Filosofia

Imagem de referência: manifestação do movimento 15-M na Puerta del Sol, Madri, 2011 — símbolo de uma geração que reivindicou ética e participação como resposta à crise do capitalismo financeiro.

Falar em bem comum, hoje, soa quase como uma excentricidade. Entre guerras em curso, crises climáticas, desconfiança institucional recorde e um ambiente digital que recompensa o cinismo, defender a ética como projeto político pode parecer ingenuidade. Ainda assim, um conjunto de ensaístas europeus voltou a insistir nessa pauta em 2026, propondo que a virtude não é incompatível com o funcionamento do capitalismo contemporâneo, mas sim uma condição para reformá-lo por dentro.

O debate ganhou força recente com a publicação, quase simultânea, de obras do filósofo alemão Markus Gabriel, do ensaísta neerlandês Rutger Bregman e do cientista político espanhol Jorge Tamames. Cada um a seu modo, os três argumentam que a resposta às ameaças contemporâneas não está em derrubar o sistema econômico vigente, mas em redesenhar seus incentivos para que fazer o bem também seja fazer bons negócios, ou, no caso do serviço civil, para que a cooperação se torne parte da experiência cidadã.

O capitalismo pode ser ético?

Em Hacer el bien: Cómo el capitalismo ético puede crear un nuevo contrato social, Markus Gabriel não propõe uma revolução, mas uma reconciliação entre valor moral e valor econômico. Sua tese central é que a regulação estatal, combinada à autorregulação corporativa, pode reorientar o mercado para que a criação de valor social deixe de ser um apêndice filantrópico e passe a ser o próprio motor do lucro. A proposta ecoa, em certa medida, o raciocínio por trás do Green New Deal, que tenta transformar a mitigação climática em oportunidade econômica em vez de custo.

Gabriel já havia explorado território semelhante em obras anteriores dedicadas à ética aplicada a tempos de crise. O que diferencia esta nova investida é a ambição de propor uma "Nova Ilustração": um projeto normativo que assume o capitalismo como dado de realidade, mas recusa que sua lógica seja moralmente neutra ou inevitavelmente predatória.

"O negócio dos negócios deve ser fazer o bem." Markus Gabriel, filósofo — paráfrase da tese central de Hacer el bien

O peso simbólico dos "empregos de mentirinha"

Um dos pontos de partida mais citados nesse debate vem do antropólogo anarquista David Graeber, autor do conceito de bullshit jobs: cargos bem remunerados e socialmente prestigiados, mas que, na percepção de quem os ocupa, não agregam nada relevante à sociedade. A pesquisa que Graeber usou para sustentar a tese, conduzida pelo instituto YouGov no Reino Unido, mostrou que 37% dos entrevistados acreditavam que seu trabalho não fazia nenhuma contribuição significativa ao mundo¹. Uma sondagem equivalente na Holanda chegou a 40%².

O dado tornou-se símbolo de um mal-estar mais amplo sobre sentido e propósito no trabalho contemporâneo, ainda que pesquisadores posteriores tenham contestado a robustez estatística da tese original de Graeber, apontando que a pergunta usada na sondagem fixava um critério bastante exigente para definir "contribuição significativa"³. No Brasil, dados recentes indicam uma tensão parecida, embora com contornos distintos: pesquisa do Datafolha mostrou que a preferência da juventude por carteira assinada caiu de 82% para 66% entre 2022 e 2025, um sinal de que a busca por autonomia e sentido no trabalho também avança por aqui, mesmo em meio à informalidade estrutural do mercado brasileiro⁴.

Da carreira de prestígio à ambição moral

É justamente contra esse tipo de desperdício de talento que se volta Rutger Bregman em Ambição Moral. O ensaísta neerlandês argumenta que boa parte das pessoas mais capacitadas de uma geração está aplicando inteligência e formação de elite em setores como finanças, marketing e consultoria, áreas que, segundo ele, raramente produzem valor social proporcional ao talento empregado. Bregman não pede abnegação, mas redirecionamento: trocar a escalada hierárquica por um tipo de sucesso que resolva problemas concretos.

O autor propõe o conceito de "compaixão radical", inspirado explicitamente nos movimentos abolicionista e sufragista, como bússola moral para expandir o círculo de responsabilidade além do presente imediato, incluindo gerações futuras e não-humanos. A ideia de "ser bons ancestrais" tornou-se um dos mantras mais repetidos do livro.

Contraponto: a ética resolve, sozinha, problemas estruturais?

Nem todos os críticos do sistema atual acreditam que a virtude individual ou corporativa seja suficiente para reformar estruturas de poder profundamente desiguais. Economistas de tradição mais institucionalista argumentam que apelos morais ao mercado tendem a ser cooptados como estratégia de reputação (o chamado "ethics washing"), sem alterar de fato a distribuição de renda ou a concentração de capital. Para essa leitura, sem regulação vinculante, redistribuição fiscal e fortalecimento de contrapesos democráticos, a "reconciliação" entre ética e lucro proposta por autores como Gabriel corre o risco de permanecer discurso corporativo, não transformação material.

Do lado oposto, defensores da via gradualista respondem que recusar qualquer reforma que não seja revolucionária já se provou historicamente pouco produtivo, e que mudanças de incentivo dentro do sistema, ainda que imperfeitas, tendem a gerar resultados mais rápidos e verificáveis do que rupturas totais.

