Política · Segurança pública · Eleições 2026
Em resumo
  • Na Região Metropolitana do Rio, cerca de 4 milhões de pessoas (34,9% da população) viviam em 2024 sob controle ou influência de grupos armados, segundo o GENI/UFF e o Instituto Fogo Cruzado.2
  • Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT). O segundo turno será em 25 de outubro.3
  • Reportagem do Financial Times sustenta que, na América Latina, o medo das facções cumpre o papel que a imigração exerce na guinada à direita dos EUA e da Europa.1
  • O paradoxo da campanha: o candidato que lidera com a pauta do combate ao crime carrega um histórico de vínculos pessoais com pessoas ligadas às milícias da zona oeste do Rio.1,9

No Complexo da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, a vida cotidiana é atravessada por barricadas. Em reportagem publicada nesta semana, o Financial Times descreve uma delas, montada pelo tráfico na porta de uma academia de artes marciais, guardada por adolescentes armados com fuzis de uso militar. O dono da academia, Thiago Braga, conta aos repórteres Geoff Dyer e Michael Pooler que a rua que antes era livre passou a ter três bloqueios, e que os jovens mortos nas barricadas são simplesmente substituídos por outros. Seu diagnóstico cabe em uma frase: o Estado está largamente ausente.1

A cena é o ponto de partida do argumento central da reportagem britânica. Se a imigração é o combustível da direita radical nos Estados Unidos e na Europa, na América Latina esse papel é ocupado pela exigência dos eleitores de que o poder público enfrente os grupos armados que se tornaram parte da paisagem.1 O Brasil, onde a eleição presidencial chega ao segundo turno com a segurança pública no centro do debate, é hoje o teste mais importante dessa tese.

O tamanho do território perdido

A dimensão do problema no Rio de Janeiro é mensurável. A edição mais recente do Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, mostra que, em 2024, a Região Metropolitana tinha cerca de 4 milhões de pessoas vivendo sob controle ou influência de grupos armados. Isso equivale a 34,9% da população e a 18,1% da área urbanizada habitada. Entre 2007 e 2024, a superfície dominada cresceu 130,4%, e a população atingida aumentou 59,4%.2

Na capital, o retrato é ainda mais severo: 31,6% da área urbanizada e 42,4% dos moradores estão sob controle ou influência armada.2 O FT cita esses mesmos números e lembra que esse avanço ocorreu justamente no período em que a cidade sediou a final da Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.1

O estudo também desfaz a ideia de que o problema se resume ao tráfico. As milícias, grupos formados majoritariamente por agentes e ex-agentes de segurança, lideram em extensão territorial, com 49,4% da área sob domínio armado. O Comando Vermelho, por sua vez, domina mais gente: cerca de 1,6 milhão de pessoas, ou 47,2% da população que vive nessas áreas.2 A diretora-executiva do Fogo Cruzado, Cecília Olliveira, aponta uma virada recente: os grupos deixaram de crescer sobretudo ocupando áreas vazias e passaram a avançar por conquista, tomando territórios uns dos outros, o que se traduz em mais tiroteios.2

Grande Rio, 2024: quem vive sob domínio armado
Capital: moradores sob controle ou influência 42,4% Região Metropolitana: sob controle direto 29,7% Região Metropolitana: sob influência 5,3%
Fonte: Mapa Histórico dos Grupos Armados, GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado (dados de 2024).

De fenômeno carioca a problema nacional

Durante décadas, o controle territorial das facções foi tratado como uma singularidade do Rio, explicada pela geografia de favelas encravadas em morros de acesso difícil. Essa leitura ficou para trás. Segundo dados do Ministério da Justiça reproduzidos pelo FT, o Comando Vermelho está presente em 26 das 27 unidades da federação, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, também atua em 26. Pesquisadores ouvidos pelo jornal avaliam que as duas organizações já têm mais integrantes do que os cartéis mais conhecidos da Colômbia e do México.1

A internacionalização do tema ganhou peso diplomático em 2026. Em maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação do CV e do PCC como terroristas, e a classificação como Organizações Terroristas Estrangeiras foi oficializada em 5 de junho, com autorização para bloqueio de bens das facções em território americano.6 Dois dias antes do anúncio, Flávio Bolsonaro havia dito publicamente que pedira a medida ao presidente Donald Trump. O governo Lula tentou evitar a designação, sob o argumento de que as facções operam por lógica de lucro, e não por motivação ideológica ou religiosa, como prevê a lei brasileira de terrorismo.6

