Política · Geopolítica · EUA e China

Nota editorial. Este texto parte da análise de Rana Foroohar publicada no ensaio de fim de semana do Financial Times, "China, America and the new Great Game". Não se trata de tradução nem de reprodução: as ideias atribuídas ao FT estão creditadas ao longo do texto, e o restante resulta de apuração própria do O Tecido com fontes independentes, incluindo dados brasileiros.

Dois pandas gigantes, Ping Ping e Fu Shuang, a caminho do Zoológico de Atlanta. Esse foi o anúncio mais palpável que Xi Jinping deixou em Washington durante a visita de Estado de 23 a 25 de setembro, a primeira do líder chinês à capital americana desde 2015, como confirmou a chancelaria chinesa ao South China Morning Post3. Houve recepção pessoal de Donald Trump na pista da base de Andrews, jantar de Estado, chá na Casa Branca e visita aos Arquivos Nacionais. Houve, sobretudo, muita cerimônia para pouca substância.

Para Rana Foroohar, colunista do Financial Times1, a escassez de resultados é a própria notícia. Na leitura dela, nenhuma concessão sobre soja ou terras raras altera o fato de que as duas maiores economias do planeta vivem um conflito estratégico de longa duração, e o silêncio da cúpula indica ausência de saída, não ausência de assunto. O balanço do think tank German Marshall Fund2 vai na mesma direção: o comunicado chinês sequer menciona terras raras, prioridade declarada de Trump, e o encontro entregou uma continuação da trégua comercial, alguns mecanismos econômicos novos e cooperação limitada em fentanil e inteligência artificial.

O calendário confirma que o impasse será administrado, não resolvido. Trump anunciou que os dois voltarão a se encontrar em novembro, na China, e em dezembro, na cúpula do G20 em Miami, segundo o Just the News4. Três encontros presenciais em um ano raramente significam convergência. Costumam significar gestão de risco.

Do desfiladeiro de Khyber ao Ártico: a analogia do Grande Jogo

A tese central do ensaio do FT é histórica. Foroohar recorre ao chamado Grande Jogo, a disputa entre o Império Britânico e a Rússia czarista pela Ásia Central ao longo do século XIX, expressão popularizada por Rudyard Kipling no romance Kim, de 1901. Para Londres, o jogo era defensivo: impedir que a Rússia abrisse caminho até a Índia ou transformasse o Afeganistão em dependência sua. Para São Petersburgo, tratava-se de expansão e de afirmação imperial. A rivalidade terminou formalmente com a Convenção Anglo-Russa de 1907, quando ambos dividiram esferas de influência na Pérsia, no Afeganistão e no Tibete.

O paralelo proposto pelo FT1 é que a relação EUA-China repete essa estrutura: uma potência incumbente que joga na defesa e uma ascendente que quer moldar a ordem pós-neoliberal em vez de ser moldada por ela. Como no século XIX, a disputa é ao mesmo tempo econômica e política, territorial e sistêmica, e potências médias trocam de lado conforme a conveniência.

Foroohar também lembra que o próprio Xi citou a chamada Armadilha de Tucídides, a ideia de que a ascensão de uma potência tende a levar à guerra com a hegemônica, e afirmou que ela "pode ser superada". O conceito ganhou força com o cientista político Graham Allison, de Harvard, que em Destined for War (2017) identificou 16 casos históricos de transição de poder, 12 deles resolvidos pela guerra14.

Comparação elaborada pelo O Tecido a partir da analogia proposta pelo FT e de fontes históricas.
DimensãoGrande Jogo (séc. XIX)Novo Grande Jogo (séc. XXI)
Potência incumbenteReino UnidoEstados Unidos
Potência desafianteRússia czaristaChina
Gargalos físicosDesfiladeiro de Khyber, mar CáspioCanais de Suez e Panamá, Rota do Mar do Norte, portos
Gargalos virtuaisTelégrafo, controlado pelos britânicosSistema financeiro, padrões de IA, dados
Zona de disputaÍndia e Ásia CentralPraticamente todo o globo
Papel dos países intermediáriosEstados-tampão com pouca autonomiaPotências médias que negociam com os dois lados

Gargalos: a geografia física e a geografia digital

O ponto mais instrutivo do ensaio do FT1 é a atenção aos gargalos estratégicos. Assim como Khyber e o Cáspio definiam a estratégia anglo-russa, a China passou a tratar a chamada Rota da Seda Polar, que usa a Rota do Mar do Norte aberta pelo derretimento do gelo ártico, como seguro contra um eventual bloqueio dos canais de Suez e do Panamá. Portos e terras agrícolas comprados mundo afora cumprem função semelhante diante de guerras comerciais.

Um desses ativos fica na vizinhança brasileira. O megaporto de Chancay, no Peru, tem 60% de controle chinês e consumiu US$ 3,5 bilhões em investimentos da estatal Cosco Shipping, segundo a Datamar News9. Um navio que parte de Chancay chega a Xangai em 20 a 30 dias, contra até 45 dias a partir de Santos pela rota do Cabo da Boa Esperança.

