Economia · Análise

Por Ewerton Lopes · Curador Editorial · 21 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Nota de atribuição. Esta análise parte do artigo de opinião “Everything Feels So Expensive. Here’s What’s Really Going On.”, de Natasha Sarin, publicado pelo The New York Times em 21 de outubro de 2026. O texto original não é reproduzido nem traduzido: as ideias da autora aparecem parafraseadas e creditadas, e o contexto brasileiro foi apurado de forma independente. Leia o artigo original no New York Times.

Há uma contradição que economistas e eleitores não conseguem resolver. De um lado, indicadores mostram salários crescendo acima da inflação, desemprego baixo e renda em níveis recordes. Do outro, persiste a sensação de que o dinheiro não fecha e de que qualquer imprevisto pode desmontar o orçamento da família. Nos Estados Unidos, essa distância entre a planilha e o cotidiano virou o centro da disputa política. No Brasil, onde o desemprego está entre os menores da série histórica e a inadimplência bate recordes ao mesmo tempo, a contradição é ainda mais nítida.

Em artigo publicado nesta quarta-feira no New York Times, a professora da Faculdade de Direito de Yale Natasha Sarin, que trabalhou no Departamento do Tesouro americano durante o governo Biden, propõe uma forma de desatar esse nó.1 Para ela, o debate sobre o custo de vida empacou porque os dois lados respondem à pergunta errada. O ponto central não seria saber se os salários superam os preços, e sim se as famílias confiam que conseguirão sustentar a vida que planejam e atravessar os choques que inevitavelmente virão. O que os americanos enfrentam, argumenta Sarin, é uma crise de segurança econômica, e ela está piorando.

Do preço do burrito ao preço do imprevisto

Sarin separa dois tipos de despesa. As recorrentes, como combustível, supermercado e refeições fora de casa, são as mais visíveis e as que mais irritam, porque o consumidor compara o mesmo produto no mesmo intervalo de tempo e percebe a alta. Na leitura da autora, porém, não são elas que mantêm as famílias em estado de alerta. O peso real está nas grandes contas: moradia, saúde, educação e cuidado de crianças e de parentes idosos. Enquanto celulares, televisores e eletrodomésticos ficaram relativamente mais baratos, essas despesas cresceram bem acima dos salários.

A saúde é o exemplo mais eloquente. Segundo a pesquisa anual da KFF sobre benefícios corporativos, o prêmio médio de um plano familiar oferecido por empregadores americanos chegou a US$ 26.993 em 2025, alta de 6% em um ano.8 Sarin acrescenta que, com o fim dos subsídios ampliados do Affordable Care Act neste ano, mais de 20 milhões de pessoas viram seus gastos diretos com saúde mais que dobrarem, em média.1

O argumento mais forte do texto, contudo, não está no tamanho das contas, mas no que elas deixam de entregar. Pagar caro não compra previsibilidade. A creche pode fechar de um mês para o outro, a seguradora pode cancelar a apólice de quem nunca atrasou, e a família pode passar meses contestando cobranças indevidas de hospitais. A combinação de custo alto com baixa previsibilidade ajuda a explicar, segundo a autora, por que o consumo americano está em volume recorde enquanto a confiança do consumidor está perto das mínimas históricas.

Por que os índices de inflação não capturam o medo

A distinção proposta por Sarin tem consequência metodológica. Índices de preços, como o CPI americano ou o IPCA brasileiro, medem a variação média de uma cesta de bens e serviços de um mês para o outro. São indicadores de fluxo. Não medem a probabilidade de um choque, a parcela da renda já amarrada a compromissos fixos nem o custo de ficar desprotegido quando algo dá errado.

Duas famílias com a mesma renda, expostas à mesma inflação, podem viver situações opostas. Uma tem reserva de emergência, plano de saúde estável e emprego formal. A outra depende do limite do cartão para cobrir o fim do mês e de um trabalho sem proteção trabalhista. A primeira enfrenta preços altos. A segunda enfrenta risco. É esse segundo tipo de situação que as estatísticas convencionais tendem a deixar fora do quadro.

A inflação mede quanto os preços sobem. Não mede quanto custa estar desprotegido quando algo sai do roteiro.

