Caderno Política · Geopolítica · Análise
Durante quatro décadas, a expressão “mundo livre” funcionou como um endereço moral. Quem vivia do lado ocidental da Cortina de Ferro sabia, ou acreditava saber, de que lado da história estava. Nesta sexta-feira (25), o historiador canadense Michael Ignatieff, reitor emérito da Universidade Centro-Europeia e ex-líder do Partido Liberal do Canadá, publicou no El País um obituário dessa ideia[1]. O diagnóstico é direto: o conceito agonizava desde os anos 1990, e Donald Trump desferiu o golpe final. A tese menos óbvia vem depois. Para Ignatieff, a sobrevivência do ideal depende agora das chamadas potências médias, e entre elas o autor inclui, de forma explícita, as democracias da América Latina.
O texto chega ao leitor brasileiro num momento em que a pergunta deixou de ser abstrata. O país enfrenta sobretaxas americanas de até 37,5%, contesta essas medidas na Organização Mundial do Comércio e, há menos de cinco meses, passou a aplicar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Tudo isso a poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial.
O argumento de Ignatieff, em quatro movimentos
Primeiro, a honestidade sobre o passado. Ignatieff não romantiza a Guerra Fria. Ele lembra que o clube do mundo livre abrigava o Irã do xá, o Chile de Pinochet e a Espanha de Franco, admitidos por serem anticomunistas, e que o próprio líder do bloco negou o voto a cidadãos negros no Sul até 1965. Chama o conceito de “mentira nobre”, expressão que remete a Platão[1].
Segundo, a utilidade da mentira. Mesmo hipócrita, a ideia deu linguagem a dissidentes do Leste Europeu, do sindicato Solidariedade, na Polônia, ao movimento Carta 77, na Tchecoslováquia. E foi levada ao pé da letra por portugueses, espanhóis, gregos, taiwaneses, sul-coreanos e filipinos, que derrubaram ditaduras apoiadas pelo próprio Ocidente para reivindicar a liberdade que lhes havia sido prometida.
Terceiro, a longa agonia. Para o autor, o declínio começa logo após 1989: nacionalismos étnicos nos Bálcãs, a captura da Rússia por elites que enriqueceram no colapso soviético, o fracasso da reconstrução no Iraque e a retirada caótica do Afeganistão.
Quarto, o golpe final. Ignatieff descreve um presidente americano que elogia autocratas, pressiona aliados, exibe amizade com o líder norte-coreano e trata com desdém a Ucrânia em guerra. O ponto mais grave, porém, não é Trump. É a constatação de que a opinião pública americana quase não reage. As eleições de meio de mandato de novembro, prevê o autor, serão decididas pelo preço da gasolina, e não por política externa[1].
Canadá, o primeiro a aprender a lição
O caso que Ignatieff usa para ilustrar a nova realidade é o de seu próprio país. Em janeiro de 2026, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o primeiro-ministro Mark Carney fez um discurso amplamente lido como crítica velada a Washington, no qual falou em “ruptura” da ordem mundial e defendeu maior cooperação entre potências médias[3]. Foi aplaudido de pé, algo raro no evento, e recebeu no dia seguinte a resposta de Trump de que o Canadá existe graças aos Estados Unidos.
Sete meses depois, as palavras viraram decisão. Em 22 de agosto, Carney suspendeu as negociações comerciais com os Estados Unidos[4]. O governo canadense passou a responder às tarifas americanas sobre aço e madeira com sobretaxas equivalentes, e Carney afirmou ao Parlamento que a relação com o vizinho não voltará ao normal tão cedo[5]. A escalada ganhou contornos quase caricatos: dias depois, Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Lago Ontário passe a ser chamado de “Lago América” nos documentos federais.
Ignatieff observa que os europeus elogiaram a coragem canadense, mas pondera que, às vezes, coragem é apenas a capacidade de reconhecer a realidade. A frase resume o tom do artigo: menos um manifesto e mais um inventário de perdas.
Os números do recuo democrático
O pessimismo de Ignatieff encontra respaldo empírico. O Democracy Report 2026, do Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, concluiu que o nível de democracia experimentado pelo cidadão médio do planeta voltou ao patamar de 1978[2]. Hoje, 74% da população mundial, cerca de 6 bilhões de pessoas, vive sob regimes autocráticos. Em 2005, eram 50%. A fatia que vive em democracias liberais caiu de 17% para 7% no mesmo período, e o mundo contabiliza 92 autocracias contra 87 democracias.