Os gargalos de hoje, porém, também são virtuais. No século XIX, Londres controlava o telégrafo. Hoje, segundo o FT1, Washington mantém vantagem no sistema financeiro, enquanto Pequim avança na inteligência artificial ao oferecer treinamento em seus modelos de código aberto a países em desenvolvimento. O instrumento institucional dessa estratégia é a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), criada em Xangai em julho de 2026 por 29 países. O Brasil é um deles.

No Grande Jogo do século XIX, os Estados-tampão eram território. No do século XXI, são fornecedores, rotas logísticas e votos em organismos multilaterais.

Potências médias não são peças, são jogadores

A diferença decisiva em relação ao século XIX está no papel dos países intermediários. O FT1 descreve um mapa em que Japão, Coreia do Sul e Austrália buscam novos arranjos de comércio e segurança para contrabalançar a influência chinesa, às vezes com os EUA, às vezes sem eles; em que Canadá e Finlândia se articulam para se proteger da pressão das duas potências; e em que territórios como a Groenlândia usam sua posição no Ártico para atrair investimento europeu. A lógica é a da barganha: quem está no meio cobra pelo alinhamento.

É nesse ponto que a análise internacional precisa de tradução para o contexto brasileiro. O Brasil não é Estado-tampão de ninguém, mas ocupa posição singular: é o maior fornecedor agrícola da China, detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, assinou a fundação da WAICO e é parceiro de um projeto ferroviário que pretende ligar o Atlântico a Chancay.

O Brasil no tabuleiro: quatro frentes

1. Soja e comércio: o país ganha com o conflito e perde com a trégua

A corrente de comércio Brasil-China bateu recorde de US$ 171 bilhões em 2025, com exportações brasileiras de US$ 100 bilhões, segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China divulgado pelo Poder3605. A China absorveu 28,7% de tudo o que o país vendeu ao exterior. No mesmo período, as vendas aos Estados Unidos caíram de US$ 40,4 bilhões para US$ 37,7 bilhões, e cerca de 22% delas seguem sujeitas às sobretaxas impostas em julho de 2025.

EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS POR DESTINO, 2025 (US$ BILHÕES) China100,0 Estados Unidos37,7 Argentina18,1 México7,7
Fonte: MDIC/Secex, dados de 2025 compilados pelo Bora Investir (B3) e pelo CEBC. Elaboração: O Tecido.

Na soja, o efeito da guerra comercial foi ainda mais nítido. A participação brasileira no mercado chinês subiu para 73,6% em 2025, enquanto a americana recuou para 15%, de acordo com dados alfandegários chineses citados pela Forbes Brasil6. Aqui está o paradoxo pouco discutido: cada avanço na trégua entre Washington e Pequim tende a reduzir os prêmios pagos ao produtor brasileiro. Desde o acordo de Busan, firmado no fim de 2025, a China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas anuais de soja americana até 2028, segundo a Casa Branca. O agronegócio brasileiro, portanto, é beneficiário do conflito e credor de sua continuidade, posição desconfortável para quem defende, no plano diplomático, a desescalada.

2. Chancay e a ferrovia bioceânica

Em julho de 2026, Brasil e China firmaram acordo para estudos técnicos e de viabilidade de uma ferrovia ligando a Bahia ao porto de Chancay, informou o portal Peru Retail10. A proposta é apresentada como alternativa ao Canal do Panamá, um dos gargalos citados pelo FT. O ceticismo, no entanto, é concreto: operadores logísticos ouvidos pela Datamar9 lembram que nenhuma soja brasileira sai hoje por portos do Pacífico, e que transbordos, armazenagem, fiscalização aduaneira e infraestrutura precária podem anular o tempo ganho no mar. São estudos, não obras.

3. Terras raras: a moeda de troca que o Brasil ainda não usa

Segundo dados de 2026 do Serviço Geológico dos EUA reproduzidos pelo Monitor Mercantil11, o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta. A China detém 44 milhões de toneladas, pouco mais da metade do total conhecido, cerca de 60% da extração e 90% da capacidade de refino. Foi exatamente esse controle que levou Trump à mesa de negociação em 2025, e é o tema que ficou sem resposta na cúpula de setembro2.

Washington já se movimenta no território brasileiro: a agência estatal americana DFC financia as mineradoras Serra Verde e Aclara, e a mina Pela Ema, em Goiás, é hoje a única em operação comercial no país11,12. O governo federal anunciou em janeiro a formulação de uma política nacional para o setor, segundo o Outras Palavras15. O assunto migrou para a campanha presidencial, com acusações cruzadas sobre "entrega" de recursos aos EUA de um lado e intervencionismo que favoreceria a China de outro, como registrou a Gazeta do Povo12. Um tema técnico virou disputa eleitoral, o que dificulta construir uma estratégia de Estado.

