Quando Javier Milei tomou posse, no fim de 2023, a Argentina vinha de décadas de protecionismo, controle cambial e inflação crônica. O diagnóstico do novo presidente era direto: o país havia se fechado ao mundo e pagava por isso com estagnação. Passados quase três anos, a receita aplicada por seu governo (corte profundo de gastos públicos, seguido de abertura comercial e valorização artificial do peso para conter os preços) reduziu a inflação mensal a patamares muito menores que os herdados do governo anterior. Mas o mesmo mecanismo que ajudou a segurar a inflação encareceu a produção argentina em dólares, tornou as importações mais baratas que os produtos nacionais e empurrou setores inteiros da indústria para o fechamento.1
A reportagem Milei's great free trade experiment, publicada pelo Financial Times, descreve esse dilema com precisão: o governo aposta que a destruição de empresas pouco competitivas, na linguagem do economista Joseph Schumpeter que Milei cita com frequência, abrirá caminho para um novo modelo exportador baseado em mineração, petróleo e gás, com polos de crescimento longe de Buenos Aires. O problema é o intervalo entre a destruição e a criação.1 Enquanto a nova base exportadora ainda amadurece em regiões como Vaca Muerta, na Patagônia, e no norte mineiro, a indústria tradicional concentrada na região metropolitana de Buenos Aires, onde vive cerca de 40% do eleitorado argentino, perde fábricas, empregos e renda.1
O câmbio que devia conter a inflação virou o problema
O núcleo da política econômica de Milei sempre foi a inflação. Ao assumir, ele prometeu dolarizar a economia e fechar o Banco Central. Na prática, optou por um caminho mais gradual: ajuste fiscal drástico combinado com desvalorizações mensais programadas do peso, e depois com uma banda cambial administrada pelo Banco Central. O resultado imediato foi elogiado por bancos e organismos internacionais: a inflação, que passava de 200% ao ano em 2023, recuou para a casa de um dígito mensal ao longo de 2025.
O efeito colateral é que, para segurar os preços, o peso se valorizou em termos reais frente ao dólar. Isso tornou os produtos importados relativamente mais baratos e a produção local, cujos custos em pesos não caíram na mesma proporção, menos competitiva tanto no mercado interno quanto na exportação. É esse descompasso cambial, e não apenas a abertura comercial em si, que sindicalistas e empresários apontam como a raiz da onda de fechamentos.
Fábricas fecham, empregos somem
Os números do biênio 2024-2025 mostram a extensão do problema. Levantamento da consultoria Audemus, divulgado em março de 2026 e reproduzido pelo jornal argentino Perfil, apontou retração média de 7,9% na indústria no período, uma das piores quedas do mundo no intervalo, com o fechamento de 2.436 empresas e a perda de quase 73 mil empregos formais.2
O setor de autopeças ilustra o mecanismo. Cerca de 5 mil trabalhadores, um décimo da categoria, foram demitidos em um ano, enquanto a produção de veículos caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 e as importações de componentes chineses saltaram mais de 80%.3 Multinacionais como a sueca SKF e a americana Dana reduziram ou encerraram operações no país, e a produção de picapes da Stellantis, projetada em 27 mil unidades para 2026, deve fechar o ano perto de 16.500, levando a empresa a suspender contratos temporariamente.4
O caso mais simbólico é o da Whirlpool. Dona das marcas Brastemp e Consul no Brasil, a companhia encerrou a fábrica de Pilar, na província de Buenos Aires, e transferiu a produção para a unidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, em operação avaliada em cerca de US$ 36,7 milhões e formalizada em abril de 2026. Em 2025, a Whirlpool importou 67 mil máquinas de lavar para o mercado argentino, mais que o dobro do volume de 2023, enquanto as compras de insumos para produção local no país praticamente zeraram nos primeiros meses de 2026.5 A relocalização de parte dessa cadeia para o Brasil é um efeito direto, e pouco discutido no debate interno argentino, de como a política cambial de um vizinho pode redesenhar investimentos na região.
