Opinião · Política Internacional
Na quinta-feira, 24 de setembro, quando Benjamin Netanyahu caminhou até a tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, boa parte do plenário se levantou, mas para sair. Revisando as imagens da sessão, a agência turca Anadolu contou representantes de cerca de 70 países que deixaram o salão ou sequer apareceram, entre eles a delegação brasileira, segundo levantamento reproduzido pela The Media Line2. O primeiro-ministro israelense esperou o murmúrio baixar e convidou quem ainda restasse entre os "covardes morais" a fazer o mesmo, como registrou a emissora irlandesa RTÉ3.
A cena rendeu as manchetes previsíveis sobre isolamento diplomático. A leitura mais fértil, porém, veio da cientista política espanhola Máriam Martínez-Bascuñán, que em coluna publicada neste domingo no El País1 sugere que o salão vazio não foi exatamente um revés para Netanyahu. Foi um cenário. A pergunta que ela deixa, e que este texto tenta desdobrar para o leitor brasileiro, é o que acontece com uma regra internacional quando quem a descumpre deixa de se importar em ser visto descumprindo.
O plenário vazio como cenário
O ponto de partida da colunista é Hannah Arendt e sua noção de espaço de aparição: o lugar público em que nos mostramos a quem não pertence à nossa tribo e aceitamos ser vistos e julgados por essas pessoas. Uma norma, nesse raciocínio, obriga menos pela sanção do que pela vergonha de violá-la diante dos outros. Enquanto esse espaço funcionava, as regras eram violadas com disfarce. O que muda agora, argumenta Martínez-Bascuñán, é que elas passaram a ser violadas às claras, porque ninguém mais fala para os outros.
Há um cálculo político evidente nessa leitura. Israel vai às urnas em 27 de outubro, e poucas imagens seriam mais úteis a Netanyahu do que a do líder solitário diante de um mundo hostil. A análise da Al Jazeera5 sobre a repercussão interna aponta exatamente isso: o tom desafiador afastou os críticos no exterior e agradou à base eleitoral do premiê. A rádio pública americana NPR4 lembrou que o discurso incluiu ataques ao prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, um alvo que interessa muito mais ao eleitor israelense e à direita americana do que aos diplomatas presentes.
Vítima como posição, não como identidade
O núcleo do argumento está em outro lugar. Ao chamar de covardes os que saíam, Netanyahu transformava cada desfeita em prova de sua própria razão. Martínez-Bascuñán recorre ao ensaísta Rafael Sánchez Ferlosio, para quem certos atores aproveitam até a última gota a oportunidade de se encher de razão com o agravio sofrido, e a Judith Butler, que alerta para o risco de uma ética política que reserva a um único grupo, de forma permanente, o lugar de vítima. Quando isso acontece, tudo o que esse grupo faz fica protegido antecipadamente.
Ser vítima não é uma identidade que se herda, mas uma posição que os fatos concedem e retiram.Síntese do argumento de Máriam Martínez-Bascuñán, El País
A distinção é mais técnica do que parece. No vocabulário da pátria, da sobrevivência e do destino, o sujeito é a nação ameaçada, e a ameaça não prescreve. No direito internacional humanitário, o sujeito moral é a população civil, e o lugar da vítima passa de um lado para o outro conforme o que acontece em cada bombardeio, em cada cerco, em cada fila por comida. Quem escolhe o primeiro vocabulário, diz a colunista, já saiu da esfera pública que o multilateralismo representa, ainda que continue atrás do púlpito.
A memória do 7 de outubro de 2023 é real e ocupou parte do discurso: Netanyahu recordou que o ataque do Hamas matou cerca de 1.200 pessoas e propôs a comparação proporcional com 40 mil americanos mortos, segundo a RTÉ3. O problema apontado pela colunista não é lembrar o massacre, mas convertê-lo em salvo-conduto permanente.
O argumento da comida
O momento mais revelador do discurso, na leitura do El País, foi a pergunta retórica sobre que tipo de genocida permitiria a entrada de vacinas e alimentos. Para a plateia doméstica, soava como generosidade. Fora dela, soava como confissão de poder: quem permite comer é quem decide se se come. E é precisamente esse controle que o Tribunal Penal Internacional incluiu nos mandados de prisão de novembro de 202411 contra Netanyahu e o ex-ministro Yoav Gallant, ao listar o uso da fome como método de guerra.
Os números disponíveis hoje mostram por que o debate não se resolve no volume. Segundo dados do órgão militar israelense COGAT citados pelo American Jewish Committee9, cerca de 1,78 milhão de toneladas de alimentos entraram em Gaza entre outubro de 2025 e junho de 2026, após o cessar-fogo. A análise conjunta divulgada em julho pela UNICEF e outras agências da ONU10 confirma a melhora, mas a classifica como frágil: cerca de 212 mil pessoas ainda estavam em situação de emergência alimentar, e apenas uma passagem, Kerem Shalom, permanecia aberta, deixando a maior parte da população dependente de ajuda.
As duas fontes descrevem o mesmo fato por ângulos diferentes. A quantidade de comida aumentou; o controle sobre ela continua concentrado em uma única porta. A questão jurídica levantada em Haia nunca foi se alimentos entram, mas quem tem o poder de abrir e fechar a torneira, e com que critério. A pergunta de Netanyahu na tribuna, em vez de rebater a acusação, a descreveu.
Quem fala só para os seus
A lógica de falar apenas para o próprio público não se limitou ao plenário de Nova York. Na véspera do discurso, o Comitê Central de Eleições de Israel votou por 18 a 5 para barrar tanto a Ra'am quanto a Lista Conjunta, as duas principais legendas árabes, da disputa de outubro, como detalha a Al Jazeera6. O Jerusalem Post8 registrou que a procuradoria-geral considerou as provas insuficientes para o patamar legal exigido. No dia seguinte, segundo a Jewish Telegraphic Agency7, o mesmo comitê manteve na cédula os partidos da extrema direita judaica.