O espelho brasileiro: emprego em alta, colchão em baixa

O diagnóstico de Sarin foi pensado para os Estados Unidos, mas encontra no Brasil um caso quase didático. O mercado de trabalho vai bem pelos critérios tradicionais: a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em junho, abaixo dos 5,8% do mesmo período de 2025, e a renda média real do trabalho chegou a R$ 3.738, alta de 2,8% em doze meses.6

Ao mesmo tempo, o balanço das famílias se deteriora. O endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda disponível acumulada em doze meses em fevereiro, o maior nível da série do Banco Central iniciada em 2005, e permaneceu na casa dos 49,8% nos meses seguintes.2 O comprometimento da renda mensal com o pagamento de dívidas oscilou perto de 29% ao longo do ano, também em patamar recorde. Em junho, o Comitê de Estabilidade Financeira do BC alertou que o avanço de modalidades de crédito mais caras continua pressionando esse indicador e pediu cautela na concessão de novos empréstimos.3

Os dados da Serasa completam o retrato. O país chegou a 82,8 milhões de inadimplentes em março de 2026.4 No levantamento que marcou os dez anos do Mapa da Inadimplência, a empresa mostrou que o número de negativados cresceu 38,1% desde 2016, que 48% deles ganham até um salário mínimo e que cerca de 42% dos inadimplentes de hoje já estavam nessa condição dez anos atrás.4 A reincidência é o dado mais revelador: indica um problema de estrutura, não de conjuntura.

O custo desse crédito agrava o quadro. A taxa média de juros cobrada das famílias está na casa de 64% ao ano, segundo as estatísticas de crédito do Banco Central, mesmo depois de o Copom ter reduzido a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro.2,7 E a inflação voltou a incomodar: o IPCA subiu 0,82% em setembro e acumulou 4,58% em doze meses, novamente acima do teto de 4,5% da meta, puxado pela conta de luz após o fim do bônus de Itaipu.5

A leitura que se impõe é que, no Brasil, o crédito cumpre a função que nos países ricos cabe à poupança e ao seguro: é o amortecedor dos choques. Com juros dessa magnitude, porém, o amortecedor amplifica o impacto em vez de absorvê-lo.

As grandes contas também pesam aqui

A tese de Sarin sobre as despesas estruturais encontra paralelo direto na saúde suplementar brasileira. Em maio, a ANS fixou em 5,11% o teto de reajuste dos planos individuais e familiares, o menor da série excluído o ano da pandemia. A regra, porém, alcança apenas cerca de 7,7 milhões de beneficiários, ou 14,5% dos 52,9 milhões de usuários de planos médicos. Os coletivos, que não têm teto regulatório, registraram reajuste médio de 9,9% no início de 2026.9

A proteção encarece mais que os preços

IPCA 12 meses (set/26) 4,58% Teto ANS, individuais 5,11% Média coletivos (início/26) 9,9% Variação percentual
Fontes: IBGE (IPCA acumulado até setembro de 2026) e ANS (teto para o ciclo maio/2026 a abril/2027 e média dos reajustes coletivos no início de 2026). Os períodos de referência não são idênticos; a comparação é indicativa.

O outro paralelo está nas lacunas da rede de proteção. Sarin lista situações americanas em que a pessoa está claramente vulnerável, mas fica fora das regras: o motorista de aplicativo demitido que não tem direito ao seguro-desemprego, o jovem trabalhador pobre que ainda não tem idade para receber o crédito tributário destinado à baixa renda.1 No Brasil, a lacuna tem nome e tamanho: a taxa de informalidade foi de 37,3% no trimestre encerrado em março, o equivalente a 38,1 milhões de trabalhadores.6 Sem carteira assinada, não há seguro-desemprego nem FGTS, e a cobertura previdenciária depende de uma contribuição voluntária que boa parte não faz. Desemprego baixo e insegurança alta, portanto, não são dados contraditórios. Descrevem populações diferentes, ou a mesma pessoa em momentos diferentes.

A tentação do remédio instantâneo

Uma parte relevante do artigo de Sarin é dedicada a desmontar respostas que considera populares e ineficazes. O congelamento de aluguéis, afirma, desestimula a manutenção dos imóveis e beneficia quem não precisa: quase um terço dos nova-iorquinos em apartamentos com aluguel estabilizado ganha mais de US$ 100 mil por ano. O teto aos juros do cartão tende a fechar o crédito justamente para os mais pobres, empurrando-os para alternativas mais caras. E a proibição de grandes fundos comprarem casas mira um grupo responsável por menos de 1% das aquisições de imóveis unifamiliares.1 O risco, na avaliação da autora, é um ciclo em que promessas de alívio imediato fracassam, eleitores frustrados trocam os governantes e o novo grupo repete a fórmula.

O Brasil tem sua própria coleção de testes. O limite aos juros do rotativo do cartão, em vigor desde janeiro de 2024, e o Novo Desenrola Brasil, lançado em maio de 2026, atacam o problema pelo lado do preço e do estoque da dívida. Os números do programa são expressivos: só o Banco do Brasil informou ter renegociado R$ 40 bilhões desde o início, somando as frentes do programa e acordos por canais próprios.10 Ainda assim, desde o lançamento, analistas avaliam que o efeito sobre a qualidade dos ativos bancários tende a ser limitado.10

Renegociar alivia o estoque, mas não altera o fluxo que produz novas dívidas. Com 42% de reincidência ao longo de uma década, a pergunta relevante deixa de ser quantas dívidas foram limpas e passa a ser quantas famílias ganharam condições de não voltar ao cadastro negativo. Em pleno ano eleitoral, a tentação de medir sucesso pelo primeiro número é evidente.

Um “Newer Deal” cabe no orçamento brasileiro?

A proposta de Sarin é ambiciosa. Inspirada no New Deal dos anos 1930, ela defende uma agenda ampla e de longo prazo, que ela chama de Newer Deal: ampliar a oferta de moradias e de profissionais de cuidado, garantir a sustentabilidade da previdência, tornar o sistema de saúde mais eficiente e, sobretudo, construir um governo que funcione, com programas mais simples, menos formulários e tecnologia atualizada. O financiamento viria de impostos maiores sobre quem pode pagar, incluindo empresas e fundadores que lucrarem com a inteligência artificial.1

A própria autora reconhece a principal restrição: déficits elevados encarecem o crédito e, portanto, pioram a acessibilidade que se pretende melhorar. No Brasil, essa ressalva não é nota de rodapé, é o centro do problema. O risco fiscal compõe o prêmio que mantém a Selic em dois dígitos, e o Copom projeta IPCA de 5,2% para 2026, acima da meta.7 Uma versão brasileira de agenda de segurança econômica precisaria, portanto, se apoiar menos na expansão de gastos e mais na parte da proposta que trata de eficiência: integração de cadastros, simplificação do acesso a benefícios, cobertura previdenciária para informais e regulação de contas essenciais que hoje escapam de qualquer teto, como os planos coletivos.

O que deveria entrar no painel

Se o problema é de segurança, e não apenas de preços, o conjunto de indicadores que orienta o debate público precisa mudar. Algumas medidas já existem e merecem mais destaque: o comprometimento de renda com dívidas, a reincidência na inadimplência, a parcela de trabalhadores sem cobertura previdenciária e a diferença entre o reajuste de contas essenciais e o crescimento da renda. Outras ainda carecem de produção regular, como a proporção de famílias com reserva capaz de cobrir três meses de despesas.

A diferença entre os dois enquadramentos não é retórica. Um debate restrito ao índice de inflação tende a produzir respostas de curto prazo, medidas pelo preço da gasolina ou do arroz no mês seguinte. Um debate que olha para o risco obriga a discutir instituições: quem fica de fora da proteção, quanto custa o crédito que substitui a poupança e por que pagar caro por serviços essenciais não garante que eles estejam disponíveis quando necessários. É uma conversa mais lenta e menos adequada a slogans, o que talvez explique por que ela raramente chega às campanhas.

Perguntas frequentes

O que é a crise de segurança econômica descrita por Natasha Sarin?

É a tese de que o mal-estar com o custo de vida não decorre só da alta de preços, mas da combinação entre despesas estruturais elevadas (moradia, saúde, educação e cuidado) e baixa previsibilidade. As famílias pagam caro e, ainda assim, não têm garantia de que conseguirão atravessar choques como doença, perda de emprego ou fechamento de um serviço.

Por que as pessoas sentem que tudo está caro mesmo com salários subindo?

Porque os índices de inflação medem a variação média de preços, não o risco. Gastos recorrentes são os mais visíveis, mas o peso maior está nas grandes contas e na ausência de proteção contra imprevistos. Uma família pode ter renda real crescente e, ao mesmo tempo, estar mais exposta a um choque financeiro.

Qual é a situação do endividamento das famílias no Brasil em 2026?

Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 49,9% da renda disponível em fevereiro de 2026, recorde da série iniciada em 2005, e o comprometimento da renda com dívidas ficou perto de 29%. A Serasa contabilizou 82,8 milhões de inadimplentes em março, com forte concentração entre quem ganha até um salário mínimo.

Congelar aluguéis ou limitar juros do cartão resolve o problema?

Na avaliação de Sarin, essas medidas tendem a piorar a situação: o congelamento reduz a manutenção e a oferta de imóveis, e o teto de juros restringe o crédito aos mais pobres. No Brasil, programas de renegociação como o Novo Desenrola aliviam o estoque de dívidas, mas não alteram sozinhos as condições que levam à reincidência.

O que é o “Newer Deal” proposto no New York Times?

É uma agenda de longo prazo inspirada no New Deal, que combina aumento da oferta de moradia e de cuidadores, sustentabilidade da previdência, eficiência no sistema de saúde e um governo mais simples de acessar, financiada por impostos maiores sobre quem tem mais capacidade de pagar.