Economia · Tecnologia e Geopolítica

Em fevereiro, num parque tecnológico erguido sobre antigas terras agrícolas nos arredores de Pequim, Xi Jinping assistiu a duas mãos robóticas passarem uma linha pelo buraco de uma agulha. A cena, relatada pelo The New York Times em reportagem de Vivian Wang publicada nesta quarta-feira (23)1, condensa o modo como a China encara a inteligência artificial. Para Pequim, a IA é menos uma corrida filosófica rumo a uma máquina que pense como gente e mais um instrumento de engenharia econômica, a ser instalado em linhas de montagem, hospitais, salas de aula e, não por acaso, nos mecanismos de controle social.

Durante a visita, segundo o jornal americano, Xi pediu ao país que aproveitasse sua capacidade de "concentrar recursos para realizar grandes tarefas"1, fórmula clássica do planejamento chinês. O líder também já comparou a IA ao ganso que lidera a formação em V: a tecnologia que puxaria o restante da economia para o próximo ciclo de crescimento. A imagem ajuda a entender por que a disputa sino-americana em IA não é apenas uma competição de laboratórios, mas um choque entre dois modelos de desenvolvimento.

Uma aposta na difusão, não na superinteligência

Em Washington e no Vale do Silício, boa parte do debate gira em torno da inteligência artificial geral (AGI), a hipótese de sistemas capazes de aprender e raciocinar tão bem quanto humanos ou melhor. As autoridades chinesas, observa o Times, quase não mencionam o conceito1. O foco oficial está em metas de uso.

O documento que organiza essa ambição é a diretriz "IA+" (AI Plus), publicada pelo Conselho de Estado em agosto de 2025. Ela prevê a integração da IA em seis frentes (ciência e tecnologia, indústria, consumo, bem-estar social, governança e cooperação internacional) e fixa que a taxa de adoção de terminais inteligentes e agentes de IA deve superar 70% até 2027 e 90% até 20302. A consultoria Trivium China, especializada em política econômica chinesa, classificou o texto como o plano mais abrangente já produzido por Pequim para desenvolver e disseminar a tecnologia internamente3. O governo, porém, ainda não explicou como a meta de 90% será medida, ressalva o Times1.

Por trás da escolha há uma pressão concreta: a demografia. A população chinesa caiu 3,39 milhões de pessoas em 2025, para 1,405 bilhão, no quarto ano consecutivo de retração, e os maiores de 60 anos já somam cerca de 23% do total, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas4. Robôs que substituam trabalhadores que se aposentam, médicos virtuais para o interior e automação de serviços públicos não são, nesse contexto, luxo tecnológico. São resposta a uma força de trabalho que encolhe.

De um discurso de 2014 ao plano nacional

A reportagem do Times reconstrói a origem dessa política. Em junho de 2014, em seu primeiro discurso às academias chinesas de ciências e de engenharia como líder do país, Xi citou um relatório segundo o qual robôs com IA transformariam a economia global e a China seria o maior mercado. Não bastava, disse ele: o país deveria ser também o maior fabricante1. Logo depois, o pesquisador Pan Yunhe, então vice-presidente da Academia Chinesa de Engenharia, montou uma equipe para desenhar uma estratégia de longo prazo.

O resultado apareceu em 2017, com o Plano de Desenvolvimento da Nova Geração de Inteligência Artificial, que estabeleceu a meta de tornar a China líder mundial no setor até 20305. Segundo o Times, trechos do plano reproduziam quase literalmente o artigo acadêmico de Pan1. Desde o início, a tecnologia foi pensada para cumprir duas funções políticas: sustentar o crescimento, e com ele a satisfação da população, e ampliar a capacidade de vigilância do Estado.

O plano não previu tudo. Os pesquisadores chineses não estavam concentrados em grandes modelos de linguagem, e o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022, provocou um choque interno. A resposta veio em janeiro de 2025, quando a então desconhecida DeepSeek mostrou que empresas chinesas podiam competir com o Vale do Silício também nesse terreno. Semanas depois, Xi reuniu empresários de tecnologia, incluindo o fundador da DeepSeek, e cobrou que servissem ao país1.

