Caderno Filosofia · Democracia e ideologia
Há um tipo de político que quase ninguém celebra e cuja ausência quase todo mundo sente. O filósofo basco Daniel Innerarity resolveu escrever um elogio a ele. Em artigo publicado nesta quinta-feira (15) no El País, o catedrático de Filosofia Política da Universidade do País Basco sustenta que a toxicidade do debate público e o sumiço do centro têm uma causa pouco discutida: a extinção prática dos conservadores moderados, encobertos por uma direita radical com a qual se parecem menos do que imaginam.1
O texto chega num momento que lhe dá peso extra. Há cinco semanas, a CDU alemã viu sua votação cair pela metade na Saxônia-Anhalt, enquanto a AfD se tornava de longe a maior força do estado.5 No Brasil, a dez dias do segundo turno, o PSDB, partido que governou o país por oito anos, saiu da eleição sem candidato próprio à Presidência e com bancada menor na Câmara.910 A pergunta de Innerarity, portanto, não é acadêmica: o que acontece com uma democracia quando a direita moderada desaparece?
A tese: o adversário mora ao lado
O argumento central do artigo cabe no subtítulo escolhido pelo autor: o inimigo real do conservadorismo está à sua direita, e não à sua esquerda.1 Innerarity enumera os sintomas. A direita italiana foi desfigurada por Berlusconi; o gaullismo francês perdeu relevância depois de Sarkozy; os conservadores britânicos viveram anos de instabilidade; o Partido Republicano foi absorvido por Donald Trump. Em cada caso, diz ele, a democracia perdeu um fator de previsibilidade.
O elogio não é ingênuo. O autor reconhece que conservadores raramente tomam a iniciativa das mudanças e costumam resistir a elas. Mas observa que, depois de aprovadas, essas mudanças tendem a ser preservadas por eles. O exemplo citado é o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que partidos conservadores europeus combateram e depois deixaram de contestar. A função histórica do conservador, nessa leitura, foi convencer os temerosos a aceitar inovações em doses toleráveis.
Conservador não é reacionário
Todo o argumento depende de uma distinção que o debate público costuma apagar. Innerarity recorre ao historiador alemão Golo Mann, para quem o temperamento conservador funciona como uma ponte entre o antigo e o novo. O reacionário faz o caminho inverso: desestabiliza, aposta na ruptura e pretende voltar a um passado que considera perdido.1
Para detalhar a diferença, o filósofo se apoia no jornalista e economista suíço Roger de Weck. Pela síntese apresentada, conservadores conhecem seus limites, preservam o senso de realidade, defendem a lei e a ordem e procuram compromissos. Reacionários tratam o caos como instrumento de poder, exploram os problemas em vez de resolvê-los e, no fundo, desprezam aquilo que dizem querer conservar.1 De Weck desenvolveu essas ideias no livro Die Kraft der Demokratie (A força da democracia), de 2020, em que adverte que a fraqueza dos democratas é mais perigosa do que o barulho dos reacionários.4
A distinção tem genealogia longa. Edmund Burke, considerado o pai do conservadorismo moderno, escreveu em 1790 contra a Revolução Francesa, mas defendendo a reforma como forma de preservação: um Estado incapaz de mudar, dizia, não tem meios de se conservar. É essa linhagem que Innerarity vê desaparecer.
A evidência histórica: Ziblatt e o nascimento da democracia
A intuição do filósofo encontra apoio na ciência política. Em Conservative Parties and the Birth of Democracy, de 2017, o professor de Harvard Daniel Ziblatt examinou a trajetória europeia dos séculos 19 e 20 e concluiu que o destino da democracia dependeu menos do crescimento econômico ou da pressão operária do que da capacidade dos conservadores de se reorganizar e de lidar com sua própria direita radical.2
Segundo a resenha da Harvard Magazine, onde as elites do antigo regime conseguiram montar partidos capazes de vencer nas urnas, elas toleraram a ampliação do voto e da competição política; a Alemanha aparece como o caso oposto.3 Em entrevista à Harvard Gazette, Ziblatt resumiu o achado: nos países em que essa inovação conservadora não ocorreu, a democracia foi muito mais frágil.2
O mecanismo é simples. Um partido conservador forte dá às minorias poderosas a expectativa de vencer de vez em quando, o que as faz aceitar perder nas outras vezes. Quando essa expectativa some, cresce a tentação de buscar atalhos. Ziblatt já advertia, em 2017, que britânicos e alemães enfrentavam um populismo de direita capaz de engolir os velhos partidos conservadores.3
Um partido conservador forte não é um obstáculo à democracia. É uma das condições para que os perdedores aceitem perder. Síntese editorial a partir de Daniel Ziblatt
O pacto que construiu a Europa do pós-guerra
Innerarity atribui aos conservadores participação decisiva nas duas grandes inovações políticas europeias do século 20: a integração continental e o Estado de bem-estar. Ambas, argumenta, resultaram de acordos com a social-democracia.1 Os democratas-cristãos governavam os seis países fundadores do projeto europeu, e nenhum avanço relevante ocorreu sem eles.
