Geopolítica & Poder
O mesmo espetáculo,
figurinos diferentes
Quando o capitalismo de Trump e o Estado comunista vietnamita se encontram em cima de um cemitério de agricultores, o que se vê não é ideologia — é o poder nu.
Há uma cena que resume muito do que chamamos de ordem mundial contemporânea: aldeões que cultivam frutas há décadas são obrigados a desenterrar os ossos de seus mortos para dar lugar a um campo de golfe de luxo. O projeto carrega a marca de Donald Trump, empresário e ex-presidente dos Estados Unidos — e é construído por uma empreiteira controlada pelo Ministério da Defesa do Vietnã. Capitalismo de relações e comunismo de partido único. Na prática, o mesmo resultado: a população arca com o custo, e os poderosos ficam com a terra.
O paradoxo é menos surpreendente do que parece. O colonialismo — na sua versão europeia dos séculos XVIII e XIX, ou nesta versão contemporânea de negócios globais — sempre funcionou da mesma forma: identifica-se uma terra fértil, desloca-se quem a habita, instalam-se empreendimentos que servem aos de fora. O vocabulário muda. O mecanismo permanece.
A terra em questão é extraordinariamente produtiva — uma das regiões agrícolas mais ricas do país, a menos de uma hora da capital. Os moradores ergueram casas novas com o que plantaram. As vielas têm cheiro de prosperidade construída pelo trabalho, não pela especulação. E é exatamente essa prosperidade que será convertida em amenidades para turistas endinheirados: hotéis cinco estrelas, villas de ultra-luxo, campos de golfe.
O que torna a situação ainda mais reveladora é a arquitetura dos interesses envolvidos. Do lado americano, Trump licencia seu nome ao projeto e recebe milhões de dólares em taxas de franquia sem investir um centavo sequer na obra — o risco e os custos ficam com os parceiros locais. Do lado vietnamita, a empreiteira responsável pela construção é controlada pelo Ministério da Defesa do país. A mesma empresa que hoje desativa minas terrestres deixadas pela guerra americana é a que prepara o terreno para as villas de Trump.
A frase diz tudo. Não se trata de desenvolvimento local. Trata-se de um tributo geopolítico. Seis semanas antes da cerimônia de inauguração do projeto, Trump havia anunciado tarifas de 46% sobre produtos vietnamitas — a segunda maior alíquota do mundo, atrás apenas da China. O Vietnã, cuja economia depende fortemente das exportações para os Estados Unidos, correu para encontrar formas de agradar Washington. Um campo de golfe com o nome do presidente americano, construído pelo exército local e aprovado com velocidade incomum pelo Estado, foi a resposta encontrada.
Isso é o que o colonialismo sempre foi, na sua essência mais crua: não uma aberração histórica, mas uma lógica de extração que se adapta às linguagens disponíveis em cada época. No século XIX, usava-se o discurso da civilização. No século XX, o do desenvolvimento. No XXI, usa-se o das relações diplomáticas e do investimento estrangeiro. O que muda é a retórica. O que não muda é quem perde a terra.
Há também a dimensão simbólica, que merece atenção. O cemitério perturbado fica em território rural. As famílias lá enterraram seus mortos desde antes da fundação da República Socialista do Vietnã — ou seja, antes da vitória do regime que hoje as obriga a desenterrá-los. Um homem de 72 anos recebeu o equivalente a menos de três mil reais para exumar os restos de seus pais e de um filho. Outro se recusa a ceder parte de sua terra porque ela foi originalmente concedida como compensação pelo sacrifício de soldados mortos em combate. A nação que eles serviram é a mesma que hoje os expropria.
O Estado expropria. O exército constrói. Trump fatura a distância. E os agricultores de Hung Yen são convidados a aceitar 80.000 dongs — cerca de três dólares — por metro quadrado de solo fértil que alimentou gerações.
É tentador enquadrar isso como uma anomalia — um caso extremo num país específico. Seria mais confortável. Mas o padrão se repete com variações em todo o mundo: na mineração africana com parceiros estatais locais, nos megaprojetos de infraestrutura na América Latina negociados à margem das comunidades afetadas. A forma jurídica varia. O conteúdo, não. Capitalismo selvagem e socialismo de Estado chegam ao mesmo lugar quando o poder está suficientemente concentrado e a população suficientemente vulnerável.
Enquanto isso, num cemitério entre plantações de frutas, homens e mulheres de meia-idade mostram documentos administrativos com as mãos que plantaram por décadas. Ao lado, lápides marcadas com um "X" vermelho aguardam a exumação. Seus antepassados estão enterrados ali desde antes de o país ter o nome atual.
Eles apenas pedem que o preço seja justo. É pouco pedir. E, ainda assim, parece muito para o poder.