Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de Setembro, e trinta e quatro anos depois de publicar "O Fim da História e o Último Homem", o cientista político Francis Fukuyama voltou a sentar diante de um microfone para explicar, mais uma vez, o que sua tese nunca disse. Em entrevista recente ao jornalista Ezra Klein, do New York Times, por ocasião do lançamento de suas memórias, "In the Realm of the Last Man", Fukuyama repetiu algo que tem repetido desde 2001: seu livro nunca foi um hino triunfal à vitória definitiva da democracia liberal.1 Era, isso sim, um alerta sobre o tipo de sociedade que restaria depois dessa vitória, e sobre se essa sociedade teria fôlego para durar.
A confusão em torno da tese é hoje quase um gênero jornalístico próprio. A cada atentado, cada guerra, cada ascensão autoritária, alguém escreve a mesma frase: "acho que a história não acabou, afinal". Fukuyama nunca discordaria. O ensaio original de 1989 e o livro de 1992 não previam o fim dos acontecimentos, mas o esgotamento de alternativas sistêmicas à democracia liberal e à economia de mercado como formas de organizar uma sociedade complexa. O que ele de fato argumentava, no entanto, era mais sombrio do que a caricatura triunfalista sugere: essa vitória poderia vir montada sobre uma visão empobrecida da alma humana, incapaz de acomodar o desejo de reconhecimento, de grandeza, de sacrifício por uma causa. E nenhum sistema político que ignore essa parte da natureza humana permaneceria estável por muito tempo.
Thymos: a peça que faltava na engrenagem liberal
O núcleo filosófico do livro vem de um conceito que Fukuyama recupera de Platão, via Hegel: o thymos, a parte da alma que não busca sobrevivência nem prazer, mas reconhecimento. Dessa ideia derivam dois termos que o autor cunhou, isothymia (o desejo de ser reconhecido como igual, que sustenta os direitos e a cidadania liberal) e megalothymia (o desejo de ser reconhecido como superior, que alimenta tanto a ambição criativa quanto o autoritarismo). Uma sociedade liberal bem-sucedida precisa administrar as duas pulsões ao mesmo tempo. Ela garante isothymia através de direitos e eleições, mas precisa encontrar válvulas de escape saudáveis para a megalothymia, sob pena de vê-la se converter em política de dominação.
É esse quadro conceitual que Fukuyama usa para explicar por que o 11 de Setembro não desmentiu sua tese, mas revelou uma face que ela já continha. Os atentados não vieram de uma ideologia econômica alternativa capaz de competir globalmente com o liberalismo, como o comunismo havia sido. Vieram de uma reivindicação de reconhecimento e humilhação, algo que ele já havia identificado como o ponto cego do vocabulário liberal, tradicionalmente mais confortável falando de interesses materiais do que de honra, orgulho ou fé. Na leitura que ele faz hoje, o dano mais duradouro não foi o atentado em si, mas a reação americana a ele: a militarização da política externa, a expansão da vigilância doméstica e, sobretudo, o cinismo que as guerras malsucedidas do Afeganistão e do Iraque deixaram como herança, terreno fértil para o tipo de populismo que levaria Donald Trump ao poder mais de uma década depois.1
O que isso tem a ver com o Brasil
É tentador tratar esse debate como um exercício americano de autoanálise, distante da realidade brasileira. Os números dizem o contrário. O Democracy Report 2026 do V-Dem Institute, referência acadêmica internacional em métricas de qualidade democrática, classifica o Brasil como "democracia eleitoral" e não como "democracia liberal plena". O país tem eleições competitivas e um Índice de Democracia Eleitoral relativamente alto, mas seu Índice de Democracia Liberal permanece abaixo do patamar das democracias liberais consolidadas, puxado para baixo justamente por uma polarização profunda e persistente que tensiona instituições e dificulta a consolidação de normas liberais de freios e contrapesos.2 Essa é praticamente uma descrição técnica do problema que Fukuyama chama, em linguagem filosófica, de crise de reconhecimento: uma sociedade dividida entre grupos que se sentem invisíveis ou desrespeitados pelo outro lado, e que transformam essa sensação em hostilidade às regras do jogo democrático.
Pesquisas de opinião recentes reforçam o diagnóstico. Levantamento do instituto Ipsos-Ipec mostra que 57% dos brasileiros enxergam mais malefícios do que benefícios na polarização política atual, 58% acreditam que ela enfraquece a democracia e 72% dizem se sentir incomodados com o clima do debate público, com reflexos que vão de brigas familiares à autocensura nas redes sociais.3 Não é uma disputa sobre políticas públicas específicas. É, na chave de Fukuyama, uma disputa sobre quem tem o direito de ser visto e ouvido, uma briga por isothymia travestida de debate ideológico.
