Este artigo parte da reportagem de Patricia Rodríguez publicada pelo El País em 28 de setembro de 2026. O texto não é tradução: as informações atribuídas ao jornal espanhol estão creditadas, e a análise do contexto brasileiro foi desenvolvida pelo O Tecido com base em fontes independentes.

Durante boa parte do século 20, a indústria da beleza vendeu às mulheres uma promessa simples: esconder o tempo. O inimigo tinha endereço no rosto, e se chamava ruga, flacidez, mancha. Em 2026, o vocabulário é outro. Cremes, suplementos, clínicas e até hotéis passaram a falar em "longevidade", "proaging" e "slowaging". A mudança de linguagem é real. A questão é saber se ela desmontou o etarismo ou apenas lhe deu uma roupa mais sofisticada. É essa a pergunta que atravessa reportagem recente do jornal espanhol El País1, e ela ganha contornos próprios quando trazida para o Brasil, um país que envelhece depressa e que está entre os que mais recorrem à cirurgia estética no mundo.

Da ruga ao biomarcador: o que mudou no discurso

Segundo o El País, a consultoria Euromonitor apontou a longevidade saudável como um dos grandes temas de consumo para 2026, e o termo passou a colar em quase tudo: medicina regenerativa, dietas, rotinas de exercício, massagens, hospedagem e clínicas de cirurgia plástica1. Centros que antes vendiam emagrecimento reformularam o cardápio com programas caros para "retardar a velhice", baseados em protocolos de solidez científica variável. A indústria cosmética, por sua vez, vem aposentando o rótulo "antiidade". A atriz Demi Moore, protagonista do filme A Substância (2024), sobre uma mulher que se injeta um soro rejuvenescedor, virou garota-propaganda de uma linha de cremes batizada com a palavra longevidade.

Ouvida pelo jornal, a jornalista Carmen Lanchares, que dirigiu a seção de beleza da Vogue espanhola por 22 anos, resume a virada: quando começou a escrever, só interessavam rugas e flacidez; hoje o discurso incorpora saúde e bem-estar, embora os sinais da idade continuem sendo lidos como feios. Ela reconhece o peso do marketing, mas lembra que as marcas passaram a incorporar avanços reais da biotecnologia1.

Há também um motor econômico evidente. A reportagem cita dados do Fórum Econômico Mundial segundo os quais as pessoas com mais de 60 anos são cerca de 15% da população mundial, mas respondem por 27% do consumo, proporção que deve dobrar até 20361. Quando um grupo ganha poder de compra, a linguagem dirigida a ele se ajusta. Isso não significa, por si só, que os valores por trás dela tenham mudado.

Mais presentes nas imagens, e cada vez mais jovens

A pesquisadora Olga Moreno, que coordena na Universidade de Sevilha um grupo de estudos sobre etarismo e linguagem, formula a dúvida central: conceitos como proaging e slowaging apresentam o envelhecimento como algo natural, mas resta saber se representam ruptura com o ideal de juventude ou apenas uma versão mais amável dele1.

O paradoxo aparece nas imagens que circulam todos os dias. Há mais mulheres maduras em campanhas e tapetes vermelhos, mas elas parecem cada vez mais jovens. Para Julia Twigg, professora emérita da Universidade de Kent, isso amplia a visibilidade de mulheres que tendiam a desaparecer na meia-idade. O problema, observa ela, é que essas figuras são excepcionais, seja pela beleza, seja pelo acesso a intervenções caríssimas, e essa aparência aprimorada funciona cada vez mais como marcador de classe social1. O contraste é com campanhas de uma década atrás, que colocaram em destaque mulheres de cabelos brancos e rugas visíveis, como a escritora Joan Didion e a ícone de moda Iris Apfel.

O El País recupera um perfil de 1930 que elogiava a atriz Gloria Swanson por "envelhecer bem", ao contrário de colegas que lutavam de modo evidente contra o tempo. Swanson estava prestes a completar 31 anos1. Quase um século depois, a idade do julgamento dobrou, mas a pressão sobre a forma de envelhecer permaneceu.

A idade em que se recebe o veredito dobrou em um século. O tribunal continua o mesmo.

