Caderno Filosofia · Inteligência artificial e autoria
Durante algumas semanas de setembro de 2026, um romance de estreia foi o livro do momento na França. C'était ça ou mourir, do escritor canadense de origem haitiana Thélyson Orélien, lançado primeiro no Canadá e depois pela editora Grasset, vendeu cerca de 35 mil exemplares, recebeu o prêmio do romance Fnac e entrou nas primeiras listas do Goncourt, do Renaudot, do Femina e do Médicis, segundo o KultureGeek.5 No dia 25, a Académie Goncourt anunciou que o retirava da seleção por considerar que a obra seria, com toda a probabilidade, em grande parte produto de inteligência artificial.2 O autor nega.
O episódio tem um lado policial, que segue em disputa, e um lado filosófico, que já não depende do veredito. É desse segundo lado que trata o colunista Yves Boisvert em texto publicado no La Presse, de Montreal.1 A tese dele é desconfortável: o problema não é descobrir se um livro específico foi escrito por uma máquina, mas aceitar o que a simples possibilidade faz com a imagem que temos de nós mesmos.
O que se sabe sobre o caso Orélien
As acusações começaram em 21 de setembro, quando uma conta anônima na rede X, chamada Balance ton Claude, divulgou resultados do detector Pangram apontando geração artificial em boa parte do texto, conforme reportagem da franceinfo.3 Dias depois, o ensaísta Samuel Fitoussi assumiu estar por trás da conta, que diz representar um coletivo.2 Um teste com o Pangram descrito pela Radio-Canada atribuiu origem artificial a 94% do romance, enquanto outros concorrentes do Goncourt apareceram como integralmente humanos.4
A decisão da Académie não se apoia só no software. O comunicado menciona a convergência de análises de pesquisadores e jornalistas e também plágios identificados em textos anteriores do autor, que não envolvem o romance, mas ao menos um conto e artigos publicados no Canadá.2 Orélien declarou não ver motivo para recorrer a uma máquina para escrever e disse haver uma tentativa de silenciá-lo; sua editora falou em campanha de ódio.2,3
O argumento do “pequeno fim do mundo”
Boisvert organiza sua reflexão em degraus. O primeiro é quase técnico: se jurados que leram de tudo, os cidadãos mais experientes da república das letras, puderam ser enganados, então ninguém mais consegue separar com segurança o que é humano na escrita. Ninguém, observa ele com ironia, exceto outra máquina.1
O segundo degrau é existencial. O colunista recorda uma frase de Flaubert que sublinhou a lápis, décadas atrás, numa edição de bolso de Madame Bovary:
A palavra humana é como um caldeirão rachado em que batemos melodias para fazer dançar os ursos, quando gostaríamos de comover as estrelas. Gustave Flaubert, Madame Bovary (1857), tradução livre
A imagem descreve o esforço e a insuficiência de escrever. O que assusta Boisvert é que a máquina parece reproduzir justamente essa insuficiência, com os pequenos desvios e imperfeições que costumamos chamar de estilo. No terceiro degrau, ele inverte o consolo que circulava nos primeiros anos da IA generativa, segundo o qual a máquina apenas sintetiza enquanto o humano pensa com originalidade. Diante do robô, confessa, sente que ele próprio mal pensa: recombina dados escassos, incompletos e muitas vezes errados.1
O ponto mais preciso da coluna vem de uma comparação com o ciclismo. Ler um livro suspeito não seria como ver Lance Armstrong vencer sabendo do doping. Na formulação do colunista, c'est la bicyclette elle-même qui est dégradée
: é a própria bicicleta que se degrada.1 A observação é mais fina do que parece. A fraude esportiva corrompe uma competição; a suspeita sobre a autoria corrói o valor do próprio objeto. O leitor que abandonou o romance no meio não mudou de opinião sobre a qualidade das frases. Mudou de opinião sobre o que elas significavam.
