Um sobrenome com a partícula "von" na Alemanha, o acento herdado de Eton e Oxford no Reino Unido, uma sobrenome ligado a generais e ministros no Brasil. Em praticamente todos os movimentos que hoje se apresentam como vozes "do povo" contra as elites, é comum encontrar, na origem de suas principais lideranças, algum grau de privilégio de nascimento. O contraste entre o discurso antissistema e a biografia de quem o profere não é acidental, e vem sendo discutido com crescente atenção por analistas europeus e latino-americanos à medida que o guarda-chuva ideológico do MAGA (Make America Great Again) tenta se espalhar para além dos Estados Unidos.
O caso alemão é ilustrativo. Beatrix von Storch, vice-líder da Alternative für Deutschland (AfD) e uma das vozes mais influentes do partido no cenário internacional, pertence ancestralmente à Casa Real de Oldenburg, dinastia que governou o Grão-Ducado de Oldenburg até 1918. É também neta de um ex-ministro das Finanças de Adolf Hitler, condenado pelo Tribunal de Nuremberg a dez anos de prisão por crimes de guerra, e de um duque que integrou a SA, tropa de repressão do regime nazista. A ironia não escapa a analistas europeus, que descrevem a AfD como um partido estruturado em torno de um núcleo de extrema direita, mas que tenta atrair conservadores cristãos e um eleitorado heterogêneo mobilizado por convicções antielitistas acumuladas ao longo de crises como a do euro, a dos refugiados e a da Covid-19. No Reino Unido, o padrão se repete de outra forma. Boris Johnson, ex-primeiro-ministro britânico e um dos rostos do Brexit, é descrito por comentaristas como herdeiro de uma "flippância quase aristocrática" que conviveu, lado a lado, com um discurso de defesa do homem comum contra Bruxelas e o establishment. Já Nigel Farage, fundador do UKIP e hoje à frente do Reform UK, constrói sua imagem pública em cima de uma trajetória de homem do povo, apesar do que críticos apontam como sotaque de escola particular e traços de formação claramente privilegiada.
"O populismo de direita atual não nasceu nas ruas. Em boa parte dos casos, nasceu em salões, colégios internos e sobrenomes que remetem a dinastias, impérios e ministérios."
O nó do MAGA: exportar a ideologia, fechar a fronteira
Esse pano de fundo ajuda a explicar uma contradição estrutural que atravessa o movimento MAGA quando ele tenta se projetar para fora dos Estados Unidos. Por um lado, figuras ligadas a Donald Trump, como o ex-estrategista Steve Bannon, dedicaram-se a exportar o modelo de nacionalismo populista para outros países, articulando redes como o The Movement, fundado em 2019 justamente para reunir lideranças de direita ao redor do mundo. Por outro lado, o núcleo doutrinário do MAGA é fundamentalmente protecionista e isolacionista, priorizando os interesses econômicos americanos mesmo quando isso significa pressionar ou penalizar justamente os países cujos líderes compartilham sua visão de mundo. Essa tensão entre exportar uma ideologia e, simultaneamente, adotar uma política externa que prioriza unicamente o interesse doméstico americano tende a gerar atrito com os próprios aliados ideológicos, que precisam explicar a seus eleitores por que a proximidade com Washington não se traduz em benefícios econômicos concretos, e muitas vezes produz o efeito oposto.
Argentina: o parceiro poupado, mas não imune às contradições
A Argentina de Javier Milei costuma ser citada como o exemplo mais bem-sucedido de alinhamento com Trump. Milei foi o primeiro líder estrangeiro a se reunir com Trump após sua eleição em 2024 e é chamado por ele de "presidente favorito". A relação, porém, expõe outra faceta do paradoxo: Milei construiu sua política econômica em torno da abertura comercial e da redução de tarifas, uma receita liberal quase oposta ao protecionismo que orienta a agenda tarifária de Trump. Analistas do Carnegie Endowment descrevem a aposta argentina como um risco calculado, no qual Milei troca a diversificação de parcerias pela lealdade a um único patrono ideológico, apostando que essa intimidade política compensará a ausência de uma estratégia externa mais equilibrada.
Brasil: tarifas, o processo Bolsonaro e o preço político da proximidade
É no Brasil que a contradição entre discurso e prática fica mais evidente, e mais cara. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, associando explicitamente a medida ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, condenado pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, e classificando o julgamento como uma perseguição política. Um ano depois, em julho de 2026, uma nova camada de 25% em tarifas adicionais foi anunciada sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, com o objetivo declarado de pressionar o Supremo Tribunal Federal a reverter a condenação do ex-presidente. A medida também incluiu sanções ao ministro do STF Alexandre de Moraes, responsável pela condução do processo. O próprio senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e hoje pré-candidato à Presidência, chegou a pedir a Washington um adiamento de 180 dias na aplicação das tarifas, argumentando que o cenário político brasileiro seria redefinido pela proximidade da eleição de outubro de 2026. O episódio revela o cerne do problema: uma pesquisa Quaest mostrou que a opinião pública brasileira ficou dividida sobre quem provocou as tarifas, com 47% dos entrevistados concordando com a alegação de Lula de que aliados de Bolsonaro haviam incentivado a medida, e 35% concordando com a versão de que o próprio governo teria contribuído para a escalada. Ou seja, a mesma proximidade ideológica que deveria fortalecer o campo bolsonarista tornou-se, aos olhos de parte do eleitorado, motivo de desconfiança.
