Tecnologia · Privacidade · Dados pessoais

A frase de que o Google sabe tudo sobre nós circula há tanto tempo que perdeu peso. Uma reportagem publicada nesta terça-feira (20) pelo El País tenta devolver concretude ao clichê: o autor entrou na própria conta e revisou, item por item, os lugares por onde passou, as buscas que fez, os vídeos assistidos, os aparelhos em que fez login e as informações associadas às suas fotos.1 O resultado, segundo o próprio relato, foi a descoberta de que a afirmação genérica tinha mais fundamento do que ele imaginava.

O exercício interessa menos pelo susto e mais pelo que revela sobre a arquitetura do consentimento digital. Quase tudo o que a empresa guarda está, em tese, à vista do usuário e pode ser apagado. A pergunta que a reportagem deixa para o leitor brasileiro é outra: se as ferramentas existem, por que tão pouca gente as usa?

O que fica registrado em uma conta Google

Uma conta comum acumula camadas distintas de informação. A mais extensa é a Atividade na Web e de apps, que reúne pesquisas, interações com o Maps, o Play e o assistente, além de atividade em sites e aplicativos que usam serviços da empresa. Ao lado dela estão o histórico do YouTube (vídeos vistos e buscas na plataforma), o registro de localização, a lista de dispositivos com sessão ativa, os metadados das imagens no Google Fotos (data, local e, quando ativado, agrupamento por rostos) e o perfil de interesses usado para anúncios.

Três portas dão acesso a esse acervo. A página Minha Atividade mostra o histórico cronológico e permite apagar itens ou períodos. O painel Dados e privacidade concentra os controles que ligam e desligam cada tipo de coleta. E o Google Takeout exporta uma cópia de tudo em arquivos que, para contas antigas, podem somar vários gigabytes.

Os prazos padrão e o que mudou nos últimos anos

Por muito tempo, a regra era guardar indefinidamente. Em junho de 2020, o Google passou a ativar por padrão, nas contas criadas a partir daquela data, a exclusão automática de buscas e localização após 18 meses e do histórico do YouTube após 36 meses.2 O detalhe que costuma passar despercebido é o recorte temporal: quem já tinha conta antes da mudança continua com o histórico acumulado, a menos que tenha alterado a configuração manualmente.

A segunda mudança relevante atingiu a localização. A antiga Linha do tempo do Maps deixou de ficar na nuvem e passou a ser armazenada apenas no próprio aparelho a partir de dezembro de 2024, com o argumento de dificultar o acesso de terceiros, inclusive autoridades, a esse registro.3 A medida reduziu a exposição centralizada, mas transferiu ao usuário a responsabilidade de fazer backup e de decidir o que manter ao trocar de celular.

Da memória ao assistente: o Gemini entra na conta

O que torna a auditoria pessoal mais urgente em 2026 é a mudança de função desses dados. Eles deixaram de ser apenas um arquivo consultado por algoritmos de anúncio e recomendação e passaram a alimentar um assistente conversacional. Em janeiro, o Google lançou em fase beta a chamada Inteligência Personalizada, que conecta o Gemini a outros serviços da conta; a empresa afirma que essas informações não são usadas para treinar seus modelos de linguagem.4

Em abril, o recurso chegou ao Brasil: o Gemini passou a consultar Gmail, YouTube, Busca e Google Fotos para ajustar respostas, primeiro para assinantes pagos, com a integração desativada por padrão e a possibilidade de escolher quais serviços conectar.5 O desenho é de adesão voluntária, o que é um avanço em relação a modelos anteriores. Mas ele pressupõe que o usuário saiba o que existe em cada um desses acervos antes de autorizar a conexão. Quem nunca abriu o próprio histórico decide no escuro.

O consentimento só é informado quando a pessoa sabe o que está consentindo. Na maioria das contas, o arquivo é mais antigo e mais detalhado do que a memória de quem o produziu.

O retrato brasileiro: muita conexão, pouca leitura

O Brasil chegou a 168,7 milhões de usuários de internet no quarto trimestre de 2025, ou 90,5% da população com 10 anos ou mais, segundo a Pnad Contínua TIC do IBGE. Foi a primeira vez que a média nacional superou os 90%.6 A escala da adesão contrasta com o grau de atenção dado aos termos de uso.

O Painel TIC 2025 do Cetic.br, dedicado a privacidade e proteção de dados, mostra que 23% dos usuários com 16 anos ou mais dizem concordar sempre com políticas de privacidade sem ler o que elas dizem, e outros 29% fazem isso quase sempre.7 Somados, são 52%.

Sempre23% Quase sempre29% Algumas vezes25% Raramente14% Nunca10%
Usuários de internet com 16 anos ou mais, por frequência com que aceitam políticas de privacidade sem ler. Fonte: Cetic.br/NIC.br, Painel TIC 2025.