O dado mais simbólico do relatório conversa diretamente com o artigo do El País. Pela primeira vez em mais de meio século, os Estados Unidos deixaram de ser classificados como democracia liberal e passaram à categoria de democracia eleitoral[2]. É a mesma categoria em que o V-Dem enquadra o Brasil. Em outras palavras, o antigo líder do mundo livre e a maior democracia sul-americana estão, pela métrica acadêmica mais usada no tema, no mesmo patamar.
O Brasil como caso de teste
Se o Canadá é o laboratório de Ignatieff, o Brasil é um experimento paralelo, e com variáveis ainda mais explícitas. Depois do tarifaço de 50% anunciado em julho de 2025, que a Casa Branca vinculou ao julgamento de Jair Bolsonaro, Washington recuou parcialmente no fim daquele ano. Em 2026, a pressão mudou de instrumento. Desde 22 de julho vigora uma sobretaxa de 25% resultante de investigação aberta com base na Seção 301 da lei comercial americana, e poucos dias depois entrou em vigor um adicional de 12,5% ligado a alegações sobre trabalho forçado em cadeias produtivas[6].
Somadas, as duas medidas alcançam 3.985 produtos, o equivalente a US$ 10,8 bilhões em exportações, segundo cálculo da Confederação Nacional da Indústria citado pela SpaceMoney[7]. Entre as justificativas apresentadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA estão o funcionamento do Pix e o acesso ao mercado de etanol, alegações rejeitadas pelo governo brasileiro. Os efeitos já aparecem na balança: de janeiro a agosto, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9,7%, para US$ 24,1 bilhões.
Uma análise do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB) sustenta que as exigências americanas funcionam, na prática, como barreiras às relações econômicas entre Brasil e China, e que o efeito foi o oposto do pretendido: enquanto as vendas aos EUA caíam, as exportações para o mercado chinês avançavam[6]. Nesta mesma sexta-feira, representantes dos dois governos se reúnem em Genebra, no âmbito das consultas abertas pelo Brasil na OMC, e um novo encontro presencial entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial Jamieson Greer está previsto para 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, durante reunião ministerial do G20[8].
O outro lado da equação é o acordo com a Europa. Negociado por mais de duas décadas, o acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026[9]. Os dois blocos somam cerca de 718 milhões de pessoas e PIB de aproximadamente US$ 22,4 trilhões, e o texto prevê redução de tarifas para 91% dos produtos importados pelo Mercosul e 95% dos importados pela UE. A vigência definitiva, porém, ainda depende de parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia e enfrenta resistência da França, com apoio de Polônia, Irlanda e Áustria[10].
Para uma potência média, diversificar parceiros deixou de ser estratégia de crescimento. Virou seguro contra a coerção.
É exatamente o tipo de arranjo que Ignatieff descreve como regra do novo tempo: cada país protegendo seus setores estratégicos, reduzindo dependências e tratando qualquer vínculo excessivo como vulnerabilidade[1]. O acordo com a Europa não foi desenhado como resposta a Trump, mas passou a operar como tal.
Valores ou interesses? O dilema de quem nunca se disse “mundo livre”
Há, contudo, um descompasso entre a proposta de Ignatieff e a tradição brasileira. O apelo final do artigo é para que as potências médias se lembrem de que compartilham valores, liberdade e democracia, e não apenas interesses econômicos. O Brasil, historicamente, prefere a linguagem do pragmatismo e da autonomia. Integra o BRICS, tem na China seu principal parceiro comercial e evita alinhamentos automáticos com qualquer bloco.
A memória histórica reforça a cautela. O regime militar instalado em 1964, com apoio de Washington, também fazia parte do clube que Ignatieff descreve com ironia. Para muitos brasileiros, a expressão “mundo livre” nunca soou como promessa, e sim como álibi. Não por acaso, a lista de ditaduras anticomunistas do artigo poderia incluir o Brasil sem nenhum esforço.
O episódio da Seção 301, no entanto, complica a dicotomia. Quando a pressão externa passa a mirar a infraestrutura de pagamentos do Banco Central ou decisões do Judiciário, defender instituições democráticas e defender interesses econômicos se tornam a mesma coisa. Talvez seja essa a versão possível do ideal no Sul Global: não um clube liderado por uma superpotência, mas uma rede de países que protegem, cada um por si e em alguns momentos juntos, sua capacidade de decidir as próprias regras.
