O Novo Milionário Americano: Fortuna de Papel num País Cada Vez Mais Caro
Os Estados Unidos produziram mais de 1.200 novos milionários por dia em 2025. Mas enquanto a riqueza média subia, a riqueza do americano mediano caía quase 20% — e US$ 1 milhão já não garante aposentadoria tranquila.
Em junho de 2026, o UBS publicou a 17ª edição de seu Relatório Global de Riqueza — e os números sobre os Estados Unidos foram amplamente celebrados como prova da vitalidade econômica americana. Mais de 440 mil pessoas se tornaram milionárias em dólares ao longo de 2025, um ritmo de mais de 1.200 novos milionários por dia. O país respondeu por quase metade de todos os novos milionários do mundo naquele ano, consolidando uma hegemonia patrimonial que nenhuma outra nação sequer se aproxima de replicar.[1] Ao todo, são mais de 23,6 milhões de americanos com patrimônio líquido igual ou superior a um milhão de dólares — mais de 40% do total global.
A notícia correu rapidamente pela imprensa financeira internacional. É tentador ler esse dado como o retrato de uma prosperidade amplamente compartilhada. Mas os próprios números do relatório — e as realidades estruturais da vida nos Estados Unidos — contam uma história bem mais ambígua: a de uma riqueza concentrada em ativos financeiros voláteis, corroída pela inflação histórica e insuficiente diante dos custos crescentes de saúde, moradia e aposentadoria.
O motor da bonança: mercados, não salários
Para entender o boom de milionários, é preciso entender sua origem. Segundo o relatório do UBS, os ativos financeiros — ações, títulos e instrumentos equivalentes — representam 79% da riqueza bruta dos norte-americanos, posicionando o país no topo do ranking global para essa métrica.[1] Em outras palavras: o salto patrimonial de 2025 foi, em sua maior parte, uma consequência direta da valorização das bolsas de valores, não de crescimento salarial, produtividade ou distribuição equitativa de renda.
A riqueza pessoal global cresceu 10,8% in 2025, o ritmo mais acelerado em pelo menos três anos, impulsionada por mercados financeiros aquecidos e pela valorização do patrimônio imobiliário.[2] Quem tinha portfólios de ações ficou mais rico no papel. Quem dependia de contracheque para construir patrimônio, não.
"A riqueza média por adulto americano subiu quase 10% entre 2020 e 2025 em termos reais. A riqueza mediana, porém, caiu quase 20% no mesmo período."— UBS Global Wealth Report 2026 — dados sobre os Estados Unidos
Essa divergência entre média e mediana é a chave para compreender o paradoxo. A média é puxada para cima pelo crescimento patrimonial dos mais ricos; a mediana — o valor que divide a população exatamente ao meio — revela o que aconteceu com o americano típico. E o que aconteceu foi uma queda real de quase 20% em cinco anos.[1] O Gini de riqueza dos EUA, segundo o próprio UBS, é de 0,77 — um dos mais altos entre os países desenvolvidos rastreados pelo banco.[3]
O que US$ 1 milhão realmente compra em 2026
La palavra "milionário" carrega um peso simbólico construído ao longo de décadas. Mas o poder de compra do dólar americano em 2025 é radicalmente diferente do que era quando esse título ganhou seu verniz glamouroso. Entre 1975 e 2025, os preços ao consumidor nos Estados Unidos subiram cerca de 497%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics.[4] Na prática, US$ 1 milhão hoje equivale, em termos de poder aquisitivo, a pouco mais de US$ 168 mil em 1975 — ou, invertendo a lógica, um patrimônio de US$ 1 milhão em 1975 corresponde a aproximadamente US$ 6 milhões em dólares de hoje.
Esse dado contextualiza um fenômeno fundamental: o limiar do milhão não foi atualizado junto com a inflação. Ser milionário em 2026 é, objetivamente, muito menos excepcional do que era duas ou três gerações atrás. E para muitos americanos que cruzaram essa marca em 2025, a sensação de conforto duradouro pode ser ilusória.
