Política · Análise Internacional
Neste inverno europeu de seca extrema, o rio Danúbio devolveu à superfície destroços da Segunda Guerra Mundial: navios de guerra nazistas na Sérvia, uma motocicleta militar na Hungria, uma bomba britânica de 680 quilos na Eslováquia.1 As imagens circularam o mundo como metáfora fácil de um passado que retorna. Mas o alerta mais relevante não está nos destroços enferrujados. Está no leito seco do próprio rio.
É essa a provocação central de "End Times Fascism", livro lançado em 15 de setembro pela jornalista canadense Naomi Klein e pela escritora e ativista Astra Taylor, cofundadora do Debt Collective.2 A obra parte de um argumento incômodo: comparar mecanicamente a extrema direita de hoje ao fascismo do século XX distorce mais do que esclarece. O que está em curso, segundo as autoras, é uma continuação em escala inédita, não uma repetição.
A diferença central é material. O nazismo e o fascismo italiano prometiam às suas bases um futuro concreto: terras confiscadas, empregos, uma nação purificada e próspera depois da vitória final. Já a direita radical contemporânea, formada pela aliança conflituosa entre fundamentalistas religiosos, tecnoligarcas do Vale do Silício e etnonacionalistas militantes, não oferece reconstrução alguma. Oferece apenas um lugar garantido no bunker, para quem tiver dinheiro, fé ou passaporte certo, enquanto o resto do mundo se organiza para o colapso.
Munique, Sajônia-Anhalt e o fim do cordão sanitário
Os sinais dessa convergência já não são discretos. Em fevereiro de 2025, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente americano J. D. Vance criticou publicamente o cordão sanitário político que isolava partidos de extrema direita na Europa e se reuniu com dirigentes do partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD).1 O resultado apareceu nas urnas neste mês: em 6 de setembro, a AfD venceu a eleição estadual da Saxônia-Anhalt com 43,8% dos votos, mais que o dobro do resultado obtido em 2021, deixando a União Democrata-Cristã do chanceler Friedrich Merz em segundo lugar, com apenas 17,2%.3
O padrão se repete fora da Alemanha. O Partido da Liberdade da Áustria, fundado em 1956 por um ex-funcionário nazista, vive o momento de maior popularidade de sua história. Na Espanha, o líder do Vox, Santiago Abascal, atribuiu os incêndios florestais do verão ao que chamou de "fanatismo climático" e, em seguida, classificou como "exército invasor" milhares de migrantes que atravessaram para Ceuta, um discurso reforçado por Donald Trump e pelo presidente argentino Javier Milei.1
O fascismo sempre carrega um complexo de Apocalipse. A diferença é que a versão atual já nasceu sabendo da bomba atômica, da crise climática e da concentração de poder tecnológico que a geração de Hitler e Mussolini não conheceu.
Klein e Taylor recuperam um argumento do filósofo germano-judeu Günther Anders, que escreveu, ainda na década de 1950, que a humanidade havia se tornado a primeira geração capaz de provocar sua própria extinção total. É essa dimensão planetária, ausente no fascismo histórico, que separa o presente do passado: falências bancárias e crises de emprego já não são o único pano de fundo. Somam-se o aquecimento global, a inteligência artificial de consumo energético massivo e a concentração de riqueza em nível individual sem precedente histórico.1
Contraponto
Nem todos os analistas aceitam a moldura de "aliança" coesa entre religiosos, tecnoempresários e etnonacionalistas. Cientistas políticos citados pela crítica especializada da obra de Klein e Taylor apontam que os três grupos têm agendas frequentemente incompatíveis entre si (a pauta migratória europeia pouco tem a ver com a desregulamentação de inteligência artificial em Palo Alto) e que tratar esse alinhamento como estratégia deliberada pode superestimar sua coordenação, quando muitas vezes se trata de conveniência política pontual, não de projeto unificado.4
Onde o Brasil aparece como exceção
É nesse cenário que o Brasil surge como um contraponto estatístico incomum. O Relatório da Democracia 2026, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, colocou o país pela primeira vez à frente dos Estados Unidos em um ranking global de qualidade democrática: 28ª posição entre 179 países, contra a 51ª posição americana, a maior queda anual já registrada nos indicadores democráticos dos Estados Unidos.5
O relatório atribui a recuperação brasileira à mobilização da sociedade civil durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022) e à reversão do quadro antes de uma ruptura completa do regime. Bolsonaro segue impedido de ocupar cargos públicos após condenação por abuso de poder e tentativa de golpe de Estado. O próprio V-Dem, porém, faz a ressalva de que a sociedade brasileira "continua profundamente polarizada" e que as eleições de 2026 serão decisivas.6,7
Pesquisas do Datafolha confirmam essa leitura: 74% dos brasileiros se declaram petistas ou bolsonaristas, e 46% do eleitorado se posiciona à direita ou centro-direita, contra 29% à esquerda ou centro-esquerda.8 O Brasil não escapou da polarização que alimenta o avanço da extrema direita em outros países. Escapou, até aqui, do desfecho autoritário que essa polarização produziu alhures, um dado que interessa tanto a analistas de risco político quanto a qualquer leitor tentando entender por que certas democracias resistem e outras não.
Klein e Taylor terminam o livro evocando o precedente do New Deal americano nos anos 1930: Franklin Roosevelt argumentou que a democracia desaparece não porque os cidadãos deixam de gostar dela, mas porque se cansam da insegurança e do desemprego, e preferem sacrificar a liberdade na esperança de ter o que comer. A lição, segundo as autoras, permanece válida, embora as causas materiais de hoje sejam distintas: mudança climática, armas nucleares, inteligência artificial e riqueza sem controle.1
Perguntas frequentes
O que é o "fascismo do fim dos tempos"?
É o termo cunhado por Naomi Klein e Astra Taylor para descrever a aliança atual entre fundamentalistas religiosos, tecnoligarcas e etnonacionalistas, que não promete reconstrução de um futuro comum, mas sobrevivência isolada de pequenos grupos diante do colapso climático, tecnológico e institucional.
Quem são Naomi Klein e Astra Taylor?
Naomi Klein é jornalista e autora de livros como "A Doutrina do Choque" e "Duplo". Astra Taylor é escritora, documentarista e cofundadora do Debt Collective, organização americana de ativismo em torno de dívidas. Juntas, assinam "End Times Fascism", lançado em 15 de setembro de 2026.
O que aconteceu na eleição da Saxônia-Anhalt?
Em 6 de setembro de 2026, o partido de extrema direita AfD venceu a eleição estadual com 43,8% dos votos, resultado recorde que mais que dobrou sua votação de 2021 e derrubou a União Democrata-Cristã, do chanceler Friedrich Merz, para segundo lugar.
Por que o Brasil aparece como contraponto nesse cenário?
O Relatório da Democracia 2026 do Instituto V-Dem colocou o Brasil na 28ª posição de um ranking de 179 países, à frente dos Estados Unidos (51ª posição) pela primeira vez, atribuindo essa recuperação à mobilização da sociedade civil brasileira durante o governo Bolsonaro.
A polarização política no Brasil está relacionada ao avanço da extrema direita global?
Parcialmente. Pesquisas do Datafolha mostram que 74% dos brasileiros se identificam como petistas ou bolsonaristas, e a maioria do eleitorado se declara de direita ou centro-direita. Ainda assim, o país reverteu um processo de erosão democrática que, em outros contextos, culminou em retrocessos autoritários mais profundos.