O Irã bateu Trump na arte do acordo
Depois de anos de "máxima pressão", Teerã sai das negociações de 2025 mais rico, mais enriquecido e com o Golfo Pérsico literalmente nas mãos. Uma análise de como a república islâmica transformou a ameaça em alavanca.
Quando Donald Trump retirou os Estados Unidos do Plano de Ação Conjunto (JCPOA) em maio de 2018, prometeu um acordo "muito melhor". Oito anos depois, o balanço é o oposto do anunciado: o Irã possui hoje cerca de 60% de urânio enriquecido, dispõe de reservas em divisas parcialmente descongeladas, cobra pedágio político sobre o Estreito de Ormuz e viu seus vizinhos do Golfo enfileirarem-se para negociar diretamente com Teerã. Dificilmente se poderia descrever isso como uma derrota iraniana.
A pergunta que os analistas ocidentais demoram a responder é por quê. A resposta está menos na habilidade tática de Teerã do que no erro estratégico de Washington: ao abandonar o acordo de Obama, Trump destruiu o único instrumento que havia efetivamente congelado o programa nuclear iraniano e entregou ao adversário a narrativa de vítima, o pretexto para o enriquecimento acelerado e o tempo necessário para reposicionar suas peças no tabuleiro regional.
- Urânio enriquecido — percentual atual≈ 60 %
- Nível máximo permitido pelo JCPOA (2015)3,67 %
- Estimativa: limiar para uso bélico≥ 90 %
- Reservas iranianas congeladas — estimativa≈ US$ 6–10 bi
- Trânsito diário pelo Estreito de Ormuz≈ 21 mi barris/dia
O dado nuclear é o mais eloquente. Sob o JCPOA, o Irã havia aceitado limitar o enriquecimento a 3,67% — suficiente para reatores civis, insuficiente para armas. Quando Trump cancelou o acordo in 2018 e restabeleceu sanções, Teerã invocou o artigo 36 do tratado para suspender gradualmente suas próprias obrigações. O relógio foi adiantado. Hoje, 60% representa não apenas um capital de barganha, mas um argumento físico difícil de ignorar à mesa de negociação: o custo de reverter esse estoque é político e financeiro, e quem o arcará não é o Irã.
"Se o acordo de Obama tivesse sido mantido, o Irã estaria hoje abaixo de 4% de enriquecimento. A diferença entre 4% e 60% tem nome: chama-se política externa de Trump."
O dinheiro descongelado e a nova aritmética de poder
As negociações de 2025 promoveram, com variadas versões conforme o interlocutor, um desbloqueio parcial de reservas iranianas retidas no exterior — estimadas entre 6 e 10 bilhões de dólares, dependendo da fonte e do momento. Para um país que sobreviveu a décadas de sanções desenvolvendo redes paralelas de comércio e câmbio, esse valor não é apenas liquidez: é legitimidade. Significa que contrapartes internacionais, inclusive europeias, podem voltar a transacionar com Teerã sem o risco imediato de penalidades norte-americanas.
Do ponto de vista iraniano, o acordo representou um êxito duplo: receber divisas sem entregar o programa nuclear e sem reconhecer formalmente qualquer subordinação à agenda de Washington. A narrativa interna — de resistência coroada de êxito — foi suficientemente crível para consolidar facções que antes disputavam a condução da política externa.
O Estreito como alavanca permanente
Menos discutido, mas igualmente relevante, é o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz. Aproximadamente 21 milhões de barris de petróleo passam por ali diariamente — cerca de 20% do consumo mundial. Teerã jamais precisou fechar o estreito para extrair valor político dessa posição; basta que os mercados acreditem que poderia fazê-lo. A cada escalada de tensão, o preço do Brent sobe e o custo de contrariar o Irã sobe junto.
Os países do Conselho de Cooperação do Golfo — Arábia Saudita, Emirados, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã — leram corretamente essa aritmética. Após anos de apoio tácito ou aberto às políticas de contenção americana, vários deles reaproximaram-se de Teerã, negociando diretamente acordos de não-agressão, retomada de voos e relações consulares. O processo de mediação chinesa entre Riade e Teerã, formalizado em 2023, acelerou essa reconfiguração: os países do Golfo perceberam que Washington não garantia mais a sua segurança de forma incondicional e que ignorar o vizinho iraniano saía mais caro do que dialogar com ele.
O paradoxo do "negociador duro"
Trump publicou em 1987 o livro The Art of the Deal, onde expôs sua teoria da negociação: pressão máxima, ameaças críveis, recusa a aceitar o acordo do adversário, disposição para sair da mesa. Aplicado ao Irã, o resultado foi o inverso do pretendido. A pressão máxima não produziu concessões iranianas — produziu a ruptura do mecanismo multilateral que limitava o programa nuclear, o afastamento dos aliados europeus e o fortalecimento dos setores mais duros em Teerã, que sempre argumentaram que acordos com Washington eram inúteis.
Há uma ironia estrutural nessa história: o Irã assimilou melhor do que Trump a lição do próprio Trump. Usou o tempo ganho pela ruptura do JCPOA para acumular capital nuclear — o equivalente, na linguagem do livro, de um ativo que valoriza enquanto a negociação se arrasta. Chegou à mesa de 2025 com mais chips do que tinha em 2015, e saiu dela sem ter entregado o essencial.
O legado para a ordem regional
O que se desenha no Oriente Médio pós-acordo não é a hegemonia iraniana, mas algo potencialmente mais duradouro: a irreversibilidade da posição iraniana como potência regional com capacidade nuclear latente, com acesso a mercados internacionais e com a geometria do Golfo reconfigurada ao seu redor. Os Estados do Golfo não deixaram de temer o Irã — apenas decidiram que é mais racional acomodá-lo do que confrontá-lo à sombra de uma garantia americana cada vez menos confiável.
Para Washington, o saldo é amargo: oito anos de "máxima pressão" produziram um Irã com 60% de enriquecimento, parcialmente descongelado financeiramente, politicamente legitimado como ator indispensável no Golfo e com seus adversários regionais negociando diretamente com ele. Se isso é a arte do acordo, é preciso perguntar de quem é a autoria.