O Tecido · Caderno Sustentabilidade

Numa área seca do centro-norte do Paquistão, onde antes havia olivais e pomares de pêssego, a cimenteira Bestway transformou terrenos áridos em um mar de painéis fotovoltaicos. A empresa já gera mais de um quarto da eletricidade que abastece sua fábrica com energia solar e planeja ampliar a capacidade instalada em 6,34 megawatts até o fim do ano. O motivo é simples: segundo reportagem do Financial Times, o gerente da unidade resume a decisão dizendo que essa é a única forma de a empresa continuar competitiva, já que os concorrentes seguiram o mesmo caminho.

A cena em Chakwal é um retrato em miniatura de um fenômeno global. A queda vertiginosa no preço dos painéis fabricados na China, muitas vezes descrita no mercado como "ofensivamente barata", transformou a energia solar de tecnologia subsidiada, voltada a países ricos preocupados com descarbonização, em infraestrutura essencial para regiões onde a eletricidade é escassa, cara ou pouco confiável. O processo começou em lugares como Paquistão, Brasil e África do Sul e hoje se espalha por outras partes da África e por países como as Filipinas.

O tamanho do fenômeno

Segundo o Statistical Review of World Energy, publicado pelo Energy Institute e citado pelo Financial Times, a capacidade solar instalada no mundo somava quase 1,2 terawatt ao final de 2025. Como a geração solar depende da disponibilidade de luz do dia e produz apenas uma fração de seu potencial teórico, esse número não se traduz em geração constante, mas ainda assim equivale a cerca de três vezes o tamanho da frota nuclear global. Milhões de empresas e residências ao redor do mundo instalaram painéis em telhados, quintais e terrenos, impulsionadas por essa enxurrada de componentes chineses de baixo custo.

"A participação crescente das renováveis em muitos sistemas de energia causa uma mudança profunda no modo como esses sistemas se comportam, algo que ainda não entendemos completamente." Janusz Bialek, professor de sistemas de potência no Imperial College London, em artigo citado pelo Financial Times

O Brasil dentro da mesma onda

O Brasil é citado pela reportagem britânica como um dos mercados pioneiros dessa transição, e os números nacionais confirmam a intensidade do movimento. Em 2017, quando o governo federal publicou o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) com horizonte até 2026, a projeção era de que o país fecharia este ano com cerca de 13 gigawatts (GW) de capacidade fotovoltaica instalada, somando geração centralizada e distribuída. A realidade superou em quase seis vezes essa estimativa: em meados de 2026, o Brasil já ultrapassava 72 GW de capacidade solar operacional, dos quais cerca de 50 GW vêm de micro e minigeração distribuída (sistemas instalados por residências, comércios e propriedades rurais) e pouco mais de 22,5 GW, de grandes usinas centralizadas, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

A ANEEL projeta que a energia solar responda por quase metade de todo o crescimento da capacidade elétrica instalada no país em 2026, com uma expansão de 4,56 GW na geração centralizada, alta de 61,7% sobre 2025. Já a modalidade de geração distribuída deve somar mais 6,5 GW neste ano, segundo estimativas da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), consolidando um padrão de crescimento que se repete, com variações, em Paquistão, África do Sul e Filipinas: o consumidor comum deixando de depender exclusivamente da concessionária para gerar parte da própria energia.

O outro lado da conta: redes elétricas sob pressão

A reportagem do Financial Times lembra que esse crescimento acelerado tem um custo estrutural. O apagão que atingiu grande parte da Espanha e de Portugal no ano passado foi um exemplo dramático. Segundo o professor Bialek, as fontes solares e outras renováveis não causaram diretamente o blecaute, mas a Espanha não havia adaptado suficientemente seu sistema elétrico ao crescimento dessas fontes intermitentes.

Na Austrália, o problema aparece de outra forma. Consumidores que passaram a extrair energia dos próprios painéis, em vez de puxar da rede, deixaram os operadores do sistema de transmissão de alta tensão lidando com demanda insuficiente, o que também compromete a estabilidade da rede. O país vem desenvolvendo tecnologia para que as redes absorvam mais energia proveniente das residências, mas engenheiros locais reconhecem que a corrida por adaptação é constante.

Há ainda a dimensão social do problema. Em Karachi, no Paquistão, consumidores das áreas mais pobres da cidade, como o bairro densamente povoado de Lyari, seguem menos propensos a instalar painéis solares do que os moradores de bairros mais ricos, o que aprofunda desigualdades no acesso à energia mais barata, ao mesmo tempo em que a concessionária local perde receita significativa por inadimplência nessas regiões.