A ambição sem inimigo
Um dos pontos mais úteis da entrevista, para além do diagnóstico, é a tentativa de resposta. Fukuyama não recomenda nostalgia institucional nem apologia da desordem. Ele defende algo mais específico: um Estado capaz de estabelecer metas razoáveis, como saúde universal ou infraestrutura de transporte, e efetivamente executá-las em prazo aceitável. Ele cita o contraste entre o programa Apollo, que levou os Estados Unidos à Lua em oito anos, e o programa Artemis, anunciado décadas depois e ainda incapaz de repetir o feito. O problema, para ele, não é falta de ambição declarada, mas erosão da capacidade estatal de entregar o que promete, um problema que ele já havia batizado em obras anteriores de "vetocracia": tantos pontos de veto institucional que se tornou difícil governar em qualquer direção, progressista ou conservadora.
Para o leitor brasileiro, a ideia ressoa em terreno conhecido. O país vive, ao mesmo tempo, um paradoxo de desconfiança e recuperação. Dados da OCDE mostram que a confiança da população no governo federal saltou de 26% em 2022 para 38% em 2025, um avanço que coloca o Brasil acima da média latino-americana e mais próximo do patamar da própria OCDE, puxado menos por afinidade partidária e mais pela percepção de que o Estado está entregando serviços com mais capacidade.4 É exatamente o tipo de evidência que sustenta o argumento de Fukuyama: competência administrativa não é uma bandeira ideológica, é a condição prévia para qualquer projeto político, de esquerda ou de direita, sobreviver ao teste da execução.
Contraponto
Nem todos os leitores brasileiros de Fukuyama concordam que sua tese resista bem ao teste latino-americano. Críticos já apontaram, em análises publicadas após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, que o avanço da extrema direita no país contraria diretamente a expectativa de que o liberalismo se consolidaria como horizonte único e sem alternativa depois da Guerra Fria, e que os problemas atribuídos ao capitalismo, como desigualdade e violência, não seriam meros desvios de percurso a serem corrigidos dentro do próprio sistema liberal.5 Para essa leitura, o "fim da história" nunca foi mais do que uma hipótese otimista de um momento histórico específico, o pós-Guerra Fria, e o retorno de projetos autoritários competitivos, inclusive vindos de dentro de sociedades já democráticas, sugere que a história como disputa entre sistemas nunca de fato parou.
China, tecnologia e o horizonte que falta
Fukuyama também revisita, na entrevista, um ponto que vinha amadurecendo havia anos: a possibilidade de que a China represente, pela primeira vez desde a queda da União Soviética, um modelo político genuinamente competitivo com a democracia liberal, não por eleições ou Estado de Direito, mas por um Estado meritocrático e tecnologicamente competente, ainda que sem os freios institucionais do modelo ocidental. Ele reconhece que essa competência está testada por problemas estruturais, como a crise no mercado imobiliário chinês e o desemprego jovem em alta, mas admite que o modelo americano se deteriorou o suficiente para tornar essa comparação relevante, algo impensável havia poucos anos.
A isso soma-se um novo fator ausente em 1992: a inteligência artificial. Fukuyama argumenta que sistemas políticos são, no fundo, tecnologias coletivas para absorver e responder a informação, e que a IA agentiva, na qual seres humanos delegam poder de decisão a sistemas autônomos, pode se tornar uma ameaça tão relevante para a democracia liberal quanto a biotecnologia que ele já havia analisado em livros anteriores. Para sociedades como a brasileira, ainda no início de um debate regulatório sobre inteligência artificial, o aviso chega em tempo de ser levado a sério, e não apenas como nota de rodapé filosófica.
Uma eleição como teste de recuperação
Fukuyama cita como exemplo positivo recente a eleição húngara, na qual o opositor Péter Magyar rompeu com dezesseis anos de governo de Viktor Orbán através de uma coalizão ampla, e não de uma vitória apertada. Ele sugere que eleições continuam sendo o caminho mais direto para reverter capturas autoritárias em sistemas onde o voto ainda é livre e competitivo, algo que descreve como plenamente aplicável ao ciclo eleitoral brasileiro em curso, marcado por alta desconfiança institucional e, ao mesmo tempo, por sinais recentes de recomposição de confiança no Estado.
Para saber mais
O que Francis Fukuyama realmente disse em "O Fim da História e o Último Homem"?
Ele argumentou que, após a Guerra Fria, a democracia liberal havia se tornado a única forma de organização política sem competidores sistêmicos sérios, mas alertou que essa vitória poderia repousar sobre uma visão limitada da natureza humana, incapaz de satisfazer o desejo de reconhecimento e grandeza. O livro está disponível em edição em português (link de afiliado).
Por que o Brasil não é classificado como democracia liberal plena pelo V-Dem?
Porque, apesar de eleições competitivas e liberdades civis razoavelmente garantidas, o país mantém um Índice de Democracia Liberal abaixo do patamar das democracias liberais consolidadas, resultado sobretudo de polarização persistente que tensiona os freios institucionais ao poder.
O 11 de Setembro invalidou a tese do fim da história?
Não segundo o próprio autor. Ele argumenta que o radicalismo islâmico nunca teve capacidade de se tornar uma alternativa sistêmica global ao liberalismo, ao contrário do comunismo. O dano mais duradouro, para ele, veio da reação ocidental aos atentados, não dos atentados em si.