O mundo passa por eles: os estreitos que ninguém vê, mas que sustentam o comércio global
Enquanto o Estreito de Hormuz domina as manchetes com a tensão entre EUA, Israel e Irã, outras passagens marítimas movimentam parcelas ainda maiores da riqueza mundial — e carregam séculos de história e disputa em suas águas estreitas.
Há uma ironia sutil no noticiário internacional das últimas semanas. O Estreito de Hormuz — aquela faixa de água de apenas 33 quilômetros de largura entre o Irã e Omã — ocupou páginas e páginas de análises sobre a crise no Oriente Médio. A tensão é real, os riscos são concretos. Mas Hormuz responde por apenas 8% do comércio marítimo mundial.
Existem pelo menos quatro estreitos que movimentam o dobro ou o triplo disso — e raramente aparecem no debate público. Este artigo é uma viagem por esses gargalos invisíveis que regulam, silenciosamente, o pulso da economia global.
Participação no comércio marítimo mundial por via de passagem
Fonte: dados compilados de relatórios de organizações internacionais de comércio e transporte marítimo (UNCTAD, IMO, IMF PortWatch).
1. Estreito de Málaca — o coração do mundo
É o estreito mais movimentado do planeta. Por suas águas passam mais de 100 mil navios por ano — um a cada cinco minutos nas horas de pico. O valor anual das mercadorias supera US$ 3,5 trilhões. Para ter uma dimensão: Málaca movimenta três vezes o volume do Canal de Suez e cinco vezes o do Canal do Panamá.
A história começa mais de dois milênios atrás. O Império Srivijaya, baseado em Sumatra, controlou a rota entre os séculos VII e XIII, cobrando pedágio de comerciantes árabes, persas, indianos e chineses que transitavam entre os dois oceanos. A cidade de Malaca, que deu nome ao estreito, tornou-se no século XV o principal entreposto comercial do mundo oriental — até ser tomada pelos portugueses em 1511, inaugurando quatro séculos de dominação europeia sobre a rota.
Hoje, a China tem um problema que ela própria chama de "dilema de Málaca": quase 80% de suas importações de petróleo passam por aqui. Qualquer bloqueio seria catastrófico para Pequim — e Singapura, no extremo sul do estreito, tornou-se a segunda maior plataforma de contêineres do mundo exatamente por isso.
2. Estreito de Taiwan — o gargalo da era digital
Com apenas 130 km no ponto mais estreito, este canal carrega algo que nenhum outro estreito tem em igual medida: os semicondutores que alimentam o mundo digital. Taiwan produz mais de 90% dos chips de última geração do planeta. A TSMC, sua empresa-símbolo, registrou crescimento de quase 36% em seu faturamento no início de 2025 — e praticamente toda essa produção embarca por portos a menos de 160 km da costa chinesa.
O Japão depende do estreito para 32% de suas importações e 25% de suas exportações — um total de quase US$ 444 bilhões. A Coreia do Sul, para 30% de suas importações. A expressão "escudo de silício" circula nos círculos estratégicos: a dependência global dos chips de Taiwan seria um fator de dissuasão contra uma invasão chinesa — porque destruir a ilha seria destruir a própria cadeia global de tecnologia.
3. Estreito de Gibraltar — a porta da Europa
Colunas de Hércules, nos mapas antigos. Os gregos acreditavam que Gibraltar marcava o fim do mundo habitado. Os fenícios já o cruzavam há mais de três mil anos para chegar ao Atlântico em busca de metais. Cartago, Roma e, depois, o Império Árabe compreenderam que quem controla esse gargalo de 14 km controla o acesso ao Mediterrâneo.
Hoje, mais de 300 navios passam por Gibraltar todo dia, conectando o Atlântico ao Mar Mediterrâneo e, via Canal de Suez, ao Oceano Índico. É a grande "porta da Europa" — por onde entram e saem mercadorias para toda a União Europeia. O território de Gibraltar, colônia britânica encravada na ponta da Espanha, segue sendo fonte de tensão diplomática — e de controle estratégico.
4. Canal de Suez e Estreito de Dover — empate na crise
Inaugurado em 1869, o Canal de Suez foi o projeto de engenharia mais ambicioso do século XIX — e imediatamente se tornou uma arma geopolítica. Em 1956, o Egito nacionalizou o canal, desencadeando uma crise internacional que humilhou Reino Unido e França e acelerou o fim do colonialismo europeu. Em 2021, o navio Ever Given ficou encalhado por seis dias e bloqueou US$ 9,6 bilhões em comércio diário, lembrando o mundo da fragilidade dessa rota.
