Uma semana depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a eleição brasileira passou a ser lida no exterior como peça de um movimento maior. Em análise publicada neste domingo (11) no El País, o jornalista espanhol Joaquín Estefanía sustenta que a direita que hoje governa boa parte das Américas está produzindo uma nova ortodoxia econômica: um sucessor do Consenso de Washington que, ao contrário do original, não defende o Estado mínimo de forma coerente. Mistura austeridade com tarifas, privatizações com subsídios a setores estratégicos e coloca a segurança nacional dentro da política econômica.[1]
A tese merece exame cuidadoso no Brasil, porque o país chega ao segundo turno de 25 de outubro exatamente na encruzilhada descrita pelo artigo. E o exame revela um detalhe que a leitura estrangeira tende a perder: por aqui, os dois campos em disputa trocaram de manual.
O que sustenta a análise do El País
O ponto de partida de Estefanía é que a extrema direita no poder não forma um bloco ideológico homogêneo. O que une seus líderes, segundo ele, é a existência de um adversário comum, a esquerda, enquanto cada governante escolhe no cardápio de medos aqueles que melhor dialogam com o próprio eleitorado.[1] A motosserra exibida por Javier Milei numa conferência conservadora em Maryland, em fevereiro de 2025, aparece no texto como emblema desse campo.
Na economia, o autor identifica a volta de parte da lógica macroeconômica dos anos 1990, mas inserida num modelo bem mais intervencionista e geopolítico: protecionismo seletivo, tarifas, política industrial com campeões nacionais e apoio a setores considerados estratégicos. Daí sua fórmula de que o novo arranjo tem muito "de Washington" e pouco de "consenso".[1] Estefanía recorre ainda ao filósofo britânico John Gray, que no livro Os Novos Leviatãs (2023) descreve o retorno de Estados fortes e pouco liberais.[13]
O texto contrasta esse cenário com a Espanha, onde o debate público gira em torno de moradia, redistribuição e reforma tributária progressiva, e encerra com uma observação que interessa diretamente ao leitor brasileiro: em boa parte das Américas, a violência ultrapassou a desigualdade como principal preocupação da população.[1]
Do decálogo de Williamson à política industrial
A expressão original foi cunhada em 1989 pelo economista John Williamson para resumir as reformas que o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial recomendavam aos países latino-americanos endividados: disciplina fiscal, reforma tributária, liberalização dos juros, câmbio competitivo, abertura comercial, abertura ao investimento estrangeiro, privatizações, desregulamentação e garantia do direito de propriedade.[3] No Brasil, essa agenda atravessou a abertura comercial do início dos anos 1990, o Plano Real e o ciclo de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.
A ruptura com esse receituário, porém, não começou na direita. Em abril de 2023, Jake Sullivan, então assessor de Segurança Nacional do governo Joe Biden, usou na Brookings Institution a expressão "novo Consenso de Washington" para defender subsídios à indústria nacional, cadeias produtivas protegidas e a fusão entre política econômica e segurança.[4] O segundo governo Donald Trump radicalizou o movimento com o tarifaço global anunciado em abril de 2025 e, três meses depois, com a sobretaxa de 50% sobre parte das exportações brasileiras, mais tarde parcialmente flexibilizada.
A contribuição de Estefanía está em notar que esse instrumental, nascido no centro-esquerda americano, foi incorporado pela direita radical e combinado, nos países periféricos, com a austeridade doméstica que o consenso antigo pregava.
Um mosaico, não um bloco
O mapa regional dá substância à tese. José Antonio Kast venceu o segundo turno no Chile em 14 de dezembro de 2025 com 59,1% dos votos, a maior votação absoluta da história do país, segundo a Gazeta do Povo.[5] Em 2026 vieram a eleição de Laura Fernández na Costa Rica e, em junho, as vitórias de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia. Uma análise do J.P. Morgan Private Bank classifica o ciclo 2024–2026 como o maior realinhamento regional em mais de duas décadas, com México e Uruguai entre as exceções.[7]
Mas a própria Gazeta do Povo registra que essa nova direita hispano-americana não constitui um movimento homogêneo.[5] Milei aposta em choque fiscal e abertura; Kast priorizou segurança e imigração; o modelo salvadorenho de Nayib Bukele é essencialmente penal. E o desgaste chegou cedo: segundo a Bloomberg Línea, a popularidade de Kast caiu 13 pontos percentuais desde a posse, em março, após uma crise provocada pela alta dos combustíveis.[6]
Onde o Brasil se encaixa
Com 100% das seções totalizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro somou 56.104.503 votos (47,03% dos válidos) contra 53.879.538 de Lula (45,16%), uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos, conforme a totalização divulgada em 5 de outubro.[2] O resultado contrariou as pesquisas que, ao longo de 2026, mostravam Lula à frente no primeiro turno.
A pergunta relevante é se o programa do candidato do PL corresponde ao "novo consenso" descrito por Estefanía. Os sinais apontam em outra direção. Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central ligado à campanha, disse ao Times Brasil que a equipe prepara uma PEC de transição com corte de gastos próximo de 1,5% do PIB, um segundo eixo de privatizações e concessões e uma abertura maior da economia ao comércio internacional.[8] Em abril, o Correio Braziliense já havia relatado estudos para corrigir aposentadorias e despesas de saúde e educação apenas pela inflação.[9]
É um cardápio muito mais próximo do decálogo de 1989 do que do protecionismo de Trump. Ao mesmo tempo, o próprio candidato afirmou que não fará ajuste sobre aposentados e que não pretende mexer nos pisos constitucionais de saúde e educação, e um assessor admitiu que os detalhes só serão conhecidos depois da eleição, segundo reportagem reproduzida pelo ES Hoje.[10]
Do outro lado, o governo Lula pratica desde 2024 uma política industrial com metas setoriais, crédito do BNDES e conteúdo local, instrumentos que se parecem bastante com o "novo consenso" formulado em Washington em 2023. O paradoxo brasileiro, portanto, é que a esquerda governa com as ferramentas do consenso novo, enquanto a direita promete as reformas do antigo, somadas a um alinhamento geopolítico com o governo americano que tarifou exportações nacionais.
