O Tecido · Caderno Política

Aos 89 anos, o neuropsiquiatra e etólogo francês Boris Cyrulnik, um dos nomes mais associados à ideia de resiliência, voltou a cruzar neurociência e política em entrevista recente. Sua tese é direta: sociedades atravessadas por crises mal digeridas tendem a escolher entre três caminhos, a inércia, a entrega do poder a um líder autoritário ou uma reconstrução coletiva. E, segundo ele, o mundo atual está inclinado para o caminho do meio.

Judeu escondido da Gestapo na infância, órfão de pais deportados a Auschwitz, Cyrulnik construiu carreira explicando como indivíduos e sociedades se recompõem depois do trauma. Foi conselheiro do presidente francês Emmanuel Macron e presidiu a Comissão dos 1.000 Primeiros Dias, grupo criado pelo Eliseu para estudar como a fase entre a gestação e os dois anos de vida molda, de forma praticamente irreversível, a capacidade de fala, vínculo e autorregulação de uma criança. Em entrevista ao jornal espanhol El País, ele voltou a esse território para explicar por que enxerga uma ligação direta entre infância desestruturada e ascensão de líderes autoritários mundo afora[1].

Três saídas depois de uma catástrofe

Para Cyrulnik, toda grande crise coletiva, seja uma epidemia, uma guerra ou uma ruptura econômica, abre três portas para uma sociedade. A primeira é não mudar nada e seguir como antes. A segunda é depositar a confiança em uma figura forte que promete segurança e ordem. A terceira, mais rara e mais lenta, é a reconstrução, um verdadeiro renascimento cultural. Ele cita a peste que varreu a Europa a partir do século XIV, espalhada por tripulações que driblavam quarentenas na Rota da Seda, como o gatilho involuntário do Renascimento italiano[1].

É esse enquadramento que ele aplica ao presente. Cyrulnik menciona nominalmente o ex-presidente americano Donald Trump e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro como exemplos do segundo caminho, o do caudilho eleito nas urnas que se apresenta como detentor exclusivo da verdade. E cita a eleição colombiana como exemplo recente: em junho, o país escolheu o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella, apoiado publicamente por Trump, para a Presidência, em uma disputa decidida por menos de um ponto percentual sobre o senador de esquerda Iván Cepeda[2].

"Não se pode debater com fanáticos religiosos, políticos ou econômicos. Se você não pensa como eles, é um idiota." Boris Cyrulnik, em entrevista ao El País, sobre o discurso de líderes autoritários

Da infância desprotegida ao voto autoritário

O elo entre neurociência e política que Cyrulnik propõe passa pela teoria do apego, formulada pelo psiquiatra britânico John Bowlby, seu mentor. Segundo essa linha, crianças que crescem com vínculos afetivos estáveis e prolongados desenvolvem maior tolerância à incerteza na vida adulta e, por consequência, menor propensão a buscar figuras autoritárias como resposta ao medo. O raciocínio de Cyrulnik é que ambientes com pouco contato parental, telas em excesso e redes de apoio social reduzidas atrofiam o córtex frontal, região ligada à antecipação e ao autocontrole, favorecendo impulsividade e insegurança coletiva[1].

A base científica da resiliência como campo de estudo remonta aos anos 1950, quando a psicóloga americana Emmy Werner iniciou um acompanhamento de quatro décadas com quase 700 crianças nascidas na ilha havaiana de Kauai, muitas delas expostas a pobreza, violência doméstica e instabilidade familiar. O estudo mostrou que fatores de proteção, como a presença de ao menos um adulto de referência afetiva, alteravam de forma significativa as trajetórias dessas crianças na vida adulta[3]. Décadas depois, Cyrulnik aplicaria conceitos semelhantes ao observar órfãos romenos em campos de refugiados que voltaram a se desenvolver emocionalmente apenas depois de serem informalmente "adotados" por adultos de referência.

Na França, esse referencial embasou uma política concreta. O parlamento francês aprovou, no início de 2026, uma nova licença de nascimento que garante a cada um dos pais até dois meses adicionais de afastamento remunerado, com entrada em vigor em julho. A medida soma-se às licenças de maternidade e paternidade já existentes e busca, entre outros objetivos, ampliar o tempo de contato entre pais e recém-nascidos nos primeiros meses de vida[4].

O limite das telas e o caso australiano

Cyrulnik é cético quanto a proibições totais de redes sociais para menores de idade, citando o exemplo da Austrália, que baniu o acesso de menores de 16 anos a plataformas como Instagram, TikTok e Snapchat a partir de dezembro de 2025. Segundo ele, medidas desse tipo fracassam porque crianças e adolescentes encontram formas de contornar a verificação de idade. Levantamentos da agência reguladora australiana eSafety parecem confirmar parte dessa avaliação: três meses após a lei entrar em vigor, mais de oito em cada dez adolescentes ainda acessavam ao menos uma rede social, e cerca de metade dos que mantiveram contas relatou que a idade nunca chegou a ser verificada pelas plataformas[5].

