Um artigo de opinião publicado no New York Times neste sábado reacendeu uma discussão que, vista de Brasília ou de São Paulo, soa menos abstrata do que parece à primeira leitura1. O professor Charles A. Kupchan, da Universidade de Georgetown e do Council on Foreign Relations, argumenta que os Estados Unidos estão deixando de ser a nação excepcional que se propunha a mudar o mundo pelo exemplo, e não pela força1. Para ele, o governo de Donald Trump acerta ao abandonar a promoção ativa da democracia no exterior e ao buscar entendimentos com potências rivais como China e Rússia, mas erra de forma grave ao corroer as próprias instituições democráticas em casa1. É essa combinação, pragmatismo externo com erosão interna, que preocupa o autor: um país que deixa de servir de modelo perde a única ferramenta de influência que, segundo ele, realmente funcionou ao longo da história americana1.
A tese de Kupchan resgata uma tradição diplomática que remonta aos primeiros anos da república americana. Já em 1630, o líder puritano John Winthrop descrevia a colônia recém-fundada como uma "cidade sobre a colina", um modelo que o mundo observaria e, eventualmente, imitaria. Essa vocação de exemplo, e não de intervenção, orientou boa parte da política externa americana até o final do século XIX. George Washington, em seu discurso de despedida de 1796, já alertava que ambições externas exageradas poderiam custar caro à liberdade interna. John Quincy Adams reforçava a mesma cautela nos anos 1820, temendo que o país se tornasse, em suas próprias palavras, uma força imperial disfarçada de causa nobre.
Da virada imperialista às duas guerras mundiais
O equilíbrio começou a se romper em 1898, quando os Estados Unidos anexaram territórios espanhóis no Caribe e no Pacífico sob a bandeira da humanidade, tornando-se, na prática, uma potência colonial. Duas décadas depois, Woodrow Wilson conduziu o país à Primeira Guerra Mundial prometendo tornar o mundo seguro para a democracia, um projeto que o Senado americano rejeitaria ao recusar a adesão à Liga das Nações. O resultado foi um recuo isolacionista entre as duas guerras. Só durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria os Estados Unidos encontrariam, segundo o argumento de Kupchan, um equilíbrio mais estável entre interesses estratégicos e ideais democráticos, vencendo o confronto ideológico com a União Soviética menos pela força militar direta e mais pela demonstração prática de que sociedades abertas prosperam.
Esse equilíbrio voltou a se desfazer depois da Guerra Fria. A expectativa de que a integração comercial de China e Rússia aos mercados globais os tornaria mais liberais não se confirmou, ambos os países seguem hoje mais autoritários e mais assertivos do que há trinta anos. As intervenções militares no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, depois de 2001, custaram trilhões de dólares e produziram poucos resultados duradouros. Some-se a isso a automação e o livre comércio corroendo a classe média industrial em várias democracias ocidentais, e o quadro que Kupchan descreve é o de um país que tenta, mais uma vez, recalibrar sua relação entre pragmatismo e princípio.
O que os números de 2026 confirmam
O pano de fundo estatístico dá peso ao argumento. O Relatório da Democracia 2026 do Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, um dos bancos de dados mais extensos sobre o tema, com mais de 30 milhões de pontos de dado para 202 países desde 1789, registra que os Estados Unidos perderam, pela primeira vez em mais de cinco décadas, o status de democracia liberal, caindo para a categoria de democracia eleitoral2. O relatório atribui parte dessa queda ao enfraquecimento de mecanismos de checagem institucional, à politização de órgãos de fiscalização e à pressão sobre a imprensa e o Judiciário2. Em termos globais, autocracias já superam democracias em número, 92 contra 87, e quase três quartos da população mundial vivem hoje sob algum regime autocrático, um nível de restrição de liberdades políticas que o instituto compara ao observado no final da década de 19702.
Há, no entanto, um dado que muda o ângulo da história quando lida a partir do Brasil: entre os poucos países classificados como em processo de democratização em 2025 está justamente o Brasil, ao lado de Polônia, Botsuana, Guatemala e Maurício2. Ou seja, no mesmo relatório em que os Estados Unidos aparecem rebaixados, o Brasil aparece do lado oposto da curva. Isso não torna a democracia brasileira imune a tensões, mas reposiciona a pergunta que Kupchan faz sobre o exemplo americano: se o modelo que antes se olhava de baixo para cima está em recuo, quem, hoje, está de fato demonstrando que instituições abertas se sustentam na prática?
A resposta brasileira: autonomia em vez de escolha forçada
É nesse ponto que o debate americano toca diretamente a diplomacia brasileira. Desde o início do terceiro governo, Lula tem repetido a máxima de que o país não se envolverá em nenhuma guerra fria e que buscará ser "ativo e altivo" diante da disputa entre Washington e Pequim3. Trata-se de uma versão atualizada do conceito de não alinhamento ativo, formulado por pesquisadores como Jorge Heine, Carlos Fortin e Carlos Ominami a partir de 2019 para descrever a estratégia de países do Sul Global que recusam escolher lados de forma automática, avaliando cada questão pelo próprio interesse nacional. Em comércio, o Brasil pode se aproximar mais da China, sua principal parceira comercial. Em temas de direitos e instituições multilaterais, pode se aproximar mais dos Estados Unidos. A lógica não é neutralidade, é cálculo caso a caso.