Quando o crime chega à mesa diretora

O ponto que mais preocupa especialistas é a penetração das facções nas instituições. Robert Muggah, do Instituto Igarapé, disse ao FT que esse é o fenômeno que lhe tira o sono, porque redes criminosas estariam se infiltrando nos órgãos políticos do Estado e se espalhando do eixo Rio-São Paulo para o resto do país.1

O caso mais emblemático é o da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Em setembro de 2025, o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, foi preso na Operação Zargun, da Polícia Federal, suspeito de negociar armas para o Comando Vermelho, além de tráfico, corrupção e lavagem de dinheiro.4 Em dezembro, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso sob suspeita de ter vazado a operação ao colega. No pedido de prisão, a PF afirmou que um possível objetivo da obstrução seria manter o vínculo de agentes políticos com o CV, de olho nos votos das regiões dominadas pela facção.4 Bacellar foi solto cinco dias depois, por decisão da própria Assembleia, e voltou a ser preso em março de 2026 por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.5 Ele nega as acusações.

O controle territorial armado deixou de ser apenas uma questão policial: virou um ativo eleitoral disputado por facções e por candidatos.Síntese editorial de O Tecido

A operação que redefiniu o debate

Em 28 de outubro de 2025, a Operação Contenção, conduzida pelas polícias Civil e Militar do Rio nos complexos da Penha e do Alemão contra o Comando Vermelho, deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tornou-se a ação policial mais letal da história do país, superando o massacre do Carandiru, de 1992. A Defensoria Pública do Rio chegou a contabilizar 132 mortes.7 O FT registra que muitos dos corpos foram deixados num terreno no morro atrás da academia de Thiago Braga.1

A operação dividiu o país. O governador Cláudio Castro (PL) a classificou como sucesso; organizações de direitos humanos e parte da academia questionaram a letalidade, a perícia dos corpos e a eficácia real contra a cúpula da facção. Para uma parcela expressiva do eleitorado, porém, a mensagem recebida foi outra: a de que existe um tipo de resposta disposto a ir até o fim.

A onda latino-americana

O Brasil não está sozinho. Em dezembro de 2025, José Antonio Kast venceu a eleição no Chile explorando o temor do aumento da criminalidade e da migração, na guinada mais acentuada à direita do país desde a redemocratização. Antes dele, Rodrigo Paz havia encerrado quase duas décadas de governos socialistas na Bolívia.8 Somam-se Daniel Noboa no Equador e Nayib Bukele em El Salvador, cujo modelo de encarceramento em massa virou referência para candidatos de toda a região.

O padrão comum é a substituição da agenda da desigualdade, que marcou a chamada onda rosa, pela agenda da ordem. Em países com taxas de homicídio historicamente altas e Estados com baixa presença em periferias, a promessa de restaurar a autoridade pública tem mais apelo eleitoral do que debates sobre causas estruturais.

As propostas em disputa

O plano de Flávio Bolsonaro

Em junho, o candidato do PL apresentou o programa Brasil sem Medo, com 12 medidas. Entre elas: enquadrar CV e PCC como organizações terroristas na legislação brasileira, reduzir a maioridade penal para 16 anos, construir cinco presídios federais de segurança máxima inspirados no modelo salvadorenho, implantar a castração química para condenados por abuso sexual e criar um sistema nacional de reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais.10 O ex-secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite, é apontado como provável ministro da Segurança Pública em eventual governo.

A resposta do governo Lula

O governo apostou numa agenda institucional. Sancionou a Lei Antifacção em 24 de março de 2026, que endurece penas para facções e milícias, e defendeu a PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), aprovada pela Câmara em março, que cria um sistema integrado entre União, estados e municípios.11 Em maio, lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, com R$ 11 bilhões previstos, a maior parte voltada a sufocar o fluxo financeiro das facções.11 A dificuldade do Planalto é de percepção: em pesquisa Datafolha de maio, a segurança pública apareceu como a área de pior desempenho do governo na avaliação dos eleitores.12

O paradoxo da milícia

O FT aponta uma complicação que acompanha o favorito: o longo histórico de associações pessoais de Flávio Bolsonaro com pessoas ligadas às milícias da zona oeste do Rio.1 O episódio mais conhecido é a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj, que Flávio, então deputado estadual, concedeu em 2005 ao ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, quando este estava preso preventivamente por homicídio. Adriano, mais tarde apontado pelo Ministério Público como chefe de uma milícia, teve a mãe e a ex-mulher empregadas no gabinete de Flávio por intermédio do ex-assessor Fabrício Queiroz. Ele foi morto pela polícia na Bahia em 2020.9 Flávio sempre negou qualquer envolvimento com milícias e afirma ter homenageado centenas de policiais.9