Os limites da tese das potências médias
A proposta de Ignatieff enfrenta objeções relevantes. Analistas de orientação realista lembram que nenhuma potência média, isoladamente ou em conjunto, substitui a capacidade militar americana. A própria Europa segue dependente da Otan para sua defesa, e o autor reconhece que a prioridade europeia hoje é a sobrevivência, não a promoção da liberdade além de suas fronteiras.
Há também uma crítica vinda do Sul Global. Reabilitar o rótulo “mundo livre” pode reproduzir a mesma seletividade que o próprio Ignatieff denuncia, e países como Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul tendem a rejeitar enquadramentos que os coloquem novamente em um dos lados de uma disputa entre grandes potências.
Por fim, diversificar comércio não equivale a defender a democracia. O acordo Mercosul-UE, por exemplo, é antes de tudo um instrumento econômico, e parceiros comerciais relevantes do Brasil estão longe de ser democracias. Parte dos analistas avalia ainda que a política externa americana pode se recompor depois de 2028, o que tornaria prematuro o obituário, ainda que o próprio autor aposte no contrário.
O que acompanhar nas próximas semanas
- Genebra e Milwaukee. O resultado das consultas na OMC e do encontro ministerial no G20 indicará se Brasília consegue ampliar a lista de produtos isentos das sobretaxas.
- Eleição brasileira. A relação com Washington, a China e a Europa entra no debate público num momento em que a política externa raramente decide votos, mas define o ambiente econômico do próximo governo.
- Midterms americanas, em 3 de novembro. Se Ignatieff estiver certo, o preço dos combustíveis pesará mais do que a política externa, e o resultado dirá quanto espaço resta para uma inflexão antes de 2028.
- Canadá e Estados Unidos. A duração do impasse entre Ottawa e Washington será o termômetro mais claro da tese de que as potências médias podem sustentar posições próprias diante da maior economia do mundo.
- Tribunal de Justiça da UE. O parecer sobre o acordo com o Mercosul definirá se a aposta europeia na diversificação vai além da aplicação provisória.
Perguntas frequentes
O que era o “mundo livre” durante a Guerra Fria?
Era o nome dado ao conjunto de países alinhados aos Estados Unidos contra o bloco soviético. Apesar do nome, o grupo incluía ditaduras anticomunistas como o Irã do xá, o Chile de Pinochet, a Espanha de Franco e também o regime militar brasileiro instalado em 1964.
Por que Michael Ignatieff diz que Trump “matou” o mundo livre?
No artigo publicado pelo El País em 25 de setembro de 2026, Ignatieff argumenta que Trump elogia autocratas, pressiona aliados democráticos e abandona a Ucrânia, e que a opinião pública americana já não reage a isso. Para ele, a ideia estava em declínio desde os anos 1990, mas recebeu o golpe final do atual governo dos EUA.
O que são potências médias?
São países com peso econômico e diplomático relevante, mas sem a capacidade militar e econômica das superpotências. Canadá, países europeus, Brasil, México, África do Sul, Índia, Indonésia, Coreia do Sul e Austrália costumam ser incluídos na categoria.
Quais tarifas os Estados Unidos aplicam hoje ao Brasil?
Desde julho de 2026, vigoram uma sobretaxa de 25% resultante de investigação da Seção 301 contra o Brasil e outra de 12,5% ligada a alegações sobre trabalho forçado. Somadas, chegam a 37,5% sobre cerca de 3.985 produtos, segundo a CNI. O Brasil contesta as medidas na OMC.
O que o acordo Mercosul-União Europeia tem a ver com o debate?
O acordo, em vigor de forma provisória desde 1º de maio de 2026, reúne cerca de 718 milhões de pessoas e é o exemplo mais concreto de diversificação comercial entre democracias fora da órbita direta de Washington, o tipo de arranjo que Ignatieff e Mark Carney defendem.
Quanto do mundo vive hoje em democracias, segundo o V-Dem?
Segundo o Democracy Report 2026, 74% da população mundial vive sob autocracias e apenas 7% em democracias liberais. O relatório também deixou de classificar os Estados Unidos como democracia liberal pela primeira vez em mais de 50 anos.