Política · Análise Internacional
Em 30 de junho de 2026, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, subiu ao palco para provocar o fantasma de Friedrich Hayek e prometer que o socialismo resolveria décadas de má gestão do capitalismo. No mesmo dia, do outro lado do espectro partidário, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, descartava Milton Friedman como irrelevante em um mundo dominado pelo que ele chama de liberalismo globalizado.1 Um socialista declarado e um republicano que ocupa o segundo cargo mais importante do país miravam, na mesma tarde, os mesmos alvos.
O episódio ilustra algo que analistas políticos vêm chamando de "partido ferradura": a aproximação entre a ala populista da direita e a esquerda progressista, cada vez mais distantes dos centros de seus próprios partidos e cada vez mais parecidas entre si.2
O que é a teoria da ferradura
A expressão "teoria da ferradura" foi cunhada no início dos anos 2000 pelo filósofo francês Jean-Pierre Faye, em seu livro Le Siècle des Idéologies, para descrever como o espectro político não se comporta como uma linha reta que vai do comunismo ao fascismo, mas como uma ferradura cujas pontas se aproximam. Nessa leitura, extrema esquerda e extrema direita teriam mais em comum entre si do que qualquer uma delas com o centro político de seu próprio campo.3
No caso americano descrito pelo WSJ, essa proximidade aparece em três eixos: desconfiança do livre mercado e da globalização, apetite por um Estado maior e mais intervencionista, e uma leitura do mundo centrada em identidade, na qual "o povo comum" está sempre em disputa contra uma elite global, incluindo as próprias cúpulas partidárias.
Os extremos concordam que as elites os traíram. Discordam, e muito, sobre quem são essas elites e o que fazer com elas.
As alianças documentadas na reportagem são reveladoras. A senadora progressista Elizabeth Warren se uniu ao republicano Bernie Moreno para propor aumento da contribuição previdenciária sobre altos salários. O progressista Ro Khanna e o libertário conservador Thomas Massie forçaram juntos a divulgação dos arquivos do caso Jeffrey Epstein. O agitador de direita Steve Bannon apoiou publicamente a cruzada de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez contra a expansão de data centers. E o próprio presidente Donald Trump chegou a concordar com a pré-candidata democrata Abdul El-Sayed sobre o fim do filibuster no Senado.1
As raízes de um populismo compartilhado
Sanders e Trump, aponta a reportagem original, têm mais em comum do que gostariam de admitir: são octogenários nascidos em Nova York, formaram sua visão de mundo décadas atrás e hoje defendem versões distintas do mesmo impulso nacionalista econômico. Sanders propôs nacionalizar petrolíferas nos anos 1970 e hoje defende que o Estado detenha metade do capital de empresas de inteligência artificial. Trump já defendeu tomar reservas de petróleo no Oriente Médio e recentemente assumiu participações em empresas privadas, incluindo negociações para fazer o mesmo no setor de IA.
O analista Andy Laperriere, da Piper Sandler, resume o fenômeno como uma espécie de reeducação ideológica: eleitores republicanos passaram a enxergar o sistema econômico como manipulado contra o cidadão comum, uma leitura historicamente associada à esquerda. Não por acaso, bandeiras nascidas no campo progressista, como limitar o reajuste de medicamentos à inflação, proibir grandes investidores de comprar imóveis residenciais e elevar o salário mínimo federal, hoje reúnem apoio de cerca de 70% do eleitorado americano, incluindo eleitores republicanos.
Quando a identidade pesa mais que a economia
Se a economia aproxima os extremos, a identidade os separa de novo, ainda que de formas espelhadas. A direita populista de Vance constrói sua base em torno de imigração e reação a políticas de diversidade. A esquerda de Mamdani e Sanders mobiliza sua militância em torno de temas como colonialismo, racismo estrutural e, de forma crescente, a posição dos Estados Unidos em relação a Israel e Gaza. Segundo pesquisa citada na reportagem original, 62% dos eleitores de Mamdani apontaram o apoio à causa palestina como fator relevante de voto, uma pauta que encontra ecos inesperados até em vozes conservadoras como o apresentador Tucker Carlson.
Contraponto
Nem todo cientista político compra a teoria da ferradura. Críticos argumentam que ela serve, sobretudo, a comentaristas centristas interessados em desqualificar a esquerda sem reconhecer a própria cumplicidade histórica com a extrema direita. Historicamente, dizem esses críticos, foram justamente lideranças liberais de centro, na Espanha, no Chile e no próprio Brasil, que ajudaram governos de extrema direita a chegar e permanecer no poder, preferindo um autoritário à possibilidade de um governo socialista.4 Para essa leitura, tratar esquerda e direita radicais como equivalentes esconde diferenças de origem, de projeto de sociedade e de relação com a violência institucional que nenhuma ferradura resume.
