Caderno Livros O Tecido · Resenha & Ideias
CONTENÇÃO · RISCO · PREPARO
Ilustração: O Tecido

Nenhuma bomba explode. Não há nuvem em forma de cogumelo, nem onda de choque. O colapso começa em silêncio, dentro de um tubo de ensaio ou de um frasco mal lacrado, e só se torna visível quando já é tarde demais. É essa a premissa que a jornalista americana Annie Jacobsen desenvolve em Biological War: A Scenario, lançado no fim de julho de 2026 pela editora Torva no Reino Unido, com edição americana simultânea. Depois de Nuclear War: A Scenario — best-seller do New York Times sobre um ataque nuclear hipotético — a autora aplica o mesmo método de reportagem cinematográfica a um cenário ainda mais difícil de conter: a liberação, acidental ou deliberada, de um patógeno geneticamente modificado.

O livro nasce de dezenas de entrevistas com autoridades políticas, militares e sanitárias americanas, e reconstrói hora a hora os primeiros dias de uma epidemia artificial capaz de colapsar a infraestrutura de um país. Jacobsen já havia testado essa fórmula documental-narrativa em Nuclear War, e a mantém aqui: cada etapa do colapso é amarrada a um evento histórico real, o que dá ao relato um peso de verossimilhança que o afasta da ficção científica.

O plano que poucos conhecem

Um dos eixos centrais do livro é um programa de continuidade governamental americano batizado de Devolution: a transferência secreta de poder para líderes substitutos e centros de comando ocultos, caso um ataque biológico massivo torne o governo central inoperante. Em artigo de opinião publicado no Washington Post em 30 de julho de 2026 para apresentar o livro, a própria Jacobsen resume a lógica do sistema citando o ex-administrador da FEMA, Craig Fugate, que classificou o programa como a contrapartida civil do sistema militar de alerta Defcon — só que aplicado à sobrevivência das instituições, não das tropas.

"Não existe defesa real do território contra um ataque biológico em larga escala — apenas formas de mitigar a extinção." Cel. Thomas Ehrhard, ex-planejador de jogos de guerra biológica e nuclear do Pentágono, citado por Annie Jacobsen

Segundo o relato de Jacobsen no Washington Post, o antigo foco da continuidade governamental americana era a guerra nuclear — um risco tecnicamente mais contido, já que armas nucleares exigem material físsil raro e permanecem sob custódia militar rígida. Armas biológicas, ao contrário, podem ser produzidas com treinamento mínimo e ferramentas cada vez mais acessíveis, inclusive com apoio de sistemas de inteligência artificial, fora de qualquer cadeia de comando ou fiscalização. É por isso, segundo a autora, que a doutrina não classificada do Pentágono já trata um patógeno biológico contagioso como a ameaça de maior potencial de destruição — acima até da arma nuclear.1

O paralelo entre acidente e ataque é central. Antes de 1990, os Estados Unidos operavam apenas dois laboratórios de nível máximo de contenção (NB-4), em Maryland e na Geórgia. Depois dos ataques com antraz de 2001, o número de instalações de alta contenção multiplicou-se: hoje são mais de 1.600 laboratórios NB-3 e 17 NB-4 em território americano, segundo os dados citados por Jacobsen.1 Um levantamento global publicado em 2025 e mencionado no mesmo artigo identificou 110 laboratórios NB-4 em 34 países e mais de 3.500 laboratórios NB-3 em 149 países — a maioria deles, segundo os autores do estudo, sem diretrizes formais para pesquisas de "duplo uso" que possam ser convertidas em ameaça.1

Onde o Brasil entra nessa equação

O ponto mais discutido pelos leitores do livro no exterior — inclusive em resenhas no Goodreads — é justamente sua ausência: Biological War é um relato quase inteiramente americano, com pouco espaço para a dimensão global do problema. É aí que a reportagem de O Tecido busca complementar o quadro com o que já existe, e o que ainda falta, na estrutura brasileira de biossegurança.

