Duas coleções, lidas em sequência, produzem um efeito que nenhuma delas planejou. O Livro da Biologia e O Livro da Química, ambos publicados no Brasil pela Globo Livros dentro da série britânica Ideias que Mudaram o Mundo, organizam a história das duas disciplinas como uma sucessão de marcos: uma ideia por página, um cientista por entrada, um ano em destaque. Ao folhear os dois volumes lado a lado, um padrão incomoda mais do que qualquer descoberta isolada. Entre o fim do mundo greco-romano e o século XVII, as entradas relevantes rareiam de um jeito que os primeiros capítulos, dedicados à Antiguidade, não preparam o leitor para esperar.
Não é impressão equivocada. Entre Aristóteles, que classificou animais e discutiu geração espontânea por volta de 350 a.C., e Andreas Vesálio, cuja anatomia humana ilustrada de 1543 corrigiu erros que a medicina europeia repetia havia treze séculos, existe um intervalo de quase 1.900 anos. Na química, a distância entre as primeiras teorias gregas da matéria (os quatro elementos de Empédocles, por volta de 450 a.C.) e o texto que a historiografia costuma apontar como fundador da química moderna, O Químico Cético, de Robert Boyle, publicado em 1661, ultrapassa dois milênios. Contado assim, o intervalo parece um vácuo de curiosidade humana durante quase toda a era cristã, até que o poder político do clero começou a recuar, primeiro na Inglaterra da Revolução e da Restauração, depois no continente europeu do Iluminismo.
A leitura é sedutora e parcialmente correta. Mas tratá-la como explicação completa esconde tanta coisa quanto revela, e vale a pena separar o que os dois livros mostram do que eles, pela própria natureza do formato, deixam de fora.
O que a curadoria dos livros de fato mostra
A concentração de ideias na Antiguidade clássica é real e bem documentada. Entre os séculos VI a.C. e II d.C., o Mediterrâneo oriental produziu geometria dedutiva (Euclides), mecânica e hidrostática (Arquimedes), um modelo matemático do céu que durou até Copérnico (Ptolomeu), classificação sistemática do mundo vivo (Aristóteles) e as bases da farmacologia e da anatomia comparada (Galeno, no século II d.C., cuja obra permaneceu autoridade médica incontestada até o Renascimento). Esse período coincide com cidades-estado e depois um império que financiavam bibliotecas, escolas filosóficas e uma classe de eruditos livres para especular sobre a natureza sem prestar contas a uma autoridade religiosa centralizada e doutrinária.
A partir do século III d.C., a fragmentação política do Império Romano do Ocidente, seguida por sua queda formal em 476, interrompeu a infraestrutura que sustentava essa produção: bibliotecas, rotas comerciais, cidades com excedente para financiar eruditos. O cristianismo, que se tornou religião de Estado do império em 380, não foi a única causa dessa ruptura, mas passou a ocupar o vazio institucional deixado por ela, e a partir do século V a Igreja se tornou, no Ocidente europeu, a instituição que preservava textos, educava clérigos e, gradualmente, arbitrava quais ideias sobre a natureza eram compatíveis com a doutrina.
Esse recorte importa porque é exatamente o que os dois livros da Globo Livros, ao seguir a tradição historiográfica anglo-saxã de divulgação científica, tendem a privilegiar: uma linhagem que vai da Grécia a Roma, atravessa um silêncio medieval europeu e ressurge com a Revolução Científica. É uma linhagem real, mas não é a única, e tratá-la como sinônimo de história da ciência é onde a leitura precisa de correção.
A ideia de que a humanidade praticamente parou de investigar a natureza entre Cristo e o Iluminismo ignora um dos períodos mais produtivos da história da ciência: a chamada Idade de Ouro Islâmica, entre os séculos VIII e XIII. Na Casa da Sabedoria de Bagdá, fundada sob o califa Al-Mamun por volta de 830, estudiosos traduziram, criticaram e expandiram o corpus grego. Al-Khwarizmi sistematizou a álgebra por volta de 820 (o próprio termo "algoritmo" vem do seu nome latinizado). Ibn al-Haytham escreveu, por volta de 1021, o Livro da Óptica, que estabeleceu o método experimental para testar hipóteses sobre a visão e a luz, séculos antes de Bacon ou Descartes. Ibn Sina compilou, por volta de 1025, o Cânone da Medicina, usado como referência em universidades europeias até o século XVII.
Ao mesmo tempo, dentro da própria Europa cristã, as universidades medievais fundadas a partir do século XII (Bolonha, Paris, Oxford) não eram avessas à filosofia natural: eram, sim, subordinadas à teologia, e episódios como as condenações de 1210 e 1277 em Paris, que proibiram temporariamente o ensino de partes da física aristotélica por conflitarem com dogmas cristãos, mostram fricção real entre autoridade doutrinária e investigação da natureza. Mas a mesma instituição eclesiástica também produziu figuras como Roberto Grosseteste e Roger Bacon, frades franciscanos que defenderam a experimentação como via de conhecimento no século XIII, quase quatrocentos anos antes de Francis Bacon repaginar a ideia como "método científico".
O retrato mais preciso não é o de um clero uniformemente hostil à ciência durante 1700 anos, e sim o de uma autoridade doutrinária que tolerava, financiava e às vezes produzia investigação natural, desde que ela não contradissesse publicamente dogmas centrais, como fez o caso de Galileu em 1633. O vácuo que os livros de divulgação retratam é geograficamente restrito à Europa cristã ocidental em um recorte de tempo mais estreito do que "de Cristo ao Iluminismo".
