Em 2002, o Oakland Athletics fechou a temporada com 103 vitórias, a quarta melhor campanha da história da liga de beisebol norte-americana, gastando até três vezes menos que seus rivais. A façanha, batizada de Moneyball e depois eternizada no cinema com Brad Pitt no papel do diretor esportivo Billy Beane, nasceu de uma ideia simples: quando o mercado deixa de confiar no óbvio, é preciso encontrar valor onde os outros não sabem procurar. Duas décadas depois, essa mesma lógica desembarcou nas mesas de análise de Wall Street, só que aplicada a um adversário bem mais caro que um time de beisebol: a corrida bilionária pela inteligência artificial.
Depois de dois anos de euforia praticamente ininterrupta, os investidores institucionais deixaram de se contentar com anúncios de investimento e promessas de "revolução". A pergunta que domina as salas de análise agora é outra: qual empresa, de fato, transforma esse dinheiro em lucro? Um artigo publicado pelo jornal espanhol Cinco Días (grupo El País) em 14 de agosto de 2026 descreve esse movimento como uma espécie de "Moneyball da bolsa": a busca por métricas menos óbvias, capazes de separar o negócio sólido da aposta especulativa.
"O mercado deixou para trás o medo de ficar de fora e agora exige das empresas provas da rentabilidade de seus investimentos em IA", resume César Pérez, diretor de investimentos da banca privada do banco suíço Pictet, em declaração citada pela reportagem espanhola. A frase resume um ano de nervosismo. Em janeiro de 2025, o lançamento do modelo chinês DeepSeek já havia apagado cerca de 560 bilhões de euros do valor de mercado da Nvidia em uma única sessão. Em julho de 2026, a história se repetiu com força ainda maior: o modelo aberto Kimi K3, da chinesa Moonshot AI, apresentado durante a Conferência Mundial de IA em Xangai, provocou uma liquidação que chegou a apagar mais de US$ 3,3 trilhões em valor de mercado de fabricantes globais de semicondutores em poucos dias, levando o índice Philadelphia Semiconductor a território de mercado de baixa.
O que é o ROIC e por que ele virou o novo queridinho dos analistas
A métrica mais citada nesse novo garimpo é o retorno sobre o capital investido, conhecido pela sigla em inglês ROIC (return on invested capital). Em termos simples, ela mede quanto lucro, já descontados os impostos, uma empresa consegue gerar para cada unidade monetária aplicada em seu negócio. Como os gastos com data centers e chips não são descontados dos lucros reportados e crescem, muitas vezes, mais rápido que as próprias receitas, a rentabilidade real desses investimentos pode se deteriorar silenciosamente, mesmo com o balanço parecendo saudável à primeira vista.
Segundo a reportagem do Cinco Días, entre as cinco gigantes concentradas na corrida por capacidade computacional (Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle), a Microsoft se destaca com um ROIC de 25% sobre suas inversões, contra uma média de 18% entre as concorrentes diretas. O mercado recompensou essa diferença: as ações da empresa acumularam alta de 33% em 30 dias, enquanto o índice Nasdaq 100 recuava 0,2% no mesmo período e as fornecedoras de data centers avançavam apenas 7%.
A segunda métrica que ganhou peso é o gasto operacional recorrente, o opex (operating expenses), que revela os custos necessários para manter a operação funcionando, independentemente dos grandes investimentos de capital pontuais. Aqui a diferença entre as gigantes fica ainda mais clara. Segundo o levantamento citado pelo jornal espanhol, a Alphabet mantém um ROIC sólido de 20%, mas carrega um opex recorrente de cerca de 28,5 bilhões de euros, quase o dobro da Microsoft, o que ajudou a manter suas ações praticamente estáveis no período. Já a Meta combina um opex de aproximadamente 23 bilhões de euros com um ROIC de apenas 11%, e viu suas ações recuarem 10% em um mês.
Bilhões que ainda não voltaram: o pano de fundo do ceticismo
Esse escrutínio mais rigoroso não surge no vácuo. Segundo relatório da agência de classificação de risco Moody's, os grandes provedores globais de computação em nuvem devem investir cerca de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA somente em 2026, seis vezes mais do que gastaram em 2022. A própria Moody's alerta que um data center leva, em média, entre 12 e 24 meses entre o início do investimento e a geração efetiva de receita, o que amplia o risco de descompasso entre o ritmo de gasto e o retorno financeiro esperado pelos acionistas.