O dado ganha relevo diante do mapa do GENI/UFF: as milícias são o grupo armado que mais cresceu entre 2007 e 2024 e controlam a maior fatia do território dominado no Grande Rio.2 Um discurso de combate ao crime centrado nas facções do tráfico, como CV e PCC, deixa em segundo plano justamente a forma de domínio armado que mais avançou no estado de origem do candidato.

Contraponto: o que dizem os dois lados

A favor da linha-dura

Defensores argumentam que o eleitor das periferias é o mais exposto à violência e que sua demanda por ordem é legítima, não manipulada. Lembram que a política de contenção gradual não impediu a área sob domínio armado de dobrar em menos de duas décadas, e citam a queda de homicídios em El Salvador como prova de que o Estado pode retomar territórios.

Contra a linha-dura

Críticos apontam que operações de alta letalidade raramente atingem as lideranças e o dinheiro das facções. Analistas ouvidos pela Folhapress classificaram o Brasil sem Medo como peça de campanha e consideraram tecnicamente impreciso tratar facções como terroristas.10 Há ainda o temor de que a designação americana abra espaço para pressões externas e sanções a bancos brasileiros.6

O que ambos ignoram

Nenhum dos lados apresentou plano detalhado para as milícias, para a lavagem de dinheiro via economia formal ou para a captura de mandatos legislativos, os três vetores que, segundo as investigações recentes, sustentam o poder dos grupos armados.

O que está em jogo em 25 de outubro

Pesquisa Datafolha divulgada em 8 de outubro mostra Flávio Bolsonaro com 49% das intenções de voto no segundo turno, contra 45% de Lula, com a maioria dos eleitores de candidatos da direita derrotados no primeiro turno migrando para o senador.3 Quem vencer herdará um quadro em que a segurança deixou de ser só política pública e passou a ser disputa sobre a própria soberania do Estado em parte do território.

Moradores das áreas dominadas descrevem um custo que não aparece nas estatísticas de homicídio. Ao FT, Muller Magela, formado em gestão de sistemas e morador da Penha, contou que trabalha como porteiro na Barra da Tijuca, a 90 minutos de ônibus de casa, e que o endereço numa favela pesa contra ele nas entrevistas de emprego.1 É nesse cotidiano, mais do que nas grandes operações, que se mede se a próxima política de segurança vai funcionar.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas vivem sob domínio de grupos armados no Rio de Janeiro?

Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Fogo Cruzado), cerca de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio viviam em 2024 sob controle ou influência de grupos armados, o equivalente a 34,9% da população. Na capital, a proporção chega a 42,4% dos moradores.

Qual grupo armado controla mais território no Rio?

As milícias, com 49,4% da área sob domínio armado em 2024. O Comando Vermelho controla mais pessoas, cerca de 1,6 milhão de moradores.

Por que a segurança pública favorece a direita nas eleições latino-americanas?

Segundo a análise do Financial Times, na América Latina a demanda por enfrentamento de grupos armados cumpre o papel que a imigração tem nos EUA e na Europa. Candidatos que prometem endurecimento penal, como Kast no Chile, venceram explorando o medo da criminalidade.

Qual foi o resultado do primeiro turno da eleição presidencial de 2026?

Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e Lula (PT), 45,16%. Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro de 2026.

O que é a Operação Contenção?

Ação das polícias do Rio contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, em 28 de outubro de 2025. Com 121 mortos, incluindo quatro policiais, é considerada a operação policial mais letal da história do Brasil.

CV e PCC são considerados organizações terroristas?

Pelos Estados Unidos, sim, desde 5 de junho de 2026. Pela lei brasileira, não: o governo federal sustenta que as facções agem por lucro, e não pelas motivações previstas na Lei Antiterrorismo. Flávio Bolsonaro propõe mudar essa classificação.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "The gangs, the guns and the battle for Brazil", de Geoff Dyer e Michael Pooler, publicada pelo Financial Times (leia o original). O texto não reproduz nem traduz o conteúdo do FT: informações atribuídas ao jornal estão creditadas e foram complementadas por apuração própria em fontes brasileiras e internacionais.