Dois ministros sentaram-se para escrever, a quatro mãos, uma defesa do próprio governo. Carlos Cuerpo, ministro da Economia da Espanha, e Dario Durigan, secretário especial de Fazenda do Brasil, publicaram no jornal espanhol El País um artigo de opinião que ataca de frente uma "ideia zumbi": a de que governos de direita seriam naturalmente melhores gestores da economia que os de esquerda¹. O texto reúne desemprego em mínima histórica no Brasil, queda do déficit público na Espanha e a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia como provas de que existe, nas palavras dos autores, "um modelo progressista de gestão econômica que funciona".
A pergunta que cabe a este jornal fazer não é se o texto é bem escrito, é. A pergunta é: os números batem? E, batendo, o que fica de fora quando dois ministros em exercício assinam, juntos, a própria propaganda de governo?
O que os dados do IBGE confirmam sobre o Brasil
A afirmação mais verificável do artigo é também a mais robusta. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, registrou taxa de desocupação de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012². No trimestre encerrado em junho de 2026, a taxa recuou ainda mais, para 5,4% considerando a comparação sazonal, com o país batendo recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas e 38,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado³. Os números sustentam a frase dos ministros sobre "desemprego em mínimos históricos".
A reforma do Imposto de Renda também resiste ao escrutínio. A Lei 15.270/2025, sancionada por Lula em 26 de novembro de 2025 e em vigor desde janeiro de 2026, isentou totalmente do imposto quem ganha até R$ 5 mil por mês e criou desconto parcial até R$ 7.350, beneficiando cerca de 15 milhões de contribuintes segundo o governo federal⁴. A compensação veio de uma alíquota mínima de até 10% sobre rendimentos anuais acima de R$ 600 mil, atingindo aproximadamente 140 mil contribuintes de alta renda⁵. É exatamente o desenho que o artigo descreve como "contribuição mínima efetiva a quem percebe rendimentos muito elevados".
O que os dados espanhóis mostram, e o que o artigo não menciona
Do lado espanhol, o déficit público fechou 2025 em 2,2% do PIB, a sexta melhora anual consecutiva em relação à meta pactuada com a União Europeia, com queda de 7,7 pontos percentuais desde o pico de quase 10% registrado em 2020⁶. O crescimento também sustenta o discurso: analistas do BBVA Research e da confederação empresarial CEOE projetam expansão do PIB entre 2,4% e 2,6% em 2026, com o país gerando parcela desproporcional do emprego criado na zona do euro nos últimos anos⁷.
Mas há uma camada que o artigo de opinião simplesmente não menciona. O próprio Ministério de Hacienda reconhece que a dívida pública espanhola segue acima de 100% do PIB, e projeções recentes apontam desaceleração do crescimento em 2026, a mais intensa em cerca de duas décadas, puxada pela fraqueza do setor externo⁸. O déficit estrutural, aquele que desconta o ciclo econômico favorável, permanece estimado entre 3,5% e 4,5% do PIB, sinal de que parte da melhora nas contas vem do bom momento da economia, e não necessariamente de ajuste permanente.
O acordo Mercosul-União Europeia como prova de conceito
O artigo cita o acordo Mercosul-União Europeia como "a expressão mais concreta" de uma aposta por um mundo multipolar. Os fatos aqui também se confirmam: depois de 26 anos de negociação, o acordo foi assinado em Assunção em 17 de janeiro de 2026, criando uma área que soma cerca de 720 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões em PIB combinado⁹. A parte comercial entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026, após ratificação unânime do Senado brasileiro e adesão de Argentina, Uruguai e da própria Comissão Europeia¹⁰. É, de fato, um dos maiores acordos comerciais bilaterais já fechados no mundo.
Transição digital: uma convergência real, mas com timing questionável
O texto também menciona a proposta espanhola de restringir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais como parte da "soberania digital ao serviço das pessoas". A medida foi anunciada por Pedro Sánchez em fevereiro de 2026 durante a Cúpula Mundial de Governos em Dubai, tornando a Espanha o primeiro país europeu a avançar concretamente nessa direção, na esteira de uma lei semelhante já aplicada na Austrália desde dezembro de 2025¹¹. A proposta, porém, ainda depende da aprovação da Lei de Proteção de Menores em Ambientes Digitais pelo parlamento espanhol, o que o artigo de opinião trata como fato consumado sem essa ressalva.
⚖ Contraponto editorial
- É um texto de autopromoção, por definição. Cuerpo e Durigan não são analistas independentes: são, respectivamente, ministro da Economia da Espanha e secretário especial de Fazenda do Brasil, avaliando o próprio desempenho. Isso não invalida os dados, mas muda o gênero do texto: é peça política, não reportagem.
- A dívida espanhola segue elevada. Mesmo em queda relativa, a dívida pública da Espanha permanece acima de 100% do PIB, um patamar que analistas de mercado, como os da Bankinter, apontam como vulnerabilidade a choques externos de custo de financiamento.
- O déficit estrutural conta outra história. Descontado o ciclo favorável, o desequilíbrio fiscal espanhol ajustado ainda gira entre 3,5% e 4,5% do PIB, distante do resultado nominal de 2,2% citado como vitória no artigo.
- No Brasil, a compensação fiscal é parcial. A própria equipe econômica estimou renúncia de R$ 25,4 bilhões com a isenção do IR contra R$ 34,1 bilhões em arrecadação adicional sobre altas rendas, uma margem apertada que depende de projeções de cobrança ainda não testadas em um ciclo fiscal completo.
- A comparação política é seletiva. O artigo atribui à "direita" recessões e desigualdade e à "esquerda" os bons resultados recentes, mas a série histórica do próprio IBGE mostra que o pico de desemprego pós-pandemia (14,7% em 2021) ocorreu sob um governo de outro espectro político em meio a uma crise sanitária global, um fator que o artigo não isola.
Como ler este texto
O artigo do El País não é falso. A maior parte dos números que ele usa resiste à checagem, e isso já diz algo relevante sobre o momento econômico de Brasil e Espanha. Mas é um artigo escrito por quem administra essas economias, publicado para consumo internacional, em vésperas da primeira reunião presencial de um conselho global que os próprios autores ajudam a criar. Ler isso como diagnóstico neutro seria um erro de gênero jornalístico. Ler isso como puro marketing político também seria, porque a queda real do desemprego brasileiro e a consolidação fiscal espanhola aconteceram, e são verificáveis fora do texto que as celebra.
Perguntas frequentes
O artigo do El País foi escrito por jornalistas ou por autoridades de governo?
Foi assinado por Carlos Cuerpo, ministro da Economia da Espanha, e Dario Durigan, secretário especial de Fazenda do Brasil, na seção de opinião do jornal. É um artigo de posicionamento político, não uma reportagem independente.
O desemprego no Brasil está mesmo na mínima histórica?
Sim. A PNAD Contínua do IBGE registrou 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor nível da série iniciada em 2012, com nova queda para 5,4% no trimestre de junho de 2026.
A Espanha reduziu mesmo o déficit público a um mínimo de duas décadas?
O déficit nominal fechou 2025 em 2,2% do PIB, a sexta melhora anual seguida. Porém, o déficit estrutural, que desconta o ciclo econômico favorável, segue entre 3,5% e 4,5% do PIB, e a dívida pública permanece acima de 100% do PIB.
O acordo Mercosul-União Europeia já está totalmente em vigor?
A parte comercial entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026, após assinatura em janeiro e ratificação dos parlamentos do bloco. As partes políticas do tratado ainda dependem de votação em cada país-membro da União Europeia.