Caderno Educação · Política Educacional
Publicado em 12 de setembro de 2026 · Tempo de leitura: 8 min

No dia 10 de setembro, quando a China celebrou seu 42º Dia do Professor, o país voltou a mostrar ao mundo uma aposta pouco convencional: em vez de tentar convencer professores urbanos a se mudarem para o interior, formar professores que já são do interior para que voltem para casa depois de formados1. A ideia parece simples, mas resolve um problema que persegue sistemas educacionais em praticamente todo o planeta, inclusive o brasileiro: como manter bons professores em lugares onde ninguém quer ficar.

Reportagem publicada pelo jornal estatal chinês China Daily descreve o amadurecimento de uma política que começou em 2006, quando Pequim lançou o programa de professores de posto especial, enviando mais de um milhão de educadores a escolas rurais1. A medida aliviou a carência imediata, mas não resolveu a rotatividade: professores vindos de fora frequentemente deixavam essas escolas depois de poucos anos, e a diferença de qualidade entre cidade e campo persistia, sobretudo em disciplinas como inglês, ciências e música1.

A virada veio quando gestores perceberam algo que a pesquisa educacional já vinha sugerindo havia tempos: professores enraizados nas próprias comunidades compartilham dialeto, referências culturais e interesse pessoal no futuro daquele lugar, o que os torna mais eficazes e mais propensos a permanecer no cargo1. Em 2021, a Beijing Normal University lançou o "Projeto para Fortalecer a Força Docente", oferecendo bolsas integrais em troca de um compromisso de seis anos lecionando na região de origem do estudante, entre os 832 condados que a China classificava como historicamente pobres1.

Um sistema fechado, não uma bolsa isolada

O que distingue a iniciativa chinesa de um simples incentivo financeiro é a arquitetura em seis frentes integradas: formação antes do ingresso, alocação direcionada, apoio durante o exercício da profissão, reconhecimento honorífico, monitoramento diagnóstico e aprimoramento colaborativo da qualidade1. Juntas, essas frentes formam o que a reportagem descreve como um sistema de ciclo fechado, alinhado ao que a Unesco chama de "política docente holística"1 — uma abordagem que trata recrutamento, formação, carreira e permanência como partes de uma mesma engrenagem, e não como programas isolados2.

Os relatos de professores citados na reportagem ilustram essa engrenagem em funcionamento. Xiong Guojin, criado como "criança que ficou para trás" na zona rural de Guizhou enquanto os pais trabalhavam em cidades do litoral, hoje leciona geografia na cidade onde cresceu e recebe mentoria contínua por meio do sistema1. Dou Zhuojun, formado pela Beijing Normal University, passou duas semanas em uma escola rural antes de assumir turmas de inglês em sua cidade natal em Xinjiang, justamente para entender de perto a realidade de seus futuros alunos1. E Wang Yiying, professora de geografia na Mongólia Interior, encontrou em uma plataforma digital lançada em 2022, hoje usada por mais de 630 mil professores em todo o país, o suporte pedagógico que faltava para não trabalhar isolada1.

"Não bastou recrutar. O sistema chinês percebeu que sem apoio contínuo, mesmo os professores mais comprometidos entram em exaustão." Síntese do modelo descrito pela reportagem do China Daily

O espelho brasileiro: o apagão docente que já está aqui

No Brasil, o problema tem contornos parecidos, mas em escala e urgência que preocupam educadores e pesquisadores. Projeções do Instituto Semesp apontam déficit de até 235 mil docentes na educação básica até 2040, num cenário agravado pela aposentadoria estimada de 57,5% dos professores das redes estaduais até 2034, segundo levantamento do CPP/SP3. O Censo Escolar da Educação Básica 2025, divulgado pelo Inep, confirma que o país reúne cerca de 2,4 milhões de professores para 46 milhões de matrículas distribuídas em 178,8 mil escolas4, mas a distribuição dessa força de trabalho está longe de ser equilibrada.

O indicador de adequação da formação docente do próprio Inep mostra que o percentual de aulas ministradas por professores com formação superior compatível com a disciplina é sistematicamente menor nas regiões Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste4 — justamente as regiões com maior concentração de escolas rurais e do campo. Em disciplinas como matemática, física e ciências, o Ministério da Educação estima que seria necessário de 57% a 68% a mais de professores para cobrir a demanda atual, não uma projeção futura5.

