Esta análise foi produzida por O Tecido a partir do artigo de opinião de Michael Ignatieff publicado pelo El País em 25 de setembro de 2026 (distribuído pelo Project Syndicate). Não se trata de tradução nem de reprodução do original. Os créditos das ideias atribuídas ao autor pertencem a ele e ao jornal.

Caderno Política · Geopolítica · Análise

Durante quatro décadas, a expressão “mundo livre” funcionou como um endereço moral. Quem vivia do lado ocidental da Cortina de Ferro sabia, ou acreditava saber, de que lado da história estava. Nesta sexta-feira (25), o historiador canadense Michael Ignatieff, reitor emérito da Universidade Centro-Europeia e ex-líder do Partido Liberal do Canadá, publicou no El País um obituário dessa ideia[1]. O diagnóstico é direto: o conceito agonizava desde os anos 1990, e Donald Trump desferiu o golpe final. A tese menos óbvia vem depois. Para Ignatieff, a sobrevivência do ideal depende agora das chamadas potências médias, e entre elas o autor inclui, de forma explícita, as democracias da América Latina.

O texto chega ao leitor brasileiro num momento em que a pergunta deixou de ser abstrata. O país enfrenta sobretaxas americanas de até 37,5%, contesta essas medidas na Organização Mundial do Comércio e, há menos de cinco meses, passou a aplicar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Tudo isso a poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial.

O argumento de Ignatieff, em quatro movimentos

Primeiro, a honestidade sobre o passado. Ignatieff não romantiza a Guerra Fria. Ele lembra que o clube do mundo livre abrigava o Irã do xá, o Chile de Pinochet e a Espanha de Franco, admitidos por serem anticomunistas, e que o próprio líder do bloco negou o voto a cidadãos negros no Sul até 1965. Chama o conceito de “mentira nobre”, expressão que remete a Platão[1].

Segundo, a utilidade da mentira. Mesmo hipócrita, a ideia deu linguagem a dissidentes do Leste Europeu, do sindicato Solidariedade, na Polônia, ao movimento Carta 77, na Tchecoslováquia. E foi levada ao pé da letra por portugueses, espanhóis, gregos, taiwaneses, sul-coreanos e filipinos, que derrubaram ditaduras apoiadas pelo próprio Ocidente para reivindicar a liberdade que lhes havia sido prometida.

Terceiro, a longa agonia. Para o autor, o declínio começa logo após 1989: nacionalismos étnicos nos Bálcãs, a captura da Rússia por elites que enriqueceram no colapso soviético, o fracasso da reconstrução no Iraque e a retirada caótica do Afeganistão.

Quarto, o golpe final. Ignatieff descreve um presidente americano que elogia autocratas, pressiona aliados, exibe amizade com o líder norte-coreano e trata com desdém a Ucrânia em guerra. O ponto mais grave, porém, não é Trump. É a constatação de que a opinião pública americana quase não reage. As eleições de meio de mandato de novembro, prevê o autor, serão decididas pelo preço da gasolina, e não por política externa[1].

Canadá, o primeiro a aprender a lição

O caso que Ignatieff usa para ilustrar a nova realidade é o de seu próprio país. Em janeiro de 2026, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o primeiro-ministro Mark Carney fez um discurso amplamente lido como crítica velada a Washington, no qual falou em “ruptura” da ordem mundial e defendeu maior cooperação entre potências médias[3]. Foi aplaudido de pé, algo raro no evento, e recebeu no dia seguinte a resposta de Trump de que o Canadá existe graças aos Estados Unidos.

Sete meses depois, as palavras viraram decisão. Em 22 de agosto, Carney suspendeu as negociações comerciais com os Estados Unidos[4]. O governo canadense passou a responder às tarifas americanas sobre aço e madeira com sobretaxas equivalentes, e Carney afirmou ao Parlamento que a relação com o vizinho não voltará ao normal tão cedo[5]. A escalada ganhou contornos quase caricatos: dias depois, Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Lago Ontário passe a ser chamado de “Lago América” nos documentos federais.

Ignatieff observa que os europeus elogiaram a coragem canadense, mas pondera que, às vezes, coragem é apenas a capacidade de reconhecer a realidade. A frase resume o tom do artigo: menos um manifesto e mais um inventário de perdas.

Os números do recuo democrático

O pessimismo de Ignatieff encontra respaldo empírico. O Democracy Report 2026, do Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, concluiu que o nível de democracia experimentado pelo cidadão médio do planeta voltou ao patamar de 1978[2]. Hoje, 74% da população mundial, cerca de 6 bilhões de pessoas, vive sob regimes autocráticos. Em 2005, eram 50%. A fatia que vive em democracias liberais caiu de 17% para 7% no mesmo período, e o mundo contabiliza 92 autocracias contra 87 democracias.

