O prazer pode ser o segredo para comer menos
Uma nova safra de pesquisas sugere que a culpa da epidemia de obesidade não é gostar demais da comida — é ter parado de senti-la de verdade. No Brasil, onde a obesidade dobrou em vinte anos e as canetas emagrecedoras viraram fenômeno de mercado, essa virada de perspectiva tem implicações concretas.
Em vinte anos, a fração de brasileiros adultos com obesidade mais que dobrou: de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, segundo o Vigitel, o principal inquérito de saúde do Ministério da Saúde. O excesso de peso, que já atingia quase metade da population adulta das capitais brasileiras em 2006, hoje afeta 62,6% dela. Diabetes autorreferido subiu de 5,5% para 12,9% no mesmo intervalo. A resposta mais visível a esse quadro tem sido farmacológica: as vendas de medicamentos à base de GLP-1 no Brasil, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, cresceram mais de 600% entre 2018 e 2024, segundo dados da consultoria IQVIA, movimentando cerca de R$ 10 bilhões só em 2025.
Por trás desses números, há um pressuposto quase universal: comemos demais porque gostamos demais de comer. É a chamada teoria da fome hedônica — a ideia de que o prazer da comida, sobretudo de alimentos ultraprocessados e "hiperpalatáveis", vence os sinais internos que deveriam nos dizer quando parar. Mas um grupo de neurocientistas, endocrinologistas e pesquisadores de mindfulness está propondo o inverso: talvez o problema não seja prazer em excesso, e sim prazer de menos.
01A hipótese que virou senso comum
A tese hedônica se apoia em dois pilares. O primeiro é a "hiperpalatabilidade": a ideia de que alimentos ultraprocessados são formulados para disparar um prazer sensorial tão intenso que anula os freios naturais da saciedade. O segundo é a dopamina — o neurotransmissor popularmente associado à recompensa — cujo disparo repetido, dizem os defensores dessa visão, condicionaria o cérebro a buscar cada vez mais comida.
É uma narrativa intuitiva. Quando engordamos, dizemos que "exageramos". Fazer dieta é, por definição cultural, um exercício de renúncia. Mas a neurocientista canadense-americana Dana Small, hoje professora na Universidade McGill, discorda dessa leitura — e tem uma credencial pouco comum para questioná-la: passou pela própria pré-diabetes.
02Duas estradas até o cérebro
Small distingue duas vias pelas quais a comida sinaliza recompensa ao cérebro. A primeira, que ela chama de "estrada alta", nasce na boca — é o sabor, o aroma, a textura, tudo o que reconhecemos conscientemente como prazer. A segunda, a "estrada baixa", é a via dopaminérgica: ativa-se depois que o alimento já foi engolido e parcialmente metabolizado, quando o intestino e o fígado detectam nutrientes e energia, um processo majoritariamente inconsciente.
Em artigo publicado na revista científica PLOS Biology em novembro de 2025, Small e o coautor Justin Sung argumentam que essa segunda via — não o prazer consciente do paladar — é a mais provável responsável pelo excesso alimentar crônico. Segundo os autores, o consumo regular de dietas desequilibradas embota a sensibilidade aos sinais interoceptivos que deveriam regular a ingestão, tornando a "estrada baixa" cada vez mais dominante e desconectada da experiência real de comer.
"Não é o prazer de comer que impulsiona a epidemia de obesidade — é a via dopaminérgica de baixo nível, ativada depois da ingestão, que se torna hiperativa quando a dieta é cronicamente desequilibrada."— Justin Sung e Dana Small, PLOS Biology, 2025
A distinção não é apenas acadêmica: se a "estrada baixa" é a vilã, então tratar o prazer alimentar como inimigo — como fazem tantas dietas restritivas — ataca o mecanismo errado.
03O mito da comida "hiperpalatável"
Essa reviravolta tem aliados em outras frentes da obesidade. David Ludwig, diretor do Centro de Prevenção da Obesidade do Boston Children's Hospital, questiona publicamente o próprio conceito de "hiperpalatabilidade" — a suposição de que a indústria alimentícia formula produtos ultraprocessados para serem irresistivelmente mais saborosos que a comida in natura. Para Ludwig, faltam evidências de que ultraprocessados sejam de fato mais saborosos; o que eles têm de sobra é carboidrato simples, capaz de elevar a glicemia rapidamente e provocar uma queda abrupta em seguida — e é essa montanha-russa metabólica, não o sabor, que dispara o próximo episódio de compulsão.
É um argumento que ressoa em um país onde o consumo de ultraprocessados segue crescente e onde apenas uma minoria dos adultos atinge a recomendação de consumo regular de frutas e hortaliças, segundo o próprio Vigitel. Trocar o vocabulário de "tentação irresistível" por "instabilidade glicêmica" muda também o tipo de intervenção que faz sentido — menos sobre força de vontade, mais sobre o que compõe o prato.
