Caderno Política · Estados Unidos

Por Ewerton Lopes · 26 de setembro de 2026 · Leitura de 11 minutos

Este artigo parte da análise publicada por David Smith no The Guardian em 26 de setembro de 2026, ampliada com apuração independente em veículos americanos e brasileiros e com uma leitura dos efeitos para o Brasil. Não se trata de tradução nem de reprodução do texto original.

Na terça-feira, 22 de setembro, Donald Trump subiu à tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas e disse aos líderes do mundo que tinha uma grande decisão pela frente: fechar um acordo com o Irã ou "aniquilar a República Islâmica"2. Foi a demonstração de força que se espera de um presidente em guerra. O discurso, porém, fechou um mês em que o chefe da Casa Branca acumulou derrotas em quase todas as instâncias de Washington. O banco central subiu os juros contra sua vontade, a Suprema Corte barrou a tentativa de restringir o voto pelo correio e a Justiça federal o obrigou a readmitir jornalistas que ele havia expulsado.

A seis semanas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, as pesquisas registram a menor aprovação da carreira política de Trump, e parte do Partido Republicano começa a medir a distância que deve manter do presidente. É a tese central da reportagem do Guardian1: cresce o descompasso entre a imagem de invencibilidade que Trump projeta e a influência real que ainda consegue exercer. A pergunta que importa, inclusive para o Brasil, é o que um presidente faz quando percebe esse descompasso.

Um setembro de derrotas institucionais

A derrota mais simbólica veio do Federal Reserve. Em 16 de setembro, o comitê de política monetária do Fed votou por unanimidade, 12 a 0, para elevar a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%. Foi a primeira alta desde 2023, justificada pela inflação persistente e pela disparada do petróleo3. O detalhe que dá peso político à decisão é que o Fed é presidido por Kevin Warsh, escolhido pelo próprio Trump e empossado em maio. Nas semanas anteriores, o presidente, o vice JD Vance e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, haviam pressionado publicamente contra a alta. Trump respondeu na rede Truth Social que os juros americanos deveriam estar em 1% ou menos, e as projeções do próprio Fed indicam que a maioria dos dirigentes espera mais uma elevação ainda este ano4.

Dois dias antes, em 14 de setembro, a Suprema Corte manteve uma liminar que impede o Serviço Postal de aplicar novas regras ao voto pelo correio nas eleições de novembro. A norma, derivada de uma ordem executiva de março, exigiria que os estados enviassem ao correio listas de destinatários e usassem envelopes previamente aprovados, sob pena de ter cédulas retidas. Em decisão curta e não assinada, a maioria considerou improvável que o governo vença no mérito. O juiz conservador Brett Kavanaugh acompanhou a maioria por um argumento de calendário: ainda que a regra possa estar dentro da competência do correio, aplicá-la a poucas semanas da votação seria arbitrário. Samuel Alito e Clarence Thomas ficaram vencidos. Segundo a NPR, os advogados do governo não apresentaram aos tribunais nenhuma prova de fraude no voto postal5.

A terceira frente foi a imprensa. Depois de Trump banir da Casa Branca os repórteres da CNN, do MS NOW e do Politico, o juiz federal Timothy Kelly, nomeado pelo próprio Trump em 2017, concedeu em 24 de setembro uma medida cautelar de 14 dias determinando a devolução das credenciais. Kelly escreveu que a revogação provavelmente violou o devido processo legal e que o governo ofereceu pouco para sustentar a alegação de risco à segurança nacional6. Mesmo assim, os jornalistas foram barrados na manhã seguinte à decisão e só entraram ao meio-dia, depois de um novo pedido de urgência. Na chegada à sede da ONU, relata o Guardian, Trump ainda repreendeu a âncora Kaitlan Collins por estar ali cobrindo sua agenda. Somou-se a isso o episódio do Kennedy Center: impedido por um juiz de acrescentar o próprio nome ao complexo cultural, o presidente chegou a sugerir que o prédio poderia ser demolido1.

Os números que assustam o Partido Republicano

O pano de fundo dessas derrotas é a opinião pública. A pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 20 de setembro registrou aprovação de 32%, a menor de toda a trajetória política de Trump. O dado mais relevante está dentro do próprio partido: a aprovação entre republicanos caiu de 82% para 73% em uma semana, e apenas 17% dos entrevistados aprovam a forma como o presidente lida com o custo de vida. Na intenção de voto para o Congresso, democratas aparecem à frente por 43% a 35%7.

Outras sondagens apontam na mesma direção. O levantamento Strength In Numbers/Verasight, feito entre 16 e 21 de setembro, encontrou 33% de aprovação e 63% de desaprovação, o pior resultado em 16 rodadas desde maio de 20258. A NBC News registrou 56% de desaprovação entre eleitores registrados, com 55% dizendo que as políticas do presidente prejudicam a economia9. O agregador de Nate Silver colocou a aprovação líquida de Trump em 22,4 pontos negativos em 25 de setembro, contra 11,6 negativos no mesmo ponto do primeiro mandato10.