No Brasil, o retrato é diferente e vale como contraponto ao alarme europeu. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, núcleo vinculado ao Comitê Gestor da Internet no país, identificou pela primeira vez em dez anos de série histórica uma queda na proporção de crianças e adolescentes de 9 a 17 anos que usam redes sociais, movimento acompanhado por uma migração de interesse para ferramentas de inteligência artificial generativa, já usadas por até 75% dos adolescentes de 13 a 17 anos[6].

Contraponto

Nem todos os especialistas endossam uma ligação direta entre neurodesenvolvimento infantil e escolhas eleitorais autoritárias. Cientistas políticos costumam apontar que o avanço de líderes de extrema direita e extrema esquerda em democracias distintas, da Colômbia à França, passando pelos Estados Unidos, tem raízes multifatoriais mais concretas: estagnação econômica, desconfiança em instituições tradicionais, polarização nas redes e estratégias eleitorais específicas de cada país. Reduzir esse fenômeno a um único eixo biográfico ou neurológico, mesmo vindo de um pesquisador respeitado, corre o risco de simplificar processos históricos e institucionais complexos que a ciência política estuda com outras ferramentas.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil elege presidente em outubro de 2026, em um cenário de forte polarização e no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado, segue como referência simbólica de parte do campo conservador, mesmo inelegível[7]. A tese de Cyrulnik, ainda que discutível em seu determinismo, oferece uma chave de leitura para observadores do processo eleitoral: sociedades que atravessam crises prolongadas sem reconstruir laços de confiança tendem a valorizar discursos de autoridade forte em detrimento de debate público e pluralidade.

Este texto foi produzido com base em reportagem original do jornal espanhol El País, assinada por Daniel Verdú, publicada em 15 de agosto de 2026. A entrevista completa com Boris Cyrulnik pode ser lida em: elpais.com. O Tecido não reproduz o conteúdo original na íntegra e complementou a apuração com fontes independentes listadas nas referências abaixo.

Perguntas frequentes

Quem é Boris Cyrulnik?

É um neuropsiquiatra e etólogo francês, nascido em Bordeaux em 1937, sobrevivente do Holocausto e um dos autores que popularizaram o conceito de resiliência aplicado a seres humanos. Foi conselheiro do governo francês e presidiu a Comissão dos 1.000 Primeiros Dias, criada por Emmanuel Macron.

O que é resiliência, segundo o conceito original?

É a capacidade de um organismo, pessoa ou sociedade de se reorganizar e desenvolver uma nova forma de vida depois de um trauma ou catástrofe, sem necessariamente voltar ao estado anterior. O termo tem origem na ecologia e foi levado à psicologia pela pesquisadora Emmy Werner.

Por que Cyrulnik relaciona infância e voto em líderes autoritários?

Ele argumenta que crianças criadas em ambientes com vínculo afetivo estável desenvolvem mais confiança e menos necessidade de figuras de autoridade que prometem segurança absoluta na vida adulta. É uma leitura baseada na teoria do apego, não um consenso fechado nas ciências políticas.

A proibição de redes sociais para menores funcionou na Austrália?

Parcialmente. A lei, em vigor desde dezembro de 2025, reduziu o número de contas ativas de menores, mas relatórios da agência eSafety mostram que a maioria dos adolescentes seguiu acessando plataformas por falhas na verificação de idade.

Glossário

Resiliência
Capacidade de reorganização diante de um trauma ou catástrofe, gerando uma nova forma de vida em vez de simples retorno ao estado anterior.
Teoria do apego
Modelo formulado por John Bowlby que descreve como vínculos afetivos estáveis na infância moldam a regulação emocional e a confiança na vida adulta.
Comissão dos 1.000 Primeiros Dias
Grupo de trabalho francês, presidido por Cyrulnik, que estuda o período entre a gestação e os dois anos de idade como janela crítica do desenvolvimento infantil.

Referências

  1. Verdú, Daniel. "Boris Cyrulnik, neuropsiquiatra: 'No se puede debatir con los fanáticos como Trump'". El País, 15 ago. 2026. Disponível em: elpais.com.
  2. Brasil de Fato. "Eleição na Colômbia: apuração preliminar indica vitória da extrema direita". Disponível em: brasildefato.com.br.
  3. Wikipédia. "Resiliência (psicologia)". Disponível em: pt.wikipedia.org.
  4. Service-Public.fr (Governo da França). "Additional birth leave will be offered from 2026". Disponível em: service-public.gouv.fr.
  5. Olhar Digital. "Proibição não afastou jovens das redes sociais na Austrália". Disponível em: olhardigital.com.br.
  6. NIC.br / Cetic.br. "Menos celular e rede social, muita IA: como crianças usam Internet em 2025". Disponível em: nic.br.
  7. JOTA. "Quem são os possíveis candidatos a presidente da República nas eleições de 2026". Disponível em: tagteam.harvard.edu.