Este artigo parte da entrevista concedida pelo climatólogo Carlo Buontempo ao jornalista Clemente Álvarez, publicada pelo jornal espanhol El País em 3 de outubro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o original: as ideias atribuídas ao entrevistado estão creditadas, e a análise e o contexto brasileiro são de responsabilidade da curadoria editorial.
Há uma distância entre saber e sentir, e o verão de 2026 no Hemisfério Norte foi o momento em que boa parte da Europa atravessou essa distância. É a leitura de Carlo Buontempo, físico italiano de 53 anos que dirige o Serviço de Mudanças Climáticas do Copernicus, o programa de observação da Terra da União Europeia. Em entrevista ao El País1, ele descreve uma estação em que noites sem sono, rios baixos e casas perdidas em incêndios fizeram mais pela percepção pública do que duas décadas de gráficos. O ponto mais duro da conversa, porém, não está no ar. Está na água.
Segundo Buontempo, o oceano acumulou tanta energia que a trajetória do nível do mar já está contratada para os próximos séculos. Mesmo no cenário improvável de interrupção total das emissões, a temperatura média do ar poderia recuar até o fim do século, mas o mar não. Para um país com mais de 8 mil quilômetros de litoral e metrópoles construídas rente à linha d'água, essa afirmação muda a natureza do debate: a elevação do mar deixa de ser hipótese e passa a ser premissa de planejamento.
Um agosto sem precedentes na série histórica
Os números que sustentam o alarme europeu foram consolidados pelo próprio Copernicus em 10 de setembro. Agosto de 2026 registrou temperatura média global do ar de 16,96 °C, 1,65 °C acima do nível pré-industrial, e empatou com julho de 2023 como o mês mais quente da série iniciada em 19402. Foi também o primeiro mês desde novembro de 2025 acima da marca de 1,5 °C, e a temperatura da superfície dos oceanos fora das regiões polares chegou a 21,07 °C, recorde para o mês, conforme relatou a agência Lusa a partir do boletim do serviço europeu.
A geografia do calor foi desigual. A Europa Ocidental teve o verão mais quente já medido, superando o de 2003, enquanto o continente como um todo registrou o terceiro verão mais quente. Buontempo lembra ao El País que os 11 anos mais quentes da série ocorreram nos últimos 11 anos e que 2026 tem boas chances de se tornar mais um ano recorde1.
Há ainda uma escala temporal que escapa à série instrumental. O cientista explica que os registros do Copernicus começam em 1940, mas que reconstruções paleoclimáticas, feitas a partir de anéis de árvores e sedimentos, indicam com alta probabilidade que as temperaturas atuais são as mais altas em cerca de 100 mil anos. Na prática, nenhuma civilização que construiu cidades, praticou agricultura ou registrou sua própria história conviveu com verões assim.
Por que o oceano não obedece ao freio
A elevação do nível do mar tem dois motores. O primeiro, mais intuitivo, é o derretimento de geleiras e mantos de gelo. O segundo, menos lembrado, é a dilatação térmica: água mais quente ocupa mais volume. Buontempo destaca ao El País que boa parte da subida atual vem desse segundo mecanismo, e que o calor já armazenado nas camadas profundas não se dissipa em décadas. É por isso que, em todos os cenários climáticos considerados, o mar continua subindo pelos próximos dois séculos ou mais.
"Aconteça o que acontecer, o nível do mar vai continuar subindo durante séculos."
Carlo Buontempo, em entrevista ao El País (tradução livre)
Os dados observacionais confirmam não apenas a subida, mas a aceleração. O nono relatório sobre o estado dos oceanos do serviço marinho do Copernicus mostra que a taxa média passou de 31,4 milímetros por década entre 1999 e 2006 para 40,8 milímetros por década entre 2016 e 20247, segundo reportagem do Barlavento.
A terceira Avaliação Mundial dos Oceanos da ONU, publicada em junho com a participação de cerca de 600 cientistas de 86 países, chegou a conclusão semelhante: antes de 2015, o mar subia menos de 2 milímetros por ano; em 2023, o ritmo chegou a 4,3 milímetros anuais6, como detalhou o O Povo. Milímetros parecem pouco até serem somados a uma maré de sizígia e a uma ressaca no mesmo dia.