A prova está nos estudos de aposentadoria. Segundo a Northwestern Mutual, os americanos acreditam precisar de US$ 1,46 milhão em poupança para se aposentar confortavelmente em 2026 — um salto de 15% em relação ao "número mágico" de US$ 1,26 milhão estimado em 2025.[5] Em estados como Califórnia, Havaí e Massachusetts, o valor necessário chega a US$ 2,2 milhões.[6] Pela regra dos 4% — referência padrão do planejamento financeiro americano —, um portfólio de US$ 1 milhão gera apenas US$ 40 mil por ano antes dos impostos. Insuficiente para cobrir despesas médias na maioria das cidades.
"Mais da metade dos americanos acredita que vai sobreviver às suas próprias economias. Apenas 16% considera esse risco muito improvável."— Northwestern Mutual Planning & Progress Study, 2026
Saúde: o buraco que engole fortunas
Nenhum fator corrói mais rapidamente o patrimônio de um aposentado americano do que o custo de saúde. Os Estados Unidos gastam US$ 14.775 por pessoa por ano em saúde — quase o dobro da segunda nação mais cara, a Suíça, e aproximadamente o dobro da média dos países ricos comparáveis.[7] Apesar desse gasto, os EUA têm expectativa de vida menor, maior mortalidade materna e piores indicadores de acesso do que a maioria dos países da Europa Ocidental.
Para quem se aposenta aos 65 anos, o custo esperado de saúde durante toda a aposentadoria é de US$ 172.500 em média, excluindo cuidados de longa duração, segundo levantamento da Fidelity Investments.[8] O Milliman Retiree Health Cost Index de 2025 projeta que uma mulher de 65 anos saudável pode enfrentar até US$ 313 mil em despesas totais de saúde na aposentadoria — e homens, cerca de US$ 275 mil.[8] Quando se considera cuidados de longa duração — como asilos, onde um quarto privativo pode custar mais de US$ 110 mil por ano —, o rombo potencial se torna devastador.
Em 2025, uma pesquisa da KFF revelou que 44% dos adultos americanos têm dificuldade para arcar com os custos de saúde, e 36% relataram atrasar ou evitar atendimento médico necessário por motivos financeiros — incluindo mais de um terço dos que possuem plano de saúde.[9] Na União Europeia, esse índice cai para 3,6%.[9]
Moradia: o sonho que ficou inacessível
A crise habitacional americana completa o quadro. O preço mediano de uma residência existente chegou a US$ 412.500 em 2024, e o custo mensal de hipoteca para a casa mediana atingiu US$ 2.570 — um recorde histórico 40% acima do valor de 1990.[10] Cerca de 75% das famílias americanas não têm renda suficiente para comprar uma casa nova a preço mediano em 2025, segundo a Associação Nacional de Construtores de Imóveis (NAHB).[11]
O resultado é uma concentração ainda maior: os novos milionários de 2025 são, em boa parte, proprietários de imóveis e portfólios que se valorizaram — não trabalhadores que acumularam patrimônio a partir de sua renda laboral. Uma pesquisa do Centro Americano de Progresso publicada em maio de 2026 revelou que 76% dos americanos apontam o custo de vida como sua maior preocupação econômica, e 65% afirmam que um estilo de vida de classe média está fora do alcance.[12]
O espelho brasileiro
O debate americano sobre desigualdade de riqueza encontra eco imediato no Brasil. O Relatório Global de Riqueza do UBS coloca o Brasil entre os países com maiores índices de desigualdade de riqueza em sua amostra.[3] Os dados domésticos confirmam a gravidade do quadro: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2025, divulgada pelo IBGE, o índice de Gini de renda voltou a subir, de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025 — mesmo ano em que a renda média das famílias alcançou recorde histórico.[13]
O padrão é análogo ao americano: médias em alta, realidade mediana estagnada ou piorando. Os 10% mais ricos no Brasil recebem, em média, 13,8 vezes mais do que os 40% mais pobres. O 1% mais rico — com renda média mensal de R$ 24.973 — concentra massa de rendimentos equivalente a 37,7 vezes a dos 40% mais pobres.[13] A diferença é que, no Brasil, os juros elevados são explicitamente apontados pelo IBGE como motor dessa concentração — ao favorecer ganhos com aplicações financeiras nos estratos de renda mais alta —, o mesmo mecanismo que, nos EUA, impulsionou o número de milionários via valorização de bolsa.
