O Maestro e o Dilúvio:
o duplo legado de Alan Greenspan
Ao longo de quase duas décadas à frente do Federal Reserve, Alan Greenspan moldou a ordem econômica global com uma mão firme — e a deixou vulnerável com a outra. Morto hoje aos 100 anos, ele foi simultaneamente o arquiteto do maior ciclo de prosperidade do pós-guerra e o regulador que olhou para o abismo e preferiu não agir.
Greenspan em Números
Na manhã desta segunda-feira, 22 de junho de 2026, Andrea Mitchell, jornalista da NBC News e esposa de Alan Greenspan há 29 anos, comunicou ao mundo que o marido havia falecido em casa, aos 100 anos, em decorrência de complicações causadas pelo mal de Parkinson. Com ele vai uma figura que não tem equivalente na história econômica contemporânea: um homem que governou a política monetária mais poderosa do planeta por quase duas décadas, aclamado primeiro como gênio e depois duramente questionado como arquiteto involuntário da maior crise financeira desde 1929.
Alan Greenspan nasceu em 6 de março de 1926 no bairro de Washington Heights, em Manhattan, filho de uma família judaica de origem modesta. Seu pai, Herbert, era corretor de valores e analista financeiro — uma coincidência biográfica que parece menos casual à luz da vida que o filho viria a ter. Ainda jovem, demonstrou aptidão matemática incomum, chegou a estudar clarinete e saxofone na Juilliard School e chegou a tocar jazz profissionalmente antes de se dedicar à economia. Obteve graduação e mestrado pela New York University e passou décadas como consultor econômico privado antes de ingressar na vida pública.
A ascensão de um "Maestro"
Greenspan chegou à presidência do Fed em agosto de 1987, indicado por Ronald Reagan. Não havia completado 69 dias no cargo quando a Bolsa de Nova York desabou, em 19 de outubro de 1987 — o chamado "Segunda-Feira Negra", quando o Dow Jones Industrial Average perdeu 22,6% em uma única sessão, a maior queda diária de sua história. A resposta do novato à frente do banco central foi imediata e decisiva: na manhã seguinte, o Fed divulgou uma nota afirmando estar pronto para prover toda a liquidez necessária para sustentar o sistema financeiro. Em dois dias, o Dow havia recuperado mais da metade das perdas.
Aquele episódio definiu o estilo Greenspan: intervenção cirúrgica, comunicação calculada e uma confiança quase inabalável no poder dos mercados de se autocorrigir. O apelido "O Maestro" — imortalizado pelo livro homônimo do jornalista Bob Woodward, publicado em 2000 — capturava bem a percepção da época: a de um regente que, com leves ajustes da batuta, mantinha a maior orquestra econômica do mundo em perfeita afinação.
"Com duas ou três palavras bem escolhidas, ele era capaz de enviar o mercado de ações para o céu ou para o inferno."
— The Washington Post, 1997Essa percepção não era apenas retórica. Segundo a CNN Brasil, durante os anos de prosperidade, a taxa de desemprego americana caiu abaixo de 4%, o governo federal passou a registrar superávits fiscais — reversão notável após décadas de déficits — e o mercado acionário atingiu recordes históricos. Greenspan supervisionou o que seria a segunda maior expansão econômica da história dos Estados Unidos: uma década ininterrupta de crescimento, de março de 1991 a março de 2001. Para boa parte dos economistas e dos mercados financeiros, ele parecia ter domado o ciclo econômico.
A "Exuberância Irracional" e seus limites
Em dezembro de 1996, Greenspan proferiu uma frase que entraria para o léxico permanente da economia mundial. Em um discurso no American Enterprise Institute, em Washington, ele perguntou retoricamente como os formuladores de política monetária poderiam saber "quando a exuberância irracional elevou indevidamente os preços dos ativos". A declaração fez mercados ao redor do mundo recuarem momentaneamente. Era um sinal claro de que o próprio Greenspan identificava a fragilidade da euforia tecnológica — e, no entanto, não agiu para contê-la.
