Existe uma frase que quase todo mundo já disse a uma mulher de cabelos grisalhos ou rosto marcado pelo tempo: "você não aparenta a idade que tem". Soa como gentileza. Mas por trás do elogio automático mora uma pergunta incômoda: por que a passagem do tempo no corpo feminino ainda é tratada como algo a esconder, disfarçar ou lamentar? Um artigo de opinião publicado pelo jornal espanhol El País, assinado pela socióloga Mar Gómez Glez, reacendeu essa discussão ao sugerir que o desconforto com mulheres mais velhas não é acidente cultural, mas resquício de arranjos sociais que remontam à transição para o capitalismo. No Brasil, os números da longevidade contam uma história paralela e igualmente reveladora.
O elogio que esconde um medo
Gómez Glez recorre à historiadora Silvia Federici, autora de "Calibán y la bruja", para argumentar que a caça às bruxas na Europa moderna não foi apenas superstição, mas uma política que ajudou a disciplinar o trabalho e a reprodução no início do capitalismo. Mulheres mais velhas, muitas vezes detentoras de saberes sobre saúde e controle reprodutivo, perderam espaço social nesse processo. A autora sugere que o ideal de juventude eterna imposto às mulheres ainda hoje cumpre uma função parecida: tornar mais controlável quem, ao envelhecer, ganha experiência, autonomia financeira eventual e menos disposição para obedecer papéis tradicionais.
A leitura é provocativa, mas os dados demográficos brasileiros ajudam a situar o debate em termos concretos. Não se trata apenas de representação cultural. Envelhecer no Brasil é, estatisticamente, uma experiência que recai de forma desproporcional sobre as mulheres, e que também as penaliza de formas específicas.
Uma vantagem demográfica que vira desvantagem social
Segundo as Tábuas de Mortalidade de 2024 do IBGE, a expectativa de vida da mulher brasileira chegou a 79,9 anos, contra 73,3 anos para os homens, uma diferença de 6,6 anos. Entre quem completa 60 anos, a projeção de sobrevida é de 24,2 anos para elas e 20,8 anos para eles. O fenômeno é descrito pela demografia como "feminização da velhice": no país, a maioria da população idosa é composta por mulheres, resultado direto dessa vantagem biológica na longevidade.
O problema é que viver mais não significa viver melhor. Pesquisa publicada pela revista acadêmica Textos & Contextos, da PUCRS, descreve que mulheres idosas acumulam ao longo da vida desvantagens como salários mais baixos, dupla jornada e menor escolaridade, chegando à velhice em condição de maior vulnerabilidade econômica que os homens da mesma faixa etária. A viuvez, mais comum entre elas por se casarem com homens em média mais velhos e por eles recasarem com mais frequência após perder a esposa, é apontada por pesquisadores como um dos fatores centrais de isolamento social na terceira idade feminina.
"Uma mulher mais velha sozinha, com autonomia e sem depender de ninguém, ainda incomoda mais do que deveria." Leitura editorial a partir do argumento de Mar Gómez Glez, El País, agosto de 2026
O preço de ter filhos, o preço de envelhecer
O artigo original cita um dado do Banco de España: mulheres perdem 11% da renda no primeiro ano após o nascimento do primeiro filho. No Brasil, o efeito é ainda mais duradouro. Um estudo conduzido pela economista Cecília Machado e colaboradoras, divulgado pela Agência Patrícia Galvão, mostra que o emprego formal das mães cai em média 33% e o salário recua cerca de 29%, quatro anos após o nascimento da criança, mesmo em áreas de ciência, tecnologia e engenharia, setores com salários mais altos. Os homens, no mesmo recorte, praticamente não sofrem impacto na carreira.
Esse desequilíbrio inicial se soma, décadas depois, a outra camada de discriminação: o etarismo. A consultoria Michael Page constatou, no levantamento Talent Trends 2025, que 41% dos profissionais brasileiros relatam ter sofrido algum tipo de discriminação por idade no trabalho, taxa superior à média mundial de 36%. Quando o recorte é de gênero, a desigualdade se aprofunda. Pesquisa da EY Brasil em parceria com a Maturi mostrou que 32% das mulheres acima de 50 anos ficam desempregadas por mais de um ano, contra 19% dos homens na mesma faixa etária, e que uma em cada quatro mulheres 50+ sem emprego está nessa condição há mais de dois anos.