Um "serviço militar" da solidariedade

Se Gabriel mira as empresas e Bregman mira as carreiras individuais, o cientista político Jorge Tamames propõe uma via institucional. Em Algo que hicimos juntos, ele defende um serviço civil universal e obrigatório, no qual cidadãos de diferentes classes sociais trabalhariam lado a lado em tarefas de cuidado coletivo ou enfrentamento da crise ambiental. A proposta, premiada na Espanha, é explicitamente utópica, mas busca ser "aterrissável": algo entre o trabalho comunitário tradicional e uma política pública de larga escala.

Tamames reconhece as objeções previsíveis, da rejeição à obrigatoriedade às acusações de "engenharia social", passando pela desconfiança de setores progressistas que veem no serviço civil um risco de substituição do Estado de bem-estar por trabalho voluntário compulsório. Ainda assim, o autor argumenta que o tom geral da década é mais otimista do que se costuma admitir, e que é possível pensar utopias que caibam dentro do arcabouço legal existente.

"De todo o que desperdiçamos em tempos de desperdício, o mais grave é o talento jogado fora." Rutger Bregman, em Ambición Moral

O contraponto cultural: o "malismo"

Contra essa onda de reflexão ética, existe uma corrente cultural oposta, batizada de "malismo" pelo artista espanhol Mauro Entrialgo. O conceito descreve uma estratégia de comunicação em que atores públicos confessam abertamente posturas tradicionalmente reprováveis, como recusar-se a resolver crises habitacionais ou desmantelar acampamentos de pessoas em situação de rua, na expectativa de obter capital político justamente por essa transgressão deliberada. Trata-se do oposto do "bonismo": não esconder o comportamento antiético, mas exibi-lo como marca.

O fenômeno tem paralelo em dados recentes de confiança institucional. O Relatório Edelman de Confiança 2026 registrou que sete em cada dez brasileiros hesitam em confiar em pessoas com valores, fontes de informação ou origens diferentes das suas, um quadro de "insularidade" que fragiliza justamente o tipo de cooperação ampla que Gabriel, Bregman e Tamames propõem⁵. No mesmo levantamento, empresas (67%) e empregadores (80% entre empregados) seguem como as únicas instituições amplamente confiáveis no país, enquanto o governo permanece na zona de desconfiança⁶, um cenário que talvez explique por que o argumento de Gabriel, de colocar a responsabilidade ética dentro do próprio ambiente corporativo, encontre audiência receptiva também fora da Europa.

Ingenuidade ou necessidade?

O ponto de convergência entre os três autores não é um roteiro único, mas uma aposta compartilhada: a de que os grandes problemas do século, das mudanças climáticas à erosão democrática, não se resolvem pela ação isolada de heróis ou pela espera messiânica por uma ruptura revolucionária, mas pela reconstrução deliberada de instituições, incentivos econômicos e hábitos cotidianos de cooperação. Se essa aposta é ingênua ou realista, é uma pergunta que talvez só o tempo, e a próxima crise, sejam capazes de responder.

Nota de atribuição: Este artigo foi inspirado na reportagem "El giro ético: cómo cambiar el capitalismo salvaje desde dentro para hacer el bien", de Sergio C. Fanjul, publicada pelo jornal espanhol El País em 17 de agosto de 2026. O texto original pode ser lido na íntegra em: elpais.com. A reportagem serviu como ponto de partida temático; toda a redação, estrutura e fontes complementares deste artigo são de produção independente d'O Tecido.

Perguntas frequentes

O que é "capitalismo ético" na proposta de Markus Gabriel?

É a ideia de que regulação estatal e autorregulação corporativa podem alinhar o lucro empresarial à geração de valor social real, tornando "fazer o bem" um motor econômico e não um custo filantrópico à margem do negócio.

O que significa "bullshit jobs" segundo David Graeber?

São empregos bem remunerados e socialmente valorizados que, na avaliação de quem os exerce, não produzem contribuição significativa para a sociedade. O conceito se popularizou após uma pesquisa do YouGov apontar que 37% dos trabalhadores britânicos compartilhavam essa percepção sobre o próprio trabalho.

O que propõe o livro Ambición Moral, de Rutger Bregman?

Bregman defende que pessoas talentosas redirecionem carreiras hoje voltadas a prestígio ou riqueza para causas que resolvam problemas sociais concretos, unindo desenvolvimento pessoal a impacto coletivo por meio de uma "compaixão radical".

O que é o "serviço civil universal" de Jorge Tamames?

É uma proposta de trabalho comunitário obrigatório para todos os cidadãos, reunindo pessoas de diferentes classes sociais em tarefas de cuidado coletivo e enfrentamento da crise ambiental, inspirada em experiências de trabalho vecinal.

O que é "malismo"?

Termo cunhado pelo artista espanhol Mauro Entrialgo para descrever a estratégia de comunicação em que figuras públicas exibem abertamente posturas antiéticas como forma de obter capital político, em oposição ao "bonismo" ou "buenismo".

Nota editorial (uso interno, não publicar): verificar antes da publicação (1) a atualização dos percentuais do Edelman Trust Barometer 2026 caso nova rodada seja divulgada; (2) confirmar se as edições em português de "Hacer el bien" e "Ambición Moral" já possuem título e selo editorial definidos no Brasil; (3) validar os links de afiliado da Amazon fornecidos, que estão em formato placeholder e devem ser substituídos pelos links reais antes da publicação.