Parte dessa lacuna nasce ainda na formação inicial. O Censo da Educação Superior mostra que 58% dos estudantes de licenciatura abandonam o curso antes de concluí-lo, e nas exatas a evasão chega a impedir que apenas 30% dos ingressantes em matemática e 24% em física se formem5. Some-se a isso um piso salarial equivalente a três salários mínimos para 40 horas semanais, que um terço dos municípios brasileiros nem sequer cumpre integralmente3, e fica mais fácil entender por que a docência perdeu atratividade justamente nas regiões que mais precisam dela.

Recrutar de dentro para dentro: o que o Brasil já tenta fazer

A boa notícia é que o princípio central da experiência chinesa, o de formar quem já pertence ao território para que sirva ao próprio território, não é estranho à política educacional brasileira. Desde os anos 2000, o Programa Nacional de Formação de Professores (Parfor) oferece licenciaturas gratuitas a docentes já em exercício em escolas públicas sem formação adequada, muitos deles em áreas rurais6. Em paralelo, o Procampo e as licenciaturas em Educação do Campo formam educadores especificamente para atuar em experiências alternativas de ensino no meio rural, com regime de alternância entre tempo-escola e tempo-comunidade7.

Mais recentemente, o governo federal lançou o programa Mais Professores para o Brasil, instituído pelo Decreto nº 12.358/2025, estruturado em cinco eixos que vão da seleção ao ingresso na carreira até a alocação em regiões carentes8. Dentro dele, a Bolsa Pé-de-Meia Licenciaturas oferece até R$ 48,3 mil ao longo de quatro anos de curso para atrair estudantes do ensino médio à carreira docente9, enquanto a Bolsa Mais Professores paga um complemento mensal de R$ 2,1 mil, por até 24 meses, a docentes dispostos a atuar em disciplinas críticas e em regiões e escolas mais vulneráveis10.

A semelhança estrutural com o modelo chinês é evidente: bolsa na formação, incentivo na alocação, complemento salarial durante o exercício. A diferença está no amadurecimento. Enquanto o sistema chinês já opera de forma integrada há mais de duas décadas, contando inclusive com uma plataforma digital nacional de mentoria entre pares, o programa brasileiro completou pouco mais de um ano de existência e sua Bolsa Mais Professores só teve a primeira rodada de adesão de estados concluída no fim de 202510.

Contraponto

Nem todos os pesquisadores da educação do campo veem consenso sobre o formato ideal dessas políticas. Parte da literatura acadêmica brasileira aponta que programas como o Procampo, lançados por editais temporários do MEC, careceram historicamente de garantia de continuidade institucional, deixando universidades sem previsibilidade de financiamento de longo prazo7. A experiência chinesa, por sua vez, opera sob planejamento estatal centralizado de seis anos, algo dificilmente replicável em um país federativo como o Brasil, onde estados e municípios respondem por fatias diferentes da rede pública e aderem a programas federais de forma voluntária.

Por que isso importa além da sala de aula

O argumento por trás dessas políticas não é apenas de justiça social, é também de eficácia pedagógica mensurável. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, citado pelo ministro da Educação Camilo Santana no lançamento do Mais Professores, estima que o professor responde por 65,7% do desempenho escolar no ensino fundamental e por 47% no ensino médio9. Se a variável mais decisiva para o aprendizado é quem está na frente da sala, então resolver onde estão os professores talvez seja mais urgente do que discutir apenas quanto eles ganham.

É esse o insight que atravessa tanto a experiência chinesa quanto a brasileira: dinheiro sozinho não fixa ninguém em lugar nenhum. O que parece funcionar, segundo as duas trajetórias, é uma combinação de pertencimento territorial, formação continuada e uma rede de apoio profissional que evite o isolamento, exatamente os elementos que compõem o conceito de política docente holística defendido pela Unesco2. Se o Brasil conseguir amadurecer seus próprios eixos integrados com a mesma consistência de duas décadas que a China dedicou ao tema, o país pode finalmente deixar de tratar a escassez de professores no interior como uma emergência recorrente e passar a tratá-la como um problema estrutural em vias de solução.