A decisão ainda pode ser revertida pela Suprema Corte, que tem histórico de derrubar exclusões desse tipo, e o centro jurídico Adalah17, que representa as legendas, já anunciou recurso. Mas o gesto importa mesmo que caia. Os cidadãos palestinos de Israel somam cerca de um quinto da população. Um sistema que ensaia retirá-los da representação política faz, dentro de casa, o que o discurso fez na ONU: reduz o círculo dos que precisam ser ouvidos àqueles que já concordam.
O espelho brasileiro
O Brasil não assistiu a esse episódio da plateia. Dois dias antes de Netanyahu, Lula abriu o debate geral classificando a ofensiva em Gaza como genocídio e afirmando que perseguir o Tribunal Penal Internacional estimula a impunidade, como mostra a íntegra publicada pelo Poder36012. No mesmo discurso, reproduzido pela CNN Brasil13, o presidente também reconheceu que civis israelenses pagaram o preço do terrorismo do Hamas. Desde julho de 2025, o país está formalmente engajado na ação da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, segundo anúncio do Itamaraty noticiado pelo InfoMoney14, decisão que o governo israelense chamou de "fracasso moral", conforme a CNN Brasil15.
O argumento de Martínez-Bascuñán, contudo, também vale como advertência para quem critica Israel. Em fevereiro de 2024, quando Lula comparou a guerra em Gaza ao Holocausto, como registrou a Al Jazeera16, entregou a Netanyahu exatamente o tipo de agravio que alimenta a narrativa da vítima perpétua. Uma frase pensada para ressoar entre os próprios apoiadores foi ouvida, e julgada, por todos. A lição é simétrica: quem fala só para os seus perde a capacidade de ouvir como suas palavras soam do lado de fora, seja qual for o lado.
E há uma coincidência de calendário difícil de ignorar. O Brasil vota em 4 de outubro, três semanas antes de Israel. Campanhas eleitorais são, por natureza, o terreno mais fértil para o discurso dirigido apenas à própria bolha, em que o adversário vira inimigo e cada crítica se converte em prova de perseguição. A tentação que Netanyahu encenou na ONU não tem nacionalidade.
O que dizem os que discordam dessa leitura
Defensores do governo israelense sustentam que Israel enfrenta ameaças existenciais concretas, do Hamas ao programa nuclear iraniano, e que a memória do 7 de outubro não é retórica, mas trauma nacional recente. Lembram que a Corte Internacional de Justiça ainda não julgou o mérito da acusação de genocídio e que juristas respeitados, como a ex-juíza da Suprema Corte do Canadá Rosalie Abella, consideram o próprio caso um desvirtuamento da ordem jurídica do pós-guerra. Os dados do COGAT sobre o aumento da ajuda também são usados para contestar a tese da fome deliberada.
Há ainda uma objeção que atinge o próprio argumento do El País: se o multilateralismo exige falar diante dos que não são dos nossos, também exige ficar para ouvi-los. A saída em massa do plenário é um gesto legítimo de protesto, mas é igualmente uma recusa de escuta. Um fórum em que ninguém permanece sentado para ouvir o adversário não é um espaço de aparição; é uma soma de solilóquios.
O que está em jogo para o multilateralismo
A coluna de Martínez-Bascuñán termina lembrando que o mundo não desaparece porque alguém deixa de olhar para ele, e que o multilateralismo servia, antes de tudo, para nos obrigar a falar diante de quem não consideramos dos nossos e a escutar o que dizemos com os ouvidos espantados dos outros. É uma definição exigente, e talvez por isso esteja em desuso.
O retrato que fica desta Assembleia Geral é o de um plenário em que cada ator discursa para a própria audiência: Netanyahu para o eleitor de outubro, as delegações que saíram para as suas opiniões públicas, as grandes potências para os seus aliados. A ONU nunca foi capaz de impor sanções a quem tem poder de veto. O que ela oferecia era mais modesto e mais frágil: um lugar onde a violação da regra ainda custava algum constrangimento. Se esse custo desaparece, as normas continuam escritas, mas deixam de obrigar. A pergunta para os próximos anos não é se o direito internacional sobreviverá no papel, mas se ainda haverá alguém disposto a ser envergonhado por ele.
Perguntas frequentes
Por que delegações deixaram o plenário durante o discurso de Netanyahu na ONU em 2026?
Em 24 de setembro de 2026, representantes de cerca de 70 países saíram ou não compareceram ao discurso, em protesto contra a conduta de Israel em Gaza. O Brasil esteve entre eles, segundo a agência Anadolu.
O que significa a ideia de "vítima perpétua"?
É a estratégia de tratar a condição de vítima como identidade permanente de um grupo, o que blinda suas ações contra críticas. O contra-argumento é que ser vítima é uma posição determinada pelos fatos de cada situação.
Do que o Tribunal Penal Internacional acusa Netanyahu?
Os mandados de 21 de novembro de 2024 citam supostos crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra. Israel rejeita a jurisdição do tribunal e as acusações.
Os partidos árabes estão fora das eleições israelenses de 27 de outubro?
O Comitê Central de Eleições votou por barrá-los, mas a decisão não é definitiva. A Suprema Corte deve julgar os recursos e costuma reverter exclusões desse tipo.
Qual é a posição do Brasil?
O governo classifica a ofensiva em Gaza como genocídio, participa da ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça e defendeu o TPI na abertura da Assembleia Geral de 2026.
Ewerton Lopes — Curador Editorial