Caderno História · Patrimônio e cidades
Em resumo
- Em 21 de setembro de 2026, especialistas chineses e franceses se reuniram em Pequim no Salão China-França de Diálogo sobre Patrimônio Cultural para discutir proteção, revitalização e intercâmbio.
- Shan Jixiang, ex-diretor do Museu do Palácio, sustentou que proteger o patrimônio significa permitir que a história continue, e não paralisar a cidade.
- O Eixo Central de Pequim, inscrito pela Unesco em 2024, e o Grande Canal, inscrito em 2014, são apresentados como exemplos de patrimônio vivo; o Canal du Midi francês serviu de referência.
- No Brasil, o Palácio Capanema, a Pampulha, Brasília e os Teatros da Amazônia mostram que o moderno de ontem vira patrimônio, e que reconhecimento sem gestão continua frágil.
Preservar sem congelar: a tese apresentada em Pequim
Em 1983, um estudante chinês de urbanismo e arquitetura chegou a Paris e notou algo que o acompanharia pelas quatro décadas seguintes: uma cidade antiga não precisa escolher entre guardar o passado e viver o presente. O estudante era Shan Jixiang, que mais tarde dirigiria o Museu do Palácio, instituição responsável pela Cidade Proibida, e que hoje preside o comitê de especialistas da Sociedade Chinesa de Relíquias Culturais. O relato abre o texto que ele assina ao lado de Guo Jingning e Constance Rivière no China Daily, publicado em 30 de setembro a partir das falas do encontro realizado no Beijing Administration Institute.1
O argumento de Shan parte de uma observação urbana. Paris, segundo ele, mostrou que o planejamento pode manter a estrutura, as cores e as texturas de uma cidade sem transformá-la em museu a céu aberto. Pequim, na leitura do especialista, compartilha com a capital francesa uma relação densa entre pessoas, arquitetura e natureza. Daí a frase que sintetiza sua posição:
"Não devemos congelar a história; devemos permitir que ela continue."
Shan Jixiang, no China Daily (tradução livre)
A ideia ganhou peso institucional com o Eixo Central de Pequim. Inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em julho de 2024, durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, em Nova Délhi, o conjunto se estende por 7,8 quilômetros e reúne 15 componentes, do Portão Yongding, ao sul, às Torres do Sino e do Tambor, ao norte, segundo o China Daily Hong Kong.2 A área protegida soma 589 hectares, cercada por uma zona de amortecimento de 4.542 hectares, conforme comunicado divulgado pelo governo chinês.3
Para Shan, o eixo não é uma coleção de monumentos, mas a estrutura que organiza uma cidade em funcionamento, com bairros históricos e casas de pátio protegidos ao redor. A Universidade Tsinghua, cujos pesquisadores participaram da candidatura por mais de 15 anos, registra que o caráter vivo do conjunto foi um dos pilares do dossiê apresentado à Unesco.4
Canais, arquitetos e museus: como funciona a troca entre China e França
O texto de Shan dá ao intercâmbio franco-chinês um papel prático. Quando a China preparava a candidatura do Grande Canal, sistema hidroviário que liga Pequim à província de Zhejiang, a experiência francesa com o Canal du Midi, obra do século 17 que conecta o Atlântico ao Mediterrâneo, ofereceu lições de gestão.1 O canal chinês foi inscrito em 2014. A Cité de l'architecture et du patrimoine, em Paris, descreve a estratégia adotada: todo o percurso foi protegido no plano do planejamento, mas apenas cerca de um terço dos trechos foi levado à inscrição, resultado que frustrou parte dos conservacionistas.5
O segundo exemplo é Le Corbusier. Shan conta que, ainda estudante, fotografava edifícios do arquiteto franco-suíço sem imaginar que viriam a ser patrimônio mundial. A virada ocorreu em 17 de julho de 2016, quando o Comitê do Patrimônio Mundial, reunido em Istambul, inscreveu 17 obras dele espalhadas por sete países, apresentadas pela Unesco como testemunho de uma nova linguagem arquitetônica que rompeu com o passado.6 A conclusão do especialista chinês é direta: aquilo que hoje chamamos de moderno pode ser o patrimônio de amanhã.
O terceiro eixo são os museus. Shan lembra que Versalhes, o Louvre, o Museu do Palácio e o sítio arqueológico de Sanxingdui trocaram exposições por décadas, com filas de horas nos dois países. O ponto central, para ele, não está em uma civilização se explicar à outra, mas em cada uma passar a enxergar a própria história de outro modo depois do contato.1
A presença de Constance Rivière no painel reforça esse ângulo. Ela dirige desde 2022 o Palais de la Porte Dorée, em Paris, edifício construído para a Exposição Colonial de 1931 que hoje abriga o Museu Nacional da História da Imigração, conforme o Ministério da Cultura da França.7 É um caso concreto de patrimônio que continua em uso porque foi ressignificado. O trecho divulgado pelo jornal, porém, concentra-se na intervenção de Shan.