4. Inteligência artificial: o Brasil na WAICO

O Brasil está entre os 29 signatários da WAICO, com sede em Xangai, ao lado de países como Rússia, Indonésia, Paquistão e Cazaquistão, conforme o Mobile Time7. Em nota conjunta, os ministérios da Ciência e Tecnologia, das Relações Exteriores e da Gestão afirmaram que a adesão se insere no acompanhamento dos debates sobre governança de IA. O mesmo comunicado, citado pela Convergência Digital8, ressalva que o processo seguirá os procedimentos internos, inclusive a eventual ratificação do acordo. Em termos práticos, a participação definitiva ainda depende do Congresso.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil13 veem na adesão uma oportunidade de soberania digital, desde que o país invista em infraestrutura própria, e argumentam que o Brasil pode transitar entre iniciativas chinesas e ocidentais. Críticos enxergam o risco de vincular padrões e dados públicos a uma arquitetura tecnológica controlada por Pequim. Para o argumento do FT1, que compara a WAICO à forma como entidades americanas difundiram padrões dos EUA nos anos 1990, a questão central é quem define as regras técnicas que outros países adotarão por décadas.

Contraponto

Os limites da analogia

A comparação com o Grande Jogo ilumina, mas também simplifica. Britânicos e russos tinham economias pouco integradas; EUA e China continuam ligados por centenas de bilhões de dólares em comércio, cadeias produtivas e títulos públicos, o que eleva o custo de uma ruptura. A dissuasão nuclear também não existia no século XIX. E há quem leia a cúpula de setembro de forma menos sombria: para o German Marshall Fund2, o encontro cumpriu as expectativas modestas que lhe foram atribuídas e reforçou a estabilização da relação.

No caso brasileiro, a tese de que o país pode "jogar com os dois lados" também tem limites. A dependência da China como compradora de commodities reduz a margem de barganha, e a concentração da pauta em soja, petróleo e minério expõe o país às oscilações da trégua sino-americana. Há ainda divergência legítima sobre a WAICO: parte dos analistas a vê como espaço multilateral do Sul Global, enquanto outra parte a interpreta como instrumento de influência de Pequim que reúne governos autoritários.

O que observar nos próximos meses

Foroohar encerra seu ensaio sugerindo que o desfecho pode depender de forças fora do controle das duas potências, como o clima que abre rotas no Ártico e a velocidade da mudança tecnológica. Para o leitor brasileiro, há marcos mais próximos: o encontro Trump-Xi previsto para novembro na China e o G20 de dezembro em Miami, que dirão se a trégua comercial se aprofunda e, portanto, se a vantagem da soja brasileira encolhe; a tramitação da adesão à WAICO no Congresso; a política nacional de terras raras; e o resultado dos estudos da ferrovia bioceânica.

O Grande Jogo original durou quase um século e terminou num acordo de partilha entre as potências, decidido sem consulta aos territórios disputados. A diferença do novo jogo é que países como o Brasil têm cadeira à mesa. Resta saber se terão estratégia para ocupá-la.

Perguntas frequentes

O que é o "novo Grande Jogo" entre EUA e China?

É a analogia proposta pela colunista Rana Foroohar, do Financial Times, entre a rivalidade sino-americana atual e a disputa entre o Império Britânico e a Rússia pela Ásia Central no século XIX. Nos dois casos, uma potência incumbente tenta conter uma ascendente por meio do controle de rotas, recursos e tecnologias.

O que a visita de Xi Jinping a Washington em setembro de 2026 produziu?

A visita de 23 a 25 de setembro manteve a trégua comercial, criou mecanismos econômicos adicionais e trouxe cooperação limitada em fentanil e IA. O gesto mais visível foi o empréstimo de dois pandas gigantes ao Zoológico de Atlanta. Terras raras, prioridade dos EUA, ficaram sem acordo.

Como a rivalidade EUA-China afeta o agronegócio brasileiro?

A guerra comercial ampliou a fatia do Brasil nas importações chinesas de soja para 73,6% em 2025. Uma trégua duradoura, com a China comprando mais soja americana, tende a reduzir esses ganhos e os prêmios pagos aos produtores brasileiros.

O Brasil faz parte da Organização Mundial de Cooperação em IA (WAICO)?

Sim. O Brasil foi um dos 29 países que assinaram o acordo de fundação da WAICO em Xangai, em julho de 2026. Segundo o governo federal, a adesão definitiva ainda observará os procedimentos internos, incluindo a eventual ratificação pelo Congresso.

Por que as terras raras brasileiras importam nessa disputa?

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, segundo o Serviço Geológico dos EUA. Como a China domina cerca de 90% do refino global, o país é visto por Washington como alternativa estratégica de fornecimento, o que transformou o tema em assunto de política externa e de campanha eleitoral.

Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido