Caderno Ciência · Olfato e inteligência artificial

Em resumo
  • Coluna do Financial Times sustenta que o olfato é um dos últimos redutos de privacidade e uma linha divisória entre o mundo físico e o digital.
  • A ciência confirma parte do argumento: o cheiro é o sentido mais difícil de codificar, porque depende de centenas de tipos de receptores, e não de três cores ou de uma frequência.
  • Mas a fronteira se move. Um modelo de IA publicado na Science em 2023 descreve odores melhor que o avaliador humano mediano, e startups já reproduzem cheiros a partir de dados.
  • No Brasil, narizes eletrônicos da UFPE e da USP detectam metanol e identificam madeiras. Pela LGPD, um cheiro corporal usado para identificar alguém seria dado biométrico sensível.

Há uma ironia silenciosa na era da inteligência artificial. Máquinas já leem, escrevem, ouvem, falam e enxergam com desempenho que assusta especialistas. Ainda assim, nenhuma delas é capaz de sentir, de forma confiável e cotidiana, o cheiro de café passado numa cozinha. É dessa lacuna que parte a colunista Elaine Moore em texto publicado pelo Financial Times em 1º de outubro de 2026. Segundo ela, o olfato ajuda as pessoas a manter alguns fragmentos de privacidade e preserva uma linha de separação entre o real e o virtual1.

A tese é sedutora e merece ser levada a sério. Mas também merece ser testada contra o que a pesquisa em olfato digital vem produzindo nos últimos três anos. O resultado desse confronto é menos confortável do que a coluna sugere: o nariz humano continua sendo um refúgio, mas um refúgio com prazo de validade incerto.

Por que o cheiro é o sentido mais difícil de digitalizar

Visão e audição foram digitalizadas porque podem ser descritas por poucas variáveis físicas. A cor de um pixel cabe em três números, vermelho, verde e azul, que correspondem aproximadamente aos três tipos de cones da retina. Um som é uma onda com frequência e amplitude. O olfato não tem equivalente simples. O ser humano possui cerca de quatrocentos tipos funcionais de receptores olfativos, e cada odor ativa uma combinação particular deles. Um aroma comum, como o de uma fruta madura, pode envolver dezenas de moléculas voláteis diferentes.

Há ainda a questão da química. Moléculas quase idênticas podem ter cheiros completamente distintos, e moléculas de estruturas muito diferentes podem cheirar de forma parecida. Durante décadas, essa relação entre estrutura e percepção foi tratada como uma das perguntas abertas da neurociência sensorial. Sem um "mapa" do espaço dos odores, não havia como gravar, transmitir e reproduzir um cheiro do modo como fazemos com fotos e músicas.

É isso que dá substância ao argumento de Moore. Enquanto vídeo e voz já podem ser falsificados com facilidade, o cheiro de um ambiente, de uma pessoa ou de um alimento continua exigindo presença física. Uma reunião por videochamada não transmite o perfume de ninguém. Um vídeo gerado por IA não tem odor. O nariz, nesse sentido, ainda funciona como um detector de realidade.

O mapa que a IA desenhou

A primeira rachadura relevante nessa fronteira apareceu em 2023. Pesquisadores ligados ao Google, ao Monell Chemical Senses Center, da Filadélfia, e a universidades americanas e britânicas publicaram na revista Science um modelo de redes neurais de grafos capaz de prever como uma molécula cheira a partir apenas de sua estrutura química2. O sistema foi treinado com cerca de cinco mil moléculas de bases de dados da perfumaria, associadas a descritores como "frutado" ou "amadeirado", e gerou o que os autores chamaram de Mapa Principal de Odores (POM, na sigla em inglês).

O teste decisivo foi prospectivo. Diante de 400 moléculas que nunca tinha visto, o perfil de odor produzido pelo modelo ficou mais próximo da média de um painel humano treinado do que o do avaliador humano mediano, conforme descreve o resumo do artigo. Em seguida, a equipe usou o sistema para posicionar cerca de 500 mil moléculas potencialmente odoríferas no mapa, tarefa que, segundo os pesquisadores, exigiria décadas de trabalho humano. Uma reportagem da IEEE Spectrum registrou ainda que um grupo independente conseguiu reproduzir o modelo a partir da versão preliminar do estudo, ponto relevante num campo em que replicação é escassa.

