Saúde · Longevidade

O Japão anunciou, em 15 de setembro de 2026, Dia do Idoso no país, que ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 mil pessoas com 100 anos ou mais de idade. Segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês, o levantamento feito em 1º de setembro contabilizou 107.677 centenários,1 um aumento de quase 8 mil pessoas em relação a 2025 e o 56º recorde anual consecutivo desde que a série histórica começou, em 1963.2

Naquele ano, o país tinha apenas 153 pessoas centenárias. A trajetória ascendente reflete uma combinação bem documentada por demógrafos: dieta, sistema de saúde universal com acompanhamento contínuo e uma rede de proteção social construída ao longo de seis décadas em torno da Lei de Bem-Estar dos Idosos.2

Um recorde que também é um espelho de política pública

A mulher mais velha do país é Fuyo Kishimoto, de Kyoto, com 114 anos, e o homem mais velho é Hikaru Kato, de Kumamoto, com 112.1 Entre os casos individuais, o jornal The New York Times acompanhou a história de Tetsuo Sato, morador da vila rural de Osonogo, na província de Niigata, que completa 107 anos nesta semana. Sato mora com o filho, a nora e os animais da casa, faz cadernos artesanais com calendários e papel de embrulho antigos e insiste em tomar banho sozinho, mesmo com dificuldades de visão e audição.1

"Estou muito feliz que tantas pessoas tenham conseguido se manter ativas por tanto tempo." Kenichiro Ueno, ministro da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, em coletiva de imprensa

Ao lado do anúncio, o próprio ministério informou que 54.294 pessoas completarão 100 anos ainda durante o ano fiscal de 2026, cada uma recebendo uma carta de congratulações e um copo de prata do governo, tradição mantida desde a criação da política de bem-estar aos idosos.3 Entre as 47 províncias japonesas, Shimane lidera pelo 14º ano consecutivo em proporção de centenários por habitante, seguida por Kochi e Tottori, enquanto Saitama, Aichi e Osaka aparecem no fim da lista.3

A desigualdade de gênero que atravessa a velhice extrema

Entre os 107.677 centenários japoneses, 94.298 são mulheres, o equivalente a quase 88% do total.1 Essa diferença não é exclusividade japonesa: no Brasil, o Censo 2022 do IBGE mostrou proporção parecida, com 27.244 mulheres e 10.570 homens entre os 37.814 brasileiros centenários, ou seja, mulheres em número mais que duas vezes maior.5

Stuart Gietel-Basten, professor de ciências sociais da Hong Kong University of Science and Technology, atribui a disparidade japonesa a um conjunto de fatores geracionais: homens daquela faixa etária morreram em maior número na Segunda Guerra Mundial, os sobreviventes fumaram e beberam mais do que as mulheres e tiveram histórico maior de trabalho industrial, com desgaste físico associado. Ele também aponta o isolamento social masculino após a aposentadoria ou a perda do cônjuge como fator de risco, enquanto mulheres tendem a manter redes comunitárias mais ativas, o que favorece a saúde mental na velhice.1

O Brasil envelhece mais rápido, mas com menos rede de proteção

Enquanto o Japão consolida seis décadas de política voltada à longevidade, o Brasil vive uma transição demográfica mais recente e mais acelerada. O Censo Demográfico de 2022 identificou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais no país, alta de 67% em relação aos 24.236 registrados em 2010.5 Ainda assim, os centenários representam apenas 0,018% da população brasileira, uma fração pequena diante dos 87,5 centenários por 100 mil habitantes do Japão.45

A Bahia concentra o maior número absoluto de centenários do país (5.336), seguida por São Paulo (5.095) e Minas Gerais (4.104), enquanto Roraima, Acre e Rondônia aparecem no outro extremo.5 A expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 77 anos em 2021, sendo 80,5 anos para mulheres e 73,6 para homens, patamar ainda distante da média japonesa, de 84 anos segundo o Banco Mundial.53

Segundo o demógrafo Marcio Minamiguchi, do IBGE, o crescimento do número de centenários funciona como indicador indireto: quanto mais pessoas chegam aos 100 anos, maior tende a ser também o contingente de sexagenários, septuagenários e octogenários no país, um sinal de que a pirâmide etária brasileira está se invertendo de forma estrutural, e não pontual.6

2010 / 2011 2022 / 2025 2026 (atual) 64k 99,7k 107,7k 24,2k 37,8k ~40k* Japão Brasil

Centenários no Japão (2010, 2025, set/2026) e no Brasil (2010, Censo 2022, estimativa 2026). Fontes: Ministério da Saúde do Japão e IBGE. *Estimativa editorial baseada na taxa de crescimento intercensitária, sem dado oficial pós-2022.

