Dormir sob efeito: o que a ciência descobre sobre a cannabis e os sonhos
Estudos recentes indicam que o THC suprime o sono REM — fase associada à memória e à regulação emocional —, um achado que ganha peso no Brasil, onde a insônia atinge a maior parte da população e o acesso à cannabis medicinal se expande sob novas regras da Anvisa.
Milhões de brasileiros acendem um cigarro de maconha, pingam um óleo de canabidiol sob a língua ou engolem uma cápsula antes de deitar, na expectativa de uma noite mais tranquila. O que raramente se discute é o que acontece depois que as luzes se apagam. Nos últimos anos, cientistas em diferentes países têm reunido evidências de que o principal composto psicoativo da planta, o THC, não apenas ajuda — ou não — a adormecer, mas também reconfigura o que ocorre durante o sono, especialmente na fase conhecida como REM, ligada à memória, à regulação emocional e, segundo algumas hipóteses, à própria função de sonhar.
A pergunta ganha urgência num país que dorme mal e que, ao mesmo tempo, caminha para normalizar o acesso terapêutico à cannabis. Segundo o Vigitel 2023, levantamento do Ministério da Saúde, 31,7% dos adultos brasileiros relatam ao menos um sintoma de insônia e 20,2% dormem menos de seis horas por noite — números que ajudam a explicar por que tantas pessoas recorrem a alternativas fora da farmacopeia tradicional. Nesse cenário, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou em 2026 um novo conjunto de resoluções — as RDCs 1.013, 1.014 e 1.015 — que regulamentam o cultivo, a produção e a pesquisa clínica de cannabis para fins medicinais e científicos no país, ampliando um mercado que já crescia por meio de associações de pacientes e importações.
Por que o sono profundo importa
O sono não é um estado passivo. Ao longo da noite, o cérebro atravessa ciclos que alternam entre sono leve, sono profundo (de ondas lentas) e sono REM — a fase mais associada a sonhos vívidos e emocionalmente carregados. É durante essas fases que o cérebro consolida memórias, processa experiências emocionais e realiza uma espécie de faxina metabólica. Pesquisadores descrevem o REM como uma "oficina noturna" na qual o cérebro simula ameaças, ensaia interações sociais e reorganiza experiências antes que a vigília retome o controle.
É justamente essa fase que estudos de laboratório apontam como mais sensível à ação do THC.
O que os estudos mostram sobre THC e sono REM
Desde a década de 1970, cientistas investigam os efeitos do THC e do canabidiol (CBD) sobre o sono. Pesquisas de laboratório sugerem que uma dose de THC pode reduzir o tempo para adormecer, enquanto o CBD, isoladamente, mostra evidências mais fracas e indiretas — atuando, quando muito, sobre a ansiedade que antecede o sono. O achado mais consistente, porém, é outro: o uso regular de THC parece suprimir a duração e a intensidade do sono REM, o que ajudaria a explicar por que muitos usuários crônicos relatam sonhar pouco ou não lembrar dos sonhos.
Um dos indícios mais fortes desse mecanismo veio de um estudo duplo-cego controlado por placebo, conduzido em 2015 pelo psiquiatra militar canadense Rakesh Jetty, com veteranos que sofriam de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) resistente a tratamento. Um análogo sintético do THC não apenas reduziu sintomas de hiperexcitação durante o dia, como também abrandou os pesadelos recorrentes dos participantes — evidência de que manipular o sistema endocanabinoide altera não só a quantidade, mas o conteúdo emocional do sono.
Segundo pesquisadores do Laboratório de Ciência da Cannabis da Universidade Johns Hopkins, o THC age ligando-se aos receptores canabinoides do cérebro, que ajudam a equilibrar a atividade neural excitatória e inibitória — um sistema descrito por especialistas como o principal regulador da excitação cerebral. Com o uso crônico, o cérebro se adapta reduzindo o número e a sensibilidade desses receptores. Quando o uso é interrompido, o sistema endocanabinoide fica temporariamente incapaz de funcionar com normalidade, o que desregula o sono — abrindo caminho para o fenômeno do "efeito rebote".
O rebote do REM e o ciclo da dependência
Relatos recorrentes — tanto em estudos clínicos quanto em redes sociais — descrevem que, após semanas ou meses de sonhos suprimidos, pessoas que interrompem o uso de cannabis vivenciam um retorno explosivo e intenso da atividade onírica: sonhos incomumente vívidos, emocionais ou até perturbadores. Para pesquisadores como Matthew Hill, neurocientista da Universidade de Calgary, essa supressão prolongada do sonho não é necessariamente inofensiva.
Hill aponta que o sono perturbado está entre os sintomas mais comuns e persistentes do transtorno de uso de cannabis — uma condição clínica caracterizada pelo consumo compulsivo da substância. Em alguns casos, os pesadelos do período de abstinência tornam-se tão angustiantes que motivam a retomada do consumo, criando um ciclo em que a droga suprime o sonho e, ao mesmo tempo, se torna a única forma percebida de escapar do rebote.