Medir tudo isso não é trivial. Buontempo observa que satélites não penetram a água, e que o oceano profundo depende de flutuadores autônomos que mergulham, coletam dados e emergem dias depois para transmiti-los. A entrevista lembra também o contexto político: Estados Unidos e outros países vêm dificultando o monitoramento científico, o que aumenta o peso de bases abertas como a do Copernicus, cujos dados qualquer pessoa pode consultar.
Europa, o continente que aquece em dobro
O relatório European State of the Climate 2025, publicado em abril pelo Copernicus e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), descreve a Europa como o continente que mais aquece no planeta, a um ritmo superior ao dobro da média global, com pelo menos 95% do território acima da média em 20253. Ao El País, Buontempo estima que o continente já acumula mais de 2,5 °C de aquecimento, contra cerca de 1,4 °C na média planetária.
Parte da diferença é física elementar: terra aquece mais rápido que oceano, e a Europa tem pouca água em proporção ao seu território. Mas, mesmo comparada a outros continentes, ela aquece mais. O cientista aponta três hipóteses em discussão. A primeira é o Ártico europeu, a região que mais aquece na Terra. A segunda é contraintuitiva: a legislação de qualidade do ar adotada desde os anos 1970 reduziu partículas que refletiam parte da radiação solar, tornando a atmosfera mais transparente. A terceira envolve os sistemas de alta pressão que sustentaram as ondas de calor deste verão. Se forem efeito da mudança climática, e não variação natural, os modelos podem estar subestimando a severidade das ondas de calor futuras.
Essa última hipótese interessa ao Brasil. Modelos globais são calibrados para médias, e eventos regionais extremos costumam surpreender. Planejar apenas pela média projetada é, portanto, uma aposta de risco.
El Niño muito forte sobre um planeta mais quente
Buontempo descreve o El Niño em curso como o mais intenso desde que há boas medições, com potencial de superar o de 1998 e pico previsto para perto do Natal. Se a mudança climática intensifica o fenômeno, a ciência ainda não sabe responder. O que se sabe é que ele atua agora sobre uma base térmica mais alta, o que amplia seus impactos.
No Brasil, o acompanhamento é feito pelo Painel El Niño 2026-2027, que reúne INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil. O primeiro boletim, de 29 de junho, indicou probabilidade acima de 90% de persistência do fenômeno até pelo menos o início de 2027, com alta chance de um evento muito forte, quando a anomalia de temperatura no Pacífico Equatorial supera 2,0 °C5. O segundo boletim, de 31 de julho, reforçou a tendência de intensificação ao longo do semestre.
O padrão esperado é conhecido: mais chuva, temporais e cheias no Sul; chuvas abaixo da média, ondas de calor e risco elevado de incêndios no centro-norte. As enchentes de julho no Rio Grande do Sul já foram tratadas pelo painel como primeiros impactos do fenômeno, segundo reportagem do Estadão Conteúdo. A atualização decenal da OMM, produzida pelo Met Office britânico, acrescenta que o El Niño do fim de 2026 aumenta a chance de 2027 ser o próximo ano recorde e que a Amazônia tende a receber menos chuva que a média entre maio e setembro nos próximos anos4.
O litoral brasileiro na mesma equação
Se o mar sobe por séculos independentemente do que for feito agora, a pergunta relevante para cidades costeiras brasileiras é quanto, onde e com que velocidade. A Baixada Santista concentra as preocupações mais estudadas. O professor Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Unifesp, que participou da avaliação da ONU, chama atenção para ressacas mais frequentes, erosão das praias e sistemas de drenagem que perdem capacidade de escoar a água quando a maré está alta.
Um estudo de caso coordenado pelo climatologista José Marengo no âmbito do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas estimou que os prejuízos em Santos poderiam chegar a R$ 600 milhões até 21009, segundo a Agência FAPESP. O mesmo trabalho alertava, já em 2017, que o país não dispunha de um estudo integrado da vulnerabilidade de suas cidades litorâneas. Levantamentos da organização Climate Central incluem Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Recife, Porto Alegre, São Luís e Santos entre as áreas brasileiras de maior risco10.
A resposta institucional mais recente é o Plano Temático de Oceano e Zona Costeira, um dos 16 planos do Plano Clima Adaptação coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente8. O documento propõe reduzir vulnerabilidades associadas à elevação do mar, à erosão e às inundações, integrar a adaptação ao ordenamento territorial e proteger ecossistemas como manguezais e restingas, que funcionam como barreiras naturais. A entrevista de Buontempo oferece uma lente útil para avaliar esse tipo de plano: medidas pensadas para um horizonte de 20 ou 30 anos precisam ser compatíveis com uma tendência que não se reverte em 200.