Parte da equipe deixou o Google e fundou a Osmo, empresa sediada nos Estados Unidos que se apresenta como dedicada a "digitalizar o olfato". O próprio modelo, no entanto, tem limites que seus autores reconhecem: ele prevê descritores verbais a partir de moléculas isoladas, mas não explica como o cérebro integra misturas complexas, nem incorpora diferenças individuais e culturais na percepção.

O cheiro continua exigindo presença física. Mas a ciência já aprendeu a traduzir moléculas em coordenadas, e coordenadas podem viajar.Ewerton Lopes, O Tecido

"Teletransporte" de cheiro: o que de fato foi feito

Em março de 2024, a Osmo anunciou um projeto que batizou de Scent Teleportation. O nome é publicitário, mas o processo é concreto e envolve três etapas. Primeiro, a amostra passa por um cromatógrafo a gás acoplado a espectrômetro de massa (GC/MS), equipamento que separa e identifica as moléculas voláteis. Depois, o mapa de odores e a IA da empresa convertem essa leitura em uma fórmula. Por fim, uma impressora de fragrâncias, descrita pela empresa como do tamanho de uma geladeira, recompõe o aroma em outro lugar.

Etapas do processo de digitalização de um cheiro: amostra, cromatografia e espectrometria de massa, mapa de odores por IA, fórmula digital e impressora de aromas 1. AMOSTRAar ao redorda ameixa 2. GC/MSidentifica asmoléculas 3. MAPA + IAmolécula viracoordenada 4. FÓRMULAarquivo quepode viajar 5. IMPRESSORArecompõe oaroma Do cheiro ao dado e de volta ao cheiro O elo físico persiste nas pontas: alguém precisa coletar a amostra e alguém precisa estar diante da impressora
Esquema simplificado elaborado pelo O Tecido com base na descrição pública do processo divulgada pela Osmo em 2024.

Em atualização de outubro de 2024, a empresa afirmou ter concluído o ciclo completo em laboratório com o aroma de uma ameixa fresca, capturado por análise do ar ao redor da fruta e recriado em outra sala3. São alegações da própria empresa, sem avaliação independente publicada. Ainda assim, o experimento ilustra o ponto que interessa aqui: o cheiro passou a poder existir, ainda que de forma rudimentar, como arquivo.

Repare, porém, onde o processo continua dependendo do mundo físico. É preciso um objeto real para ser analisado, um equipamento de laboratório caro e uma máquina de grande porte para reproduzir o resultado. Em outras palavras, o "teletransporte" não elimina a fronteira descrita pelo FT. Ele apenas a desloca para as extremidades da cadeia.

Quando o cheiro vira dado pessoal

O aspecto da coluna que mais pede atenção é o da privacidade. Cada pessoa emite uma assinatura química, composta por compostos orgânicos voláteis (COVs) presentes no suor e na respiração. Cães farejadores exploram isso há séculos. O que muda agora é a capacidade de máquinas fazerem o mesmo.

Em 2022, pesquisadores japoneses descreveram um "nariz artificial" com 16 sensores que, combinado a aprendizado de máquina, autenticou até 20 pessoas pelo hálito com acurácia média acima de 97%4. Em 2025, um estudo publicado na Scientific Reports por pesquisadores poloneses foi além: com 94 participantes, testou o uso dos voláteis do hálito não apenas para identificar indivíduos, mas também para estimar índice de massa corporal e sexo5. É aqui que o tema deixa de ser curiosidade. Um sensor capaz de identificar alguém pelo ar que expira também pode, em tese, inferir informações sobre sua saúde sem que a pessoa perceba que está sendo medida.

No Brasil, essa discussão tem enquadramento legal claro. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) classifica como dado pessoal sensível o dado biométrico vinculado a uma pessoa natural, assim como o dado referente à saúde (art. 5º, II), e restringe seu tratamento às hipóteses do art. 1111. Um odor corporal coletado para identificar alguém, ou para inferir condições físicas, se enquadraria nessas categorias. A lei, portanto, já oferece proteção. O desafio é outro: a coleta de cheiros é invisível e não exige contato, o que torna o consentimento difícil de verificar na prática.

O nariz como termômetro da saúde

Se o olfato protege a privacidade, também revela muito sobre quem o perde. Um estudo da Universidade de Chicago publicado na PLOS ONE em 2014 acompanhou 3.005 adultos americanos de 57 a 85 anos. Os que não conseguiam identificar odores comuns tiveram mais de três vezes a chance de morrer nos cinco anos seguintes, mesmo após controle por idade, doenças, nutrição e cognição6. Na divulgação da universidade, os autores apontaram que a perda olfativa foi um preditor mais forte que diagnósticos de insuficiência cardíaca, câncer ou doença pulmonar.

Proporção de mortes em cinco anos por condição olfativa: 10 por cento entre quem tinha olfato normal, 19 por cento com perda moderada e 39 por cento entre os que falharam no teste Mortalidade em cinco anos, por condição do olfato Olfato normal 10% Perda moderada 19% Anosmia 39% Adultos de 57 a 85 anos nos EUA (n = 3.005). Fonte: Pinto et al., PLOS ONE, 2014
Percentuais divulgados na cobertura do estudo; a razão de chances ajustada para anosmia foi de 3,37.

A pandemia de covid-19 transformou essa estatística em experiência coletiva. Uma meta-análise publicada no BMJ em 2022, com 18 estudos e 3.699 pacientes, estimou que cerca de 5% dos infectados mantinham perda ou alteração de olfato ou paladar seis meses depois7. No Brasil, pesquisadores do Hospital das Clínicas da USP relataram ainda em 2020 que cerca de 80% dos pacientes acompanhados referiam perda parcial ou total do olfato8. E um levantamento telefônico com 9 mil brasileiros, divulgado em 2022, apontou a perda de olfato ou paladar como a sequela mais citada, mencionada por 30% dos que tiveram a doença.

Esses números importam para o debate sobre IA por um motivo simples. Se o olfato é um indicador tão sensível do estado do organismo, a tecnologia que aprende a "cheirar" pessoas carrega, ao mesmo tempo, promessa diagnóstica e risco de vigilância. A mesma molécula que ajuda um médico pode servir a um empregador ou a uma seguradora.

O Brasil no laboratório do olfato

O país não é espectador nessa área. Em outubro de 2025, em meio à onda de intoxicações por metanol em bebidas adulteradas, o Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco apresentou um nariz eletrônico que, a partir de uma gota, identifica alterações no aroma da bebida em menos de um minuto, com precisão anunciada de 98%9. O equipamento nasceu de uma pesquisa iniciada cerca de dez anos antes para avaliar o odorizante do gás natural e, até a divulgação, havia sido testado apenas em laboratório.

No Instituto de Química da USP, o grupo do pesquisador Jonas Gruber desenvolveu um nariz eletrônico de baixo custo capaz de distinguir espécies de madeira pelo odor, com aplicação potencial na fiscalização de extração ilegal10. Os dois casos mostram o uso mais promissor e menos polêmico da tecnologia: identificar substâncias e materiais, e não pessoas.

Contraponto: a fronteira pode ser mais frágil do que parece

A defesa do olfato como último território humano tem um ponto fraco. Ela descreve o estado atual da técnica, não um limite de princípio. A visão computacional também foi considerada intratável por décadas, até deixar de ser. Se modelos como o mapa de odores continuarem a melhorar e os sensores ficarem mais baratos, a "privacidade olfativa" pode se revelar apenas um atraso tecnológico.

Há, por outro lado, ceticismo legítimo na direção oposta. O psicólogo sensorial Avery Gilbert, em seu blog First Nerve, tem criticado o entusiasmo em torno da Osmo e lembrado que os resultados do modelo dependem de painéis humanos treinados para gerar os dados12. Para esse grupo de pesquisadores, falar em "dar olfato aos computadores" exagera o que foi feito: prever rótulos verbais para moléculas isoladas está longe de perceber um ambiente real, com misturas, umidade e adaptação sensorial. Os dois lados concordam num ponto: o salto do laboratório para o cotidiano ainda não ocorreu.

O que está em jogo

A coluna do FT acerta ao chamar atenção para algo que costuma passar despercebido. Num ambiente em que imagens e vozes podem ser fabricadas, o cheiro permanece uma das poucas evidências de que estamos diante de algo físico. E num mundo de câmeras e microfones, a ausência de "narizes" conectados ainda nos poupa de uma camada inteira de coleta de dados.