O dado mais relevante para o leitor brasileiro, porém, é estrutural: em ambos os países, os mecanismos que geram novos milionários são, em larga medida, os mesmos que aprofundam a distância entre quem possui ativos e quem depende exclusivamente de trabalho. O crescimento de milionários não é, por si só, evidência de prosperidade compartilhada. É, antes, um termômetro da velocidade com que o capital se reproduz — e de quanto essa reprodução beneficia apenas quem já está no topo.
Crescimento real ou ilusão estatística?
O relatório do UBS traz ainda uma nota metodológica relevante: a queda do dólar americano frente a outras moedas — com o euro se valorizando quase 9% em 2025 — inflou artificialmente os dados de riqueza de economias não americanas medidos em dólares.[2] Isso significa que parte do crescimento de milionários na Europa e em mercados emergentes é, em parte, resultado de variação cambial, não de acumulação real de riqueza. Uma advertência útil para ler com cautela os rankings globais.
O economista-chefe do UBS, Paul Donovan, resume bem a armadilha cognitiva central: as pessoas avaliam sua riqueza em termos relativos, não absolutos.[3] Cruzar o limiar do milhão pode ser uma conquista genuína — fruto de disciplina, investimento consistente e tempo. Mas se o ambiente ao redor encarece mais depressa do que o patrimônio cresce, a sensação de chegada se transforma, rapidamente, numa corrida sem linha de chegada.
Este artigo foi produzido de forma independente pela redação do Caderno Economia de O Tecido com base em pesquisa jornalística independente. A reportagem publicada pelo Wall Street Journal em 30 de junho de 2026 — The U.S. Added 1,200 New Millionaires a Day Last Year, de Miriam Gottfried — serviu como referência de pauta e inspiração editorial.
O conteúdo deste artigo foi inteiramente apurado, redigido e contextualizado de forma original, com fontes próprias e perspectiva brasileira.
Referências
- Wall Street Journal. The U.S. Added 1,200 New Millionaires a Day Last Year. Miriam Gottfried, 30 jun. 2026. wsj.com/finance/...
- Yahoo Finance / Quartz. UBS Global Wealth Report 2026: nearly 1 million new millionaires. 30 jun. 2026. finance.yahoo.com/...
- RankiaPro. Global wealth surges in 2025, UBS report shows. 30 jun. 2026. rankiapro.com/...
- Official Data Foundation. US Inflation Calculator 1975–2025. Bureau of Labor Statistics (BLS). officialdata.org/...
- Northwestern Mutual. Planning & Progress Study 2026: Americans Need $1.46M to Retire Comfortably. Abr. 2026. fortune.com/...
- Kiplinger. What Is the Magic Number to Retire Comfortably? Abr. 2026. kiplinger.com/...
- Peterson-KFF Health System Tracker. How does health spending in the U.S. compare to other countries? Mar. 2026. healthsystemtracker.org/...
- Britannica Money. Retirement Health Care Costs: Planning & Estimates. Jun. 2026. britannica.com/...
- North American Community Hub. US vs Europe Healthcare in 2025. Dez. 2025. nchstats.com/...
- Harvard Joint Center for Housing Studies. The State of the Nation's Housing 2025. Jun. 2025. jchs.harvard.edu/...
- NAHB. Nearly 75% of U.S. Households Cannot Afford a Median-Priced New Home in 2025. Mar. 2025. nahb.org/...
- Center for American Progress. Lowering the Cost of Living for American Families. Mai. 2026. americanprogress.org/...
- Agência Brasil / IBGE. Rendimento dos mais ricos é 13,8 vezes maior que o dos mais pobres. PNAD Contínua 2025. Mai. 2026. agenciabrasil.ebc.com.br/...
- Fortune. America added more than 1,200 millionaires per day in 2025, but the heyday of the 'everyday millionaire' is already over. 30 jun. 2026. fortune.com/...
- CNBC. How much money Americans say they need to retire comfortably. Abr. 2026. cnbc.com/...
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