Esta reportagem toma como ponto de partida artigo original publicado pelo China Daily em 10 de setembro de 2026, assinado por Liu Tianyi e Zhao Yuchi: "Opening a brighter, innovative chapter in rural education". Dados e contexto brasileiro foram apurados de forma independente pela equipe de O Tecido junto a fontes oficiais listadas nas referências.

Perguntas frequentes

O que é o "Projeto para Fortalecer a Força Docente" da China?

É uma iniciativa lançada em 2021 pela Beijing Normal University que oferece bolsas integrais a estudantes de regiões pobres da China em troca de um compromisso de seis anos lecionando em suas próprias localidades de origem, dentro de um sistema mais amplo de formação, alocação e apoio contínuo a professores.

O Brasil tem algum programa parecido?

Sim. O Parfor forma professores já em exercício sem licenciatura adequada, o Procampo e as licenciaturas em Educação do Campo preparam docentes especificamente para escolas rurais, e o programa federal Mais Professores para o Brasil, lançado em 2025, combina bolsas de formação e incentivo financeiro para atuação em regiões carentes.

Qual o tamanho do déficit de professores no Brasil?

Projeções do Instituto Semesp apontam falta de até 235 mil docentes na educação básica até 2040, agravada pela aposentadoria estimada de mais da metade do corpo docente das redes estaduais até 2034 e por taxas de evasão de até 58% nos cursos de licenciatura.

Por que professores locais tendem a permanecer mais tempo em escolas rurais?

Pesquisas citadas na reportagem chinesa e na literatura sobre educação do campo indicam que professores oriundos da própria comunidade compartilham vínculos culturais, linguísticos e pessoais com o território, o que reduz a rotatividade em comparação a docentes deslocados de centros urbanos.

Em números

630 mil+professores chineses usam a plataforma digital de mentoria "Strengthening Teaching Force"
235 mildéficit projetado de docentes na educação básica brasileira até 2040 (Instituto Semesp)
58%de evasão nos cursos de licenciatura no Brasil (Censo da Educação Superior)
R$ 48,3 milapoio financeiro máximo do Pé-de-Meia Licenciaturas ao longo de 4 anos

Linha do tempo

  • 2006China lança o programa de professores de posto especial, enviando mais de 1 milhão de educadores a escolas rurais.
  • 2021Beijing Normal University cria o Projeto para Fortalecer a Força Docente, com bolsas de seis anos.
  • 2022China lança plataforma digital nacional de mentoria e cria dez clusters universitários regionais.
  • 2025Brasil institui o programa Mais Professores para o Brasil (Decreto nº 12.358/2025).
  • 2025-26Primeira adesão de estados à Bolsa Mais Professores brasileira é concluída.

Glossário

Política docente holística
Conceito da Unesco que trata recrutamento, formação, carreira e permanência de professores como um sistema integrado, não como programas isolados.
Parfor
Programa Nacional de Formação de Professores, que oferece licenciaturas gratuitas a docentes brasileiros já em exercício sem formação adequada.
Educação do Campo
Modalidade de ensino brasileira voltada às especificidades das populações rurais, com licenciaturas próprias em regime de alternância.

Referências

  1. Liu Tianyi; Zhao Yuchi. "Opening a brighter, innovative chapter in rural education." China Daily, 10 set. 2026. Acessar reportagem original.
  2. Unesco / Teacher Task Force. Teacher Policy Development Guide.
  3. Brasil de Fato. "A educação na encruzilhada."
  4. Inep. Censo Escolar da Educação Básica 2025.
  5. UFEM Educacional. "O apagão docente no Brasil: 235 mil professores podem faltar até 2040."
  6. SciELO / Avaliação (Campinas). "O Programa Nacional de Formação de Professores – Parfor em uma Universidade Comunitária."
  7. Anais do Enfope. "Políticas públicas de expansão da educação superior no campo."
  8. Gov.br / MEC. "Programa Mais Professores."
  9. Porvir. "Governo oferece até R$ 48 mil para atrair jovens à carreira docente."
  10. Gov.br / MEC. "Aberta adesão para estados participarem da Bolsa Mais Professores."