A bolha das empresas pontocom continuou inflando por mais quatro anos antes de explodir em 2001. Diante do colapso, Greenspan liderou o Comitê Federal de Mercado Aberto em seu então mais agressivo ciclo de cortes de juros da história: as taxas básicas caíram de 6,5% para 1% em menos de dois anos. Críticos argumentariam mais tarde que justamente esse dinheiro barato foi o combustível para a bolha seguinte — a imobiliária — e para a crise que a desinflaría de forma devastadora.
- Resposta rápida e eficaz à crise de 1987, evitando recessão catastrófica.
- Supervisão da maior expansão econômica americana do século XX.
- Controle eficiente da inflação mesmo com o desemprego abaixo de 4%.
- Introdução de transparência sem precedentes nas divulgações federais (1994).
- Gestão brilhante de crises periféricas (LTCM em 1998 e atentados de 11/9).
- Diagnóstico correto da produtividade tech como impulsionadora básica.
- Promoção cega de desregulamentação financeira que originou excessos tóxicos.
- Resistência a conter empréstimos imobiliários de natureza predatória.
- Adoção e manutenção de juros longamente baixos pós-crise de 2001.
- Estruturação do risco sistêmico induzido via "Greenspan Put".
- Reconhecimento teórico da bolha imobiliária sem contraposição ativa.
- Profundo vácuo fiscal e regulatório que desaguou na violenta quebra de 2008.
O legado sombrio: 2008 e a autocrítica tardia
Greenspan deixou o Fed em 31 de janeiro de 2006, substituído por Ben Bernanke. Menos de dois anos depois, o sistema financeiro global entrou em colapso. A crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos detonou uma reação em cadeia que chegaria a todo o mundo desenvolvido — e reverberaria fortemente em países emergentes, incluindo o Brasil, que viu o crescimento desacelerar bruscamente em 2009. A comissão bipartidária criada pelo Congresso americano para investigar a crise, a Financial Crisis Inquiry Commission, concluiu em 2011 que a catástrofe era evitável — e que a supervisão insuficiente dos mercados financeiros estava entre suas causas centrais.
Em outubro de 2008, depondo diante do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, Greenspan referiu-se à crise como "um tsunami de crédito que ocorre uma vez a cada século". E admitiu ter encontrado "uma falha" em sua visão de mundo: a crença de que o interesse próprio dos mercados seria suficiente para proteger investidores e o sistema como um todo. A frase foi amplamente reproduzida como uma das confissões mais notáveis da história econômica recente. "Para Alan Greenspan dizer 'talvez os mercados nem sempre acertem' é uma reflexão sobre toda a sua carreira, não apenas sobre seu mandato no Fed", comentou o economista Vincent Reinhart.
"Encontrei uma falha. Estou perturbado com este fato."
— Alan Greenspan, depoimento ao Congresso americano, Outubro de 2008Os críticos, porém, apontavam que a confissão não absolvia os erros cometidos. Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, foi direto: Greenspan "não acreditava realmente em regulação; quando os excessos do sistema financeiro eram identificados, ele e outros chamavam isso de autorregulação — um oximoro". O paradoxo central de seu mandato, segundo seu biógrafo, foi precisamente este: Greenspan era capaz de identificar bolhas, cunhou até um termo para descrevê-las, mas relutou em furar as que viriam a preceder a maior crise financeira em oitenta anos.
A filosofia que o fez grande — e o comprometeu
Para entender Greenspan é necessário compreender sua formação intelectual. Ele foi membro do círculo íntimo de Ayn Rand, a romancista russo-americana que teorizou o capitalismo como virtude moral suprema e a intervenção estatal como coerção ilegítima. Greenspan chegou a contribuir com capítulos para o livro de Rand Capitalism: The Unknown Ideal, e a autora esteve presente em sua posse como assessor econômico de Gerald Ford. Essa filiação ideológica moldou profundamente sua aversão à regulação: ele enxergava os mercados não apenas como mecanismos eficientes, mas como expressões de liberdade individual.
Essa visão foi uma vantagem nos anos 1990, quando a desregulamentação e a abertura comercial realmente produziram ganhos de produtividade notáveis. Mas se tornou uma vulnerabilidade sistêmica à medida que instrumentos financeiros cada vez mais complexos — derivativos, mortgage-backed securities, CDOs — acumulavam risco fora do alcance da supervisão tradicional. O próprio Greenspan reconheceria, anos depois, que sua confiança na autorregulação dos bancos fora "errônea".
