Em 2024, a notícia que mobilizou a Islândia não foi um escândalo político nem uma crise econômica. Foi um número: oito. Esse foi o total de homicídios registrados no país naquele ano, o suficiente para virar manchete em uma nação de menos de 400 mil habitantes onde, em anos normais, mal se contam dois ou três casos. Dados oficiais citados pelo veículo jurídico LegalClarity, com base no Conselho de Segurança Diplomática dos Estados Unidos (OSAC), mostram a evolução recente: três homicídios em 2022, quatro em 2023 e sete em 2024, um patamar que, segundo o próprio texto, "seria pouco mais que um arredondamento estatístico" na maioria dos países.
É justamente aí que mora o paradoxo: nas livrarias de Reykjavík, o assassinato nunca deixa de acontecer. Segundo a reportagem do New York Times, o romance policial se consolidou nas últimas décadas como o gênero literário favorito dos islandeses, a ponto de a ex-primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, hoje coautora de dois romances policiais, resumir a situação com humor: há mais assassinatos ficcionais na Islândia todos os anos do que reais.
O desafio de matar alguém de forma crível
Para os autores islandeses, esse contraste entre estatística e prateleira não é um detalhe pitoresco, é o principal obstáculo criativo do ofício. Em um país onde, fora da região metropolitana, muita gente nem tranca o carro, como descreve a reportagem original, convencer o leitor de que um crime plausível pode acontecer exige artifícios que autores de países com criminalidade mais alta simplesmente não precisam usar.
A escritora Yrsa Sigurdardóttir, uma das vozes mais vendidas do gênero no país, resume o problema como uma questão de verossimilhança, não de realismo literal: o leitor não precisa acreditar que aquilo de fato aconteceu, apenas que poderia acontecer. E a maioria dos crimes reais islandeses, segundo ela, está longe de servir de modelo narrativo: o perfil típico envolve duas pessoas embriagadas em uma cozinha, uma faca à mão e a polícia chegando com o suspeito ainda parado no local.
As sagas medievais como matriz do gênero
Parte da explicação para essa vocação nacional pelo crime remonta muito antes do boom do chamado Nordic Noir. As sagas islandesas, escritas majoritariamente nos séculos XIII e XIV e recheadas de vinganças, disputas de sangue e triângulos amorosos, ainda fazem parte do currículo escolar do país e emprestam nomes a boa parte da população até hoje. O escritor islandês Ólafur Ólafsson já as descreveu como uma espécie de "segunda Bíblia" nacional. O autor Ragnar Jónasson, que traduziu Agatha Christie para o islandês e já vendeu cerca de cinco milhões de exemplares próprios, vê nas sagas thrillers genuínos, com enredos sobre proscritos, justiça e vingança que antecipam a estrutura do romance policial moderno. Para ele, contar histórias de crime está, nas palavras que atribuiu à própria cultura do país, entranhado na identidade islandesa.
Quando a ficção precisa de um patologista de verdade
Diante da escassez de casos reais para se inspirar, autores islandeses passaram a recorrer a uma fonte pouco convencional: o único patologista forense de tempo integral do país, o médico Pétur Guðmann Guðmannsson. Por anos, ele respondeu por e-mail a perguntas hiperespecíficas de romancistas, como o que aconteceria com um corpo deixado por meses em um campo de lava, dúvida da autora Eva Björg Ægisdóttir que, segundo ela, não é algo que se resolve com uma busca no Google. O interesse foi tanto que o médico chegou a ministrar um curso de educação continuada voltado a escritores de ficção policial, hoje descontinuado por ter se tornado, em suas palavras, um espetáculo à parte, longe do propósito inicial. Sua orientação recorrente aos autores, no entanto, resume bem a lógica do gênero no país: como a esmagadora maioria dos assassinatos islandeses é fictícia, eles não precisam ser realistas.
Contraponto: será que segurança explica tudo?