O que a ciência das "zonas azuis" realmente sustenta

Parte da cobertura internacional sobre longevidade japonesa recorre ao conceito de "zonas azuis" (blue zones), popularizado pelo demógrafo e pesquisador Dan Buettner em parceria com a National Geographic. Okinawa, ao sul do arquipélago japonês, é uma das cinco regiões do mundo identificadas com concentração excepcional de centenários, ao lado de Sardenha (Itália), Ikaria (Grécia), Loma Linda (Estados Unidos) e a península de Nicoya (Costa Rica).7

O Estudo de Centenários de Okinawa, conduzido desde 1975, associa a longevidade local a uma dieta predominantemente vegetal, ao hábito do "hara hachi bu" (parar de comer ao sentir 80% de saciedade) e ao conceito de ikigai, entendido como um senso de propósito diário que combina trabalho, relações pessoais e pertencimento comunitário, reforçado por grupos de apoio mútuo chamados moai.8 Pesquisadores associam esse conjunto de hábitos a menor incidência de doenças cardíacas, câncer e quadros inflamatórios crônicos entre a população mais velha da ilha.7

Por que isso importa para quem lê no Brasil

Nenhum desses fatores é exclusivamente japonês. Dieta rica em vegetais, atividade física regular de baixa intensidade e vínculos comunitários fortes aparecem em praticamente todas as zonas azuis identificadas, incluindo regiões fora da Ásia. O que distingue o Japão não é apenas o hábito individual, mas a combinação com um sistema de saúde universal, de acesso facilitado e check ups regulares, algo que o Brasil ainda não oferece de forma equivalente à população idosa, sobretudo fora dos grandes centros urbanos.1

Contraponto

Celebrar o recorde japonês sem qualificação pode passar a impressão de que viver mais é sinônimo de envelhecer bem, o que a própria literatura em saúde pública contesta. Pesquisadores como Patrick Wachholz e Paulo Villas Boas, em publicação da revista Geriatrics, Gerontology and Aging, alertam que o crescimento acelerado da população centenária representa também um gargalo para políticas públicas de saúde e para os modelos tradicionais de seguridade social, exigindo uma agenda de pesquisa específica sobre esse grupo etário, algo ainda incipiente no Brasil.9

No próprio Japão, o envelhecimento populacional já é tratado pelo governo como uma "emergência silenciosa": a população do país, que chegou a 128 milhões em 2008, deve cair para cerca de 87 milhões até 2070, segundo projeções oficiais, pressionando a força de trabalho e a arrecadação para sustentar os cuidados com a população idosa.1 O debate sobre abrir o país à imigração para compensar o déficit populacional segue politicamente sensível, em meio a um movimento nacionalista que defende, ao contrário, restrições ainda maiores.1

Perguntas frequentes

O que conta oficialmente como centenário?

É a pessoa que atingiu 100 anos completos de idade. No Japão, o dado é apurado anualmente pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar a partir do registro básico de residentes, sempre em 1º de setembro. No Brasil, o número mais recente e confiável vem do Censo Demográfico do IBGE, realizado em 2022.

Por que existem tantas mais mulheres centenárias do que homens?

A explicação combina fatores históricos e comportamentais: gerações mais velhas de homens tiveram maior exposição a guerras, tabagismo, consumo de álcool e trabalho industrial de desgaste físico, além de maior tendência ao isolamento social após a aposentadoria ou viuvez. Mulheres tendem a manter redes sociais mais ativas ao longo da vida, fator associado a melhores desfechos de saúde mental na velhice.

Quantos centenários tem o Brasil atualmente?

Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tinha 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, alta de 67% em relação a 2010. Não há levantamento nacional mais recente e específico sobre essa faixa etária até a publicação deste texto.

O que é ikigai e ele realmente prolonga a vida?

Ikigai é um conceito japonês, associado sobretudo a Okinawa, que descreve o senso de propósito diário de uma pessoa. Estudos de longo prazo relacionam esse senso de propósito, combinado a dieta vegetal e vínculo comunitário, a menor incidência de doenças crônicas entre idosos da região. Isoladamente, porém, nenhum pesquisador sério atribui a longevidade a um único hábito ou filosofia.

Viver mais tempo significa necessariamente envelhecer com qualidade?

Não necessariamente. Pesquisadores em saúde pública apontam que o aumento do número de centenários também amplia a demanda por cuidados de longa duração, estrutura previdenciária e políticas específicas para essa faixa etária, desafios que crescem junto com a longevidade e não são resolvidos automaticamente por ela.

Este texto tem como referência principal a reportagem "Japan Reaches a Unique Milestone, With More Than 100,000 People Aged 100 or Over", de Hisako Ueno e Tiffany May, publicada pelo The New York Times em 16 de setembro de 2026, com dados e análise adicionais de fontes independentes listadas nas referências ao lado. Nenhum trecho do artigo original foi reproduzido ou traduzido integralmente.