A China não aposta em chegar primeiro a uma máquina que pensa. Aposta em fazer a IA chegar primeiro a todo lugar.Leitura editorial de O Tecido

O cardápio do Estado: dinheiro, impostos e demanda induzida

A comparação de números exige cuidado. Pelo critério de capital privado, os Estados Unidos estão muito à frente: o AI Index 2026, da Universidade Stanford, registra US$ 285,9 bilhões investidos em IA no país em 2025, mais de 23 vezes os US$ 12,4 bilhões da China6. O mesmo relatório adverte que esse recorte provavelmente subestima o esforço chinês, que passa pelos chamados fundos de orientação governamental. Economistas estimam que esses fundos injetaram mais de US$ 184 bilhões em empresas de IA entre 2000 e 2023, e o governo e bancos estatais prometeram centenas de bilhões adicionais no ano passado1.

O Times descreve um arsenal que lembra a receita aplicada a carros elétricos e painéis solares. Um distrito de Xangai ofereceu até US$ 29 milhões a qualquer empresa que alcançasse uma "ruptura" tecnológica; Shenzhen gastou mais de US$ 6 bilhões num parque industrial para o setor; em Pequim, a prefeitura distribui dezenas de milhões de dólares em capacidade computacional gratuita1. A reportagem acompanha o caso da Xeno Dynamics, fabricante de exoesqueletos robóticos de Shenzhen, que, ao ser reconhecida como empresa nacional de alta tecnologia, teve a alíquota de imposto reduzida de 25% para 15% e recebeu mais de US$ 1,4 milhão em verbas de pesquisa.

O traço mais interessante, contudo, é a mudança de ênfase. Em vez de microgerenciar a pesquisa, as autoridades passaram a estimular a demanda: governos locais correm para embutir IA em hospitais, escolas e sistemas de trânsito. Houve até recuos regulatórios. Uma exigência inicial de que tudo o que os chatbots produzissem fosse "verdadeiro e preciso" caiu da versão final das regras depois que as empresas argumentaram que seria impossível cumpri-la1.

Robôs: a vitrine e o asterisco

O setor que Xi destacou em 2014 é hoje a vitrine mais eloquente da estratégia. Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), a China instalou 295 mil robôs industriais em 2024, recorde histórico e 54% do total mundial. Pela primeira vez, fabricantes chineses venderam mais do que os estrangeiros no próprio mercado doméstico, com 57% de participação, e o estoque operacional do país ultrapassou 2 milhões de unidades7.

Instalações de robôs industriais em 2024, em mil unidades China 295 mil, Japão 44,5 mil, Estados Unidos 34,2 mil, Coreia do Sul 30,6 mil. Fonte: IFR, World Robotics 2025. China Japão EUA Coreia do Sul 295 44,5 34,2 30,6
Instalações anuais de robôs industriais em 2024, em mil unidades. Fonte: IFR, World Robotics 2025.

O asterisco aparece quando o volume é dividido pelo tamanho da força de trabalho. Com dados de emprego revisados pelo escritório estatístico chinês, a IFR recalculou em abril a densidade robótica do país em 166 robôs por 10 mil trabalhadores da indústria, o que o coloca em 22º lugar no mundo, atrás de Estados Unidos, Alemanha e Japão8. O ritmo de crescimento, de 17% em um ano, sugere que a posição deve melhorar rapidamente. Mas o dado lembra que escala absoluta e intensidade de adoção são coisas diferentes, e que um país de 1,4 bilhão de habitantes precisa de muito mais máquinas para mudar sua produtividade média.

Nos modelos de linguagem, a distância também encolheu. O relatório de Stanford aponta que o melhor modelo americano liderava o chinês por apenas 2,7% em março de 20266, e o Times registra que modelos chineses, muitos de código aberto, já superam os americanos em número entre os mais usados no ranking da plataforma OpenRouter1. O endosso de Xi aos modelos abertos virou vantagem comercial: sistemas baratos e adaptáveis conquistam desenvolvedores fora da China, inclusive em empresas ocidentais.

