Caderno Direito — Advocacia & Tecnologia

Enquanto um relatório global da Deloitte projeta a queda da facturação por horas nos grandes escritórios, o Judiciário e a advocacia brasileiros já regulam, precificam e disputam os termos dessa transição.

Por mais de um século, o tempo foi a unidade de troca da advocacia. Quanto mais horas um escritório dedicava a um caso, maior a fatura — uma lógica tão arraigada que virou sinônimo do próprio ofício. Essa equação começa a se desfazer. Um levantamento internacional recente indica que a fração do trabalho jurídico remunerada por hora deve cair de 72% para 44% nos próximos dois a três anos, à medida que ferramentas de inteligência artificial (IA) executam em minutos tarefas que antes consumiam dias de um associado. No Brasil, o mesmo fenômeno já aparece em normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em tabelas de honorários reformuladas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e em um mercado de legaltechs que triplicou de tamanho em menos de uma década.

O ponto de partida é o relatório The AI Imperative: Reshaping of the Legal Industry, elaborado pela Deloitte Legal e coordenado pelo consultor Richard Punt, publicado em junho de 2026. A pesquisa ouviu 121 líderes jurídicos de departamentos internos de empresas em quatro regiões do mundo — Américas, Ásia-Pacífico, Europa/Oriente Médio/África e Reino Unido e Irlanda — e concluiu que o modelo de precificação baseado em valor entregue tende a suplantar a cobrança por hora nos próximos anos. A publicação espanhola Cinco Días, do grupo El País, foi a primeira a destacar o estudo em língua ibérica, noticiando que 85% dos entrevistados acreditam que a IA vai alterar de forma significativa a maneira como os escritórios definem seus preços[1].

"A consequência estrutural de longo prazo é um afastamento da pirâmide jurídica tradicional em direção a um modelo de diamante mais ágil — com menos vagas de entrada e um estrato intermediário mais amplo de profissionais com competências híbridas." Deloitte Legal, The AI Imperative: Reshaping of the Legal Industry (jun. 2026)

A transformação não se resume a números de faturamento. O relatório da Deloitte projeta que a estrutura piramidal dos grandes escritórios — muitos associados juniores na base, poucos sócios no topo — cede espaço a um formato de "diamante", com menos posições de entrada e mais profissionais especializados no meio da carreira. A automação de tarefas repetitivas, historicamente delegadas a advogados recém-formados como forma de treinamento, levanta uma pergunta que o próprio estudo formula: se a IA assume o trabalho de revisão documental em massa, como a próxima geração desenvolverá o julgamento profissional que a advocacia exige? Como resposta, a consultoria aposta em simulações, rodízios entre áreas e progressão por competências no lugar do acúmulo bruto de horas.

O que muda na advocacia brasileira

No Brasil, a discussão já não é hipotética. Em março de 2025, o CNJ publicou a Resolução nº 615, que estabelece diretrizes de governança, transparência e supervisão humana para o uso de inteligência artificial no Poder Judiciário — da elaboração de minutas à triagem de peças processuais. A norma exige que decisões nunca sejam tomadas de forma inteiramente automatizada, cria o Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário (CNIAJ) e determina que dados sensíveis sejam removidos antes do envio a plataformas externas de IA, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)[3].

Do lado da advocacia privada, a OAB avançou em direção paralela. Seccionais como a do Paraná já disponibilizam tabelas de honorários com calculadoras baseadas em IA, incluindo previsões específicas para pareceres sobre algoritmos e decisões automatizadas — um reconhecimento de que a própria precificação do trabalho jurídico está sendo redesenhada pela tecnologia que o gera[5]. Em junho de 2026, a 1ª Conferência Nacional dos Direitos e Prerrogativas da Advocacia Brasileira, realizada em João Pessoa, dedicou painéis inteiros aos "desafios atuais da advocacia" ligados à IA e à defesa das prerrogativas profissionais diante da automação[4].

Contraponto

Nem todos os operadores do direito veem a mudança de precificação como iminente ou desejável. Críticos do modelo "por valor" argumentam que ele é mais opaco para o cliente do que a hora trabalhada — cuja lógica, por mais imperfeita, ao menos permite auditoria direta do esforço despendido. Há também quem questione a metodologia de relatórios como o da Deloitte: a amostra de 121 executivos jurídicos, concentrada majoritariamente em departamentos internos de grandes empresas e em economias desenvolvidas, pode não capturar a realidade de escritórios de médio e pequeno porte, que respondem pela maior parte da advocacia no Brasil e ainda operam com margens apertadas e adoção tecnológica desigual.

Setores da própria advocacia brasileira também alertam para o risco de que a automação amplie — em vez de reduzir — a concentração do mercado em poucos escritórios com capital para investir em tecnologia, aprofundando a distância entre grandes bancas corporativas e a advocacia autônoma ou de pequeno porte.

Um mercado que já não é marginal

O crescimento das legaltechs brasileiras ajuda a explicar por que a mudança de modelo de negócio deixou de ser tema de nicho. A Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), fundada em 2017 com vinte startups, reúne hoje mais de 600 empresas associadas — um salto superior a 300% em menos de uma década[6]. O setor movimentou cerca de R$ 2 bilhões em investimentos nos últimos dezoito meses, segundo a entidade, em operações que incluem aquisições de empresas de automação documental e assinatura digital por grupos maiores do setor de tecnologia jurídica.

Pesquisas setoriais recentes indicam que mais da metade dos advogados brasileiros — cerca de 55% — já utiliza alguma ferramenta de IA generativa em sua rotina profissional, e que cerca de 47% dos escritórios de médio e grande porte incorporaram a tecnologia a algum fluxo operacional[7]. São números que se aproximam da realidade descrita pelo relatório da Deloitte para o mercado internacional, ainda que a velocidade e a profundidade da adoção variem conforme o porte da banca e a região do país.

O que vem a seguir

A convergência entre regulação do Judiciário, reforma das tabelas de honorários e expansão do mercado de legaltechs sugere que o Brasil não está apenas assistindo à transição descrita pela Deloitte — está, em alguma medida, regulando-a antes mesmo que ela se complete. A Resolução CNJ 615/2025 concedeu aos tribunais um prazo de doze meses para adequação, prazo que se encerra ao longo de 2026, exatamente o período em que o relatório internacional projeta a virada mais acentuada no modelo de precificação dos escritórios.

Fica em aberto, porém, a questão que tanto a Deloitte quanto a advocacia brasileira reconhecem não ter resposta pronta: se o trabalho repetitivo que formava os advogados juniores está sendo absorvido pela máquina, quem — e como — vai formar a próxima geração de profissionais capazes de exercer o julgamento que a automação, por definição, não substitui.

Nota editorial de atribuição: Esta reportagem foi inspirada pela cobertura do jornal Cinco Días (grupo El País) sobre o relatório da Deloitte Legal, disponível em cincodias.elpais.com. O texto acima constitui reportagem e análise originais de O Tecido, com apuração e fontes próprias sobre o cenário jurídico brasileiro, e não reproduz nem traduz integralmente a matéria original.
Ewerton Lopes — Curador Editorial