O caso alemão da economia social de mercado ilustra a lógica. O autor gosta de lembrar que a CDU de Konrad Adenauer incorporou a dimensão social antes que o SPD aceitasse o mercado, algo que os social-democratas só formalizaram no programa de Bad Godesberg, em 1959. Para Innerarity, o desapego começou com a virada neoliberal, quando parte da direita abandonou a dimensão social e abriu espaço para a extrema direita ocupá-la com outra linguagem.1
O diagnóstico ganha densidade no trecho em que o filósofo pergunta como conservadores devem agir numa era pós-liberal, que questiona o livre comércio, desmonta a globalização e socorre bancos grandes demais para quebrar. O mundo aberto em que formaram sua visão de mundo deixou de existir, e eles ainda não sabem o que colocar no lugar.
Alemanha 2026: a tese posta à prova
Entre os exemplos do artigo, o alemão é o mais vivo. Innerarity pergunta por quanto tempo o chanceler Friedrich Merz resistirá à pressão interna para abandonar o cordão sanitário contra a AfD.1 Os números das últimas semanas explicam a urgência.
Na eleição de 6 de setembro na Saxônia-Anhalt, o resultado preliminar deu à AfD 43,8% dos votos, contra 17,2% da CDU do governador Sven Schulze, que perdeu cerca de 20 pontos e teve sua votação reduzida a menos da metade. A AfD ficou a três cadeiras da maioria absoluta, e o BSW sinalizou na noite da eleição que poderia apoiá-la.5
Merz tem repetido que a mão estendida pela AfD é, na verdade, uma mão que quer destruir a CDU, formulação que coincide quase literalmente com a de Innerarity.6 Mas a unidade interna está rachada. O governador da Saxônia, Michael Kretschmer, afirmou que a barreira ganha tempo, mas não resolve problema algum, e o deputado estadual mais antigo da CDU em Baden-Württemberg, Wolfgang Reinhart, declarou a estratégia fracassada.7
É exatamente o dilema descrito no artigo: aliar-se à extrema direita pode render poder imediato, mas corrói a identidade e entrega o espaço natural do partido a quem pretende substituí-lo. Innerarity chama a adoção das pautas radicais de suicídio ideológico.1
E o Brasil? Um conservadorismo difícil de localizar
Innerarity escreve sobre Europa e Estados Unidos. A transposição para o Brasil é deste jornal e exige cuidado, porque o país nunca teve um partido conservador nos moldes da democracia cristã europeia. O cientista político Christian Lynch, do IESP-UERJ, descreve uma tradição brasileira marcada por um conservadorismo estatista, mais ligado ao Estado e às Forças Armadas do que a partidos de massa.12
O partido que mais se aproximou do papel de centro-direita competitiva, o PSDB, nasceu em 1988 de uma dissidência social-democrata do MDB e só com o tempo passou a ocupar o polo oposto ao PT. Seu declínio é documentado. Em 2022, a sigla perdeu 41,68% dos votos para deputado em relação à eleição anterior.11 Em 2026, a federação PSDB-Cidadania decidiu não lançar candidato à Presidência e priorizar a reconstrução da bancada, mirando 2030.9 Pelos números divulgados após o primeiro turno, a bancada tucana na Câmara caiu de 18 para 11 deputados, enquanto o PL passou a 121 deputados e 28 senadores.10
No primeiro turno de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 45,16%; os dois se enfrentam em 25 de outubro.8 A disputa reproduz uma polarização em que o centro moderado praticamente não teve voz.