A vulnerabilidade ficou ainda mais evidente entre 2023 e 2025: ataques dos Houthis no Iêmen ao tráfego no Mar Vermelho fizeram o fluxo pelo Canal cair de 26 mil navios em 2023 para cerca de 13 mil em 2024, obrigando armadores a contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança — um desvio de dias ou semanas de navegação.
O estreito mais movimentado do mundo em número de travessias por quilômetro quadrado. Por seus 34 km de largura passam mais de 500 navios por dia — em duas pistas de tráfego separadas, como uma rodovia marítima. É a principal conexão entre o Mar do Norte e o Canal da Mancha, vitais para o comércio intra-europeu. Controlado durante séculos pela Inglaterra, foi palco de batalhas históricas desde Trafalgar até as travessias da Segunda Guerra Mundial — e hoje é monitorado milimetricamente pela guarda costeira britânica.
5. Hormuz, o Bósforo e o Cabo da Boa Esperança
O Estreito de Hormuz (8%), protagonista das manchetes recentes, fica apenas na sétima posição em volume de comércio — mas responde por parcela expressiva do petróleo exportado pelo Golfo Pérsico. Irã, Emirados Árabes, Kuwait, Qatar e Arábia Saudita dependem dele. Qualquer fechamento seria um choque energético global.
O Bósforo, que separa Istambul em dois continentes e liga o Mar Negro ao Mediterrâneo, representa 5% do comércio global — mas inclui cerca de 20% das exportações mundiais de trigo da Ucrânia, Rússia e Romênia. Num mundo em que a segurança alimentar é cada vez mais estratégica, esse número carrega peso desproporcional à sua participação percentual.
O Cabo da Boa Esperança, com apenas 3%, é em tese uma rota alternativa — mas foi exatamente por onde os navios desviaram durante a crise do Mar Vermelho em 2024, adicionando dias ou semanas às travessias e bilhões em custos logísticos.
Os estreitos que ninguém menciona — e deveriam
Øresund: o front oculto da guerra híbrida
Com apenas 4 km de largura no ponto mais estreito, o Øresund separa a Suécia da Dinamarca e conecta o Mar Báltico ao Mar do Norte. Aparentemente irrelevante no comércio global, o estreito tornou-se palco de uma guerra silenciosa: a Rússia usa a rota para escoar petróleo da sua "frota fantasma" — navios velhos, sem seguro, com bandeiras de conveniência — burlando sanções internacionais. Câmeras de vigilância, drones militares e patrulhas navais da OTAN acompanham cada movimentação. Sabotagens de cabos submarinos no Mar Báltico, atribuídas a Moscou, elevaram o nível de alerta. O estreito que parecia apenas uma passagem entre dois países escandinavos transformou-se em fronteira da guerra híbrida europeia.
Outros estreitos de impacto oculto
Estreito de Tsugaru (Japão): separa as ilhas de Honshu e Hokkaido. Vital para o comércio interno japonês e para a rota do Pacífico Norte.
Estreito de Bass (Austrália): entre o continente e a Tasmânia. Alternativa ao contorno sul da Austrália, mas sujeito a tempestades violentas.
Estreito de Bab-el-Mandeb (Iêmen/Djibuti): entrada sul do Mar Vermelho e acesso ao Canal de Suez. Foi exatamente aqui que os ataques houthis causaram o caos de 2023–2025, afetando cerca de 30% do comércio entre Europa e Ásia.
O que a história nos ensina
Há um padrão que se repete ao longo dos séculos: quem domina os estreitos molda os impérios. Os fenícios controlaram Gibraltar e criaram uma rede comercial que conectava a Europa à África e ao Oriente. Os portugueses, ao tomar Málaca em 1511, capturaram a joia da Ásia — e com ela, o monopólio das especiarias. Os britânicos, ao estabelecerem uma base em Gibraltar em 1704 e outra em Singapura em 1819, costuraram o maior império comercial da história.
No século XXI, o jogo não mudou de lógica — mudou de escala. Hoje, um único dia de bloqueio no Estreito de Málaca pode custar entre US$ 9 milhões e US$ 90 milhões aos armadores. Uma semana de crise no Mar Vermelho redesenha rotas intercontinentais por meses. E a tensão em torno do Estreito de Taiwan ameaça interromper o fornecimento dos chips que mantêm em funcionamento desde o celular no bolso até os sistemas de saúde dos hospitais.
Na próxima vez que o noticiário mencionar uma crise em algum ponto do mapa, vale o exercício: encontrar o estreito mais próximo. Ali, provavelmente, está a parte da história que ainda não foi contada.