Leitura do O Tecido

Quando envelhecer vira problema de engenharia

A reportagem identifica uma segunda frente, mais masculina e mais barulhenta. Entre magnatas e biohackers do Vale do Silício, ganhou força a visão transumanista de que a velhice não é inevitável, e sim um defeito a ser corrigido com tecnologia de ponta e rotinas de autocuidado quase militares. Elon Musk declarou em Davos que o envelhecimento é um problema solucionável. O empresário Bryan Johnson, símbolo desse movimento, chegou a receber plasma do filho adolescente. Peter Thiel investe na área desde 2006, Jeff Bezos financia a Altos Labs e Sam Altman aplicou recursos na Retro Biosciences1.

Entre os homens, observa o jornal, a ansiedade com a idade se expressa menos pela aparência e mais pela busca de energia e desempenho, o que ajuda a explicar a febre das academias. Por trás das duas frentes, a cosmética feminina e o biohacking masculino, há uma premissa comum: a de que envelhecer bem é resultado de escolhas individuais, boas ou más.

Os dados brasileiros ajudam a relativizar essa premissa. Ao divulgar as Tábuas de Mortalidade de 2024, o IBGE atribuiu o ganho de longevidade no país ao aumento da renda, da escolaridade e do acesso a saneamento adequado, além da queda da mortalidade, conforme reportagem do Estadão Conteúdo3. São determinantes coletivos, que nenhum suplemento substitui.

O Brasil diante do espelho

Há uma coincidência reveladora. A fatia de pessoas com 60 anos ou mais citada para o mundo, em torno de 15%, é praticamente a mesma do Brasil. O Censo 2022 contou 32,1 milhões de idosos, ou 15,6% da população, contra 10,8% em 2010. O índice de envelhecimento saltou de 44,8 para 80 idosos a cada 100 crianças de até 14 anos. E a velhice brasileira é majoritariamente feminina: as mulheres são 55,7% desse grupo2.

Elas também vivem mais. Em 2024, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos, com 79,9 anos para as mulheres e 73,3 para os homens. Para quem já completou 60 anos, a sobrevida estimada é de 24,2 anos entre as mulheres e 20,8 entre os homens3.

Homens Mulheres 42,9 48,3 59,6 65,7 67,3 75,1 73,3 79,9 1940 1980 2000 2024 Expectativa de vida ao nascer (anos)
Expectativa de vida ao nascer no Brasil, por sexo. A vantagem feminina, de 5,4 anos em 1940, chegou a 6,6 anos em 2024. Fonte: IBGE, Tábuas Completas de Mortalidade.

Ao mesmo tempo, o país ocupa posição de destaque no mercado da aparência. Segundo a pesquisa global da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil foi em 2024 o país com mais cirurgias estéticas no mundo, cerca de 2,35 milhões, e o segundo em total de procedimentos, com aproximadamente 3,1 milhões somando os não cirúrgicos. A cirurgia de pálpebras, típica do rejuvenescimento facial, aparece entre as três mais realizadas no país, e a toxina botulínica lidera entre os procedimentos não cirúrgicos4. Os números da ISAPS não permitem afirmar que o público mais velho seja o principal motor dessa demanda. Mas indicam um terreno fértil para que o vocabulário da longevidade seja convertido em produto.

O resultado é uma combinação particular: uma população que envelhece em ritmo acelerado, com maioria feminina entre os idosos, inserida em uma cultura na qual a intervenção estética é amplamente normalizada. É exatamente o cenário em que o risco apontado pelas pesquisadoras europeias, o de a "boa aparência na velhice" virar marca de classe, pesa mais.

Longevidade de poucos ou velhice de muitos

A voz mais incisiva da reportagem é a de Vânia de la Fuente, médica e antropóloga que coordenou em 2021 a campanha mundial da OMS contra o etarismo. Ela valoriza a atenção crescente ao tema, mas teme que a conversa seja apropriada por uma visão elitista e desproporcionalmente masculina. Aponta dois riscos: trocar a pergunta sobre como garantir uma boa velhice à população pela pergunta sobre como otimizar a vida de poucos; e deixar que homens com enorme poder econômico definam uma agenda que afeta sobretudo as mulheres, que vivem mais e trabalham há décadas nesse campo. Para ela, importa menos quantos anos se somam à vida e mais em que condições serão vividos, com saúde, vínculos, propósito, segurança econômica e cuidado1.