Segurança no lugar da desigualdade
A observação final de Estefanía encontra eco nos números brasileiros. Em levantamento Genial/Quaest de fevereiro de 2026, 27% dos entrevistados apontaram a violência como o principal problema do país; no Nordeste, base eleitoral do presidente, o índice chegou a 35%, segundo O Imparcial.[11] A agenda da segurança, tradicionalmente associada à direita, deixou de ser regional e passou a disputar espaço com emprego e renda.
Há razões para ler a tese do "novo consenso" com cautela.
- Consenso exige convergência. Milei defende livre comércio; Trump, tarifas. Um conjunto de governos que discorda sobre a política comercial dificilmente compartilha uma doutrina econômica, ainda que compartilhe adversários.
- O pêndulo pode ser mais forte que a ideologia. Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil lembram que em 2022 se falava numa onda de esquerda e atribuem parte das viradas a uma rejeição crônica a quem governa, a chamada "praga da incumbência".[12]
- Ajuste fiscal não é monopólio de um campo. Economistas de trajetórias distintas, como o ex-ministro Henrique Meirelles, avaliam que o próximo presidente terá de enfrentar o equilíbrio das contas públicas independentemente do resultado e criticam a falta de clareza dos dois programas.[14]
O que estará em jogo em 25 de outubro
O artigo do El País acerta ao deslocar o foco das liberdades para a economia, terreno menos discutido da onda conservadora. No caso brasileiro, porém, o segundo turno não opõe simplesmente o consenso antigo ao novo. Opõe um programa de corte de gastos e privatizações, ainda sem números oficiais, a uma política de Estado indutor já em execução, numa eleição em que o eleitor declara se preocupar mais com segurança do que com qualquer uma das duas doutrinas. Qual consenso sairá das urnas dependerá menos de Washington do que da capacidade de cada candidato de transformar promessas genéricas em contas verificáveis.
Perguntas frequentes
O que foi o Consenso de Washington?
Conjunto de dez recomendações de política econômica sistematizado pelo economista John Williamson em 1989, com base nas posições do Tesouro dos EUA, do FMI e do Banco Mundial: disciplina fiscal, abertura comercial, privatizações, desregulamentação e proteção à propriedade, entre outras.
O que é o "novo Consenso de Washington"?
Expressão usada por Jake Sullivan em 2023 para defender política industrial e segurança econômica nos EUA. Na leitura de Joaquín Estefanía (El País, 2026), o termo passou a designar a combinação de austeridade, tarifas, protecionismo seletivo e geopolítica adotada por governos de direita.
Qual foi o resultado do primeiro turno da eleição presidencial de 2026?
Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e Lula (PT), 45,16%, segundo a totalização do TSE. Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro de 2026.
O programa de Flávio Bolsonaro segue o novo consenso?
Apenas em parte. As propostas divulgadas por seus economistas (corte de gastos, privatizações, abertura comercial) lembram mais o consenso de 1989. O alinhamento com Trump o aproxima geopoliticamente do novo modelo, mas o próprio candidato fez declarações que contradizem pontos do ajuste.
Por que a segurança pública pesa tanto na eleição?
Pesquisa Genial/Quaest de fevereiro de 2026 mostrou a violência como principal problema do país para 27% dos brasileiros, à frente da economia, e para 35% no Nordeste.
Referências
- ESTEFANÍA, Joaquín. El nuevo Consenso de Washington: simpatía por el diablo. El País, 11 out. 2026. elpais.com
- Tribunal Superior Eleitoral. Totalização do 1º turno da eleição presidencial de 2026, 5 out. 2026 (via Portal de Prefeitura).
- WILLIAMSON, John. What Washington Means by Policy Reform. Institute for International Economics, 1990.
- SULLIVAN, Jake. Discurso sobre a renovação da liderança econômica americana. Brookings Institution, abr. 2023.
- Gazeta do Povo. O giro da América Latina à direita.
- Bloomberg Línea. Direita vence na Colômbia e avança na América Latina; agora tem que entregar resultados, 23 jun. 2026.
- J.P. Morgan Private Bank. Oportunidades e riscos para os mercados da América Latina após o superciclo eleitoral, 2026.
- Times Brasil (CNBC). Entrevista com Luiz Fernando Figueiredo sobre a PEC de transição, out. 2026.
- Correio Braziliense. Flávio avalia reajuste de gastos sociais pela inflação e mais privatizações, abr. 2026.
- ES Hoje. Contradições do discurso econômico de Flávio expõem dúvidas no ajuste fiscal, out. 2026.
- Genial/Quaest. Pesquisa nacional, 5 a 9 fev. 2026 (via O Imparcial).
- BBC News Brasil. As duas eleições que podem consolidar "círculo de fogo" pró-Trump em torno do Brasil, 9 jun. 2026.
- GRAY, John. The New Leviathans: Thoughts After Liberalism. Allen Lane, 2023.
- A Crítica. Meirelles diz que agendas econômicas de Lula e Flávio são fracas, out. 2026.