Onde o planejamento esbarra

A receita que funcionou para veículos elétricos pode render menos em IA. O pesquisador Cole McFaul, do Center for Security and Emerging Technology (CSET), da Universidade Georgetown, observou ao Times que, naqueles setores, a tecnologia já estava madura e o papel do Estado era financiar a escala. Em IA, a liderança depende de avanços científicos, e subsídio não compra descoberta1.

Os gargalos são conhecidos: talento especializado e, sobretudo, chips. As restrições americanas limitaram o acesso chinês aos semicondutores mais avançados, e o esforço de mais de US$ 150 bilhões para desenvolver chips de ponta domésticos ainda não produziu grandes sucessos, segundo o jornal. O próprio fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, já disse que sua empresa precisa de chips, não de mais dinheiro1. Há ainda a tensão política: o mesmo Estado que empurra a tecnologia impõe regras estritas ao que os chatbots podem dizer, proibiu robôs de companhia com IA para crianças, orientou tribunais a coibir demissões automáticas e impediu alguns empresários do setor de deixar o país.

Contraponto

O que a narrativa de avanço inevitável deixa de fora

Primeiro, os indicadores de intensidade. A densidade robótica revisada, em 22º lugar mundial, mostra que a vitrine de volume convive com adoção ainda média por trabalhador8. Segundo, a diferença de capital privado, de 23 vezes a favor dos EUA, indica que o dinamismo empresarial chinês depende fortemente do Estado, com os riscos de alocação política de recursos que isso implica6. Terceiro, o custo social: a mesma política que financia exoesqueletos financiou, lembra o Times, empresas de reconhecimento facial usadas no policiamento da minoria uigur1.

Do lado brasileiro, críticos apontam uma contradição no pacote anunciado em agosto: um plano apresentado sob a bandeira da soberania digital atribui papel material em infraestrutura de supercomputação a fornecedores chineses12. O governo sustenta que a cooperação inclui transferência de tecnologia, formação de profissionais e uma pilha de software soberana10. As duas leituras merecem acompanhamento, sobretudo diante da escalada de restrições americanas a tecnologia chinesa.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil tem seu próprio plano. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com apoio técnico do CGEE, prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028, com recursos de crédito, orçamento público e contrapartida privada9. Em 20 de agosto, o governo anunciou um pacote de execução: um supercomputador de pouco mais de R$ 1 bilhão, bancado pelo FNDCT e previsto para o parque tecnológico ligado à UFRN em Macaíba (RN), com capacidade estimada de 7.200 petaflops, e uma cooperação no Rio de Janeiro articulada pela RNP com as chinesas Huawei e iFlytek, que inclui o desenvolvimento de modelos de linguagem em português. Na ocasião, a ministra Luciana Santos afirmou que 60% do processamento de IA brasileiro é feito fora do país10.

A escala é outra. Os R$ 23 bilhões do PBIA, distribuídos em quatro anos, equivalem a uma fração do que um único programa chinês de semicondutores mobilizou. Comparar volumes, porém, leva a uma conclusão estéril. A lição mais útil da experiência chinesa está no desenho: metas explícitas de difusão, atenção à demanda e prioridade para aplicações que respondam a problemas estruturais, como envelhecimento e produtividade.

Nesse ponto, os números brasileiros são reveladores. A PINTEC Semestral do IBGE mostra que o uso de IA entre indústrias com 100 ou mais pessoas ocupadas saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, mas a robótica aparece em apenas 30,5% dessas empresas. Entre as barreiras, 50,8% citam escassez de recursos financeiros e 54% dizem não ter identificado necessidade de adotar tecnologias digitais avançadas11. O segundo dado talvez seja o mais preocupante: o gargalo não é só de crédito, é de percepção de valor.