O que o Brasil tem a ver com isso
A frase sobre o moderno que vira patrimônio tem tradução literal no Brasil. Na mesma manhã de 2016 em que a obra de Le Corbusier entrou na lista, a Unesco inscreveu o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, projeto urbano criado em 1940 com edifícios de Oscar Niemeyer e paisagismo de Roberto Burle Marx.6
O elo mais direto, no entanto, está no Rio de Janeiro. O Palácio Gustavo Capanema, antiga sede do Ministério da Educação e Saúde, foi projetado a partir de 1936 por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos e Jorge Machado Moreira, com consultoria de Le Corbusier, e foi tombado pelo Iphan em 1948, poucos anos após a conclusão das obras. Em 2021, o edifício apareceu numa lista de imóveis federais passíveis de venda, o que levou o Ministério Público Federal a lembrar que a lei de 1937 impede a alienação de bens tombados a particulares, como registrou o Consultor Jurídico.8 A Justiça Federal acabou proibindo a venda, segundo o Extra Classe.9 O prédio foi reaberto como centro cultural depois de uma restauração de mais de R$ 80 milhões, informou o Diário do Rio.10
Brasília percorreu caminho parecido em escala urbana. Inaugurada em 1960, a capital entrou na Lista do Patrimônio Mundial em 7 de dezembro de 1987, segundo o Jornal de Brasília, com apenas 27 anos de existência.11 É um dos raros casos de cidade reconhecida ainda dentro do tempo de vida de quem a construiu, e a convivência entre o plano tombado e a cidade que cresce ao redor reproduz, em versão brasileira, o dilema descrito por Shan.
O caso mais recente reforça o vínculo com a França. Em 27 de julho de 2026, durante a 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, em Busan, na Coreia do Sul, o Theatro da Paz, em Belém, e o Teatro Amazonas, em Manaus, foram reconhecidos sob o nome de Teatros da Amazônia, informou O Liberal.12 Com a inscrição, o Brasil chegou a 26 bens na lista, sendo 16 culturais, nove naturais e um misto, e a Região Norte ganhou seu primeiro bem cultural reconhecido, segundo o Correio Braziliense.13 Os dois edifícios foram inspirados na arquitetura francesa, de acordo com o comunicado da Unesco reproduzido pelo Estado de Minas.14
O título, porém, não resolve a gestão. Em fevereiro de 2025, o Ministério Público Federal recomendou ao Iphan a criação de comitês gestores e planos de gestão participativos para todos os bens culturais e mistos do Patrimônio Mundial no país, apontando que a ausência dessa estrutura compromete a preservação e o cumprimento dos compromissos assumidos perante a Unesco.15 Patrimônio vivo, no sentido defendido em Pequim, depende justamente dessa engrenagem cotidiana: moradores, usos, orçamento e regras claras para o que pode mudar.
O que o discurso do patrimônio vivo deixa de fora
A expressão "deixar a história continuar" admite leituras opostas. Em Pequim, a modernização das últimas décadas derrubou boa parte dos hutongs, as vielas tradicionais da cidade antiga. Em 2007, a demolição de casas em Dongsi Batiao, à beira de uma zona de preservação, mostrou que muitos moradores apoiavam a remoção, mas consideravam a indenização insuficiente para comprar outro imóvel na cidade, relatou o Christian Science Monitor.16 Projetos de "restauração" ao redor das Torres do Sino e do Tambor também foram criticados por especialistas como He Shuzhong, fundador do Centro de Proteção do Patrimônio Cultural de Pequim, para quem a reconstrução de um cenário da dinastia Qing apagaria camadas reais de história, segundo reportagem do GlobalPost.17 O próprio Portão Yongding, extremo sul do Eixo Central, foi demolido em 1957 e reconstruído em 2004 e 2005.4
Há ainda a dimensão diplomática. O texto foi publicado em um jornal estatal e integra uma agenda de cooperação cultural entre governos, o que não invalida os argumentos, mas recomenda lê-los também como parte de uma estratégia de imagem internacional.
No Brasil, a celebração dos Teatros da Amazônia convive com o lado menos visível do ciclo da borracha. Historiadores lembram que a riqueza do período teve como base trabalho forçado que dizimou populações indígenas da região, como registrou a reportagem da AFP publicada pelo Estado de Minas.14 Um patrimônio que continua vivo também continua em disputa sobre quais histórias conta.
Por que o debate importa agora
O encontro de Pequim oferece três pontos úteis para a discussão brasileira. O primeiro é que a inscrição na lista da Unesco funciona como ponto de partida, e não de chegada: tanto o Grande Canal quanto o Eixo Central vieram acompanhados de planos de gestão de longo prazo, exigência que o Ministério Público Federal cobra do Iphan para os bens brasileiros.