Adaptação também é mudança de hábito
Parte da entrevista trata de algo mais doméstico. Buontempo vive com a família em Terrassa, na região de Barcelona, numa casa reformada com isolamento térmico e projeto bioclimático, sem ar-condicionado. Abrindo e fechando janelas nos horários certos, ele relata manter o interior 10 a 11 graus abaixo da temperatura externa no início das ondas de calor, sem gastar energia para isso.
Questionado sobre o custo dessas soluções, o cientista argumenta que algumas adaptações custam quase nada. Cita a diferença entre o comércio britânico, que fecha no fim da tarde, e o espanhol, que concentra compras no período em que o calor cede. Para ele, mais do que intervenções pontuais, é preciso uma mudança de mentalidade, porque o clima em que vivemos já não é o de nossos antepassados.
O Brasil tem repertório próprio nesse campo, frequentemente esquecido: varandas, cobogós, beirais largos, pé-direito alto e ventilação cruzada fizeram parte da arquitetura tropical antes da difusão de edifícios envidraçados que dependem de climatização permanente. O mesmo raciocínio vale para jornadas de trabalho ao ar livre, horários escolares e funcionamento de serviços públicos em dias de calor extremo. São decisões de gestão, não de engenharia, e por isso mesmo costumam ser subestimadas.
1,5 °C: de meta física a ponto de encontro político
Sobre o limite do Acordo de Paris, Buontempo é direto: ele será ultrapassado, se não no próximo ano, no seguinte. Ainda assim, defende que o número continua útil como ponto de conexão entre ciência e política, porque a lógica permanece: 1,6 °C é melhor que 1,7 °C, que é melhor que 1,8 °C. A OMM estima 91% de chance de ao menos um ano entre 2026 e 2030 superar 1,5 °C e 75% de chance de a média do quinquênio também ficar acima dessa marca4.
A parte mais desconfortável da conversa trata da velocidade de resposta. Para o cientista, as sociedades não reagem a relatórios, e sim a experiências extremas vividas na pele. Ele menciona o romance O Ministério do Futuro, de Kim Stanley Robinson, cuja trama começa com uma onda de calor que mata milhões de pessoas na Índia e muda a resposta política global. Diz esperar que nada parecido aconteça, mas admite imaginar que algo assim, e não um novo relatório científico, será o gatilho. Em termos de ciência comportamental, é a descrição do viés de disponibilidade aplicado à política pública: o risco que se vê pesa mais do que o risco que se calcula.
Buontempo se declara otimista quanto à capacidade humana de enfrentar problemas complexos, mas reconhece, ao falar dos filhos, um sentimento de culpa geracional: a sensação de que sua geração deixará um planeta em condições mais difíceis.
Perguntas frequentes
O nível do mar pararia de subir se as emissões fossem zeradas?
Não. O oceano já acumulou energia suficiente para que a dilatação térmica e o degelo mantenham o mar subindo por pelo menos dois séculos. A temperatura do ar poderia começar a cair até o fim do século, mas o oceano responde com muito mais atraso.
Agosto de 2026 foi o mês mais quente já registrado?
Sim. O Copernicus registrou 16,96 °C de média global, 1,65 °C acima do nível pré-industrial, empatando com julho de 2023 no topo da série iniciada em 1940.
Por que a Europa aquece mais rápido que a média global?
Além de ter pouca área oceânica, a Europa sofre influência do Ártico, que aquece mais que qualquer outra região, de uma atmosfera mais limpa após décadas de controle da poluição e, possivelmente, de sistemas de alta pressão mais persistentes.
Como o El Niño de 2026 afeta o Brasil?
O Painel El Niño 2026-2027 prevê chuvas acima da média e risco de enchentes no Sul, e chuvas abaixo da média, calor e incêndios no centro-norte, com pico entre a primavera e o verão.
Quais cidades brasileiras são mais expostas à elevação do mar?
Santos e a Baixada Santista, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Fortaleza, São Luís e áreas da Região Metropolitana de Porto Alegre aparecem com frequência entre as mais vulneráveis em estudos e levantamentos.
O limite de 1,5 °C ainda faz sentido?
Como meta física, tende a ser ultrapassado. Como referência política, continua útil, porque cada décimo de grau evitado reduz danos.