04O paradoxo das canetas emagrecedoras
Os medicamentos GLP-1 oferecem, sem querer, um teste de campo para essa hipótese. Segundo Louis Aronne, do Centro de Controle de Peso da Weill Cornell Medicine, a maioria dos pacientes em uso desses medicamentos continua sentindo prazer ao comer — mesmo comendo menos. O que muda, segundo ele, é o que dá prazer: pacientes relatam maior facilidade em escolher vegetais no lugar de ultraprocessados, como se o "ruído alimentar" — a obsessão mental constante com comida, termo que já circula inclusive na cobertura brasileira sobre esses fármacos — simplesmente diminuísse de volume.
No Brasil, essa transformação farmacológica está ocorrendo em escala acelerada. Com a patente da semaglutida expirando em 2026 e a chegada de versões nacionais mais baratas — como o Ozivy, primeiro medicamento nacional à base de semaglutida aprovado pela Anvisa em maio —, o acesso a esses tratamentos deve se ampliar significativamente nos próximos anos, com o mercado de canetas emagrecedoras projetado para alcançar R$ 15,6 bilhões em 2026. Mas o remédio, por si, não substitui a reeducação do prazer: sociedades médicas brasileiras já alertam para o crescimento de formulações clandestinas e manipuladas de semaglutida, um risco que cresce junto com a demanda.
05Comer devagar, sentir mais
Se a hipótese de Small e Ludwig está certa, a pergunta prática vira: como recuperar a sensibilidade ao prazer real da comida? Uma resposta, mais antiga que a própria neurociência da recompensa, vem da meditação budista. Em 1979, o biólogo molecular Jon Kabat-Zinn desenvolveu, na Universidade de Massachusetts, o programa de redução de estresse baseado em mindfulness — do qual derivou, décadas depois, a prática do "comer com atenção plena".
La ideia central é simples: em vez de contar calorias, prestar atenção real ao que se come — cheiro, textura, sabor, ritmo da mastigação. Pesquisas brasileiras recentes em nutrição comportamental têm explorado esse território. Um artigo publicado na Revista FT aponta que abordagens baseadas em atenção plena, ao contrário de dietas tradicionais que ignoram a dimensão emocional da compulsão alimentar, favorecem a autorregulação e a autocompaixão — ainda que os resultados de mindfulness sobre perda de peso, no conjunto da literatura, permaneçam mistos.
Comer devagar tem também uma justificativa fisiológica direta: os hormônios de saciedade liberados pelo estômago levam cerca de 20 minutos para sinalizar ao cérebro que o corpo está satisfeito — tempo suficiente para terminar um prato inteiro antes que a sensação de "chega" apareça, especialmente quando a refeição é feita distraída, em frente a uma tela.
Este artigo foi inspirado pela reportagem "Is Loving Food the Secret to Eating Less of It?", publicada pelo The New York Times em 4 de maio de 2026, assinada por Pete Wells. A reportagem original, em inglês, pode ser lida em: nytimes.com/2026/05/04/dining/food-pleasure-mindful-eating.html. O texto acima não é uma tradução: foi apurado de forma independente, com fontes próprias e dados localizados para o contexto brasileiro.
06O que fica
Nenhum desses pesquisadores propõe abandonar o rigor nutricional em nome do prazer sem limites — Dana Small, aliás, chegou à sua própria dieta depois de anos de dietas restritivas que não funcionaram, e a substituiu por uma busca deliberada por frutas maduras e refeições que ela genuinamente desejava comer. A diferença sutil, mas relevante, é onde se coloca o esforço: não em resistir ao prazer, mas em recuperá-lo — de preferência antes que um medicamento precise fazer esse trabalho por nós.
Para um país que viu sua taxa de obesidade praticamente dobrar em duas décadas e que agora negocia, em tempo real, o acesso a fármacos que custam entre R$ 450 e R$ 1.300 por mês, essa é uma discussão que ultrapassa o consultório: é também uma discussão sobre política alimentar, educação do paladar desde a infância e o tipo de comida que chega — ou não chega — à mesa da maioria dos brasileiros.
Referências
- Wells, Pete. "Is Loving Food the Secret to Eating Less of It?". The New York Times, 4 de maio de 2026. nytimes.com
- Sung, J.J.; Small, D.M. "In defense of pleasure: We need to rethink food reward and obesity." PLOS Biology, v. 23, e3003497, nov. 2025. journals.plos.org
- Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006–2024: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. gov.br/saude
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. "Dados do Vigitel apontam avanço da obesidade e do diabetes na população brasileira." endocrino.org.br
- CNN Brasil. "Obesidade cresce 118% no Brasil, segundo Ministério da Saúde." cnnbrasil.com.br
- NeoFeed. "Patente do Ozempic chega ao fim e abre corrida bilionária por caneta emagrecedora genérica." neofeed.com.br
- Consumidor Moderno. "O que está por trás da redução do preço do Ozempic em 2026?" consumidormoderno.com.br
- CNN Brasil. "O que sabemos sobre o 'Ozempic brasileiro'; vendas começam na semana que vem." cnnbrasil.com.br
- Revista FT. "Mindful eating e a nutrição saudável, controle de peso e bem-estar emocional." revistaft.com.br
- Terra. "'Mindful eating': entenda os benefícios da atenção plena durante a alimentação." terra.com.br
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