O segundo é temporal. O intervalo entre a construção e o reconhecimento encolheu ao longo do século 20, e a arquitetura moderna brasileira está no centro dessa mudança. O episódio do Capanema mostra que a proteção formal de um edifício não o blinda contra decisões administrativas que tratam patrimônio como ativo imobiliário.
O terceiro é o mais difícil de medir. Shan sustenta que o intercâmbio vale menos por exibir objetos e mais por alterar o modo como cada país enxerga a própria herança. O Brasil, cuja arquitetura moderna nasceu em diálogo com a França e cujos teatros amazônicos copiaram modelos europeus, tem material de sobra para esse exercício, desde que inclua no inventário também as perdas e os conflitos.
Perguntas frequentes
O que foi o Salão China-França de Diálogo sobre Patrimônio Cultural?
Foi um encontro realizado em 21 de setembro de 2026 no Beijing Administration Institute, em Pequim, que reuniu especialistas e profissionais de patrimônio da China e da França para discutir proteção, revitalização e intercâmbio cultural. Reflexões de três participantes foram publicadas pelo China Daily em 30 de setembro.
O que significa patrimônio vivo?
É a abordagem segundo a qual um bem histórico deve continuar em uso pela sociedade, com moradores, atividades e transformações controladas, em vez de ser isolado como peça de museu. Shan Jixiang resume a ideia ao dizer que a preservação não deve congelar a história, e sim permitir que ela continue.
Quando o Eixo Central de Pequim se tornou Patrimônio Mundial?
Em julho de 2024, na 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, em Nova Délhi. O conjunto tem 7,8 km, 15 componentes e cerca de 589 hectares, e foi o 59º bem chinês inscrito na lista.
Qual a relação entre Le Corbusier e o patrimônio brasileiro?
Le Corbusier foi consultor do projeto do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, iniciado em 1936 e tombado pelo Iphan em 1948. Em 2016, 17 obras do arquiteto foram inscritas pela Unesco na mesma sessão que reconheceu o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte.
Quantos bens o Brasil tem na Lista do Patrimônio Mundial?
Desde a inscrição dos Teatros da Amazônia, em julho de 2026, o Brasil soma 26 bens: 16 culturais, nove naturais e um misto.
Quais são as críticas à política de preservação em Pequim?
Críticos apontam a demolição de grande parte dos hutongs, remoções com indenizações consideradas insuficientes e reconstruções que substituem construções antigas por réplicas, como o Portão Yongding, demolido em 1957 e reerguido em 2004 e 2005.
Este artigo foi produzido a partir do texto "Heritage endures when the past keeps moving forward", de Shan Jixiang, Guo Jingning e Constance Rivière, publicado pelo China Daily em 30 de setembro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz integralmente o original; o trecho citado aparece em tradução livre, com os devidos créditos. As demais informações foram apuradas em fontes independentes indicadas ao longo do texto.
Referências
- SHAN, Jixiang; GUO, Jingning; RIVIÈRE, Constance. Heritage endures when the past keeps moving forward. China Daily Global, 30 set. 2026. https://www.chinadaily.com.cn/a/202609/30/WS6abc6244e4b06d4aa0560f0d.html
- China Daily Hong Kong. Beijing Central Axis listed as World Heritage Site, 29 jul. 2024.
- Governo da República Popular da China / Xinhua. Beijing Central Axis on UNESCO World Heritage List, 27 jul. 2024.
- Universidade Tsinghua. Living culture: the continuing evolution of the Beijing Central Axis, 2024.
- Cité de l'architecture et du patrimoine. The Grand Canal of China.
- Unesco, Centro do Patrimônio Mundial. Four new sites inscribed on UNESCO's World Heritage List, 17 jul. 2016.
- Ministère de la Culture (França). Constance Rivière nommée directrice générale de l'établissement public du Palais de la Porte Dorée, 2022.
- Consultor Jurídico. MPF recomenda que governo não venda Palácio Capanema, no Rio, 26 set. 2021.
- Extra Classe. Palácio Capanema não poderá ser vendido, decide juíza.
- Diário do Rio. O que encontrar no Palácio Capanema, que será reaberto como Centro Cultural.
- Jornal de Brasília. Maior patrimônio histórico e cultural é o conhecimento, 29 jan. 2021.
- O Liberal. Theatro da Paz é reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, 27 jul. 2026.
- Correio Braziliense. Teatros da Amazônia entram para lista de Patrimônio Mundial da Unesco, 27 jul. 2026.
- Estado de Minas / AFP. Theatro da Paz e Teatro Amazonas são declarados Patrimônio Mundial da Unesco, 27 jul. 2026.
- Ministério Público Federal. MPF recomenda ao Iphan gestão adequada de todos os bens do Patrimônio Mundial que estão no Brasil, 26 fev. 2025.
- The Christian Science Monitor. A wrecking ball for Beijing's history, 25 maio 2007.
- GlobalPost / Yahoo News. History vs. history: plan to bulldoze courtyard homes for 18th-century-style square in Beijing.