APROVAÇÃO DE TRUMP, SETEMBRO DE 2026 (%) 0 25 50 Reuters/Ipsos (20/9) 32 SIN/Verasight (21/9) 33 Média Decision Desk HQ 38,3 Média RealClearPolitics 39,4
Barras escuras: pesquisas individuais. Barras claras: médias de agregadores em 18 de setembro, compiladas pela Wikipedia. A diferença entre os dois grupos mostra que 32% é o piso do mês, não a média. Fontes: Reuters/Ipsos, Strength In Numbers/Verasight, Decision Desk HQ, RealClearPolitics.

A leitura correta desses números exige cuidado. Os 32% da Reuters/Ipsos são o ponto mais baixo de uma série; as médias dos agregadores giravam entre 38% e 39% em meados do mês11. O que torna o quadro grave não é o número isolado, mas a combinação de tendência de queda, erosão na base republicana e a causa percebida. O estrategista Rick Wilson, cofundador do grupo antitrumpista Lincoln Project, disse ao Guardian que o eleitor já associa a guerra, o preço da gasolina e o preço dos alimentos diretamente à figura do presidente1. Custo de vida é o tipo de tema que a comunicação política tem dificuldade de reverter, porque o eleitor o confere todas as semanas no posto e no supermercado.

A ONU como palanque doméstico

O discurso nas Nações Unidas deve ser lido com esse cenário em mente. Trump abriu a fala afirmando que a economia americana é invejada pelo mundo e dedicou boa parte dos cerca de 35 minutos a defender a guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro com ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel. O ponto mais revelador veio na previsão sobre o desfecho: segundo Trump, Teerã só fechará um acordo depois das eleições de meio de mandato, porque estaria esperando para ver o desempenho dele nas urnas. Em seguida, acrescentou que não é candidato12.

Amarrar publicamente o fim de uma guerra ao calendário eleitoral americano é incomum na tribuna da ONU, e mostra para quem o discurso foi escrito. A plateia real estava nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os bastidores contaram outra história: no mesmo dia, enviados americanos e iranianos se reuniram por cerca de três horas à margem da Assembleia, segundo a NBC News9. No dia seguinte, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, respondeu do mesmo púlpito que seu país não cederia à intimidação. A retórica máxima e a negociação discreta convivem, e é justamente essa ambiguidade que torna o comportamento de Washington difícil de prever para aliados e adversários.

O paradoxo do pato manco

Na política americana, chama-se de lame duck, pato manco, o governante que já não pode se reeleger e vê sua influência diminuir à medida que o fim do mandato se aproxima. Os sinais desse processo começaram a aparecer no partido de Trump. Na Flórida, estado de residência do presidente, o candidato republicano ao governo, Byron Donalds, retirou a maior parte das menções a Trump do site de campanha, e a deputada María Elvira Salazar passou a veicular anúncios dizendo que a fiscalização migratória federal tinha ido longe demais, segundo o Guardian1. Durante quase uma década, parlamentares republicanos evitaram contrariar Trump por medo de enfrentar adversários apoiados por ele nas primárias. Com o controle do Congresso em jogo, a sobrevivência eleitoral começa a pesar mais que a lealdade.

O historiador Allan Lichtman, da American University, lembra ao jornal britânico que segundos mandatos costumam ser difíceis para os presidentes americanos, de Richard Nixon a George W. Bush. Bill Galston, da Brookings Institution, acrescenta um fator de atrito que tende a crescer: a atenção pública vai migrar para a sucessão de 2028, com nomes como JD Vance e Marco Rubio, e perder o centro do palco é particularmente custoso para um político como Trump1.

"Quanto mais fraco ele fica, mais perigoso ele fica."

Charlie Sykes, autor e comentarista conservador, ao The Guardian

O argumento de Sykes, compartilhado por Lichtman, é a chave para entender os próximos meses. Aprovação baixa não reduz os poderes formais da presidência americana. Ordens executivas, o indulto presidencial, a condução do Departamento de Justiça, a política comercial e o comando militar continuam disponíveis, e várias dessas ferramentas dependem pouco do Congresso. Um presidente que perde capital político tem menos capacidade de aprovar leis, mas conserva quase intacta a capacidade de agir sozinho. Se os democratas conquistarem a Câmara, a expectativa é de investigações sobre a conduta do governo, o que tende a aumentar, e não a diminuir, o incentivo ao confronto.

O que isso significa para o Brasil

Para o Brasil, a fragilidade doméstica de Trump não é um espetáculo distante. A relação bilateral atravessa um de seus momentos mais tensos. Em junho, Washington anunciou uma nova tarifa de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros, com base na Seção 301 da lei de comércio americana, e suspendeu o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, segundo o jornal O Tempo13. Entre as justificativas americanas aparecem desmatamento, propriedade intelectual, etanol e o Pix. Após um telefonema entre Lula e Trump em agosto, as equipes dos dois governos retomaram as conversas em 31 de agosto, com o Brasil reafirmando discordância das tarifas e disposição para negociar.