A espiral de renda e o desgaste político
O argumento levantado por sindicatos e setores industriais argentinos, e que resume a crítica central ao modelo, é o de um círculo vicioso: o câmbio valorizado encarece a produção nacional em dólares, empresas fecham ou demitem, o desemprego e a informalidade sobem, a renda disponível cai, o consumo interno se retrai ainda mais, e a pressão sobre as empresas remanescentes aumenta. A reportagem do Financial Times registra esse quadro ao descrever lojas de roupas em liquidação total em Buenos Aires e o desaparecimento de pedidos relatado por empresários do setor têxtil, um dos mais afetados pela concorrência de importados sem o desmonte prévio da carga tributária herdada de governos peronistas.1
Esse desgaste econômico tem preço eleitoral. Pesquisas da AtlasIntel, em parceria com a Bloomberg, mostraram a aprovação de Milei caindo para cerca de 35% em abril de 2026, os piores números do mandato, associados também a escândalos de corrupção que atingiram sua imagem "anticasta". Em maio, o índice recuperou parte do terreno perdido, para cerca de 40%, à medida que a inflação voltou a desacelerar, mas o presidente segue atrás de potenciais adversários de esquerda e de centro-direita nas simulações para 2027.6 O discurso nacionalista sobre as Ilhas Malvinas feito por Milei na semana anterior à publicação da reportagem do FT, recuperando uma bandeira historicamente popular na Argentina, foi lido por analistas como sinal de que o governo busca reforçar sua base diante do desgaste econômico.1
Contraponto
Nem todos os indicadores sustentam o diagnóstico de fracasso cambial. O Fundo Monetário Internacional informou, em junho de 2026, que a Argentina estava próxima de cumprir pela primeira vez sua meta de reservas internacionais líquidas, depois de o Banco Central comprar cerca de US$ 10 bilhões no mercado ao longo do primeiro semestre, a um ritmo declarado por Caputo de aproximadamente US$ 100 milhões por dia.7
Economistas próximos ao governo, como Juan Carlos De Pablo, contestam a leitura de que o Banco Central esteja sofrendo artificialmente para sustentar o peso, argumentando que o regime de banda cambial, com intervenção apenas nos extremos, reflete um mercado genuinamente mais equilibrado que o controle cambial rígido dos governos anteriores.8 Do lado externo, o próprio FMI pressiona por uma desvalorização mais acentuada em 2026 para acelerar o acúmulo de reservas, o que sugere que o organismo também vê o câmbio como relativamente valorizado, mas trata isso como ajuste técnico, não como fracasso do programa.9
O paralelo com o Brasil
Para o leitor brasileiro, o episódio da Whirlpool funciona como termômetro direto. A migração de produção da Argentina para Rio Claro não decorre de uma vantagem estrutural brasileira, mas de um desequilíbrio cambial pontual do lado argentino. Especialistas em comércio exterior costumam alertar que esse tipo de movimento é reversível: caso o governo argentino seja forçado a uma desvalorização mais forte, como o próprio FMI vem sugerindo, a equação de custos pode se inverter rapidamente, e com ela o interesse das multinacionais em manter capacidade instalada no Brasil pode arrefecer. A comparação entre o desempenho industrial dos dois países no biênio (crescimento no Brasil e no México contra retração acentuada na Argentina) reforça como escolhas de política cambial, mais do que abertura comercial em si, pesam sobre a competitividade regional.10
O que está em jogo até 2027
Milei aposta que o tempo jogará a favor do novo modelo exportador. Se os polos de mineração, petróleo e gás na Patagônia e no norte do país gerarem renda suficiente para compensar, ainda que parcialmente, a perda de empregos industriais na região metropolitana, o governo terá argumentos econômicos concretos para a disputa presidencial de 2027. Se a espiral de fechamento de empresas e perda de renda continuar antes que esse novo eixo produtivo amadureça, o desgaste político já visível nas pesquisas tende a se aprofundar, e o próprio ajuste cambial exigido pelo FMI pode se tornar o próximo ponto de tensão entre o governo e sua base eleitoral.
Perguntas frequentes
Porque a inflação caiu em parte graças à valorização do peso, e esse mesmo mecanismo cambial encareceu a produção argentina em dólares, tornando importados mais competitivos que produtos locais e provocando fechamento de fábricas em setores como eletrodomésticos, autopeças e têxtil.
A Whirlpool encerrou a produção na planta de Pilar, província de Buenos Aires, e transferiu a operação para a fábrica de Rio Claro, no interior de São Paulo, formalizando a decisão em abril de 2026.
Pesquisas da AtlasIntel/Bloomberg mostraram queda da aprovação para cerca de 35% em abril de 2026, atribuída tanto a escândalos de corrupção quanto à deterioração da atividade industrial e do consumo, com recuperação parcial para perto de 40% em maio, à medida que a inflação voltou a desacelerar.
Não de forma unânime. O governo aponta avanços fiscais e o cumprimento, em 2026, de metas de reservas com o FMI como sinais de sucesso, enquanto críticos apontam a desindustrialização, a queda de renda e o desgaste eleitoral como custos ainda não resolvidos do modelo.
Referências
- Financial Times. Dyer, G.; Nugent, C. "Milei's great free trade experiment". Disponível em: ft.com/content/75b94026-82a1-449a-acf2-f04dcec55d81.
- Brasil 247. "Milei provoca catástrofe e dizima a indústria argentina", com base em relatório da consultoria Audemus publicado pelo jornal Perfil.
- Reportagem sobre a crise na indústria de autopeças argentina sob o governo Milei.
- Agência Brasil (EBC). "Asfixiada, indústria argentina acende o debate sobre o modelo de Milei".
- Revista Fórum / CONTEE. Reportagens sobre o fechamento da fábrica da Whirlpool em Pilar e a transferência de produção para Rio Claro (SP).
- Bloomberg Línea / AtlasIntel. "Aprovação de Milei sobe a 40% após atingir as mínimas em seu governo"; Brasil de Fato/Opera Mundi sobre a queda de aprovação em abril de 2026.
- Reuters / Infobae. Sobre o cumprimento da meta de reservas líquidas do FMI pela Argentina em 2026.
- Seu Dinheiro. Entrevista com o economista Juan Carlos De Pablo sobre a política cambial argentina.
- Segundo Enfoque. "El acuerdo con el FMI en 2026: qué implica para el dólar, las reservas y la economía argentina".
- Vermelho / dados comparativos de desempenho industrial entre Argentina, Brasil e México.