Essa postura ficou mais visível ao longo de 2026. Enquanto Trump recebeu Xi Jinping em Pequim para discutir uma trégua comercial que deve avançar em um novo encontro na Casa Branca em 24 de setembro, dias após a publicação do artigo de Kupchan, o Brasil seguiu tentando não depender de nenhum dos dois polos4. A defesa brasileira da multipolaridade política, comercial e monetária, incluindo a discussão sobre uso de moedas locais entre parceiros do BRICS, caminha justamente na direção oposta às medidas unilaterais associadas à política externa americana recente5. O ponto central do argumento de Kupchan, o de que a força de um país se mede também pelo exemplo institucional que oferece, é o mesmo critério que autoridades brasileiras vêm usando, na prática, para justificar por que vale a pena manter distância de alinhamentos automáticos com qualquer superpotência.
Contraponto
Nem todos os analistas aceitam a moldura de Kupchan sem ressalvas. Uma linha de crítica argumenta que o recuo da promoção da democracia não é, em si, uma ruptura com a tradição americana, mas sim a correção de um exagero: depois de duas décadas de guerras de mudança de regime caras e malsucedidas, um pouco menos de intervencionismo pode ser saudável, inclusive para os próprios países que seriam alvo dessas intervenções. Outra objeção, mais cética, nota que atribuir a potências como os Estados Unidos o papel de "exemplo" para o resto do mundo pressupõe uma centralidade que talvez já não corresponda à realidade multipolar atual, em que Brasil, Índia, Indonésia e outras potências médias constroem legitimidade própria, sem depender de nenhum modelo importado. Sob essa ótica, a pergunta relevante não seria "os Estados Unidos ainda são excepcionais?", mas "por que ainda tratamos essa pergunta como central?"
O que fica da discussão
A discussão sobre o fim do excepcionalismo americano não é, no fundo, sobre saudosismo geopolítico. É sobre uma escolha entre dois modos de exercer influência: pela força, com custos altos e resultados incertos, como mostraram as intervenções do início deste século, ou pelo exemplo, testando se as próprias instituições resistem à pressão antes de recomendar esse caminho a qualquer outro país. O relatório do V-Dem sugere que, em 2026, essa segunda estratégia está mais disponível para países como o Brasil do que para os Estados Unidos. Resta saber se o Brasil vai aproveitar essa janela para consolidar sua própria democracia ou se vai repetir, em escala menor, os mesmos dilemas que hoje afligem Washington.
Perguntas frequentes
O que é o excepcionalismo americano?
É a ideia, presente desde a fundação dos Estados Unidos, de que o país teria uma missão histórica de mudar o mundo servindo de modelo de governo representativo, e não necessariamente por meio de intervenção militar ou imposição direta.
Por que os Estados Unidos deixaram de ser classificados como democracia liberal?
Segundo o Relatório da Democracia 2026 do Instituto V-Dem, o país caiu para a categoria de democracia eleitoral pela primeira vez em mais de cinquenta anos, em razão do enfraquecimento de mecanismos de checagem institucional, da politização de órgãos de fiscalização e da pressão sobre imprensa e Judiciário.
O que é não alinhamento ativo?
É uma estratégia de política externa adotada por países do Sul Global, entre eles o Brasil, que consiste em avaliar cada questão internacional pelo próprio interesse nacional, sem se comprometer automaticamente com nenhuma grande potência.
O Brasil está entre os países que avançam ou recuam em democracia?
De acordo com o V-Dem, o Brasil está entre o grupo reduzido de países classificados como em processo de democratização em 2025, ao lado de Polônia, Botsuana, Guatemala e Maurício, na contramão da tendência global de recuo.
Este artigo foi motivado pelo texto de opinião "The End of American Exceptionalism?", de Charles A. Kupchan, publicado no New York Times em 20 de setembro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido ou traduzido integralmente; trechos foram parafraseados e complementados com reportagem e dados de fontes independentes, listados nas referências abaixo.
Nesta reportagem
Em números
Linha do tempo
- 1630A "cidade sobre a colina" de John Winthrop define a vocação de exemplo
- 1796Washington alerta contra ambições externas excessivas
- 1898Guerra Hispano-Americana e anexação de territórios
- 1917Wilson leva os EUA à Primeira Guerra prometendo espalhar a democracia
- 1945–1991Guerra Fria e vitória pelo exemplo institucional
- 2001–2011Intervenções no Afeganistão, Iraque e Líbia
- Mar. 2026V-Dem rebaixa os EUA a democracia eleitoral
- 24 set. 2026Encontro Trump-Xi na Casa Branca
Glossário
- Excepcionalismo americano
- Crença de que os EUA têm papel histórico único de servir de modelo democrático ao mundo.
- Autocratização
- Processo de erosão gradual de instituições e liberdades democráticas em um país antes mais aberto.
- Não alinhamento ativo
- Estratégia de países do Sul Global de negociar caso a caso com grandes potências, sem se filiar automaticamente a nenhuma.
- BRICS
- Bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, hoje ampliado a outros membros.
Referências
- Charles A. Kupchan, "The End of American Exceptionalism?", The New York Times, Opinião, 20 de setembro de 2026. Disponível em: nytimes.com
- V-Dem Institute, Democracy Report 2026: "Unraveling the Democratic Era?", Universidade de Gotemburgo, março de 2026.
- CEBRI-Revista, "A política exterior no ano inaugural do governo Lula III".
- Cobertura internacional sobre a cúpula Trump-Xi de setembro de 2026 e o encontro previsto na Casa Branca em 24 de setembro.
- Cadernos Adenauer, "(Des)alinhamento e política externa: disputa eleitoral e política externa brasileira", 2026.