Parcela da população mundial por tipo de regime, 2005 e 2025 Autocracias passaram de 50% para 74% da população mundial; democracias liberais caíram de 17% para 7%. POPULAÇÃO MUNDIAL POR TIPO DE REGIME (%) Autocracias 2005 50% 2025 74% Democracias liberais 2005 17% 2025 7%
Fonte: V-Dem Institute, Democracy Report 2026 (dados referentes a 2025). Elaboração: O Tecido.

O dado mais simbólico do relatório conversa diretamente com o artigo do El País. Pela primeira vez em mais de meio século, os Estados Unidos deixaram de ser classificados como democracia liberal e passaram à categoria de democracia eleitoral[2]. É a mesma categoria em que o V-Dem enquadra o Brasil. Em outras palavras, o antigo líder do mundo livre e a maior democracia sul-americana estão, pela métrica acadêmica mais usada no tema, no mesmo patamar.

O Brasil como caso de teste

Se o Canadá é o laboratório de Ignatieff, o Brasil é um experimento paralelo, e com variáveis ainda mais explícitas. Depois do tarifaço de 50% anunciado em julho de 2025, que a Casa Branca vinculou ao julgamento de Jair Bolsonaro, Washington recuou parcialmente no fim daquele ano. Em 2026, a pressão mudou de instrumento. Desde 22 de julho vigora uma sobretaxa de 25% resultante de investigação aberta com base na Seção 301 da lei comercial americana, e poucos dias depois entrou em vigor um adicional de 12,5% ligado a alegações sobre trabalho forçado em cadeias produtivas[6].

Somadas, as duas medidas alcançam 3.985 produtos, o equivalente a US$ 10,8 bilhões em exportações, segundo cálculo da Confederação Nacional da Indústria citado pela SpaceMoney[7]. Entre as justificativas apresentadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA estão o funcionamento do Pix e o acesso ao mercado de etanol, alegações rejeitadas pelo governo brasileiro. Os efeitos já aparecem na balança: de janeiro a agosto, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9,7%, para US$ 24,1 bilhões.

Uma análise do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB) sustenta que as exigências americanas funcionam, na prática, como barreiras às relações econômicas entre Brasil e China, e que o efeito foi o oposto do pretendido: enquanto as vendas aos EUA caíam, as exportações para o mercado chinês avançavam[6]. Nesta mesma sexta-feira, representantes dos dois governos se reúnem em Genebra, no âmbito das consultas abertas pelo Brasil na OMC, e um novo encontro presencial entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial Jamieson Greer está previsto para 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, durante reunião ministerial do G20[8].

O outro lado da equação é o acordo com a Europa. Negociado por mais de duas décadas, o acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026[9]. Os dois blocos somam cerca de 718 milhões de pessoas e PIB de aproximadamente US$ 22,4 trilhões, e o texto prevê redução de tarifas para 91% dos produtos importados pelo Mercosul e 95% dos importados pela UE. A vigência definitiva, porém, ainda depende de parecer do Tribunal de Justiça da União Europeia e enfrenta resistência da França, com apoio de Polônia, Irlanda e Áustria[10].

Para uma potência média, diversificar parceiros deixou de ser estratégia de crescimento. Virou seguro contra a coerção.

É exatamente o tipo de arranjo que Ignatieff descreve como regra do novo tempo: cada país protegendo seus setores estratégicos, reduzindo dependências e tratando qualquer vínculo excessivo como vulnerabilidade[1]. O acordo com a Europa não foi desenhado como resposta a Trump, mas passou a operar como tal.

Valores ou interesses? O dilema de quem nunca se disse “mundo livre”

Há, contudo, um descompasso entre a proposta de Ignatieff e a tradição brasileira. O apelo final do artigo é para que as potências médias se lembrem de que compartilham valores, liberdade e democracia, e não apenas interesses econômicos. O Brasil, historicamente, prefere a linguagem do pragmatismo e da autonomia. Integra o BRICS, tem na China seu principal parceiro comercial e evita alinhamentos automáticos com qualquer bloco.

A memória histórica reforça a cautela. O regime militar instalado em 1964, com apoio de Washington, também fazia parte do clube que Ignatieff descreve com ironia. Para muitos brasileiros, a expressão “mundo livre” nunca soou como promessa, e sim como álibi. Não por acaso, a lista de ditaduras anticomunistas do artigo poderia incluir o Brasil sem nenhum esforço.