Se a leitura de Sykes e Lichtman estiver correta, o risco para o Brasil está exatamente nas áreas em que o presidente americano age com menos freios: comércio exterior e política externa. Tarifas e investigações comerciais são instrumentos de alta visibilidade e baixo custo legislativo, úteis para um governo que busca demonstrar força. Por outro lado, setembro mostrou que tribunais e banco central americanos seguem funcionando como contrapeso, e processos da Seção 301 passam por ritos administrativos que podem ser contestados.

A própria Assembleia Geral ofereceu um retrato do contraste. Por tradição, o Brasil abre o debate de líderes, e Lula falou minutos antes de Trump. Sem citar o americano, afirmou que ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade ao Oriente Médio e defendeu o Pix contra pressões de multinacionais interessadas em privatizá-lo14. Foi um recado direto a dois temas da pauta bilateral, dado do mesmo púlpito.

Há ainda o canal econômico. A guerra no Irã elevou o preço internacional do petróleo, e a Petrobras acompanha em sua política de preços a cotação do Brent e o câmbio. Em ano eleitoral, lembra a Gazeta do Povo, cresce a pressão para segurar os preços dos combustíveis, com risco para a saúde financeira da estatal15. O Brasil vai às urnas em 4 de outubro, um mês antes dos americanos, e os dois eleitorados debatem o mesmo problema: inflação de energia e alimentos produzida em parte por uma guerra que nenhum dos dois controla.

Por fim, há uma lição institucional que vale para qualquer democracia, independentemente de preferência partidária. O setembro de Trump mostra que autonomia do banco central, cortes independentes e imprensa com acesso garantido por decisão judicial não são formalidades. Eles importam mais justamente quando a popularidade de um governante cai e aumentam os incentivos para testar limites. O Brasil conta com autonomia formal do Banco Central desde 2021 e vive seus próprios debates sobre o papel do Supremo Tribunal Federal. Observar como esses contrapesos funcionam sob pressão nos Estados Unidos é útil para avaliar a solidez dos nossos.

O que observar até 3 de novembro

Quatro fatores devem definir o humor político americano nas próximas semanas. O primeiro é a negociação com o Irã, que Trump condicionou ao resultado das urnas e cujo avanço teria efeito imediato sobre o petróleo. O segundo é o Fed, que sinalizou nova alta de juros ainda em 2026 e pode reabrir o confronto com a Casa Branca. O terceiro é o caso da imprensa, já que a medida cautelar do juiz Kelly vale por 14 dias e a disputa volta ao tribunal. O quarto é o comportamento dos candidatos republicanos em estados competitivos: cada site de campanha que omite o nome do presidente é um termômetro. Para Brasília, o indicador mais concreto será o ritmo das conversas sobre as tarifas, que tende a revelar se Washington pretende usar a política comercial como palco nos meses finais antes da votação.

Perguntas frequentes

Qual é a aprovação de Donald Trump em setembro de 2026?

A pesquisa Reuters/Ipsos concluída em 20 de setembro registrou 32%, a menor da carreira política de Trump. A Strength In Numbers/Verasight marcou 33% de aprovação e 63% de desaprovação. As médias de agregadores como Decision Desk HQ e RealClearPolitics ficavam entre 38% e 39% em 18 de setembro.

O que a Suprema Corte decidiu sobre o voto pelo correio?

Em 14 de setembro, a Corte manteve a liminar que impede o Serviço Postal de aplicar novas exigências às cédulas enviadas pelo correio nas eleições de 3 de novembro. A maioria considerou improvável que o governo vença no mérito. Samuel Alito e Clarence Thomas divergiram.

Por que o Fed subiu os juros contra a vontade de Trump?

Em 16 de setembro, o Fed elevou os juros em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4%, por 12 votos a 0, citando inflação acima da meta de 2% e pressionada pelo petróleo. Foi a primeira alta desde 2023, sob o comando de Kevin Warsh, indicado pelo próprio Trump.

O que Trump disse sobre o Irã na ONU?

Trump afirmou que avaliava aniquilar a República Islâmica caso não houvesse acordo e previu que o acordo viria logo após as eleições de meio de mandato. No mesmo dia, enviados dos dois países se reuniram nos bastidores da Assembleia Geral.

Como o enfraquecimento político de Trump afeta o Brasil?

Um presidente com menos espaço doméstico tende a agir onde o Congresso o limita menos, como comércio exterior. O Brasil negocia tarifas de 25% impostas em junho com base na Seção 301 e sente o efeito da guerra no Irã sobre o petróleo, referência para os preços da Petrobras, em pleno ano eleitoral.

O que está em jogo nas eleições de 3 de novembro?

Todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e parte do Senado. Uma maioria democrata na Câmara permitiria abrir investigações sobre o governo e travar a agenda legislativa de Trump nos dois anos finais do mandato.