O eco brasileiro: quando o ABC e a indústria falam a mesma língua
O debate não é exclusividade americana. Institutos e colunistas brasileiros discutem a teoria da ferradura há anos como chave de leitura para um país onde a polarização entre bolsonarismo e lulismo dominou a última década.5 E, como nos Estados Unidos, é no terreno econômico que a ferradura brasileira mais se fecha.
Um exemplo recente ilustra bem o fenômeno. Em 2025 e 2026, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, entidades historicamente ligadas ao PT e à esquerda sindical brasileira, se colocaram ao lado da Anfavea, entidade que representa as montadoras tradicionais, para defender a manutenção do cronograma de aumento de tarifas de importação sobre veículos elétricos chineses. O argumento de ambos os lados, apesar de vir de tradições políticas opostas, foi o mesmo: proteger empregos e cadeia produtiva nacional diante da concorrência da BYD e de outras fabricantes chinesas.8 É exatamente o tipo de convergência nacionalista econômica que a reportagem do WSJ identifica entre Sanders e Trump em relação a tarifas e protecionismo industrial.
O pano de fundo brasileiro também ajuda a explicar a atração pelas margens. Levantamentos recentes mostram o centro político encolhendo no Congresso Nacional: o bloco de centro no Senado caiu de 48% das cadeiras para 33% entre 2019 e 2025, enquanto a bancada de direita e centro-direita saltou de 27% para 46% no mesmo período.7 Análises sobre a corrida eleitoral de 2026 chegam a conclusão parecida: a chamada terceira via segue mais como conceito do que como projeto político viável, por falta de nomes, de coordenação e de um discurso que não seja capturado pelas trincheiras já consolidadas.6
Um partido que nunca vencerá, mas pode travar tudo
A reportagem original é clara em um ponto: o partido ferradura jamais vai somar maioria eleitoral, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Suas pautas de identidade, tomadas isoladamente, afastam o eleitor mediano, e a rejeição a lideranças como Trump costuma superar 50% fora de seu núcleo mais fiel. Mas isso não significa irrelevância. Basta que direita populista e esquerda socialista consigam travar, cada uma a seu modo e por razões opostas, os mesmos projetos de abertura comercial, reforma fiscal ou integração global para que o centro perca a capacidade de governar. No Brasil, onde reformas estruturantes já dependem de negociação permanente com um Congresso fragmentado, esse é um risco que vale a pena observar de perto na disputa presidencial de 2026.
Perguntas frequentes
O que é a teoria da ferradura em política?
É a hipótese de que extrema esquerda e extrema direita não ocupam pontas opostas de uma linha reta, mas se aproximam como as pontas de uma ferradura, compartilhando desconfiança do livre mercado, apetite por um Estado forte e uma leitura do mundo centrada em identidade e em conflito contra elites.
Quais são exemplos recentes de convergência entre populistas de direita e esquerda socialista nos EUA?
Entre eles estão a parceria de Elizabeth Warren com Bernie Moreno sobre tributação previdenciária, a atuação conjunta de Ro Khanna e Thomas Massie pela divulgação dos arquivos Epstein, o apoio de Steve Bannon a Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez contra data centers, e declarações públicas de JD Vance e Zohran Mamdani criticando ícones do livre mercado no mesmo dia, em junho de 2026.
Essa dinâmica tem equivalente no Brasil?
Sim. Um exemplo é a convergência entre a CUT e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ligados historicamente à esquerda sindical, e a Anfavea, que representa as montadoras, na defesa conjunta de tarifas de importação mais altas sobre veículos elétricos chineses, unindo protecionismo de origem sindical e industrial.
A teoria da ferradura é aceita por todos os cientistas políticos?
Não. Críticos consideram a teoria simplista e apontam que ela costuma ser usada por comentaristas de centro para equiparar esquerda e direita radicais, ignorando diferenças históricas relevantes, entre elas a relação de cada campo com regimes autoritários e com a violência institucional.
O "partido ferradura" pode vencer eleições?
Dificilmente como maioria consolidada. Suas pautas de identidade tendem a afastar o eleitor mediano. Mas, segundo analistas, ele pode ser disruptivo o suficiente para impedir que o centro político tradicional consiga formar maiorias de governo.