De Deep Thought a Deep Blue: o ensaio geral
Boisvert estava em Nova York em 1989, quando Garry Kasparov, então campeão mundial de xadrez, enfrentou o computador Deep Thought diante de dezenas de grandes mestres e venceu. Depois da partida, Kasparov defendeu que o xadrez tinha um componente criativo, quase artístico, exclusivo dos humanos.1 Em maio de 1997, uma versão aprimorada, o Deep Blue da IBM, derrotou o próprio Kasparov numa revanche que marcou o fim da supremacia humana no jogo.
Na época, a derrota foi lida como triunfo da força bruta de cálculo, e não do pensamento. O colunista sugere que ela era um prólogo. Vale registrar, porém, um dado que complica a leitura apocalíptica: o xadrez não morreu. Continua sendo disputado entre pessoas, e as máquinas se tornaram ferramenta de treino e análise. A pergunta aberta é se a literatura seguirá o mesmo caminho, ou se a escrita, por lidar com sentido e não com vitória, é mais vulnerável à perda de confiança.
A quarta ferida do orgulho humano
Boisvert encerra evocando Copérnico: a humanidade que já descobriu não estar no centro do universo agora se vê encolhida diante de cérebros gigantes.1 A imagem remete a uma tradição conhecida. Em 1917, no ensaio Uma dificuldade no caminho da psicanálise, Sigmund Freud descreveu três golpes ao narcisismo humano: o cosmológico, com Copérnico, que tirou a Terra do centro; o biológico, com Darwin, que inscreveu o homem entre os animais; e o psicológico, com a própria psicanálise, que mostrou que o eu não é senhor em sua casa.9
Quase um século depois, o filósofo italiano Luciano Floridi propôs em The Fourth Revolution (2014) acrescentar Alan Turing à série: a computação nos teria deslocado da posição de únicos seres capazes de processar informação de modo inteligente.10 O caso Goncourt leva esse deslocamento do plano abstrato para o íntimo. Já não se trata de calcular, jogar ou classificar, mas de escrever frases que emocionam leitores treinados, o território onde a cultura ocidental guardava sua definição mais cara do humano.
O detector como novo tribunal
Se ninguém distingue o humano do artificial a olho nu, alguém precisa distinguir por outros meios. E aqui a ironia de Boisvert ganha concretude: quem acusou o romance foi um software. A empresa por trás do Pangram afirma ter uma taxa de falsos positivos de 1 em cada 10 mil textos. Um estudo acadêmico do qual participou a professora Marzena Karpinska, da Universidade Simon Fraser, encontrou 2%, embora ela avalie que a ferramenta melhorou muito nos dois anos seguintes.4
Orélien levantou a hipótese de que seu estilo caribenho teria enganado o detector. Karpinska considera a explicação difícil de sustentar, porque o texto continua sendo classificado como artificial mesmo quando traduzido para o inglês, o que não acontece com textos humanos submetidos ao mesmo procedimento em suas pesquisas.4 Por outro lado, a AFP identificou ferramentas concorrentes, como Detectgpt e Ghostbuster, que não apontaram uso de IA no livro, segundo o IntelliNews.6 A própria franceinfo lembra que o resultado de um detector não constitui prova definitiva.3
O dado filosófico está na delegação. Uma comunidade de leitores, críticos e jurados admite não saber julgar a humanidade de um texto e transfere esse julgamento a um modelo estatístico. Não é necessariamente um erro, já que a instituição combinou o software com outras evidências. Mas é uma mudança de regime: a autoria, que era atestada por reputação e confiança, passa a ser tratada como probabilidade.
O Brasil já passou por uma versão deste debate
Em novembro de 2023, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) desclassificou do Prêmio Jabuti uma edição de Frankenstein, do Clube de Literatura Clássica, que concorria na categoria Ilustração. As imagens haviam sido criadas pelo designer Vicente Pessôa com a ferramenta Midjourney, e a coautoria estava declarada na ficha catalográfica. A CBL informou que o regulamento não contemplava obras produzidas com IA e que o caso foi deliberado pela curadoria, conforme noticiou o Canaltech.7
A comparação ajuda a separar duas perguntas que costumam aparecer misturadas. No Jabuti, o uso da máquina era declarado, e a questão era normativa: obras feitas com IA podem competir? No Goncourt, o uso é alegado e negado, e a questão é de honestidade: houve omissão? A primeira pergunta se resolve com regulamento. A segunda exige prova, e é justamente a prova que se tornou incerta.
