2 de setembro de 2026
Saúde

O mercado bilionário da juventude eterna chega ao Brasil sem controle suficiente

ewerton
04 de agosto de 2026
Caderno Saúde Longevidade & Bem-estar

Na Idade Média, a medicina tinha um único objetivo: devolver ao corpo doente a saúde que ele havia perdido. Hoje, esse horizonte mudou. Não basta mais curar, é preciso otimizar, prolongar, reverter. Um reportagem recente do jornal espanhol El País descreve esse movimento como a transição de um princípio antigo, o de restituir a integridade perdida, para uma lógica nova, a da transformação permanente rumo a um "ótimo" que nunca se alcança de fato. É nesse território, entre a ciência e a promessa, que colágeno, magnésio, ácido hialurônico, melatonina e uma geração de peptídeos experimentais disputam espaço nas prateleiras e nos feeds de todo o mundo.

No Brasil, esse fenômeno não é importado, é doméstico e cresce em ritmo acelerado. Segundo levantamento da Brasnutri (Associação Brasileira de Suplementos Alimentares) com base em dados da consultoria Euromonitor International, o setor movimentou cerca de R$ 7,6 bilhões em 2025, um avanço de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior. A projeção para 2030 é de R$ 13,8 bilhões, o que colocaria o país entre os cinco maiores mercados de suplementação do mundo. Entre os produtos mais consumidos estão whey protein, creatina, multivitamínicos, vitamina D, magnésio, ômega 3 e, é claro, o colágeno, hoje tratado por parte da indústria de estética como uma espécie de "proteína da juventude".

O paradoxo brasileiro: preocupação alta, confiança baixa

É aqui que os dados levantam uma questão pouco discutida. Uma pesquisa da Ipsos com 23.761 pessoas em 29 países, citada pela reportagem do El País, mostra que o Brasil está entre os países onde a proporção de pessoas preocupadas com a própria saúde é comparativamente baixa: 37% se disseram preocupadas, contra médias bem mais altas em países como Hungria (64%) e Canadá (46%). Ainda assim, o consumo de suplementos no país é alto e crescente, o que sugere que a busca por esses produtos não nasce necessariamente da preocupação declarada com a saúde, mas de outra dinâmica: a promessa de desempenho, estética e prevenção vendida por marcas e influenciadores.

O contraste mais revelador, porém, está em outro levantamento da Ipsos, também de 2025, sobre a percepção dos brasileiros a respeito do próprio sistema de saúde. O Ipsos Health Service Report mostra que, embora a avaliação da qualidade da saúde tenha melhorado nos últimos sete anos, apenas 41% dos brasileiros confiam que o sistema de saúde do país oferece o melhor tratamento possível. Mais expressivo ainda: 73% dos entrevistados afirmam que, no Brasil, é comum tomar medicamentos sem consultar antes um médico ou profissional de saúde, colocando o país entre os três com maior índice de automedicação entre as 30 nações pesquisadas.

O brasileiro compra saúde em prateleira e em aplicativo de entrega, mas recorre pouco ao consultório antes de decidir o que engolir.

Essa combinação, consumo alto de suplementos e baixa mediação médica, é exatamente o ambiente que preocupa reguladores e especialistas. Não é automedicação com fármacos regulados apenas: é a incorporação de colágeno, peptídeos e "nutracêuticos" à rotina diária como se fossem inofensivos por definição, sem orientação profissional e, em muitos casos, por indicação de perfis nas redes sociais.

Anvisa: mais da metade das denúncias envolve propaganda enganosa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária tem alertado publicamente para essa lacuna. Segundo a coordenadora de fiscalização da Anvisa, Renata de Araújo Ferreira, em reportagem da Agência Câmara, entre 2020 e 2025 o setor de suplementos respondeu por 63% de todos os processos de investigação de infrações sanitárias abertos pela agência. Mais da metade dessas denúncias está relacionada a propaganda enganosa veiculada em plataformas digitais, o que dificulta a fiscalização e permite que produtos clandestinos circulem sob o rótulo de "suplemento alimentar".