O que de fato mudou na Inglaterra e no Iluminismo
Isso não significa que a correlação entre poder político do clero e produção científica seja irrelevante. Ela é, só que mais localizada e institucional do que civilizacional. A Guerra Civil Inglesa (1642 a 1651), a execução de Carlos I em 1649 e a Revolução Gloriosa de 1688 enfraqueceram de forma concreta a fusão entre autoridade religiosa e autoridade política que caracterizava a monarquia inglesa. Não por acaso, a Royal Society, primeira academia científica moderna com financiamento e prestígio institucional contínuos, foi fundada em Londres em 1660, no mesmo ano da Restauração, por um grupo de naturalistas que já se reunia informalmente desde a década anterior. Vinte e sete anos depois, em 1687, Isaac Newton publicou os Principia Mathematica sob o patrocínio dessa mesma sociedade, consolidando mecânica, gravitação e cálculo em um único sistema.
No continente, o processo foi mais lento e mais tenso. A Igreja Católica manteve capacidade de censura através do Index Librorum Prohibitorum até o século XX (o índice só foi abolido em 1966), e o próprio caso Galileu, de 1633, aconteceu quase um século depois de Copérnico ter publicado o heliocentrismo em 1543, mostrando que o custo pessoal de contrariar a doutrina continuava alto na Europa católica mesmo quando o conhecimento técnico já existia. O Iluminismo do século XVIII, com Voltaire, Diderot e a Encyclopédie (publicada a partir de 1751), representa menos uma ruptura súbita e mais a formalização pública de um deslocamento que já vinha ocorrendo: o de tratar a razão e a observação, e não a autoridade eclesiástica, como critério de validação do conhecimento sobre a natureza.
O recorte brasileiro: uma versão comprimida e tardia do mesmo padrão
O Brasil colonial oferece um caso instrutivo porque reproduz, em escala comprimida e com atraso de séculos, a mesma dinâmica entre autoridade religiosa, poder político e produção científica. A Coroa portuguesa proibiu a instalação de tipografias em suas colônias durante quase todo o período colonial, e o Santo Ofício, com jurisdição sobre o Brasil através da Inquisição portuguesa, restringiu a circulação de livros considerados heterodoxos. O primeiro prelo brasileiro só foi autorizado em 1808, com a chegada da corte de Dom João VI, fugindo de Napoleão. As primeiras faculdades formais (Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, também em 1808) surgiram na mesma leva, motivadas por necessidade prática, não por projeto científico. Uma universidade brasileira nos moldes modernos, com pesquisa integrada ao ensino, só se consolidou com a fundação da USP em 1934, mais de trezenta anos depois da Royal Society londrina.
O padrão brasileiro sugere que o fator decisivo não é apenas a doutrina religiosa em si, mas a concentração de poder político e religioso em uma mesma estrutura sem contrapesos institucionais, algo que a Inglaterra começou a desmontar no século XVII e que Portugal, e por extensão o Brasil colonial, manteve por muito mais tempo.
O viés que o próprio formato dos livros produz
Há ainda uma explicação metodológica que os dois volumes da Globo Livros não discutem, mas que decorre diretamente do gênero editorial a que pertencem. Livros de "grandes ideias" são organizados por seleção de marcos, não por densidade de atividade. Um formato que reserva uma página por conceito tende a comprimir séculos de trabalho incremental, replicação, correção e erro em uma única entrada com data e nome. Isso cria a ilusão de que a ciência avança por saltos isolados separados por vazios, quando na prática mesmo os períodos de menor inovação teórica seguem produzindo observação, catalogação e ensino, atividades que raramente geram uma "grande ideia" digna de entrada própria, mas que sustentam a infraestrutura de conhecimento sobre a qual os saltos seguintes se apoiam.
O intervalo entre Cristo e o Iluminismo, lido dessa forma, não é um vazio de curiosidade, mas um vazio na amostragem que um livro de divulogação com cerca de cem entradas está estruturalmente destinado a produzir. A explicação do poder do clero é parte real da história, mas apenas para a Europa cristã ocidental, e ainda assim é uma entre várias forças, ao lado da fragmentação política pós-romana, das epidemias recorrentes, da ausência de imprensa até 1450 e da geografia desigual do próprio conhecimento, que floresceu em Bagdá e em Córdova enquanto praticamente hibernava em Paris e Londres.
Perguntas frequentes
A ciência realmente parou durante a Idade Média?
Não de forma generalizada. Estagnou principalmente na Europa cristã ocidental entre os séculos VI e XII, enquanto floresceu no mundo islâmico e, em menor grau, em universidades europeias a partir do século XII.
Foi só a Igreja que causou esse atraso?
Não. A queda da infraestrutura romana, epidemias recorrentes e a ausência da imprensa até 1450 também contribuíram. A Igreja ocupou o vácuo institucional e passou a arbitrar quais ideias eram aceitáveis, mas não foi a única causa.
Por que a Inglaterra teve um papel de destaque nesse processo?
A Guerra Civil Inglesa e a Revolução Gloriosa enfraqueceram a fusão entre autoridade religiosa e política na monarquia, criando espaço institucional para a Royal Society, fundada em 1660.
O Brasil viveu o mesmo processo?
Sim, com atraso significativo. A Coroa portuguesa proibiu tipografias nas colônias até 1808, e uma universidade brasileira de pesquisa moderna só existiu a partir de 1934, com a fundação da USP.