Contraponto
Nem todos os analistas leem o episódio como um fracasso da aproximação ideológica. Para pesquisadores ligados ao establishment republicano, a postura de Trump seria coerente: defender aliados perseguidos judicialmente, mesmo a um custo comercial, reforçaria a credibilidade do movimento perante sua base internacional. Sob essa ótica, o desgaste político no Brasil seria um efeito colateral aceitável diante do objetivo maior de deslegitimar o que consideram perseguição judicial a um ex-chefe de Estado aliado.
A rede que conecta Berlim, Buenos Aires e Brasília
O caso brasileiro também ilustra como essas lideranças, apesar de suas origens distintas, operam em rede. Em 2021, Beatrix von Storch visitou o Brasil e se reuniu com Jair Bolsonaro, então presidente, além de Eduardo Bolsonaro e da deputada Bia Kicis, em um encontro que pesquisadores descreveram como evidência de uma articulação global da extrema direita tendo o Brasil como um de seus centros. Von Storch chegou a declarar que o país poderia ser um "parceiro estratégico" para a Alemanha, ao lado da Rússia. Essa rede tem em Eduardo Bolsonaro um de seus principais elos. Nomeado por Steve Bannon em 2019 como representante sul-americano do The Movement, ele se tornou peça central na organização do CPAC no Brasil e na articulação de contatos com outras lideranças de direita do continente, incluindo Milei. Mais recentemente, ele e o ex-ministro Onyx Lorenzoni passaram a articular na Europa uma coalizão batizada de Aliança pela Liberdade, nos moldes do The Movement, reunindo partidos de extrema direita de diferentes continentes.
Quando a proximidade produz o efeito contrário
Paradoxalmente, pesquisadores apontam que a escalada de pressão de Trump sobre o Brasil, motivada em parte por essa mesma articulação, pode ter fortalecido o campo político oposto. O historiador James Green, da Universidade Brown, avalia que a estratégia de Eduardo Bolsonaro de mobilizar retaliações americanas contra o Brasil pode se converter em um desastre para a extrema direita brasileira, ao reacender um sentimento nacionalista que uniu o campo de centro-esquerda em torno do presidente Lula. É um exemplo concreto de como a importação de um modelo pensado para o eleitorado americano pode produzir resultados opostos aos pretendidos quando aplicado a uma realidade política distinta.
O que isso representa para o Brasil e a América do Sul
Para o leitor brasileiro, três implicações práticas emergem desse quadro. A primeira é econômica: setores exportadores brasileiros, da carne ao aço, seguem expostos a um instrumento de política externa (as tarifas) que é usado de forma discricionária, associado não a critérios técnicos de comércio, mas a disputas judiciais e eleitorais internas. A segunda é política: a proximidade ideológica com o MAGA não garante proteção comercial, e pode até se converter em munição de campanha contra os próprios aliados que a buscam, como mostrou a divisão de opinião pública em torno do episódio das tarifas. A terceira é estrutural: assim como na Europa, o Brasil tem em sua liderança populista de direita uma composição de elite, entre lideranças político-militares, dinastias parlamentares e influenciadores herdeiros de figuras do regime militar, e não o "homem comum" que o discurso antissistema evoca. Para a Argentina de Milei, o desafio é distinto, mas relacionado: sustentar politicamente, internamente, uma agenda de livre comércio que segue na contramão do protecionismo do principal padrinho ideológico do continente. Em ambos os casos, o que está em jogo é até que ponto um modelo pensado para o eleitorado e a economia americana pode ser replicado, sem adaptações, em sociedades com estruturas econômicas, judiciais e sociais profundamente diferentes.
Perguntas frequentes
Por que Trump associou as tarifas ao processo contra Bolsonaro?
Trump alegou que o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe seria uma perseguição política, usando essa justificativa, ao lado de acusações sobre práticas comerciais brasileiras, para impor tarifas de 50% em 2025 e uma camada adicional de 25% em 2026.
Beatrix von Storch tem relação direta com o Brasil?
Sim. A vice-líder da AfD alemã visitou o Brasil em 2021 e se reuniu com Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis, chegando a defender publicamente uma aproximação estratégica entre Brasil e Alemanha.
A Argentina de Milei também sofreu tarifas de Trump?
Não na mesma proporção que o Brasil. Milei é descrito por Trump como seu "presidente favorito" e manteve uma relação preferencial, apesar de sua agenda de livre comércio contrastar com o protecionismo tarifário americano.
Quem é Eduardo Bolsonaro dentro dessa articulação internacional?
Ele foi nomeado em 2019 representante sul-americano do The Movement, aliança de partidos de direita criada por Steve Bannon, e passou a organizar o CPAC no Brasil e a articular contatos com outras lideranças de direita do continente e da Europa.