Para enfrentar esse cenário, a Anvisa passou a exigir, a partir de setembro de 2025, notificação obrigatória para a regularização de suplementos alimentares no país. Paralelamente, tramita no Congresso o PL nº 5229/2025, que prevê exigências como laudo analítico independente, sistema de rastreabilidade por lote e um QR Code de verificação na embalagem, vinculado a uma página oficial da agência. A proposta chegou depois de casos concretos de fiscalização, como a suspensão, em 2026, de suplementos com alegações terapêuticas falsas e ingredientes não autorizados, incluindo produtos anunciados com promessas "anti-idade" sem qualquer comprovação científica.

O que diz a ciência sobre o colágeno

Nem tudo nesse universo é marketing vazio. Uma revisão recente destacada pelo Medscape em português aponta evidências consistentes de que a suplementação de colágeno melhora a elasticidade e a hidratação da pele, além de reduzir a dor autorrelatada em pacientes com osteoartrite, com base em ensaios clínicos randomizados envolvendo milhares de participantes. O problema, segundo especialistas ouvidos pelo El País, não é necessariamente a ausência de efeito, mas o descompasso entre o que a ciência sustenta e o que a publicidade promete. Como resume o nutricionista Juan Revenga, professor da Universidade de Valência, boa parte dos artigos favoráveis ao colágeno carrega financiamento ligado à própria indústria que o vende.

⚖️ Contraponto

O crescimento do setor de suplementos também é defendido por parte da indústria e de investidores como resposta legítima a uma mudança real na forma como a saúde é entendida, menos centrada em curar doenças, mais voltada à prevenção e à longevidade saudável. Empresas como a catalã Uriach, que abandonou fármacos genéricos para se dedicar exclusivamente a produtos de saúde natural, defendem que o setor "fortalece com ciência" o que antes era tratado apenas como tendência de consumo, citando ensaios clínicos próprios para produtos como os à base de melatonina.

Do outro lado, autoridades sanitárias e pesquisadores independentes insistem que a maioria dos nutrientes vendidos como suplemento já está presente em uma dieta equilibrada, e que a suplementação só é de fato necessária diante de um déficit específico, diagnosticado por um profissional. Sem essa avaliação, o consumo pode mascarar sintomas, interagir perigosamente com medicamentos como antidepressivos e anticoagulantes, ou representar risco para gestantes e pessoas com condições de saúde complexas.

Entre a prateleira e o consultório

O que os números brasileiros deixam claro é que o debate sobre suplementos e "juventude eterna" não pode ser reduzido a uma discussão sobre eficácia de ingredientes. Ele é, antes de tudo, um problema de mediação profissional. Um país que consome suplementos em ritmo de dois dígitos ao ano, mas onde quase três em cada quatro pessoas admitem tomar decisões de saúde sem consultar um médico, cria terreno fértil para que a linha entre autocuidado e risco sanitário se torne cada vez mais tênue.

A fiscalização brasileira caminha para se tornar mais rigorosa, com notificação obrigatória, rastreabilidade e novas regras de publicidade em debate no Congresso. Mas, como reconhecem tanto a Anvisa quanto especialistas em nutrição, a variedade de produtos lançados a cada mês é tão grande que a regulação dificilmente alcança o mercado em tempo real. Nesse intervalo, entre o lançamento de um novo suplemento e sua eventual investigação, quem decide o que colocar no corpo, muitas vezes, é o algoritmo, e não o médico.

Esta reportagem foi baseada, em parte, na matéria "La promesa de la eterna juventud: un negocio multimillonario no exento de peligros", publicada pelo jornal espanhol El País em 1º de agosto de 2026, assinada por Josep Catà Figuls. Leia o original em: elpais.com. Dados e reportagens complementares sobre o mercado brasileiro foram levantados de forma independente pela equipe de O Tecido junto a fontes citadas ao longo do texto.

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