pesquisas apontem reggae e soft rock como igualmente eficazes.
Gatos gostam de música clássica?
Não necessariamente. Pesquisas mostram que gatos respondem melhor a composições criadas especificamente para a espécie, com frequências ligadas ao ronronar e à amamentação, do que a música clássica tradicional.
Por que animais marinhos sofrem mais com poluição sonora?
Porque dependem do som para se comunicar, encontrar alimento e localizar parceiros em um ambiente onde a visão tem alcance limitado. O aumento do ruído oceânico desde 1950 já é associado a mudanças de comportamento em baleias, golfinhos e narvais.
O Brasil tem alguma regulamentação sobre ruído no oceano?
Sim. O Ibama restringiu o uso de pesquisa sísmica, técnica que gera ruído intenso no fundo do mar, em trechos do litoral da Bahia e do Rio Grande do Sul para proteger áreas de reprodução de baleias-jubarte.
É seguro deixar música tocando o dia todo para o pet?
Especialistas recomendam moderação. Animais se habituam a sons repetidos, e o silêncio também tem papel importante no bem-estar, o que torna a música mais útil em momentos pontuais de estresse do que como trilha sonora permanente.