A legislação brasileira oferece um ponto de partida. O artigo 11 da Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998) define autor como a pessoa física criadora da obra.12 Pela letra da lei, a máquina não é autora. O que a lei não resolve é quanto de contribuição humana basta para que alguém responda por um texto produzido com auxílio de IA, tema que o debate regulatório sobre inteligência artificial no Congresso ainda discute.
Contraponto
Crise de prestígio, não fim do mundo
Há quem veja no caso menos um abalo da condição humana e mais uma crise de prestígio de certas instituições. Em artigo publicado no PublishNews sobre o episódio do Jabuti, Lu Magalhães lembrou que pintores do século 19 negaram à fotografia o status de arte, e argumentou que proibir ou ignorar a tecnologia não é o caminho, ainda que a proteção dos direitos autorais precise de novos mecanismos.8
Há também um argumento de teoria literária. Em 1967, Roland Barthes sustentou em A morte do autor que o sentido de um texto se realiza no leitor, não na biografia de quem escreveu.13 Sob essa ótica, os leitores que se emocionaram com o romance tiveram uma experiência real, e o desencanto posterior revela sobretudo o quanto valorizamos a narrativa do esforço e da trajetória pessoal. Isso é um fato sobre nossos critérios de valor, não uma prova de superioridade humana. O problema ético central, se confirmado, seria a omissão diante de leitores e jurados, e não a ferramenta em si.
O que resta a quem escreve
Se a lista de coisas que só humanos fazem está encolhendo, talvez a pergunta útil não seja o que nos distingue na execução, mas o que nos distingue na responsabilidade. Um modelo de linguagem produz frases; não responde por elas. Não assina contrato, não sustenta uma posição diante de críticas, não pode ser cobrado por plágio nem perdoado por um erro. O regulamento do Jabuti, citado por um jurado na época, diz que o autor responde pela originalidade e pela autoria do material inscrito.7 A palavra decisiva é “responde”.
Essa leitura não anula a inquietação de Boisvert, que termina a coluna dizendo, com humor, que seria menos perturbador ver guaxinins compondo música.1 Mas desloca o eixo do debate. O pequeno fim do mundo pode ser o fim de uma lista, a do que só o humano consegue fazer. Não é o fim da pergunta sobre o que o humano deve assumir quando escreve, publica e pede para ser lido.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com o romance C'était ça ou mourir no Prêmio Goncourt?
Em 25 de setembro de 2026, a Académie Goncourt retirou o romance de Thélyson Orélien de sua primeira seleção de 16 livros, alegando que a obra seria provavelmente em grande parte gerada por inteligência artificial e citando plágios em textos anteriores do autor. Orélien nega ter usado IA.
Detectores de IA como o Pangram são prova de que um texto foi escrito por máquina?
Não de forma definitiva. O Pangram declara baixa taxa de falsos positivos, e pesquisadores o consideram relativamente confiável, mas não infalível. Outras ferramentas deram resultados divergentes no caso Orélien, e especialistas lembram que o resultado de um detector indica probabilidade, não certeza.
O que é a “quarta ferida narcísica” da humanidade?
É uma extensão da ideia de Freud, que descreveu três golpes ao orgulho humano: Copérnico, Darwin e a psicanálise. O filósofo Luciano Floridi propôs uma quarta revolução, associada a Alan Turing, na qual os humanos deixam de ser os únicos capazes de processar informação de modo inteligente. A IA que escreve literatura torna esse deslocamento mais íntimo.
Como o Brasil tratou obras feitas com IA em prêmios literários?
Em 2023, a Câmara Brasileira do Livro desclassificou do Prêmio Jabuti uma edição de Frankenstein ilustrada com a ferramenta Midjourney, afirmando que o regulamento não previa obras produzidas com IA e que o caso foi decidido pela curadoria.
Uma inteligência artificial pode ser considerada autora no Brasil?
Pela Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), autor é a pessoa física criadora da obra, o que exclui a máquina como titular. Permanece em discussão quanto de contribuição humana é necessário para que uma obra feita com auxílio de IA seja protegida.