Neste verão europeu, o calor extremo e a estiagem baixaram tanto o nível do rio Danúbio que a água começou a devolver os segredos que escondia havia oito décadas. Na Sérvia, ao menos vinte embarcações nazistas afundadas na retirada de 1944 voltaram à superfície, algumas ainda com munição não detonada. Na Hungria, apareceu uma motocicleta militar alemã coberta de lama seca. Na Eslováquia, moradores encontraram uma bomba de 680 quilos lançada pela Real Força Aérea britânica, submersa por mais de 80 anos e detonada sob rígido controle das autoridades locais1.
Para os jornalistas e ativistas canadenses Naomi Klein e Astra Taylor, essas imagens funcionam como algo mais do que curiosidade histórica. Em ensaio publicado pelo Financial Times, elas descrevem o fenômeno como uma metáfora quase literal do aforismo do escritor William Faulkner segundo o qual o passado nunca morre, nem sequer passa1. A dupla é autora do livro "End Times Fascism" (algo como "Fascismo do fim dos tempos"), lançado em 2026, que tenta explicar por que o extremismo político volta a crescer justamente quando o planeta enfrenta crises climáticas, tecnológicas e demográficas sem precedentes.
Uma aliança de três frentes
Segundo as autoras, o que se vê hoje não é uma simples repetição do fascismo do século 20, mas uma versão adaptada às ameaças do presente: aquecimento global, inteligência artificial e concentração de riqueza em nível planetário1. Hitler e Mussolini morreram antes de testemunhar a era nuclear ou de imaginar que um único cidadão privado pudesse acumular mais poder tecnológico do que a maioria dos países. Os líderes de extrema direita atuais, ao contrário, cresceram sob essas condições e incorporaram esse cenário ao próprio discurso político.
O texto batiza essa configuração de "fascismo do fim dos tempos" e descreve uma coalizão fragmentada, formada por três grupos que nem sempre concordam entre si: fundamentalistas religiosos que aguardam um evento apocalíptico como cumprimento de profecia, aceleracionistas do setor de tecnologia que veem o colapso como etapa necessária para um salto evolutivo, e nacionalistas étnicos que tratam a crise migratória e climática como justificativa para o fechamento de fronteiras1.
Nenhum desses grupos, argumentam Klein e Taylor, oferece um projeto de futuro compartilhado. Em vez disso, cada um imagina uma forma distinta de sobrevivência isolada diante do colapso: fusão com máquinas "superinteligentes" para escapar da chamada "subclasse permanente" citada por programadores do Vale do Silício, um Estado-nação etnicamente purificado e fortificado contra os mais pobres, ou, para os mais ricos, um assento em um foguete rumo a Marte com a promessa de tornar a humanidade "multiplanetária"1.
Sinais concretos da tese
O ensaio ganhou repercussão justamente por associar essa teoria a fatos recentes. Em setembro de 2026, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou em entrevista a um podcast evangélico que estaria "tudo bem" se seu trabalho político acabasse por antecipar o que ele chamou de "fim dos tempos", acrescentando não se surpreender se o Anticristo já estivesse "caminhando entre nós"2. Vance também classificou de "satânico" o uso crescente de inteligência artificial em relações humanas, como aconselhamento conjugal automatizado3.
Meses antes, o bilionário da tecnologia Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir e mentor político de Vance, ministrou uma série de palestras privadas sobre o Anticristo em Roma, a poucos metros do Vaticano. Segundo relatos da imprensa internacional, Thiel defende que a figura bíblica pode se manifestar como um sistema de governo global que exploraria os medos da humanidade em relação à inteligência artificial, às mudanças climáticas e às armas nucleares para concentrar poder4. Duas universidades católicas associadas ao evento se distanciaram publicamente da iniciativa diante da repercussão negativa.
No campo do nacionalismo étnico, o exemplo mais citado por analistas europeus é o apoio declarado de Elon Musk ao partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD). Em um comício em Halle, no leste alemão, Musk discursou por videoconferência pedindo aos alemães que abandonassem o que chamou de "culpa pelo passado" e defendendo orgulho da "cultura alemã" sem diluição pelo multiculturalismo5. O episódio ocorreu dias depois de o empresário fazer um gesto amplamente interpretado como uma saudação nazista durante a posse de Donald Trump, o que gerou condenação de governos europeus.
Contraponto
Nem todos os pesquisadores endossam o termo "fascismo do fim dos tempos". Historiadores especializados em fascismo clássico, como os que estudam a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler, costumam alertar que rotular fenômenos contemporâneos, ainda que autoritários, como "fascismo" pode diluir o rigor histórico do conceito e transformar o termo em um rótulo genérico de acusação política. Para essa corrente, expressões religiosas sobre o "fim dos tempos" e discursos tecno-otimistas sobre colapso civilizacional, embora preocupantes, não constituem necessariamente um movimento político unificado e coordenado, mas sim tendências culturais paralelas que se sobrepõem de forma ocasional.
Por que isso interessa ao debate político global
A força do argumento de Klein e Taylor está menos na precisão do rótulo do que no diagnóstico do momento: partidos nacionalistas crescem simultaneamente em democracias consolidadas, líderes políticos citam profecias religiosas em entrevistas públicas, e alguns dos homens mais ricos do planeta financiam projetos de fuga para outros planetas ou bunkers privados, ao mesmo tempo em que patrocinam campanhas contra políticas climáticas. Trata-se de um padrão observado por cientistas políticos em diferentes continentes, da Europa aos Estados Unidos, e que tem eco também em discussões sobre polarização e desinformação no Brasil e na América Latina.
Para o público leitor de política, o episódio dos navios nazistas reemergindo no Danúbio funciona como símbolo duplo: de um lado, prova concreta de que o aquecimento global já altera paisagens e revela literalmente vestígios de regimes totalitários; de outro, lembrete de que a história recente mostra como discursos de exceção, medo e purificação nacional podem se consolidar rapidamente quando encontram crise econômica, ambiental ou social como combustível.
Perguntas frequentes
O que significa "fascismo do fim dos tempos"?
É um termo cunhado pelas autoras Naomi Klein e Astra Taylor para descrever uma aliança fragmentada entre fundamentalistas religiosos, tecnólogos aceleracionistas e nacionalistas étnicos, unidos pela crença de que um colapso civilizacional é inevitável e pela intenção de se proteger dele, em vez de evitá-lo.
Quais são as três frentes dessa aliança?
Fundamentalistas religiosos que interpretam a crise atual como cumprimento de profecia bíblica, tecnólogos do Vale do Silício que veem o colapso como etapa de um salto tecnológico, e nacionalistas étnicos que usam a crise climática e migratória para justificar fechamento de fronteiras.
Por que os navios nazistas no rio Danúbio viraram símbolo desse debate?
A seca extrema causada pelo aquecimento global expôs dezenas de embarcações nazistas afundadas em 1944, o que analistas usaram como metáfora de como discursos e símbolos de regimes totalitários passados voltam a emergir em contextos de crise ambiental e social.
Esse conceito é aceito por todos os historiadores?
Não. Parte dos historiadores do fascismo clássico questiona o uso do termo para descrever fenômenos contemporâneos, argumentando que isso pode enfraquecer o rigor histórico do conceito original.