Saúde · Saúde Pública
Reportagem do jornal espanhol El País destaca a rede pública brasileira de bancos de leite humano, a maior e mais complexa do mundo segundo a OMS, como contraponto a um mercado privado que já movimenta centenas de milhões de dólares em outros países.
Ilustração de banco de leite humano
Ilustração editorial · O Tecido

Uma reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal espanhol El País volta a colocar o Brasil no centro de um debate global sobre um alimento que a ciência considera insubstituível para recém-nascidos frágeis: o leite materno doado. O texto, assinado por Kristin Bethge e Niklas Franzen a partir do Instituto Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro, descreve como o país transformou um gesto de solidariedade individual em política de Estado, enquanto em outros mercados a mesma substância vem sendo comercializada por empresas privadas [1].

O ponto de partida é simbólico. Foi naquele mesmo instituto, à beira da praia de Botafogo, que nasceu em 1943 o primeiro banco de leite humano do Brasil. Mais de oito décadas depois, o país opera aquilo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como a maior e mais complexa rede de bancos de leite humano do planeta, hoje coordenada pela Fiocruz por meio do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, em parceria com o Ministério da Saúde [2][3].

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em maio deste ano, por ocasião do Dia Mundial da Doação de Leite Humano, a rede brasileira já soma 239 bancos de leite humano e 261 postos de coleta distribuídos por todos os estados e pelo Distrito Federal. Entre 2020 e 2025, 3,6 milhões de mães doadoras ajudaram a beneficiar 4,1 milhões de recém-nascidos prematuros ou de baixo peso, com mais de 4,2 milhões de litros de leite coletados no período [4].

"Um bebê amamentado é um bebê mais saudável, e vai se tornar um adulto mais saudável." Danielle Aparecida da Silva, diretora do banco de leite do Instituto Fernandes Figueira, em depoimento ao El País[1]

A lógica operacional descrita pelo El País é a mesma que sustentou o crescimento da rede nas últimas décadas: mães com excedente de leite doam, hospitais públicos processam o material sob rígidos controles de qualidade e o distribuem, mediante prescrição médica, sobretudo para bebês prematuros e recém-nascidos internados em unidades neonatais. A Organização Mundial da Saúde recomenda que, na ausência do leite da própria mãe, o leite humano pasteurizado seja a primeira alternativa, à frente das fórmulas industriais, por reduzir o risco de doenças graves como a enterocolite necrosante [1][5].

Um diferencial brasileiro citado na reportagem, e recorrente em outras coberturas internacionais, é a logística de coleta domiciliar: em diversas cidades, motociclistas recolhem gratuitamente o leite congelado na casa das doadoras, o que reduz uma das principais barreiras à doação. A National Geographic Brasil já havia descrito esse arranjo como parte de um modelo que une baixo custo, alta tecnologia e forte apoio governamental, algo que distinguiria o Brasil de países onde a coleta depende quase inteiramente da iniciativa da própria doadora [6].

Reconhecimento internacional não falta. Em 2020, a OMS concedeu ao pesquisador João Aprígio Guerra de Almeida, fundador e coordenador da Rede Global de Bancos de Leite Humano, o Prêmio Dr. Lee Jong-wook de Saúde Pública, uma das mais relevantes distinções da área. À época, mais de 20 países já replicavam elementos do modelo brasileiro, entre eles Rússia, Índia, China, África do Sul, Argentina, Paraguai e Uruguai [7]. Levantamentos mais recentes da própria Fiocruz e de veículos como a National Geographic apontam que o Brasil hoje administra cerca de 230 dos aproximadamente 750 bancos de leite humano existentes no mundo, um contingente muito superior, por exemplo, aos 28 bancos afiliados à associação norte-americana de referência no setor [6].

Contraponto

Enquanto o Brasil trata o leite materno como bem público, em outros países ele virou mercado. O El País cita estimativas de mercado que variam entre 400 milhões e 900 milhões de dólares globalmente, movimentadas por empresas privadas que remuneram doadoras, prática vedada pela legislação brasileira [1].

A pesquisadora Heather Rusi, da Universidade de Calgary, avalia que esse mercado não é necessariamente negativo: para ela, empresas privadas ajudaram a ampliar a conscientização sobre o valor do leite humano e a financiar novas tecnologias de processamento. Já John Mischler, presidente da empresa norte-americana Ni-Q, defende que o pagamento funciona como apoio financeiro a mães que assim podem dedicar mais tempo aos filhos, descrevendo o modelo como uma relação "em que todos ganham" [1].

Críticos, porém, apontam riscos concretos. Casos no Camboja, envolvendo a empresa americana Ambrosia Labs, e na Índia, com a companhia NeoLacta, foram classificados pela Unicef e por entidades regulatórias como situações de exploração comercial de mulheres em condição de vulnerabilidade econômica [1]. A Associação Europeia de Bancos de Leite Humano também se posiciona formalmente contra a comercialização do produto, alinhando-se à diretriz seguida pelo Brasil desde a reforma conduzida por Guerra de Almeida na década de 1980.

