Caderno Política · Diplomacia e Segurança Internacional O Tecido · Agosto de 2026

Seis meses depois de Estados Unidos e Israel lançarem uma ofensiva conjunta contra instalações nucleares iranianas, em 28 de fevereiro de 2026, o homem que ajudou a evitar esse cenário por quase uma década voltou a falar publicamente sobre como reconstruir o que foi destruído. Ernest Moniz, físico nuclear e ex-secretário de Energia dos Estados Unidos durante o governo Barack Obama, foi o principal negociador técnico do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), o acordo de 2015 que limitou o programa atômico iraniano em troca de alívio de sanções. Em entrevista ao Financial Times, concedida durante um almoço em Washington e publicada em 14 de agosto[1], Moniz detalhou uma proposta que pretende apresentar neste mês em um programa do Aspen Institute no Alasca: um consórcio regional de enriquecimento nuclear que reuniria Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos em uma única cadeia de suprimento, nos moldes da europeia Urenco.

A ideia surge em um momento particularmente delicado. O conflito iniciado em fevereiro, batizado de Operação Leão Rugidor por Israel e Operação Fúria Épica pelo Pentágono, já provocou milhares de mortos no Irã, atingiu instalações em pelo menos dez países da região e, segundo o próprio Moniz relatou ao FT, já custou a vida de 18 militares americanos, além de mais de 600 feridos[1]. Um cessar-fogo anunciado em junho não se sustentou: hostilidades foram retomadas em julho, segundo o registro público de eventos do conflito[2], deixando a região em um estado de guerra intermitente que analistas descrevem como uma escalada sem precedentes das tensões entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979[3].

Este artigo é uma reportagem original do O Tecido, produzida a partir de apuração independente. Trechos da entrevista concedida por Ernest Moniz ao jornal britânico Financial Times são citados e atribuídos conforme indicado, com link para a matéria original ao final do texto. Nenhum conteúdo do FT foi reproduzido ou traduzido integralmente.

O acordo que evitou uma guerra, segundo seu autor

Moniz não hesita em atribuir a origem da crise atual ao colapso do JCPOA. Questionado pelo FT se o conflito teria eclodido caso o acordo de 2015 permanecesse vigente, respondeu que certamente não. Segundo ele, o pacto obrigava o Irã a manter no máximo 300 quilogramas de urânio enriquecido a até 3,67%, patamar típico de uso civil. Hoje, afirmou, o país acumula cerca de dez toneladas de material enriquecido, incluindo quase meia tonelada enriquecida a 60%, quantidade que já se aproxima do necessário para a fabricação de múltiplas armas nucleares[1].

O acordo foi assinado por Irã e pelo grupo P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) e entrou em vigor em janeiro de 2016. Inspetores internacionais reconheceram que Teerã cumpriu majoritariamente seus termos até a saída unilateral dos Estados Unidos, decidida por Donald Trump em maio de 2018, sob a alegação de que o pacto era unilateral e insuficiente para impedir o avanço atômico iraniano. O Irã deixou de aplicar o Protocolo Adicional, mecanismo que permite à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecionar até instalações não declaradas, em 2023[4], dois anos antes do início dos ataques.

"O Irã tem a vantagem de jogar em casa. E vantagens de jogar em casa não têm funcionado bem para nós no Vietnã e no Afeganistão."
— Ernest Moniz, ao Financial Times[1]

Um Urenco para o Golfo Pérsico

A proposta que Moniz pretende detalhar publicamente parte de um diagnóstico simples: um acordo bilateral apenas com o Irã dificilmente sobreviveria ao nível de desconfiança acumulado depois da guerra. Em vez disso, ele defende amarrar o enriquecimento de urânio de Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos a uma estrutura conjunta, provavelmente organizada como entidade corporativa, inspirada na Urenco, consórcio sediado em Londres e controlado por governos do Reino Unido, da Holanda e por duas grandes companhias energéticas alemãs. Nesse modelo, nenhum dos três países teria capacidade de enriquecimento isolada, apenas acesso compartilhado à cadeia de suprimento, o que, segundo o físico, reduziria o risco de proliferação sem exigir que Teerã abra mão por completo da tecnologia[1].

A urgência do debate ganhou contornos concretos em julho, quando Washington e Riad assinaram um acordo de cooperação nuclear civil de trinta anos, conhecido como Acordo 123, acompanhado de um pacto bilateral de salvaguardas. O texto abre caminho para que a Arábia Saudita eventualmente enriqueça urânio em seu próprio território, mas dispensa a adesão ao Protocolo Adicional da AIEA, considerado o "padrão-ouro" de fiscalização internacional[5][6]. Diferentemente dos Emirados Árabes Unidos, que em 2009 aceitaram o protocolo mais rigoroso ao fechar seu próprio acordo nuclear com os Estados Unidos, os sauditas negociaram um regime de verificação bilateral, alegando preocupações de soberania[7].

Contraponto

Nem todos os especialistas em não proliferação compartilham do otimismo de Moniz quanto a um consórcio regional. Analistas ouvidos pela imprensa brasileira apontam que o próprio acordo entre Washington e Riad já expõe um duplo padrão: tecnologia considerada inaceitável nas mãos do Irã passa a ser tratada como negociável quando o parceiro é a Arábia Saudita, mesmo com garantias mais frágeis de fiscalização[6]. Há também quem questione a própria autoridade moral de Moniz para propor novas arquiteturas de confiança: por ser remunerado por fundos ligados à indústria de gás natural em seu instituto sem fins lucrativos, ele é rotulado por ambientalistas como "frackademic", crítica que ele rebate afirmando que a maior parte do avanço climático americano veio justamente da substituição do carvão pelo gás[1]. Por fim, mesmo Moniz reconhece que a confiança bilateral entre Washington e Teerã está tão desgastada que será difícil recuperar até mesmo cláusulas básicas de verificação já presentes no acordo de 2015[1].

Onde o Brasil entra nesse tabuleiro

Embora geograficamente distante do epicentro do conflito, o Brasil não ficou imune aos seus efeitos. O Itamaraty adotou, desde os primeiros ataques, uma postura de condenação ao uso da força por Estados Unidos e Israel, sem no entanto propor qualquer ação concreta para interromper o conflito, o que analistas de relações internacionais classificam como neutralidade diplomática tradicional, alinhada à história brasileira de mediação em crises internacionais e à própria experiência do país nas negociações nucleares com o Irã ao lado da Turquia, em 2010[8][9].

O impacto econômico, porém, é mais difícil de evitar. Especialistas consultados por veículos brasileiros apontam que a alta no preço do petróleo pressiona o diesel e o frete rodoviário, cadeia logística da qual o país depende fortemente, com potencial de travar quedas esperadas na taxa Selic[10]. Some-se a isso o fato de o Irã ter se tornado comprador relevante de milho e soja brasileiros após ingressar na configuração ampliada do BRICS, o que torna qualquer desdobramento do conflito também uma questão de interesse comercial direto para o agronegócio nacional[11].

O que vem a seguir

Moniz reconhece que não há garantias de que sua proposta avance. Ele admite nunca ter se encontrado pessoalmente com Trump, apesar de uma passagem em comum pelo programa de Stephen Colbert em 2015, e reconhece que a pressão eleitoral doméstica, sobretudo com a alta nos preços de combustíveis afetando a popularidade do presidente antes das eleições de meio de mandato em novembro, pode tanto acelerar quanto complicar uma negociação. Para ele, o problema é estrutural: qualquer acordo duradouro exigiria continuidade de posição entre sucessivos governos americanos, algo que considera improvável nas próximas duas décadas, dada a alternância abrupta de política externa entre administrações desde 2016[1].

Enquanto isso, o relógio da proliferação nuclear no Oriente Médio continua correndo. Com o Irã detentor de estoque de urânio próximo ao nível de uso armamentista, a Arábia Saudita avançando em seu próprio programa civil sem o protocolo mais rigoroso de fiscalização e os Emirados Árabes Unidos posicionados como terceiro vértice de uma eventual aliança regional, a proposta de Moniz representa menos uma solução pronta do que um convite a repensar, coletivamente, quem terá o direito de controlar o combustível nuclear do século 21.

Perguntas frequentes

O que é o JCPOA e por que ele é citado como referência?

O JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global) foi o acordo nuclear assinado em 2015 entre Irã e as potências do P5+1, que limitava o enriquecimento de urânio iraniano a 3,67% e um estoque máximo de 300 quilogramas, em troca de alívio de sanções econômicas. Os Estados Unidos se retiraram do pacto em 2018, sob o governo Trump.

Qual é a proposta de Ernest Moniz para o Oriente Médio?

Moniz defende a criação de um consórcio regional de enriquecimento de urânio reunindo Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, inspirado no modelo da Urenco europeia, no qual nenhum país teria capacidade de enriquecimento isolada, apenas acesso compartilhado à cadeia de suprimento nuclear.

O acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita inclui o Protocolo Adicional da AIEA?

Não. Diferentemente dos Emirados Árabes Unidos em 2009, a Arábia Saudita negociou um regime de salvaguardas bilateral com os Estados Unidos, sem se comprometer com o Protocolo Adicional, considerado o padrão mais rigoroso de fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica.

Como a guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos afeta o Brasil?

O Itamaraty adotou postura de condenação diplomática ao uso da força, mantendo neutralidade formal. No plano econômico, a alta no preço do petróleo pressiona custos de frete e combustível no Brasil, além de afetar o comércio de milho e soja com o Irã, parceiro comercial que integra a configuração ampliada do BRICS.