O Brasil possui hoje sua própria hierarquia de contenção laboratorial, regulada principalmente pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 50 da Anvisa e pela Resolução Normativa nº 18 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que classificam os laboratórios em quatro níveis — de NB-1, para agentes de baixo risco, a NB-4, reservado a patógenos de altíssima letalidade e sem tratamento disponível, como o vírus Ebola.23 A Fiocruz mantém o principal centro de referência do país nesse campo, e o Ministério da Saúde já discute a construção de uma unidade nacional de contenção máxima (NB-4) dedicada, conforme documento técnico da própria pasta.4

Contraponto

Nem todos os especialistas veem a multiplicação de laboratórios de alta contenção como resposta proporcional ao risco. Parte da comunidade de biossegurança internacional argumenta que o crescimento acelerado de instalações NB-3 e NB-4 no mundo — muitas delas sem regras claras para pesquisas de duplo uso — pode ampliar o risco de acidente ou vazamento, em vez de reduzi-lo, na medida em que multiplica os pontos de falha humana e operacional.1

Por outro lado, autoridades sanitárias — como a liderança da Fiocruz e do Ministério da Saúde brasileiro — defendem que a ampliação da capacidade de pesquisa e diagnóstico em alta contenção é condição necessária para que o país não dependa exclusivamente de laboratórios estrangeiros em uma emergência, argumento reforçado durante a Cúpula Global de Preparação para Pandemias realizada no Rio de Janeiro em 2024.5

No plano da resposta a emergências — e não apenas da contenção laboratorial —, o Brasil ainda não dispõe de um equivalente formal ao "Devolution" americano. O país trabalha, desde 2025, na elaboração de um Plano de Prevenção, Preparação e Resposta às Pandemias, conduzido por um grupo de trabalho do Ministério da Saúde, com entrega prevista de uma versão preliminar meses depois do início dos debates.6 É um esforço de outra natureza — sanitário e não de continuidade de Estado —, mas que dialoga com a mesma pergunta que atravessa o livro de Jacobsen: o que garante que as instituições sigam funcionando quando o pior acontece?

Por que este livro importa para quem não é americano

A força de Biological War não está apenas na revelação de um plano de contingência pouco conhecido, mas na maneira como Jacobsen amarra ficção especulativa a fatos documentados — cada etapa do colapso narrado remete a um episódio histórico real, da guerra biológica ao acidente de laboratório. É um livro de jornalismo investigativo com estrutura de thriller, e por isso mesmo desconfortável: incomoda porque não permite ao leitor a distância segura da ficção pura.

Para o leitor brasileiro, a lacuna geográfica do livro é também um convite. A pergunta que Jacobsen faz sobre os Estados Unidos — o que resta de um Estado quando sua infraestrutura sanitária falha por completo — é a mesma que o Brasil já vem tentando responder, de forma mais modesta e ainda incompleta, desde a pandemia de covid-19. A comparação entre os dois exercícios de preparação, o americano e o brasileiro, é onde este livro se torna mais útil fora de seu país de origem.

Biological War: A Scenario

Annie Jacobsen · Torva/Dutton, 2026 · Recomendação de leitura de Ewerton Lopes, Curador Editorial de O Tecido.

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Vale um alerta editorial: os dados sobre número de laboratórios de alta contenção e sobre o andamento do plano brasileiro de pandemias são figuras vivas, sujeitas a atualização frequente pelos próprios órgãos que as publicam, e merecem verificação antes de qualquer republicação futura.

Nota editorial: Este artigo foi inspirado no texto de opinião "The only plan after a biological attack is survival. That means Devolution.", de Annie Jacobsen, publicado no Washington Post em 30 de julho de 2026. Trechos e dados citados foram atribuídos com base nesse artigo original, disponível em: washingtonpost.com/opinions/2026/07/30/biological-war-is-defcon-1-civilians-whats-defense-plan. Nenhum trecho do texto original foi reproduzido ou traduzido integralmente; toda a análise sobre o contexto brasileiro é reportagem independente de O Tecido.