Há, no entanto, sinais de que parte desse investimento começa a se pagar. Um levantamento da consultoria Exponential View, mencionado por veículos de tecnologia brasileiros, apontou que as receitas globais geradas por soluções de inteligência artificial generativa (fora do mercado chinês) somaram cerca de US$ 25 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026, superando pelo segundo trimestre consecutivo os custos de depreciação da infraestrutura, estimados em US$ 21 bilhões. Ainda assim, o próprio estudo pondera que a depreciação continua consumindo mais de dois terços dessa receita, deixando uma margem apertada para cobrir despesas operacionais, energia e financiamento.
O relatório KPMG Global Tech Report 2026 ajuda a explicar por que o ceticismo persiste mesmo diante desses avanços: 74% das organizações afirmam que seus casos de uso de inteligência artificial geram valor, mas apenas 24% conseguem comprovar retorno consistente em múltiplas aplicações simultâneas. Já um levantamento da consultoria britânica Omdia, citado pelo portal TI Rio, mostra que executivos seniores projetam retornos de até 47% em investimentos de curto prazo voltados a sistemas de IA agêntica, um número que, para analistas mais cautelosos, ainda soa como projeção otimista diante da falta de histórico consolidado desse tipo de tecnologia.
⚖️ Contraponto
Nem todos os analistas concordam que o ROIC de curto prazo seja o termômetro mais justo para avaliar investimentos em infraestrutura de longuíssimo prazo. Bancos como Morgan Stanley e JPMorgan reconhecem os riscos de excesso de capacidade, mas mantêm recomendação de compra sobre a maioria das grandes fornecedoras de data centers, argumentando que a demanda por capacidade de IA ainda supera amplamente a oferta disponível globalmente, segundo a própria Moody's. Para essa corrente, penalizar empresas por um ROIC momentaneamente baixo pode subestimar investimentos que só amadurecem em ciclos de cinco a dez anos, prazo típico de grandes infraestruturas tecnológicas.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Embora a discussão tenha nascido em Wall Street, ela chega rapidamente à carteira do investidor pessoa física no Brasil. A B3 oferece hoje BDRs (Brazilian Depositary Receipts) de todas as empresas citadas nesta reportagem, entre elas Microsoft, Alphabet, Meta, Amazon e Nvidia, negociáveis em reais e sem necessidade de conta em corretora estrangeira. Segundo dados da própria bolsa brasileira, mais de um milhão de investidores já possuíam BDRs em carteira até o final de abril de 2026, e casas como BTG Pactual e Safra têm reforçado a presença dessas empresas em suas carteiras recomendadas ao longo do ano.
Para esse investidor, a lição prática do "Moneyball da bolsa" é direta: acompanhar apenas o crescimento de receita ou o tamanho do investimento anunciado em IA deixou de ser suficiente. Métricas como ROIC e opex, historicamente restritas a relatórios de analistas institucionais, tornaram-se parte do vocabulário necessário para quem quer entender por que duas empresas do mesmo setor, gastando somas parecidas em inteligência artificial, podem ter desempenhos tão diferentes na bolsa.
Como no beisebol de Billy Beane, a temporada dos mercados não tem um apito final. A diferença é que, na bolsa, o próximo lançamento de um modelo chinês mais barato, como já mostraram os episódios do DeepSeek e do Kimi K3, pode reescrever o placar de uma hora para outra.
Perguntas frequentes
O que é ROIC e por que ele importa na corrida da IA?
ROIC (return on invested capital) mede quanto lucro uma empresa gera para cada unidade de capital investida. Ele importa porque os gastos bilionários em data centers e chips de IA não aparecem descontados diretamente do lucro reportado, então o ROIC ajuda a revelar se esse investimento está, de fato, sendo rentável.
Qual empresa tem o melhor ROIC entre as gigantes de IA?
Segundo dados citados pelo Cinco Días, a Microsoft lidera com ROIC de 25%, acima da média de 18% entre Alphabet, Amazon, Meta e Oracle, o que ajudou suas ações a subirem 33% em 30 dias.
Investidor brasileiro consegue ter exposição a essas empresas?
Sim. A B3 oferece BDRs de Microsoft, Alphabet, Meta, Amazon e Nvidia, negociáveis em reais, sem necessidade de conta no exterior ou operação de câmbio direta.
Por que modelos chineses como o Kimi K3 afetam a bolsa americana?
Modelos abertos e mais baratos, como o DeepSeek em 2025 e o Kimi K3 em 2026, colocam em dúvida a tese de que liderança em IA exige gastos massivos e contínuos em infraestrutura, o que já provocou quedas bilionárias em ações de semicondutores.