O eco no Brasil
Para o Brasil, a trajetória de Greenspan foi menos uma abstração biográfica do que uma força concreta sobre a vida econômica do país. Nos anos 1990, as decisões do Fed — especialmente os aumentos de juros de 1994 e 1997 — contribuíram para pressionar o câmbio de economias emergentes, agravando crises como a mexicana (1994-1995), a asiática (1997) e a russa (1998), que culminou no ataque especulativo ao real e na desvalorização cambial brasileira de janeiro de 1999. O Banco Central do Brasil, então sob o comando de Armínio Fraga, elevou a taxa Selic a 45% ao ano para conter a fuga de capitais — reflexo direto das turbulências geradas pelo sistema monetário cujos fundamentos Greenspan ajudou a construir.
A própria crise de 2008, gestada sob a era Greenspan, chegou ao Brasil pela retração do crédito externo e pela queda das commodities: o PIB brasileiro contraiu 0,1% em 2009, depois de crescer a taxas superiores a 5% ao ano. O governo Lula I adotou medidas anticíclicas — redução de impostos sobre bens de consumo, ampliação do crédito via bancos públicos, reforço do Bolsa Família — em parte financiadas pelas reservas acumuladas justamente como proteção contra os choques externos que Greenspan havia ajudado a tornar recorrentes. Em entrevista ao jornal Valor Econômico anos antes da crise, Greenspan chegou a comentar a política de acumulação de reservas adotada pelo Brasil, reconhecendo sua importância para blindar economias emergentes das turbulências sistêmicas — turbulências que seu próprio modelo havia contribuído para amplificar.
Reflexão: o homem e a instituição
É tentador simplificar o legado de Greenspan em uma narrativa de queda: o gênio que se tornou bode expiatório. Mas a história é mais densa do que isso. Ele governou a maior instituição financeira do mundo por quase duas décadas com notável maestria técnica em momentos de crise aguda — do Black Monday ao colapso da LTCM, do 11 de setembro à transição pós-ponto-com. Sob sua liderança, o Fed pela primeira vez instituiu comunicados públicos ao final de suas reuniões de política monetária, uma reforma de transparência que seus sucessores ambiariam e que hoje é padrão em bancos centrais ao redor do mundo.
Ao mesmo tempo, a história não permite absolvição. O "Greenspan Put" — a percepção de que o Fed sempre interviria para salvar os mercados em momentos de queda — criou um incentivo perverso que encorajou a tomada de riscos excessivos. A desregulamentação financeira que ele defendeu ativamente, convicto de que os mercados se disciplinariam sozinhos, deixou o sistema sem os amortecedores necessários para absorver o choque que viria. E quando esse choque chegou, foram os contribuintes — nos EUA, no Brasil e em todo o mundo — que pagaram a conta.
A comissão bipartidária do Congresso americano concluiu em 2011 que a crise de 2008 era evitável. Parte significativa das condições que a tornaram possível — a tolerância ao crédito predatório, a desregulamentação dos derivados, a manutenção prolongada de juros próximos de zero — foram forjadas sob o mandato de Greenspan. Isso não apaga os méritos reais de quase duas décadas de gestão monetária; mas torna seu legado inseparável das consequências que não soube quebrar ou prevenir.
Greenspan morreu com 100 anos — uma vida inteira vivida no centro dos maiores debates econômicos do século. Ele viu a Grande Depressão na infância, o New Deal, o pós-guerra, a estagflação dos anos 1970, a virada neoliberal de Reagan, o boom digital, o trauma do 11 de setembro, a crise de 2008 e, nos últimos anos, assinou manifestos em defesa da independência do Fed contra pressões políticas — incluindo, em janeiro de 2026, uma nota conjunta com ex-autoridades criticando a abertura de inquérito criminal contra o então presidente do banco central, Jerome Powell, durante o segundo governo Trump.
Poucos personagens da história econômica encarnam tão completamente as contradições do capitalismo contemporâneo: a capacidade real de produzir prosperidade e a cegueira estrutural diante de seus próprios excessos. O Maestro saiu de cena. A música que ele ajudou a compor — com suas harmonias e suas dissonâncias — continuará sendo ouvida por gerações.
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