O Brasil não tem a capacidade fiscal nem o arranjo político para replicar a mobilização estatal chinesa, e não precisaria. Mas pode aprender com a obsessão de Pequim por métricas de uso. Um plano de IA que mede petaflops instalados e não mede quantas pequenas e médias indústrias passaram a usar a tecnologia corre o risco de construir capacidade sem construir demanda. E, entre um Estados Unidos que restringe a importação de robôs humanoides chineses, proposta feita em julho segundo o Times1, e uma China que exporta modelos abertos e baratos, o país terá de decidir com critério de quais cadeias tecnológicas quer depender.

Perguntas frequentes

Qual é a estratégia da China para a inteligência artificial?

Tratar a IA como política industrial. O governo usa fundos públicos, crédito de bancos estatais, incentivos fiscais e metas de adoção para espalhar a tecnologia por indústria, saúde, educação e administração pública, com peso especial para a robótica, em vez de priorizar a corrida pela inteligência artificial geral.

O que é o plano IA+ (AI Plus)?

É a diretriz do Conselho de Estado de agosto de 2025 que orienta a integração da IA em seis áreas e fixa metas de adoção de terminais inteligentes e agentes de IA acima de 70% até 2027 e de 90% até 2030, com a ambição de uma economia plenamente inteligente até 2035.

A China investe mais em IA do que os Estados Unidos?

Em capital privado, não: US$ 12,4 bilhões contra US$ 285,9 bilhões em 2025, segundo Stanford. Mas o número subestima o esforço chinês, que passa por fundos de orientação governamental estimados em mais de US$ 184 bilhões entre 2000 e 2023.

A China lidera a robótica industrial?

Em volume, sim: 295 mil robôs instalados em 2024, 54% do total mundial, e estoque acima de 2 milhões. Em densidade, com 166 robôs por 10 mil trabalhadores da indústria, ocupa o 22º lugar no mundo.

O que o Brasil está fazendo em inteligência artificial?

Executa o PBIA, com R$ 23 bilhões previstos até 2028. Em agosto de 2026, anunciou um supercomputador em Macaíba (RN) e uma cooperação da RNP com Huawei e iFlytek. Na indústria, 41,9% das empresas com 100 ou mais pessoas ocupadas usavam IA em 2024.

Nota de atribuição. Este texto foi produzido pela curadoria de O Tecido a partir da reportagem "How China's Leader Plans to Win the Future With A.I.", de Vivian Wang, publicada pelo The New York Times em 23 de setembro de 2026. As informações atribuídas ao jornal foram resumidas e contextualizadas, sem reprodução ou tradução integral. Dados adicionais vêm das fontes independentes listadas abaixo.

Referências

  1. WANG, Vivian. How China's Leader Plans to Win the Future With A.I. The New York Times, 23 set. 2026. https://www.nytimes.com/2026/09/23/world/asia/china-ai-economy-xi-jinping.html
  2. Conselho de Estado da República Popular da China. Diretriz sobre a implementação da iniciativa "IA+" (AI Plus). Portal gov.cn, agosto de 2025.
  3. Trivium China. The AI Plus initiative: China's blueprint for AI diffusion.
  4. Escritório Nacional de Estatísticas da China. Dados populacionais de 2025, divulgados em 19 jan. 2026 (via Reuters).
  5. United States Studies Centre. "Intelligent everything": China's policy to supercharge AI adoption, jan. 2026.
  6. Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence (HAI). The 2026 AI Index Report.
  7. International Federation of Robotics (IFR). World Robotics 2025: Industrial Robots, set. 2025.
  8. International Federation of Robotics (IFR). Robot Density Surges in Europe, Asia and Americas, 8 abr. 2026.
  9. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028: IA para o Bem de Todos.
  10. Agência Brasil. RN vai abrigar supercomputador brasileiro de inteligência artificial, 21 ago. 2026.
  11. IBGE. PINTEC Semestral 2024: tecnologias digitais avançadas, teletrabalho e cibersegurança. Agência de Notícias IBGE, 24 set. 2025.
  12. O Cafezinho. Huawei entra em pacote de IA de R$ 1,276 bilhão do Brasil, 27 ago. 2026.