A desatenção não equivale a indiferença. O mesmo levantamento indica que 54% deixaram de usar algum serviço ou plataforma por preocupação com seus dados, e 69% desinstalaram algum aplicativo pelo mesmo motivo.7 E o risco é concreto: 32% relataram tentativa de golpe com uso de seus dados pessoais em 2025, e 20% disseram ter sido vítimas. Ainda assim, apenas 26% procuraram algum canal de atendimento para tratar de suas informações pessoais.7 O brasileiro reage abandonando o serviço, não exercendo direitos sobre ele.

O que a legislação brasileira garante

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) assegura ao titular, em seu artigo 18, o direito de confirmar a existência de tratamento, acessar os dados, corrigi-los, pedir sua portabilidade e solicitar a eliminação daqueles tratados com base em consentimento.8 Ferramentas como o Takeout e a página Minha Atividade são, na prática, a forma pela qual a empresa atende a parte dessas obrigações em escala.

A fiscalização também ganhou outro peso. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados foi convertida em agência reguladora, status consolidado pela Lei 15.352/2026, e passou a atuar por temas prioritários, com aumento de processos administrativos.9 Fora do país, os litígios mostram o valor que esses registros têm: em maio de 2025, o Google aceitou pagar US$ 1,375 bilhão ao estado do Texas para encerrar ações sobre rastreamento de localização, buscas em modo anônimo e dados biométricos, sem admitir irregularidade.10

Contraponto

O controle existe, e isso também conta

Há argumentos sólidos do outro lado. O Google oferece há anos ferramentas de visualização, exclusão e exportação mais completas do que muitas empresas de porte menor, inclusive brasileiras. A exclusão automática virou padrão para contas novas, a localização migrou para o aparelho e a integração do Gemini com Gmail e Fotos exige autorização explícita. Muitos usuários, além disso, valorizam a personalização: lembretes de rotas, recomendações relevantes e buscas mais precisas dependem justamente desse histórico.

A objeção que permanece é de desenho, não de má-fé. Um sistema em que a proteção depende de auditorias periódicas feitas pelo próprio usuário transfere a ele um custo de atenção que a maioria não paga, como mostram os dados do Cetic.br. A pergunta regulatória é se o padrão deveria ser mais restritivo para todas as contas, e não apenas para as novas.

Como fazer a própria auditoria em cinco passos

  1. Abra a página Minha Atividade (myactivity.google.com) e percorra os últimos meses para ver o que a conta registra no dia a dia.
  2. Revise os controles de atividade no painel Dados e privacidade: Atividade na Web e de apps, Histórico do YouTube e Linha do tempo. Ative a exclusão automática em 3, 18 ou 36 meses, conforme o uso que faz da personalização.
  3. Confira os dispositivos conectados na seção de segurança e encerre sessões em aparelhos que não usa mais.
  4. Verifique as conexões do Gemini, caso use o assistente, e desligue os serviços que não quer ver cruzados nas respostas.
  5. Exporte uma cópia pelo Google Takeout antes de apagar algo que possa ter valor documental, como fotos ou e-mails antigos.

Perguntas frequentes

Que dados o Google guarda sobre mim?

Em geral: pesquisas e uso de apps (Atividade na Web e de apps), histórico do YouTube, localização quando ativada, dispositivos com login, metadados de fotos, conteúdo de serviços como Gmail e Drive e um perfil de interesses para anúncios.

Como ver tudo o que está armazenado na minha conta?

A página Minha Atividade mostra o histórico em ordem cronológica. Para uma cópia completa, o Google Takeout permite exportar os dados de cada serviço em arquivos.

O Google apaga meu histórico automaticamente?

Nas contas criadas a partir de junho de 2020, buscas e localização são apagadas por padrão após 18 meses, e o YouTube após 36 meses. Contas mais antigas precisam ativar a exclusão automática manualmente.

O Gemini usa meus e-mails e fotos?

Somente se o usuário autorizar. No Brasil, desde abril de 2026, o Gemini pode consultar Gmail, YouTube, Busca e Fotos para personalizar respostas, com a integração desativada por padrão.

Que direitos a LGPD me dá sobre esses dados?

O artigo 18 da Lei 13.709/2018 garante acesso, correção, portabilidade e eliminação de dados tratados com base em consentimento, entre outros. A ANPD é o órgão responsável pela fiscalização.

Este artigo foi produzido pelo O Tecido a partir da reportagem "He comprobado todo lo que Google sabe de mi vida y esto es lo que guarda", publicada pelo El País em 20 de outubro de 2026, e de fontes independentes listadas nas referências. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as menções a ele são resumos com crédito e link para a publicação.

Evelyn Cordeiro — Fundadora do Inspiravalley e do canal Produtos Impactantes no YouTube