A cannabis medicinal como aliada contra a insônia
Parte da comunidade médica e terapêutica brasileira defende um diagnóstico mais favorável. Segundo estimativas amplamente citadas da Associação Brasileira do Sono (ABS), a maioria da população do país convive com algum grau de distúrbio do sono, e associações de pacientes relatam resultados positivos com terapias canabinoides — sobretudo à base de CBD — na redução do tempo para adormecer e no alívio de quadros de ansiedade que antecedem a insônia.
Prescritores argumentam que, em doses e formulações adequadas, e sob acompanhamento médico, os efeitos colaterais tendem a ser menores do que os de hipnóticos sintéticos como o zolpidem — cujo uso prolongado a própria ABS e a Associação Brasileira de Medicina do Sono já alertaram sobre riscos de dependência. Para esse grupo, o debate sobre supressão do REM diz respeito sobretudo ao uso recreativo e crônico de THC em altas doses, e não necessariamente às formulações medicinais controladas que vêm sendo reguladas pela Anvisa.
O panorama regulatório brasileiro
O debate ganha contornos específicos no Brasil. Depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a necessidade de regulamentação sanitária para a cannabis medicinal, a Anvisa publicou em 2026 normas que regulam todas as etapas da produção — da RDC 1.013/2026, que trata do cultivo de variedades com até 0,3% de THC, à RDC 1.014/2026, que criou um "sandbox regulatório" para testar novos modelos de produção sob supervisão da agência. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por sua vez, iniciou em 2026 projetos de pesquisa em parceria com associações de pacientes no Distrito Federal e em Mato Grosso do Sul, voltados a sistematizar dados clínicos sobre efetividade e eventos adversos do uso medicinal da planta.
Esse movimento de institucionalização convive com uma lacuna de dados: ao contrário dos Estados Unidos, onde levantamentos nacionais já estimam a proporção da população adulta que usa cannabis especificamente como indutor de sono, o Brasil ainda não dispõe de uma métrica equivalente. O Vigitel passou a incluir perguntas sobre sono a partir de 2024, mas a relação direta entre consumo de cannabis e qualidade do sono na população brasileira segue pouco mapeada — uma lacuna que os novos projetos da Fiocruz pretendem começar a preencher.
Uso pesado, dependência e risco cognitivo
Um estudo de coorte publicado em 2025 na revista científica JAMA Neurology, com dados de mais de 6 milhões de adultos canadenses com 45 anos ou mais, acompanhados entre 2008 e 2021, encontrou que pessoas que precisaram de atendimento de emergência ou internação hospitalar por uso de cannabis apresentaram 72% mais risco de receber um novo diagnóstico de demência dentro de cinco anos, em comparação com a população geral — e 23% mais risco em comparação com pessoas hospitalizadas por outros motivos. Os autores destacam que a associação vale para casos de uso pesado o suficiente para exigir atendimento de urgência, e não necessariamente para o consumo terapêutico controlado.
Some-se a isso a constatação, já conhecida na literatura sobre dependência, de que cerca de 30% das pessoas que usam cannabis regularmente podem desenvolver algum grau de transtorno de uso, segundo estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) — quadro que costuma vir acompanhado de dificuldades de atenção, memória e aprendizado.
Por que sonhar pode importar
A questão de por que sonhamos nunca pertenceu exclusivamente à neurociência — atravessa também a filosofia e a espiritualidade. Para pesquisadores que estudam a função do REM, a perda prolongada da capacidade de sonhar pode ter custos que ainda não são totalmente compreendidos: possível prejuízo à consolidação de memórias, ao processamento emocional e, em relatos clínicos, ao próprio processo de luto e ressignificação de perdas pessoais.
Do ponto de vista clínico, a mensagem que emerge da literatura científica não é de alarme, mas de cautela proporcional à dose e à frequência de uso. Efeitos observados em usuários pesados e crônicos — supressão do REM, risco elevado de demência em casos de uso grave o suficiente para exigir atendimento de urgência, ciclos de dependência ligados ao rebote de pesadelos — não equivalem automaticamente aos efeitos de um uso terapêutico pontual e supervisionado. Mas, à medida que o Brasil amplia o acesso institucional à cannabis medicinal, especialistas defendem que a mesma expansão venha acompanhada de mais pesquisa nacional sobre seus efeitos de longo prazo sobre o sono — hoje, ainda um capítulo em aberto da ciência brasileira.
Nota de atribuição editorial: Esta reportagem foi inspirada na matéria "The new science of cannabis and sleep", publicada pelo jornal norte-americano The Washington Post em 23 de julho de 2026, assinada por Ariana Eunjung Cha. O texto original pode ser lido, em inglês, no link: washingtonpost.com/health/2026/07/23/hidden-way-cannabis-changes-your-brain-while-you-sleep.
Este artigo apresenta reportagem e análise independentes, com fontes e dados próprios sobre o contexto brasileiro, e não constitui tradução ou reprodução do conteúdo original.