Nem todos os críticos literários concordam que a baixa criminalidade seja, isoladamente, a explicação para o sucesso do gênero policial islandês. Pesquisadores do chamado Nordic Noir apontam que Suécia e Finlândia, com índices de violência mais altos e fronteiras sensíveis (a segunda faz divisa com a Rússia), também produzem literatura policial de forma intensa, o que sugere que fatores como longos invernos escuros, coesão social e tradição oral podem pesar tanto quanto, ou mais, do que a ausência de crime real. O próprio caso brasileiro, tratado a seguir, reforça esse contraponto: aqui o gênero também é um dos mais vendidos, mas em um contexto de criminalidade muito mais alta.
O espelho brasileiro: um gênero popular, mas por outro motivo
Se na Islândia o romance policial floresce como fuga de uma realidade pacífica, no Brasil ele convive lado a lado com estatísticas de violência real muito mais duras. Segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 42.590 homicídios em 2024, uma taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, a menor da série histórica iniciada em 2014, mas ainda assim dezenas de vezes superior à taxa islandesa, estimada pelo Banco Mundial em cerca de 1 por 100 mil habitantes no mesmo período. Mesmo assim, ou talvez por isso, o gênero policial também é um dos mais consumidos pelo público leitor brasileiro. Pesquisadores do mercado editorial, como a professora Sandra Reimão, autora do livro "Literatura Policial Brasileira", apontam que o gênero só ganhou fôlego nacional a partir da obra de Rubem Fonseca e segue relevante hoje com autores contemporâneos como Raphael Montes, sucesso de vendas e adaptações. A diferença central em relação ao caso islandês é de função narrativa: enquanto lá o crime ficcional preenche uma lacuna de experiência real, aqui ele frequentemente dialoga, ainda que de forma indireta, com uma violência que o leitor já conhece do noticiário.
Noites longas, segredos enterrados
Outro elemento estrutural citado na reportagem original é o clima. A escritora ítalo-americana radicada na Islândia Margrét Ann Thors, autora do romance de estreia "Freyja", sobre o desaparecimento de uma criança duas décadas antes, observa que a escuridão prolongada do inverno islandês esvazia as ruas à noite, criando um cenário narrativo natural para personagens desaparecerem ou serem encontrados mortos sem testemunhas por perto. É por isso que boa parte da ficção policial islandesa recente aposta menos em serial killers, praticamente inexistentes no histórico real do país desde o século XVI, segundo relato da autora Eva Björg Ægisdóttir, e mais em segredos antigos, casos arquivados e desaparecimentos misteriosos, como no romance "The Wake", de Sigurdardóttir, ou em "The Mysterious Case of the Missing Crime Writer", de Jónasson.
Perguntas frequentes
Por que a Islândia tem tantos livros de crime se o país tem tão poucos assassinatos reais?
Segundo autores islandeses ouvidos pelo New York Times, a baixa criminalidade real obriga os escritores a construir tramas plausíveis usando segredos antigos, desaparecimentos e a escuridão do inverno, em vez de se basearem em crimes reais, que costumam ser simples demais para sustentar uma narrativa policial complexa.
Qual é a taxa de homicídios da Islândia?
De acordo com dados do Banco Mundial (UNODC), a taxa islandesa foi de cerca de 1 a 1,3 homicídio por 100 mil habitantes em 2023, uma das mais baixas do mundo. Em números absolutos, o país registrou sete homicídios em 2024, considerado um ano atípico.
Quem são os principais autores do romance policial islandês?
Entre os nomes mais conhecidos estão Yrsa Sigurdardóttir, Ragnar Jónasson, Eva Björg Ægisdóttir, Margrét Ann Thors e a ex-primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir, que coescreveu dois romances policiais após deixar o cargo.
O Brasil também tem uma forte tradição de literatura policial?
Sim. O gênero ganhou força nacional a partir da obra de Rubem Fonseca e segue popular hoje com autores como Raphael Montes, ainda que, ao contrário do caso islandês, floresça em um contexto de criminalidade real muito mais alta, com taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, segundo o Atlas da Violência.