A reportagem do El País também situa os bancos de leite humano dentro da agenda climática. Quatro meses antes da COP30, realizada em Belém, um fórum internacional preparatório resultou na chamada Carta de Belém, documento que trata bancos de leite humano como infraestrutura estratégica em situações de crise, já que enchentes e secas costumam comprometer o acesso à água potável, tornando o leite doado pasteurizado uma proteção adicional contra infecções em recém-nascidos [1]. O tema de saúde e clima, aliás, ganhou espaço formal na programação da própria COP30, realizada na Amazônia em novembro de 2025, dentro do eixo de resiliência em saúde do chamado Pacote de Belém [8].

Do ponto de vista epidemiológico, o avanço é significativo. Entre 1990 e 2015, o Brasil reduziu a mortalidade de crianças menores de cinco anos em 73%, segundo dados do Unicef citados pela reportagem, um resultado que organismos internacionais atribuem a uma combinação de políticas de saúde e proteção social, incluindo a promoção do aleitamento materno e a expansão da rede de bancos de leite [1]. A Organização Pan-Americana da Saúde e a revista científica britânica The Lancet já haviam concedido ao país reconhecimento específico como referência mundial em aleitamento materno, colocando o Brasil à frente de nações de alta renda como Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Espanha e China nesse indicador [9].

Para Guerra de Almeida, hoje com 68 anos, a explicação para a resiliência do modelo é cultural tanto quanto institucional: o país teria internalizado, ao longo de décadas de campanhas públicas, a ideia de que o leite materno é um assunto de interesse coletivo, e não apenas familiar. É essa compreensão, mais do que qualquer tecnologia isolada, que sustentaria a rejeição brasileira à venda privada do produto, mesmo diante do crescimento do mercado internacional [1].

Perguntas frequentes
O que é um banco de leite humano?

É uma unidade ligada a um hospital ou centro de saúde responsável por coletar, processar, controlar a qualidade e distribuir leite materno doado, geralmente destinado a recém-nascidos prematuros ou de baixo peso que não podem ser amamentados pela própria mãe.

Por que o Brasil é considerado referência mundial nessa área?

O país opera a maior e mais complexa rede de bancos de leite humano do mundo, segundo a OMS, combinando baixo custo, controle rigoroso de qualidade, apoio governamental à amamentação e logística de coleta domiciliar, características que mais de 20 países já buscaram replicar total ou parcialmente.

É permitido vender leite materno no Brasil?

Não. A comercialização de leite materno é proibida no país desde a reforma da rede de bancos de leite nos anos 1980. O modelo brasileiro se baseia exclusivamente na doação voluntária e não remunerada.

Como uma mãe pode doar leite materno no Brasil?

O primeiro passo é procurar o banco de leite humano mais próximo, disponível em todos os estados, ou ligar para o número 136. Em diversas cidades, é possível agendar a coleta domiciliar do leite congelado.

O leite materno doado é seguro?

Sim. No modelo público brasileiro, todo o leite passa por triagem das doadoras, análise físico-química e pasteurização antes de ser liberado, sob prescrição médica ou de nutricionista, para os recém-nascidos que dele necessitam.

Esta reportagem foi produzida por O Tecido a partir de apuração própria e de dados de fontes públicas e institucionais, e foi inspirada pela reportagem "Cómo la leche materna de donantes se convirtió en Brasil en un bien público que da de comer a cientos de miles de bebés", publicada pelo jornal El País em 27 de agosto de 2026, assinada por Kristin Bethge e Niklas Franzen. Trechos citados diretamente foram atribuídos à reportagem original, disponível em: elpais.com.
Referências
  1. BETHGE, Kristin; FRANZEN, Niklas. "Cómo la leche materna de donantes se convirtió en Brasil en un bien público que da de comer a cientos de miles de bebés". El País, 27 ago. 2026. elpais.com
  2. FIOCRUZ. "Banco de Leite Humano". Portal Fiocruz. fiocruz.br/banco-de-leite-humano
  3. rBLH BRASIL. "rBLH-Brasil". Fiocruz. rblh.fiocruz.br
  4. MINISTÉRIO DA SAÚDE. "Modelo brasileiro de banco de leite é o maior do mundo e une baixo custo e alta tecnologia". 19 mai. 2026. gov.br/saude
  5. MINISTÉRIO DA SAÚDE. "Banco de Leite Humano (BLH)". gov.br/saude
  6. NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. "Entenda por que o Brasil é referência mundial em bancos de leite materno". Fev. 2023. nationalgeographicbrasil.com
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. "Coordenador da Rede Brasileira de Banco de Leite Humano recebe um dos mais importantes prêmios da saúde mundial". sbp.com.br
  8. AGÊNCIA GOV. "COP 30 aprova o Pacote Belém. Confira as decisões e resultados da conferência". Nov. 2025. agenciagov.ebc.com.br
  9. UNA-SUS. "Brasil tem o maior número de doadoras de leite humano do mundo". unasus.gov.br