O diagnóstico conversa com o Relatório mundial sobre o idadismo, publicado pela OMS e outras agências da ONU em 2021. Com base em pesquisa com mais de 83 mil pessoas em 57 países, o documento estimou que uma em cada duas tinha atitudes moderada ou altamente discriminatórias em relação à idade, com efeitos sobre a saúde física e mental dos idosos5.

No Brasil, a resposta institucional mais próxima dessa visão coletiva é a Política Nacional de Cuidados, criada pela Lei nº 15.069, de dezembro de 2024. A norma reconhece o direito a ser cuidado, a cuidar e ao autocuidado, inclui entre seu público prioritário as pessoas idosas que precisam de apoio no dia a dia e os cuidadores, remunerados ou não, e prevê a corresponsabilidade entre Estado, famílias, setor privado e sociedade6. Em um país onde o cuidado recai historicamente sobre filhas, esposas e netas, a política toca exatamente o ponto que o debate sobre longevidade de luxo deixa de fora.

Contraponto: o novo discurso tem méritos

Seria injusto reduzir a virada da longevidade a marketing. Deslocar o foco da ruga para a saúde pode estimular hábitos com benefício real para a funcionalidade na velhice, como atividade física, fortalecimento muscular e sono regular. A própria Julia Twigg reconhece que a maior presença de mulheres maduras nas imagens, ainda que idealizadas, amplia um espaço de visibilidade antes negado1. E o capital privado que hoje financia laboratórios de biologia do envelhecimento pode produzir conhecimento que, no longo prazo, beneficie sistemas públicos de saúde.

O ponto de atenção não está na ciência em si, mas em quem define as prioridades e em quem terá acesso aos resultados. A mesma tecnologia pode servir à otimização de uma elite ou à redução de incapacidades na população. Essa escolha é política, não biológica.

O que observar daqui em diante

Três movimentos merecem acompanhamento. O primeiro é a execução da Política Nacional de Cuidados, que depende de um plano nacional com metas, indicadores e orçamento para sair do papel. O segundo são os próximos dados da ISAPS, cuja pesquisa referente a 2025 já teve a coleta encerrada e está em análise, segundo a própria entidade, e que permitirão ver se o apelo da "longevidade" alterou o perfil dos procedimentos. O terceiro é a forma como produtos vendidos sob o selo da longevidade anunciam seus benefícios: quando a promessa migra da estética para a saúde, a exigência de comprovação deveria subir na mesma medida.

O vocabulário mudou. O desafio brasileiro é garantir que ele não sirva apenas para vender a poucos o que deveria ser assegurado a muitos: envelhecer com saúde, renda, companhia e cuidado.

Perguntas frequentes

O que é etarismo?

Etarismo, também chamado de idadismo pela Organização Mundial da Saúde, é o conjunto de estereótipos, preconceitos e discriminações baseados na idade. Segundo o relatório mundial da OMS de 2021, uma em cada duas pessoas no mundo tem atitudes moderada ou altamente discriminatórias contra pessoas idosas.

Qual a diferença entre antiaging, proaging e slowaging?

Antiaging trata o envelhecimento como algo a ser combatido e escondido. Proaging propõe aceitar o envelhecimento e cuidar do corpo ao longo dele. Slowaging sugere desacelerar o processo com hábitos e tratamentos. Pesquisadores do etarismo questionam se os dois últimos rompem de fato com o ideal de juventude ou apenas o reformulam de modo mais gentil.

Quantos idosos há no Brasil?

O Censo 2022 do IBGE contou 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, 15,6% da população, contra 10,8% em 2010. O índice de envelhecimento chegou a 80 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, e as mulheres são 55,7% da população idosa.

Por que especialistas criticam o discurso da longevidade do Vale do Silício?

Porque ele trata o envelhecimento como problema individual a ser corrigido com tecnologia cara, concentra a agenda em homens com grande poder econômico e desloca a atenção de fatores coletivos, como renda, cuidado, vínculos sociais e acesso à saúde, que determinam a qualidade da velhice da maioria.

O que é a Política Nacional de Cuidados?

É a política criada pela Lei nº 15.069/2024, que reconhece o direito de ser cuidado, de cuidar e ao autocuidado. Tem entre seu público prioritário pessoas idosas que precisam de apoio nas atividades cotidianas e os cuidadores, e prevê corresponsabilidade entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido