Opinião · Sociedade & Migração
Um artigo recente do jornal espanhol El País propõe uma leitura incômoda sobre a rejeição ao imigrante: ela raramente nasce de quem chega, e quase sempre nasce das tensões não resolvidas de quem recebe. O Brasil, que em 2022 voltou a crescer em população estrangeira pela primeira vez desde 1960, é um bom lugar para testar essa tese.
Quando um jogador paraguaio chamou um colega venezuelano de "morto de fome" dentro de um estádio em São Paulo, em maio de 2025, a cena durou poucos segundos e virou investigação policial por racismo.7 Quando, sete anos antes, um comerciante foi agredido em Pacaraima e a resposta popular terminou em confrontos que deixaram mortos entre brasileiros e venezuelanos, o episódio também durou pouco, mas deixou marcas duradouras na fronteira norte do país.6 Episódios como esses costumam ser lidos como reação a um problema externo: gente demais chegando, recursos demais disputados. A psicologia social oferece uma leitura diferente, e ela é o ponto de partida deste texto.
A migração como tela de projeção
Em artigo publicado em 10 de setembro de 2026, a psicóloga Patricia Fernández Martín argumenta, no jornal El País, que a migração funciona como uma espécie de tela onde uma sociedade projeta ansiedades que já existiam antes de qualquer estrangeiro chegar1. A referência é o conceito de bode expiatório do antropólogo René Girard: grupos em tensão tendem a depositar seus conflitos internos sobre uma figura externa, o que reduz a ansiedade coletiva no curto prazo, mas corrói a coesão social no médio prazo. O problema, segundo essa leitura, nunca foi a migração em si, mas o significado que se atribui a ela quando ela chega em um momento de instabilidade econômica, insegurança ou perda de status.
A base neurobiológica dessa reação também é conhecida. O neurocientista Robert Sapolsky descreve como o cérebro humano responde ao desconhecido com liberação de cortisol, o hormônio de alerta, enquanto o reconhecimento de um par ativa oxitocina, ligada à conexão e à confiança1. Somada à fadiga cognitiva que a diversidade impõe (o esforço extra de processar códigos culturais diferentes), essa resposta ajuda a explicar por que a rejeição ao estrangeiro nem sempre nasce de hostilidade deliberada. Muitas vezes nasce, simplesmente, da dificuldade de sustentar a ambiguidade.
O ciclo do bode expiatório, segundo a leitura de René Girard aplicada à migração
O que os números do Brasil dizem
O Censo Demográfico de 2022 registrou algo que não acontecia desde 1960: o número de estrangeiros vivendo no país voltou a crescer, saltando de 592 mil em 2010 para cerca de 1 milhão, um aumento de 70,3%, o maior total desde 19802,3. A composição também mudou de forma relevante: pela primeira vez, imigrantes latino-americanos superaram os europeus, com destaque para a Venezuela, que ultrapassou Portugal como principal origem estrangeira no país3. Dados mais recentes do 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) apontam que o Brasil abriga hoje pouco mais de 2 milhões de imigrantes internacionais, de 200 nacionalidades diferentes, com cerca de 680 mil venezuelanos residentes no início de 2026, e um crescimento de 54% no fluxo de trabalhadores migrantes no mercado formal entre 2023 e 20254.
Esses números desmontam uma percepção comum: a de que o Brasil estaria sendo "invadido" por um fluxo sem precedentes. Na verdade, o país segue um padrão histórico de recomposição migratória, só que agora vindo majoritariamente da América Latina e da África, e não mais da Europa e do Japão, como na narrativa que ainda domina o imaginário nacional. A distância entre o dado e a percepção é, em si, um sintoma do mecanismo descrito por Fernández Martín: quando a categoria "estrangeiro" muda de rosto, a ansiedade que ela desperta muda de intensidade, mesmo que os números continuem proporcionalmente modestos.
A cordialidade que não é bem o que parece
Uma pesquisa Datafolha citada por veículos especializados mostrou que 62% dos brasileiros dizem receber bem os imigrantes, mas, entre esses mesmos entrevistados, 83% reconhecem que imigrantes de países ricos são mais bem-vindos do que os de países pobres5. O dado revela uma hierarquia informal que a autoimagem de país acolhedor tende a esconder: a rejeição não desaparece, ela se torna seletiva, e recai com mais força sobre quem chega mais pobre, mais negro ou mais visivelmente distinto do padrão que a sociedade já reconhece como "seu".
Estudos sobre a chamada "cordialidade" brasileira frente à imigração venezuelana em Roraima documentam justamente essa distância entre discurso e prática: da violência simbólica, como xingamentos e associação automática a criminalidade, até episódios de violência física, incluindo os confrontos fatais de 2018 em Pacaraima6,7. No Brasil, a xenofobia é juridicamente enquadrada como crime de racismo, pelas Leis 7.716/1989 e 9.459/1997, o que por si só indica que o país já reconheceu, formalmente, que o problema não é marginal.
O custo invisível: saúde mental e o luto de migrar
O texto de El País chama atenção para um ponto pouco discutido fora dos círculos clínicos: o que mais afeta a saúde mental de quem migra não é o deslocamento em si, mas as condições que encontra depois, moradia, emprego, reconhecimento legal, estabilidade1. Pesquisas brasileiras sobre imigrantes venezuelanos convergem nesse ponto ao mostrar como a cobertura jornalística que associa migração a doença e criminalidade reforça o isolamento e piora o acesso à saúde dessa população9. A situação documental, mais do que uma questão burocrática, tem peso simbólico: viver na irregularidade sustenta uma sensação constante de ameaça que dificulta qualquer projeto de futuro.
Contraponto
Nem toda cautela em relação à migração é preconceito disfarçado. Cidades e regiões que recebem fluxos concentrados e rápidos, como Roraima entre 2017 e 2018, enfrentam pressão real sobre serviços de saúde, escolas e segurança pública, e essa pressão é um dado legítimo de política pública, não apenas uma projeção psicológica. A leitura do "bode expiatório" explica o mecanismo de rejeição generalizada e desproporcional, mas não deve ser usada para descartar toda preocupação com capacidade de acolhimento como irracional. O desafio de gestão pública é distinguir entre limite real de infraestrutura e narrativa de ameaça construída sobre um grupo inteiro.
O que reduz o medo, segundo a evidência
A chamada teoria do contato intergrupal, testada em dezenas de estudos desde os anos 1950, indica que a proximidade só reduz preconceito quando ocorre em condições específicas: igualdade de status, cooperação, objetivos compartilhados e apoio institucional. Contato sem essas condições pode até reforçar estereótipos. É por isso que projetos de interiorização de migrantes no Brasil, quando vêm acompanhados de qualificação profissional e inserção formal no mercado de trabalho, tendem a funcionar melhor do que políticas de simples deslocamento geográfico4. O dado sem rosto, como aponta o artigo de El País, não gera empatia; a história com nome, sim.
Perguntas frequentes
Por que a rejeição ao imigrante costuma ser desproporcional aos números reais?
Porque, segundo a psicologia social, a rejeição não é uma resposta racional a dados demográficos, mas um mecanismo de projeção de tensões internas da sociedade receptora sobre um grupo externo, o que faz a percepção de ameaça crescer mais rápido do que os fluxos migratórios em si.
Quantos imigrantes vivem no Brasil atualmente?
Segundo o 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o Brasil abriga pouco mais de 2 milhões de imigrantes internacionais, de 200 nacionalidades, incluindo cerca de 680 mil venezuelanos estimados no início de 2026.
O que é o mecanismo do "bode expiatório" aplicado à migração?
É o conceito do antropólogo René Girard segundo o qual grupos em tensão depositam seus conflitos internos não resolvidos sobre uma figura externa, como o imigrante, o que reduz temporariamente a ansiedade coletiva mas enfraquece a coesão social a médio prazo.
A xenofobia é crime no Brasil?
Sim. No Brasil, a xenofobia é enquadrada juridicamente como crime de racismo pela Lei 7.716/1989 e pela Lei 9.459/1997.
O que reduz efetivamente o preconceito contra imigrantes?
Estudos de teoria do contato intergrupal mostram que a convivência só reduz preconceito quando ocorre em condições de igualdade de status, cooperação, objetivos compartilhados e apoio institucional, e não pelo simples contato geográfico.