A Organização Mundial da Saúde chegou a afirmar, em seu Relatório Global sobre Etarismo, que a discriminação por idade pode ser hoje mais disseminada do que o sexismo e o racismo isoladamente. Quando idade e gênero se combinam, o efeito não é apenas somado, é multiplicado. É o que pesquisadores chamam de "etarismo de gênero" (gendered ageism): um tipo de discriminação que torna mulheres mais velhas simultaneamente invisíveis socialmente e mais vulneráveis economicamente.
Contraponto
Nem toda sociedade tratou a mulher mais velha como ameaça. O artigo do El País lembra que em Çatal Hüyük, um dos assentamentos humanos mais antigos já escavados, no atual território da Turquia, foram encontradas estatuetas de mulheres de idade avançada, sentadas em posição de destaque, flanqueadas por felinos, possivelmente associadas à proteção ou à fartura dos grãos armazenados. Não há consenso arqueológico sobre o significado exato dessas figuras, mas elas sugerem que o medo da mulher mais velha não é universal nem inevitável: é uma construção histórica específica, ligada a certos modelos de organização econômica e social, e por isso mesmo pode ser desconstruída.
O que muda quando a economia muda
Gómez Glez propõe que, num mundo em que a geração de riqueza está cada vez menos atrelada à produção física de bens, e cada vez mais a serviços, conhecimento e cuidado, há espaço para repensar os papéis sociais atribuídos por idade e gênero. Não é uma previsão ingênua de que a desigualdade vai se resolver sozinha, mas um convite a observar que os arranjos sociais mudam quando mudam as bases materiais da economia, como já ocorreu na transição de sociedades nômades para assentamentos fixos.
No Brasil, esse debate ganha urgência prática. Com a população de 65 anos ou mais projetada para saltar de cerca de 9% em 2018 para mais de 25% em 2060, segundo estimativas citadas por pesquisas da área de gerontologia social, o país terá cada vez mais mulheres vivendo décadas adicionais após os 60 anos. A pergunta não é apenas cultural, é de política pública: como garantir renda, saúde e participação social a essa maioria demográfica que hoje enfrenta o maior risco de pobreza, solidão e exclusão do mercado de trabalho?
Reconhecer o "parece mais jovem" como um sintoma, e não como um elogio inofensivo, é um primeiro passo pequeno. O seguinte é medir, nomear e enfrentar as desigualdades concretas que fazem da velhice feminina, no Brasil, uma experiência estatisticamente mais longa e socialmente mais dura.
Perguntas frequentes
Por que as mulheres vivem mais que os homens no Brasil?
Segundo o IBGE, a diferença de 6,6 anos na expectativa de vida em favor das mulheres (79,9 contra 73,3 anos em 2024) está ligada sobretudo à sobremortalidade masculina por causas externas, como homicídios, acidentes de trânsito e suicídios, concentrada entre jovens de 15 a 29 anos.
O que é etarismo de gênero (gendered ageism)?
É a combinação de discriminação por idade e por gênero, que atinge de forma específica mulheres mais velhas, tornando-as mais invisíveis socialmente e mais vulneráveis a exclusão do mercado de trabalho, pobreza e isolamento do que homens da mesma faixa etária.
Qual o impacto da maternidade na renda das mulheres no Brasil?
Estudos baseados em dados da RAIS mostram queda média de 33% no emprego e 29% no salário das mães, quatro anos após o nascimento do primeiro filho, um efeito que praticamente não existe para os pais.
Existem sociedades que não temeram mulheres mais velhas?
Achados arqueológicos em Çatal Hüyük, na atual Turquia, um dos assentamentos humanos mais antigos conhecidos, incluem estatuetas de mulheres de idade avançada em posição de destaque, o que sugere que o desprezo pela mulher mais velha não é uma característica humana universal, mas historicamente situada.