O que a pesquisa recente acrescenta é a noção de que essa proteção não está garantida pela biologia, mas pelo atraso relativo da engenharia. Para o Brasil, isso tem duas consequências práticas. A primeira é aproveitar a janela para desenvolver aplicações de interesse público, como as da UFPE e da USP, em segurança alimentar, saúde e meio ambiente. A segunda é antecipar a regulação: a LGPD já oferece a base, mas autoridades e empresas precisarão definir como o consentimento funciona quando o dado coletado é, literalmente, o ar ao redor de uma pessoa.

Por ora, o nariz continua sendo nosso. A questão é por quanto tempo, e sob quais regras.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial já consegue sentir cheiros?

Não da forma como humanos sentem. Modelos como o Mapa Principal de Odores, publicado na Science em 2023, preveem como uma molécula será descrita a partir de sua estrutura química. Narizes eletrônicos detectam padrões químicos específicos, como metanol em bebidas. Nenhum sistema percebe ambientes complexos de forma geral.

O que é o "teletransporte de cheiro"?

É o nome comercial dado pela empresa Osmo a um processo em que um aroma é analisado por cromatografia e espectrometria de massa, convertido em fórmula por IA e recriado por uma impressora de fragrâncias em outro local. A empresa afirma ter reproduzido o cheiro de uma ameixa em 2024; não há avaliação independente publicada.

Por que o olfato é mais difícil de digitalizar que a visão?

A cor pode ser representada por três valores, porque a retina usa três tipos de cones. O olfato humano depende de cerca de quatrocentos tipos de receptores, e cada cheiro resulta de combinações de muitas moléculas, cuja relação entre estrutura e odor é pouco intuitiva.

O cheiro de uma pessoa pode identificá-la?

Estudos experimentais indicam que sim. Em 2022, um sistema com 16 sensores autenticou até 20 pessoas pelo hálito com acurácia acima de 97%. A técnica ainda é restrita a laboratório e a grupos pequenos.

A LGPD protege dados de odor corporal?

Quando usados para identificar uma pessoa ou inferir sua saúde, esses dados se enquadram como dados pessoais sensíveis (biométricos ou de saúde), definidos no art. 5º, II, da Lei nº 13.709/2018, com tratamento restrito pelo art. 11.

Existem narizes eletrônicos desenvolvidos no Brasil?

Sim. A UFPE apresentou em 2025 um equipamento que detecta metanol em bebidas, e o Instituto de Química da USP desenvolveu um sensor de baixo custo que identifica espécies de madeira pelo odor.

Referências

  1. MOORE, Elaine. Why we can thumb our noses at AI. Financial Times, 1 out. 2026. https://www.ft.com/content/dd33034e-86f0-48b6-b62f-4a32a5334be0
  2. LEE, Brian K. et al. A principal odor map unifies diverse tasks in olfactory perception. Science, v. 381, 2023.
  3. OSMO. Teleporting Scent (mar. 2024) e Scent Teleportation Update: We Did It! (out. 2024). Blog corporativo.
  4. NEWS-MEDICAL. Olfactory sensor can authenticate individuals by analyzing their breath, 2022.
  5. PALECZEK, A. et al. The exhaled breath pattern as a potential method for biometrics identification. Scientific Reports, v. 15, 2025.
  6. PINTO, J. M. et al. Olfactory Dysfunction Predicts 5-Year Mortality in Older Adults. PLOS ONE, v. 9, n. 10, 2014.
  7. Meta-análise sobre perda prolongada de olfato e paladar pós-covid. BMJ, jul. 2022 (cobertura de Poder360 e agências).
  8. Estudo do Departamento de Otorrinolaringologia do HC-FMUSP sobre anosmia na covid-19. Cobertura de A Gazeta, 2020.
  9. UFPE, Centro de Informática. Nariz eletrônico para detecção de metanol em bebidas. Cobertura de Agência Brasil e Poder360, out. 2025.
  10. IQ-USP. Nariz eletrônico para identificação de madeiras. Cobertura de eCycle.
  11. BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).
  12. GILBERT, Avery. First Nerve (blog sobre ciência do olfato).
Nota editorial: este texto foi produzido a partir da coluna de Elaine Moore publicada no Financial Times em 1º de outubro de 2026, que serviu de ponto de partida para a análise. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; as referências à coluna são paráfrases da tese central, com crédito à autora e ao veículo. Os demais dados vêm de fontes independentes citadas ao longo do texto.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido