Caderno Política · Estados Unidos · Guerra na Ucrânia

Em resumo
  • O colunista Dominic Lawson, do The Telegraph, sustenta que os aliados "respeitáveis" de Donald Trump são mais censuráveis que o próprio presidente, porque sabem distinguir certo e errado e escolhem se calar.1
  • Os fatos de outubro reforçam o diagnóstico: acordo para comprar diesel russo, suspensão das tarifas previstas na Lei Graham e restrição ao sistema Starshield usado pela Ucrânia.
  • Há contrapontos relevantes: a política externa cabe ao presidente, a própria lei previa a suspensão e parte dos republicanos protestou.
  • Para o Brasil, grande comprador de diesel russo, a disputa em Washington tem efeito direto sobre preço de combustível e risco tarifário.

No mesmo dia em que um ataque russo matou seis pessoas, entre elas crianças, num parque nos arredores de Kharkiv, Donald Trump disse a jornalistas que a Rússia "tem se comportado bem na Ucrânia".2 A frase, por si só, já seria notícia. O que interessa ao colunista britânico Dominic Lawson, porém, é outra coisa: o silêncio de quem está ao redor do presidente.

Em coluna publicada nesta sexta-feira pelo The Telegraph, Lawson classifica Trump como um "imbecil moral" e argumenta que a responsabilidade maior recai sobre os conservadores que passaram a carreira defendendo a Ucrânia e hoje acompanham, sem dissenso público, a guinada da Casa Branca em favor de Moscou.1 A tese é dura, mas pode ser testada contra os fatos. É o que este texto propõe fazer.

A tese de Lawson: o problema não é só o presidente

O raciocínio do colunista é simples. Trump, segundo ele, não é hipócrita: age conforme o que pensa. Já figuras como Marco Rubio, Lindsey Graham e Mitch McConnell construíram reputação como críticos de Vladimir Putin ou defensores das instituições americanas e mudaram de posição quando perceberam que Trump voltaria ao poder. Para Lawson, os motivos são humanos e conhecidos: desejo de proximidade com o poder e medo da capacidade de retaliação do presidente.1

O exemplo mais citado é o de Rubio. Como senador da Comissão de Relações Exteriores, ele descrevia Putin como um gângster e tratava a resistência ucraniana como parte do interesse nacional americano, lembra o Telegraph.1 Hoje secretário de Estado, Rubio rebateu Volodymyr Zelensky depois que Kiev acusou Washington de restringir o acesso ucraniano ao Starshield, a versão militar da rede de satélites da SpaceX. Segundo a Al Jazeera, Rubio afirmou que o sistema não está disponível à Ucrânia, que um pedido de acesso está "em discussão" e que os Estados Unidos não tiveram relação com as falhas no Starlink.3 A NPR registrou que Trump também negou qualquer interferência, enquanto Zelensky atribuiu as restrições a uma mensagem do governo americano à empresa de Elon Musk.4

Diesel, sanções e a lei que leva o nome de Graham

O ponto mais concreto da coluna é o acordo do diesel. Em 9 de outubro, após telefonema com Putin, Trump anunciou que a Rússia enviaria diesel aos mercados americano e global, e o Tesouro emitiu licença temporária suspendendo sanções sobre essas transações, de acordo com a Associated Press.5 Uma semana depois, em 16 de outubro, o presidente assinou ordem executiva que cria e, ao mesmo tempo, suspende tarifas de até 100% previstas na chamada Lei Graham de Sanções contra Rússia e Irã, sancionada por ele próprio em 18 de setembro, conforme a Newsweek.6

A ironia não escapou a ninguém. A lei leva o nome de Lindsey Graham, senador republicano que por anos pressionou o governo Biden a enviar mísseis de longo alcance e caças a Kiev, e que morreu em 11 de julho, aos 71 anos, poucas horas depois de voltar de uma visita a Zelensky, segundo a imprensa americana.7 Lawson lembra que o mesmo Graham elogiou Trump após o encontro humilhante com Zelensky no Salão Oval, em fevereiro de 2025, e especula que ele também teria encontrado uma forma de endossar a nova guinada.1 Trata-se de uma conjectura, e como tal deve ser lida.

Quando a lealdade a uma pessoa passa a valer mais que a coerência com as próprias ideias, o partido deixa de funcionar como contrapeso e vira caixa de ressonância.

A disputa sobre quem encarece o combustível

O pano de fundo é eleitoral. Com as eleições de meio de mandato marcadas para 3 de novembro, Trump passou a atribuir a alta da gasolina aos ataques ucranianos contra refinarias russas e a supostos fechamentos de refinarias em estados governados por democratas. A Al Jazeera mostrou que as exportações pelo Estreito de Ormuz caíram cerca de 97% desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, e que pesquisa AP-NORC aponta 65% dos americanos culpando as políticas de Trump pela alta de preços.8

Analistas ouvidos pela Foreign Policy admitem que os ataques de Kiev pesam na margem, sobretudo no diesel, mas apontam a guerra no Golfo como causa principal.9 A Reuters relatou que Moscou, de forma inédita, exibiu na TV estatal os danos de um ataque a refinaria, aproveitando a narrativa da Casa Branca, e que a relação entre Trump e Zelensky está no pior momento desde fevereiro de 2025.10 Há, ainda, um dado que relativiza o ganho econômico do acordo: segundo a Agência Internacional de Energia, citada pela AP, a produção russa de diesel caiu cerca de 30%.5

O outro lado do argumento

Contraponto

A leitura de Lawson tem limites que merecem registro:

  • Hierarquia constitucional. Nos Estados Unidos, a condução da política externa cabe ao presidente. Um secretário de Estado executa a linha do governo; a alternativa à discordância é a renúncia, não a desobediência pública.
  • A própria lei previa a suspensão. O Congresso incluiu na Lei Graham a autorização para o presidente suspender tarifas por interesse nacional. Usar esse dispositivo é legal, ainda que politicamente contestável.6
  • Nem todos se calaram. A AP registrou críticas de uma parte dos republicanos ao acordo do diesel, e a Newsweek reportou objeção pública de um governador do partido.5,6 A afirmação de que ninguém no governo divergiu é precisa; a de que o partido inteiro aderiu, menos.
  • Pressão real sobre o consumidor. Com o diesel em patamar recorde, defensores do governo argumentam que buscar oferta adicional é resposta pragmática a um problema que atinge transporte e alimentos.
  • Starshield é contrato militar americano. Rubio sustenta que o sistema nunca foi formalmente cedido a Kiev, o que, se confirmado, enfraquece a acusação de sabotagem deliberada.3

O que isso tem a ver com o Brasil

Muito mais do que parece. O Brasil não aderiu às sanções ocidentais e se tornou um dos principais destinos do diesel russo. Em 2025, quase metade das importações brasileiras do combustível veio da Rússia, segundo a Petrobras, em informação divulgada pela agência ANSA; o país importa entre 25% e 30% do diesel que consome.11 Com a guerra no Oriente Médio, a dependência cresceu: em março e abril de 2026, 81,25% do diesel importado veio da Rússia, conforme dados da Agência Brasil.12 Em junho, após ataques ucranianos a refinarias e terminais, essas compras caíram 65% e foram substituídas por produto americano, segundo a Abicom em entrevista à eixos.13

Dois efeitos decorrem daí. O primeiro é de preço: se diesel russo passa a fluir também para os Estados Unidos, aumenta a concorrência pelos volumes disponíveis, num mercado em que a Petrobras já alertava para pressão sobre importadores. O segundo é de risco: a Lei Graham prevê tarifas de 100% sobre produtos de países considerados grandes facilitadores da evasão de sanções russas. Hoje suspensas, essas tarifas podem voltar ao sabor da conveniência política de Washington. Não há indicação oficial de que o Brasil esteja nessa lista, mas a simples existência do instrumento é um fator de incerteza para exportadores brasileiros.

Há também uma lição de ordem política. O fenômeno descrito por Lawson, de lideranças que abandonam posições históricas para preservar acesso ao centro do poder, não é exclusividade americana. No presidencialismo de coalizão brasileiro, a adesão a quem governa costuma ser lida como pragmatismo. A diferença está no custo: quando o realinhamento envolve guerra, sanções e vidas civis, a pergunta sobre o que se troca por proximidade deixa de ser retórica.

O teste de 3 de novembro

Lawson encerra prevendo que uma derrota republicana nas eleições de meio de mandato não moderaria Trump; ao contrário, o tornaria mais imprevisível, sem alterar a postura dos aliados.1 É uma aposta, não um fato. O que os números permitem afirmar é mais modesto: o custo dos combustíveis se tornou o centro da campanha, e a forma como o eleitor americano atribuirá responsabilidade por ele dirá muito sobre a margem que o partido terá para divergir do presidente em 2027.

Perguntas frequentes

Qual é o argumento central da coluna do Telegraph?

Dominic Lawson sustenta que conservadores que antes defendiam a Ucrânia e criticavam Putin, como Marco Rubio, são mais censuráveis que Trump por terem mudado de posição para manter proximidade com o poder.

O que é a Lei Graham de sanções de 2026?

É a Lei Lindsey O. Graham de Sanções contra Rússia e Irã, sancionada em 18 de setembro de 2026. Prevê sanções e tarifas de até 100% sobre compradores de energia russa, mas permite que o presidente as suspenda. Trump fez isso em 16 de outubro.

O que é o Starshield e por que gerou crise com a Ucrânia?

É a versão militar da rede de satélites da SpaceX, contratada pelo governo americano. Kiev afirma ter perdido acesso ao sistema por decisão de Washington; Rubio diz que o Starshield nunca esteve formalmente disponível à Ucrânia.

Por que Trump culpa a Ucrânia pela alta da gasolina?

Trump afirma que ataques ucranianos a refinarias russas reduziram a oferta global. Analistas reconhecem efeito marginal, sobretudo no diesel, mas apontam a guerra com o Irã e o bloqueio de Ormuz como causa principal.

Como isso afeta o Brasil?

O Brasil importa parte relevante do diesel que consome, e a Rússia foi sua principal fornecedora em 2026. Mudanças nas sanções americanas alteram preço, disponibilidade e o risco de tarifas secundárias sobre países compradores.

Nota de atribuição: Este artigo foi inspirado na coluna "Trump is a moral imbecile but his respectable enablers are more shameful", de Dominic Lawson, publicada pelo The Telegraph em 23 de outubro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; trechos citados foram resumidos com crédito ao autor. Leia o original em telegraph.co.uk. As demais informações foram apuradas de forma independente pela curadoria de O Tecido.