O episódio da Seção 301, no entanto, complica a dicotomia. Quando a pressão externa passa a mirar a infraestrutura de pagamentos do Banco Central ou decisões do Judiciário, defender instituições democráticas e defender interesses econômicos se tornam a mesma coisa. Talvez seja essa a versão possível do ideal no Sul Global: não um clube liderado por uma superpotência, mas uma rede de países que protegem, cada um por si e em alguns momentos juntos, sua capacidade de decidir as próprias regras.

Contraponto

Os limites da tese das potências médias

A proposta de Ignatieff enfrenta objeções relevantes. Analistas de orientação realista lembram que nenhuma potência média, isoladamente ou em conjunto, substitui a capacidade militar americana. A própria Europa segue dependente da Otan para sua defesa, e o autor reconhece que a prioridade europeia hoje é a sobrevivência, não a promoção da liberdade além de suas fronteiras.

Há também uma crítica vinda do Sul Global. Reabilitar o rótulo “mundo livre” pode reproduzir a mesma seletividade que o próprio Ignatieff denuncia, e países como Brasil, Índia, Indonésia e África do Sul tendem a rejeitar enquadramentos que os coloquem novamente em um dos lados de uma disputa entre grandes potências.

Por fim, diversificar comércio não equivale a defender a democracia. O acordo Mercosul-UE, por exemplo, é antes de tudo um instrumento econômico, e parceiros comerciais relevantes do Brasil estão longe de ser democracias. Parte dos analistas avalia ainda que a política externa americana pode se recompor depois de 2028, o que tornaria prematuro o obituário, ainda que o próprio autor aposte no contrário.

O que acompanhar nas próximas semanas

  • Genebra e Milwaukee. O resultado das consultas na OMC e do encontro ministerial no G20 indicará se Brasília consegue ampliar a lista de produtos isentos das sobretaxas.
  • Eleição brasileira. A relação com Washington, a China e a Europa entra no debate público num momento em que a política externa raramente decide votos, mas define o ambiente econômico do próximo governo.
  • Midterms americanas, em 3 de novembro. Se Ignatieff estiver certo, o preço dos combustíveis pesará mais do que a política externa, e o resultado dirá quanto espaço resta para uma inflexão antes de 2028.
  • Canadá e Estados Unidos. A duração do impasse entre Ottawa e Washington será o termômetro mais claro da tese de que as potências médias podem sustentar posições próprias diante da maior economia do mundo.
  • Tribunal de Justiça da UE. O parecer sobre o acordo com o Mercosul definirá se a aposta europeia na diversificação vai além da aplicação provisória.

Perguntas frequentes

O que era o “mundo livre” durante a Guerra Fria?

Era o nome dado ao conjunto de países alinhados aos Estados Unidos contra o bloco soviético. Apesar do nome, o grupo incluía ditaduras anticomunistas como o Irã do xá, o Chile de Pinochet, a Espanha de Franco e também o regime militar brasileiro instalado em 1964.

Por que Michael Ignatieff diz que Trump “matou” o mundo livre?

No artigo publicado pelo El País em 25 de setembro de 2026, Ignatieff argumenta que Trump elogia autocratas, pressiona aliados democráticos e abandona a Ucrânia, e que a opinião pública americana já não reage a isso. Para ele, a ideia estava em declínio desde os anos 1990, mas recebeu o golpe final do atual governo dos EUA.

O que são potências médias?

São países com peso econômico e diplomático relevante, mas sem a capacidade militar e econômica das superpotências. Canadá, países europeus, Brasil, México, África do Sul, Índia, Indonésia, Coreia do Sul e Austrália costumam ser incluídos na categoria.

Quais tarifas os Estados Unidos aplicam hoje ao Brasil?

Desde julho de 2026, vigoram uma sobretaxa de 25% resultante de investigação da Seção 301 contra o Brasil e outra de 12,5% ligada a alegações sobre trabalho forçado. Somadas, chegam a 37,5% sobre cerca de 3.985 produtos, segundo a CNI. O Brasil contesta as medidas na OMC.

O que o acordo Mercosul-União Europeia tem a ver com o debate?

O acordo, em vigor de forma provisória desde 1º de maio de 2026, reúne cerca de 718 milhões de pessoas e é o exemplo mais concreto de diversificação comercial entre democracias fora da órbita direta de Washington, o tipo de arranjo que Ignatieff e Mark Carney defendem.

Quanto do mundo vive hoje em democracias, segundo o V-Dem?

Segundo o Democracy Report 2026, 74% da população mundial vive sob autocracias e apenas 7% em democracias liberais. O relatório também deixou de classificar os Estados Unidos como democracia liberal pela primeira vez em mais de 50 anos.