Como classificar a direita que hoje lidera esse campo é uma questão disputada. Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, no livro O populismo reacionário, enquadram o bolsonarismo na família reacionária, associada à ideia de restauração de uma ordem anterior à redemocratização.12 Lideranças e eleitores desse campo rejeitam o rótulo e se definem como conservadores, e boa parte desse eleitorado sustenta valores conservadores convencionais, como família, religião e segurança, sem aderir a projeto algum de ruptura. O Tecido não toma partido na eleição. O ponto que interessa aqui é estrutural: seja qual for o vencedor, o sistema depende de forças à direita e à esquerda que aceitem a derrota e o jogo de longo prazo, exatamente o que Ziblatt identificou como condição da estabilidade democrática.
Contraponto
Três objeções à nostalgia
A crítica pela esquerda. A revista Jacobin, em resenha de 2019, argumentou que conservadores “responsáveis” não são uma garantia contra o fascismo. O próprio caso alemão dos anos 1930 mostra elites conservadoras que acreditaram poder domesticar a extrema direita e acabaram lhe entregando o poder.13
A crítica pela direita. Dentro da própria CDU há quem sustente que cordões sanitários afrontam a vontade do eleitor e prendem o partido a coalizões com a esquerda, alimentando o ressentimento que diz combater.7 No Brasil, argumento semelhante aparece contra o uso de “reacionário” como rótulo para desqualificar adversários.
A crítica à própria nostalgia. O conservador moderado que Innerarity lamenta também conduziu a virada neoliberal que, segundo o próprio autor, o afastou da dimensão social. Roger de Weck atribui parte da crise democrática justamente às décadas em que a política se subordinou à economia, processo iniciado por governos conservadores como os de Thatcher e Reagan.4 A extinção, nessa leitura, foi em parte obra dos próprios conservadores.
O que fica
O título do artigo é honesto: trata-se de nostalgia, e nostalgia idealiza. Os conservadores do pós-guerra também tiveram seus cálculos, seus silêncios e suas cumplicidades. Ainda assim, o núcleo do argumento resiste às objeções. Democracias precisam de forças que conservem as regras mesmo quando perdem, que absorvam o medo da mudança sem transformá-lo em ódio e que aceitem compromissos com adversários.
A pergunta que Innerarity deixa para a Espanha, a Alemanha e os Estados Unidos vale também para o Brasil depois de 25 de outubro: quem ocupará o espaço da direita que governa sem querer demolir? Enquanto esse lugar estiver vazio, o debate público continuará sendo disputado por quem prefere o espetáculo ao argumento.
Perguntas frequentes
Qual é a tese de Daniel Innerarity sobre os conservadores?
Em artigo no El País de 15 de outubro de 2026, ele sustenta que a polarização atual se deve em boa parte ao desaparecimento dos conservadores moderados, e que o verdadeiro adversário do conservadorismo está à sua direita.
Qual a diferença entre conservador e reacionário?
O conservador aceita mudanças graduais e não quer voltar ao passado; funciona como ponte. O reacionário busca restaurar uma ordem anterior e tende a usar a ruptura como instrumento de poder.
O que Daniel Ziblatt mostrou sobre partidos conservadores?
Que as democracias europeias sobreviveram onde os conservadores construíram partidos competitivos e capazes de conter sua direita radical, como no Reino Unido, e fracassaram onde isso não ocorreu, como na Alemanha.
O que é a Brandmauer alemã?
É o cordão sanitário pelo qual a CDU e os partidos tradicionais se recusam a governar com a AfD. A regra está sob pressão após a vitória da AfD na Saxônia-Anhalt, em setembro de 2026.
Como o debate se aplica ao Brasil?
O Brasil não teve um partido democrata-cristão forte. O PSDB, principal polo de centro-direita por duas décadas, encolheu e não lançou candidato à Presidência em 2026. A classificação do bolsonarismo como conservador ou reacionário é objeto de disputa acadêmica e política.
Quais as principais críticas à tese?
À esquerda, lembra-se que conservadores já abriram caminho para extremistas. À direita, que cordões sanitários ignoram o eleitor. E há quem aponte que os próprios conservadores conduziram a virada neoliberal que os enfraqueceu.