Contraponto Nem todos os analistas leem esse crescimento como uma vitória sem ressalvas. Parte do setor elétrico argumenta que a expansão de fontes intermitentes, sem investimento equivalente em transmissão, armazenamento e modernização regulatória, pode gerar custos econômicos relevantes: geradores perdem receita quando têm a produção cortada, e o sistema como um todo corre risco de instabilidade se a infraestrutura não acompanhar o ritmo das instalações. A questão em debate não é se a energia solar deve crescer, mas a que velocidade a rede consegue absorvê-la com segurança.

O paralelo brasileiro: recordes de corte de geração

O desafio de absorção descrito pela reportagem internacional tem um equivalente direto no Brasil, e os dados nacionais mostram um agravamento recente. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), entre janeiro e abril de 2026 o volume médio de geração solar e eólica cortada chegou a 2.843 megawatts médios, o equivalente a 17,2% da geração potencial das usinas afetadas, um salto em relação aos 15,3% registrados no mesmo período de 2025. O Nordeste, região de maior concentração de usinas renováveis do país, concentrou a maior parte dos cortes, seguido por Sudeste, Norte e Sul.

Especialistas ouvidos em painéis do setor durante a Intersolar South America, realizada em São Paulo, apontam que o fenômeno, conhecido como curtailment ou constrained-off, deve permanecer como um dos principais desafios da energia solar e eólica no país pelo menos até 2029, exigindo que geradores incorporem os cortes de produção às próprias decisões de investimento e contratação de energia. O quadro reforça o argumento central da reportagem britânica: o custo dos equipamentos deixou de ser o principal obstáculo à expansão solar em boa parte do mundo, incluindo o Brasil. O gargalo, agora, é a capacidade da infraestrutura de transmissão e distribuição de acompanhar esse ritmo.

O que vem a seguir

As respostas a esse gargalo variam conforme a geografia. Na África, segundo estimativas da organização Ember, o continente deve instalar cerca de 17 gigawatts de nova capacidade solar somente neste ano, em boa parte fora dos modelos tradicionais de rede, o que exige soluções de armazenamento local. No Paquistão, distribuidoras de energia já planejam combinar baterias com usinas solares e eólicas para reduzir a dependência de geração fóssil após o pôr do sol. No Brasil, a expansão da capacidade de transmissão e a modernização das regras de conexão para geração distribuída, armazenamento e outras cargas flexíveis estão entre as prioridades regulatórias da ANEEL, que abriu consulta pública sobre o tema em setembro de 2026.

O padrão que emerge dessas experiências, da Austrália ao Nordeste brasileiro, é o de uma transição energética que já não depende mais, prioritariamente, de convencer consumidores a instalar painéis solares. O desafio passou a ser outro: construir, no ritmo certo, a rede elétrica capaz de receber toda essa energia sem comprometer sua própria estabilidade.

Esta reportagem foi baseada, em parte, na cobertura original de Rachel Millard, Humza Jilani, Monica Mark e Krishn Kaushik para o Financial Times, "'Offensively cheap': solar power is looking up". Trechos e dados foram usados apenas como referência e ponto de partida para a análise, com apuração adicional sobre o contexto brasileiro. Leia a reportagem original em: ft.com.

Perguntas frequentes

Por que a energia solar ficou tão barata?

A produção em larga escala de painéis fotovoltaicos na China reduziu drasticamente o custo dos componentes, permitindo uma expansão vertiginosa tanto dentro do país quanto em mercados emergentes que antes dependiam de fontes fósseis mais caras.

Quanta capacidade solar existe instalada no mundo hoje?

Segundo o Energy Institute, a capacidade solar global chegou a quase 1,2 terawatt ao final de 2025, volume equivalente a cerca de três vezes o tamanho da frota nuclear mundial, ainda que a geração efetiva dependa da disponibilidade de luz solar.

Quanta energia solar o Brasil já tem instalada?

Em meados de 2026, o Brasil ultrapassava 72 GW de capacidade solar operacional, somando geração centralizada e distribuída, segundo dados da ANEEL, muito acima da projeção oficial de 13 GW feita em 2017 para este mesmo ano.

O que é curtailment ou corte de geração?

É a redução forçada da produção de usinas solares e eólicas, determinada pelo operador do sistema elétrico, quando a rede de transmissão não tem capacidade de escoar toda a energia gerada. No Brasil, o fenômeno chegou a 17,2% da geração potencial das usinas afetadas entre janeiro e abril de 2026, segundo o ONS.

O crescimento da energia solar pode causar apagões?

Especialistas como o professor Janusz Bialek, do Imperial College London, apontam que a energia solar não causa apagões diretamente, mas sistemas elétricos que não se adaptam ao crescimento de fontes intermitentes ficam mais vulneráveis a instabilidades, como ocorreu na Espanha e em Portugal em 2025.